Notícias › 08/06/2018

10º Domingo do Tempo Comum

Carta ao “louco” Jesus

Frei Gustavo Medella

Caro Jesus, não me leve a mal! Soube das confusões nas quais você tem se envolvido. Primeiro aquela discussão por causa da Lei do Sábado. Agora fiquei sabendo que seus parentes tentavam vencer a multidão que cercava a casa onde você e seus discípulos estavam para agarrá-lo (Cf. Mc 3,21). Diziam que você estava fora de si e por isso queriam levá-lo à força para que pudessem oferecer-lhe os cuidados necessários. A intenção deles era boa, Jesus, e eles não deixam de ter razão.

É loucura propor algo tão novo e diferente para um povo tão acostumado ao mesmo de sempre! Falar de um Deus que se aproxima tanto de seus filhos e filhas gera desconforto entre os descendentes de Adão. Aquela história de fruto proibido, de serpente, de maldição, de suor do trabalho deixou um trauma gigantesco nesta gente e por isso muitos desconfiam de sua postura. Tornam-se tão cegos e sem noção que chegam a dizer que todo o bem que você faz é obra do diabo (Cf. Mc 3,22). Não sei não, mas acho que isso aí quem sopra para eles é a mesma serpente que levou Adão e Eva à perdição (Gn 3,13).

Tenho impressão de que, se persistir nesse caminho, você vai enfrentar cada vez mais resistência. Apesar de muitos admirarem este seu jeito diferente, outros tantos se incomodam muito com seus ensinamentos. É verdade que acabam sendo minoria, mas são muito poderosos e aí está o meu medo. Essa gente não mede esforços para eliminar qualquer um que coloque em risco as injustiças que sustentam seus privilégios. São perigosos.

Por outro lado, não o vejo seguindo por outra trilha. A Paixão com que você fala sobre Deus, o devotamento que você tem para com as pessoas, especialmente as mais frágeis, o esforço que você faz para apresentar a face de um Pai que se faz amigo de todos me dão a certeza de que você sabe muito bem o que está fazendo. O que cabe a mim, então, é me convencer de que seguir os seus passos vale muito a pena, ou melhor, vale a vida inteira. Com muita frequência acabo fraquejando, é verdade. Mas graças à sua força eu também posso me sentir forte para seguir em frente. Muito obrigado pela sua teimosia, Jesus! Muito obrigado pela sua loucura!

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O pecado sem perdão

1ª Leitura: Gn 3,9-15
Sl 129
2ª Leitura: 2Cor 4,13-5,1
Evangelho: Mc 3,20-35

* 20 Jesus foi para casa, e de novo se reuniu tanta gente que eles não podiam comer nem sequer um pedaço de pão. 21 Quando souberam disso, os parentes de Jesus foram segurá-lo, porque eles mesmos estavam dizendo que Jesus tinha ficado louco. 22 Alguns doutores da Lei, que tinham ido de Jerusalém, diziam: «Ele está possuído por Belzebu»; e também: «É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa os demônios.»

23 Então Jesus chamou as pessoas e falou com parábolas: «Como é que Satanás pode expulsar Satanás? 24 Se um reino se divide em grupos que lutam entre si, esse reino acabará se destruindo; 25 se uma família se divide em grupos que brigam entre si, essa família não poderá durar. 26 Portanto, se Satanás se levanta e se divide em grupos que lutam entre si, ele não poderá sobreviver, mas também será destruído. 27 Ninguém pode entrar na casa de um homem forte para roubar suas coisas, se antes não amarrar o homem forte. Só depois poderá roubar a sua casa. 28 Eu garanto a vocês: tudo será perdoado aos homens, tanto os pecados como as blasfêmias que tiverem dito. 29 Mas, quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca será perdoado, pois a culpa desse pecado dura para sempre.» 30 Jesus falou isso porque estavam dizendo: «Ele está possuído por um espírito mau.»

A verdadeira família de Jesus -* 31 Nisso chegaram a mãe e os irmãos de Jesus; ficaram do lado de fora e mandaram chamá-lo: 32 Havia uma multidão sentada ao redor de Jesus. Então lhe disseram: «Olha, tua mãe e teus irmãos estão aí fora e te procuram.» 33 Jesus perguntou: «Quem é minha mãe e meus irmãos?» 34 Então Jesus olhou para as pessoas que estavam sentadas ao seu redor e disse: «Aqui estão minha mãe e meus irmãos. 35 Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.»


* 20-30: Em Jesus está presente o Espírito Santo, que o leva à missão de libertar e desalienar os homens. Por isso ele é acusado de estar «possuído por um espírito mau.» Tal acusação é pecado sem perdão. Para os acusadores, o bem é mal, e o mal é bem. Eles, na verdade, estão comprometidos e tiram proveito do mal; por isso, não reconhecem e não aceitam Jesus.

* 31-35: Enquanto a família segundo a carne está «fora», a família segundo o compromisso da fé está «dentro», ao redor de Jesus. Sua verdadeira família é formada por aqueles que realizam na própria vida a vontade de Deus, que consiste em continuar a missão de Jesus.

 Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

10º Domingo do Tempo Comum, ano B

Frei Ludovico Garmus, ofm 

Oração: “Ó Deus, fonte de todo o bem, atendei ao nosso apelo e fazei-nos, por vossa inspiração, pensar o que é certo e realizá-lo com vossa ajuda”.

1. Leitura: Gn 3,9-15

Porei inimizade entre a tua descendência
e a descendência da mulher.

Em Gn 2–3, Deus cria o ser humano como um ser comunitário; homem e mulher são “auxílio necessário”, um para o outro, a fim de viverem na comunhão de amor planejada pelo Criador. Havia harmonia entre homem e mulher, harmonia entre o ser humano e as demais criaturas da terra (jardim de Éden) e harmonia com o Criador. Este é o projeto de Deus. Em Gn 2, porém, Deus não diz que “tudo que havia feito era muito bom” (cf. Gn 1,31), pois esta harmonia é algo por ser ainda buscado. Na realidade ela é quebrada quando homem e mulher, por sugestão da “serpente” (símbolo do mistério do mal, satanás, adversário), comem do fruto proibido, que os faria “como deuses, conhecedores do bem e do mal”. Em vez de se tornarem “como deuses”, percebem que estão nus; essa nudez significa não tanto o pudor, mas a limitação e carência do ser humano diante de Deus. Por isso se escondem. Deus, porém, visita o jardim, não apenas para punir a desobediência do ser humano, mas para socorrê-lo em sua carência e limitação. No interrogatório, Deus pergunta ao homem por que está se escondendo e ele responde que estava com medo porque estava nu. Deus o acusa de ter desobedecido ao comer do fruto proibido e ele responde, acusando a Deus: “Foi a mulher que me deste por companheira”. E a mulher ao ser interrogada joga a culpa na serpente, também uma criatura de Deus, como os outros animais (Gn 2,18-20). No fundo, a explicação da origem do mal recai sobre Deus. Em Sb 2,24 o diabo é identificado com a serpente. Assim também em Jo 8,44; Ap 12,9; 20,2). Tiago, porém, adverte: “Ninguém, ao ser tentado, diga: ‘É Deus que me tenta’. Pois Deus não pode ser tentado para o mal, nem tenta ninguém. Cada um é tentado pelo próprio mau desejo que alicia e seduz” (Tg 1,13-14). A serpente é punida e deverá arrastar-se pelo chão; a mulher é punida pela dominação que o marido sobre ela exerce e com os sofrimentos de sua gravidez; o homem é punido pela dureza do trabalho na produção de alimentos. Começa a desarmonia entre Deus e o ser humano, entre homem e mulher e entre o homem e a terra. Deus nos deu a liberdade para podermos amá-lo. Seremos sempre atraídos pelo Sumo Bem e tentados para o Mal. Mas os descentes de “Eva” sempre poderão esmagar a cabeça da serpente, com Maria, a “Nova Eva”, e com Cristo, seu grande descendente.

Salmo responsorial: Sl 129

No Senhor toda graça e redenção.

2. Segunda leitura: 2Cor 4,13–5,1

Nós também cremos e, por isso, falamos.

Paulo está engajado, de corpo e alma, na luta da pregação do Evangelho. A pregação do Evangelho e a vida cristã são sustentadas pela fé no Cristo Ressuscitado. Paulo tem consciência de sua limitação humana e que tudo é graça, é dom de Deus. É movido pela esperança da vitória final sobre o mal e sobre a morte: “Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também com Jesus e nos colocará ao seu lado, juntamente convosco”. Porque “o último inimigo a ser reduzido a nada será a morte” (1Cor 15,26). Pois, como diz Paulo, à medida que nosso “homem exterior vai se arruinando, o nosso homem interior… vai se renovando”. É da fé em Jesus Cristo que brota a esperança da ressurreição.

Aclamação ao Evangelho:

O príncipe deste mundo agora será expulso;
e eu, da terra levantado, atrairei todos a mim mesmo.

3. Evangelho: Mc 3,20-35

Satanás será destruído.

A luta permanente entre a Humanidade e a Serpente, entre o Bem e o Mal, da qual fala a primeira leitura, concretiza-se na vida pública de Jesus. A intensa atividade de Jesus, andando pelas aldeias, anunciado a boa nova do Reino de Deus, curando os enfermos e aleijados, expulsando os demônios deixava seus parentes e adversários preocupados. Os parentes de Jesus, preocupados com sua saúde física e psíquica, queriam tirá-lo do meio do povo, pensando que ele “estava fora de si”; isto é, possuído por um espírito, ou que estava “estressado” – diríamos nós. De fato, Jesus e os discípulos “não tinham nem tempo para comer”. De Jerusalém vem os mestres da Lei para examinar o caso e desautorizam Jesus, acusando-o de expulsar demônios em nome de Belzebú, o chefe dos demônios. Aos mestres da Lei Jesus responde que, ao expulsar os demônios, está combatendo o Satanás; por isso, o Reino de Deus que anuncia vai acabar com o reino do Mal. Aos seus familiares Jesus responde que agora tem uma nova família, isto é, seus discípulos e o povo que o acompanham. Olhando para eles, Jesus diz: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. A urgência de anunciar a boa-nova do Reino de Deus exigiu de Jesus a opção radical de deixar sua própria mãe. O mesmo Jesus exige daqueles que desejam abraçar sua missão: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim” (Mt 10,37). Assumir a vida em família também tem suas exigências: “Por isso o homem deixará o pai e a mãe e se unirá à sua mulher e se tornarão uma só carne” (Gn 2,24). Fazer a vontade de Deus é assumir as práticas de Jesus.

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Adão, onde estás?

Frei Almir Guimarães

Na liturgia deste domingo somos convidados a refletir sobre a fidelidade ao Senhor, sobre a necessidade de treinarmo-nos a ouvir sua voz, já que ele anda nos procurando. Aqui e ali, na primeira e na terceira leitura é questão do mal cometido. Fala-se da ação e da pujança do inimigo. Por vezes somos tentados a dizer que o demônio é um símbolo. Certo houve e há exageros na concepção deste que é o inimigo por excelência da humanidade. . Não vamos ficar procurando o diabo em todas as coisas. O Papa Francisco, em sua Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, no entanto, afirma: Não pensemos que “o demônio seja um mito, uma representação, um símbolo, uma figura, uma ideia. Este engano leva-nos a diminuir a vigilância, a descuidar-nos e ficar mais expostos. O demônio não precisa nos possuir. Envenena-nos com o ódio, a tristeza, a inveja, os vícios. E assim, enquanto abrandamos a vigilância, ele aproveita para destruir a nossa vida, as nossas famílias e as nossas comunidades, porque, “anda em derredor como um leão que ruge, procurando a quem devorar”(1Pd 8)” Gaudete et Exsultate, n. 161).

Voltemos agora atenção para a página do Gênesis que nos é proposta como primeira leitura. Estamos no paraíso. O jardim era belo. O Senhor mesmo gostava de passear ali e, à tarde, sentir no rosto a brisa fresca. Tudo respirava serenidade. Ora, nesse espaço de paz e de harmonia foram colocados os nossos primeiros pais. Nunca experimentavam aflições e tormentos interiores. Viviam uma imensa confiança em Deus. O ser humano não tinha malícia. Andava inocentemente nu pelas alamedas do Jardim do Éden. Tudo era comunhão. E comunhão era a vida do primeiro casal.

Nasce, no entanto, no coração de cada homem, o desejo de autossuficiência, de posse, de ser Deus no lugar de Deus. Há uma artificiosa proposta do inimigo. Se Adão e Eva comerem do fruto da árvore do meio do Jardim seriam como deus. E feito o ato, a harmonia desapareceu. Terminou o tempo sereno da paz interior. O homem permitiu ( e permite) que seu interior ouvisse vozes diferentes. Começa a se habituar a não ouvir a voz do Senhor e tudo tem como resultado o endurecimento do coração.

O Senhor diz: Onde estás, Adão? Onde estás, homem? E o homem retruca: Ouvi tua voz e fiquei com medo porque estava nu. – Quem te disse que estavas nu? Com a desobediência o homem e mulher perderam a inocência. Terminou o desejo de gozar da natureza. O coração se fecha. O homem se veste de panos e não olha nos olhos de Deus. Onde estás? O Senhor à procura do homem que agora é feito de vergonha.

Por onde andas, homem? Não te vejo com a alegria que tinhas em rezar, ler os salmos com um sorriso nos lábios. Onde estás? Naqueles dias parecia que circulavas no Paraíso.

Tentado por isso e por aquilo vejo que entraste numa abominável vida rotineira: deitar, levantar, ir de um lado para o outro, rezar com os lábios, fazer tudo, mas fazer tudo por rotina. Onde estás? Estás esquecido de tu és um sonho de amor de meu coração? Por que te escondes? Onde estás, Adão?

Onde estás? Estás aí apenas com vergonha. Pois eu pensava encontrar-te na porta de uma hospedaria levando o homem jogado à beira da estrada pela ação dos salteadores. Não estás aí?

Onde estás? Queria te encontrar dando a mão a outros, vestindo roupa de trabalho, procurando amar de verdade? Gostaria de te ver junto dos teus filhos com um semblante sereno e não apenas nas rodas de amigos em torno de copos e de coisas que não enchem o coração.

Onde estás, religioso, religiosa tu que tiveste um belíssimo encontro comigo passeando no jardim da harmonia? Será que não perdeste o folego e o entusiasmo?

Conclusão: voltar ao amor primitivo, recolher-se e pedir a força de continuar, olhar com coragem nos olhos do Senhor?

Onde estás, no momento? Qual é a tua?

O que conta é o amor. Vale a pena refletir nestas palavras de José Antonio Pagola: “Depois de vinte séculos, o risco que os cristãos correm é de pensar que basta cumprir aquilo que sempre se pregou: não fazer mal a ninguém, colaborar nas coletas que se fazem na igreja e dar donativo e esmola…A grande tarefa dos seguidores de Jesus é introduzir um amor real nesta cultura que só produz egoísmo sensato e bem organizado. Abrir caminhos que permitam vislumbrar o grande vazio de uma sociedade que excluiu o amor. Proclamar sempre que se amor não se construirá um mundo melhor”. Os que se fecham à voz do Senhor criam à sua volta o monstro do egoísmo.

Afinal de contas, Adão, homem onde estás?

Prece

Quando meu pecado me desanimar,
ajuda-me a crer que tu não deixas nunca
de semear no barro de minha mediocridade.

Quando o sofrimento me deixar sem forças,
ajuda-me a crer que estás semeando em mim
uma secreta fecundidade.

Quando a morte próxima me causar medo
ajuda-me a crer que o grão que morre
é semente de uma espiga dourada.

Quando a desgraça dos oprimidos me entristecer,
ajuda-me a crer que nosso amor solidário
é semente de justiça e liberdade.

Quando eu vir teus seguidores infiéis à nossa missão,
ajuda-me a crer que semeias
no coração de nossas contradições.

(Inspirada em Michel Hubaut)

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O pecado contra o Espírito Santo

Frei Clarêncio Neotti

Visto assim, a lição do Evangelho parece linear e fácil. Mas não é, porque a criatura humana é um ser dividido, fragmentado, envolto ao mesmo tempo de graça e maldade. Todos temos essa experiência. Assim como muitos procuram explicações e fontes para saciar a sede de fé em alguma coisa superior às forças humanas, que sentem e não conseguem explicar, também procuram explicações para o pecado, que marca profundamente a criatura. As explicações que encontramos fora da Revelação são insuficientes. Lembra-o o Catecismo: “Sem o conhecimento que a Revelação nos dá de Deus não se pode reconhecer com clareza o pecado, sendo-se tentado a explicá-lo unicamente como uma falta de crescimento, como uma fraqueza psicológica, um erro, a consequência necessária de uma estrutura social inadequada” (n. 387).

Esse homem de dupla face (que São Paulo chama carne/ espírito) está presente no Evangelho de hoje. A luta entre o bem e o mal acompanha o ser humano desde o paraíso terrestre (Gn 3,5). A maior expressão do mal é o próprio demônio. Para expressar a divisão do homem entre o bem e o mal, a Sagrada Escritura, em suas primeiras páginas, usa uma linguagem figurada, que só se tornou clara com a vinda de Jesus, porque “a doutrina do pecado original é, por assim dizer, o reverso da Boa Notícia de que Jesus é o Salvador de todos, de que todos têm necessidade da salvação e de que a salvação é oferecida a todos graças a Cristo” (Catecismo, n. 389).

Negar que Jesus tenha o poder de perdoar pecados, de expulsar os demônios e vencer as forças do mal, negar-lhe seu poder divino e redentor, opor-se à sua obra salvadora é ‘blasfemar contra o Espírito Santo’ (v. 29). Espírito Santo aqui não é a terceira pessoa da Santíssima Trindade, mas o próprio Cristo como Filho de Deus, sua divindade. Quando se nega a divindade de Jesus, nega-se também seu poder de perdoar e redimir, por isso mesmo, anula-se o perdão que Deus pode dar à criatura. Não é que haja pecados que Deus não possa perdoar. Sua misericórdia é e será sempre infinita. Cristo é a encarnação da misericórdia divina. Mas Deus não pode perdoar a quem não quer o perdão e nega seu poder de perdoar.

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O defensor de uma vida sadia

José Antonio Pagola

Não são poucas as pessoas que hoje se sentem indefesas diante dos ataques que sofrem a partir de fora e diante do vazio que as invade a partir de dentro. A sociedade moderna tem tal poder sobre os indivíduos que acaba por submeter muitos, afastando-os do essencial e impedindo-os de cultivar o melhor de si mesmos. Aprisionadas no imediato de cada dia, muitas pessoas vivem demasiadamente agitadas, demasiadamente atordoadas por fora e demasiadamente sozinhas por dentro para poderem deter-se a meditar sobre sua vida e tentar a aventura de serem mais humanas.

A publicidade massiva, o afã consumista, os modelos de vida e as modas dominantes impõem sua ditadura sobre os costumes e as consciências, mascarando sua tirania com promessas de bem-estar. Quase tudo nos arrasta para viver de acordo com um ideal que já está assumido e interiorizado socialmente: trabalhar para ganhar dinheiro, ter dinheiro para adquirir coisas, ter coisas para “viver melhor” e “ser alguém’: Não é esta a meta de muitos?

Não é fácil rebelar-se contra esta forma de entender e viver a vida; é preciso uma boa dose de lucidez e coragem para ser diferente. As pessoas terminam quase sempre renunciando a viver algo mais original, nobre ou profundo. Sem projeto de vida e sem mais ideias, os indivíduos se conformam com “viver bem” e “sentir-se seguros”. Isso é tudo.

Para reagir diante desta situação, o ser humano precisa penetrar em seu próprio mistério, escutar sua vocação mais profunda, intuir a mentira deste estilo de vida e descobrir outros caminhos para ser mais humano. Precisa dessa “fonte de luz e de vida” que, na opinião do célebre psiquiatra e escritor Ronald Laíng, o homem moderno perdeu.

O evangelho de João chama o Espírito Santo com o termo “defensor”, aquele que ajuda sempre e em qualquer circunstância, aquele que dá paz e liberdade interior, o “Espírito da verdade”, que mantém vivo no crente o espírito, a mensagem e o estilo de vida do próprio Jesus. Se Jesus nos alerta severamente sobre a “blasfêmia contra o Espírito Santo” é porque este pecado consiste precisamente em fechar-se à ação de Deus em nós, ficando nós desamparados, sem ninguém que nos defenda do erro e do mal.

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O poder do Messias e os demônios

Pe Johan Konings

O demônio está em alta. Há “igrejas” especializadas em expulsar os demônios que você tem. E se você não os tem, lhe arrumam alguns … Será que se pode comparar com essas práticas aquilo que Jesus andou fazendo no meio do povo da Galileia, conforme descreve o evangelho?

Nos tempos bíblicos, diversos tipos de forças misteriosas que assolavam as pessoas eram chamados “demônios” ou “espíritos de impureza” (= causando impureza, incapacidade de participar do culto). Muitos desses fenômenos hoje são da competência do médico ou do psiquiatra. Mas havia também a percepção de um poder do mal que é maior que a gente, e ao qual se chama de Satã ou “diabo”. O diabo tenta desviar o ser humano de sua vocação à comunhão com Deus. Mas ele não tem a última palavra; é inferior a Deus, que o condena. É o que ensina a 1ª leitura de hoje. O homem e a mulher são punidos por terem prestado ouvido antes ao diabo (a serpente) do que a Deus, mas o diabo é subjugado a Deus e à descendência da mulher. E o evangelho mostra esse “descendente da mulher”, que domina o diabo – como se manifesta (dentro dos conceitos daquele tempo) na expulsão dos demônios.

Ora, alguns mestres atribuíam o poder de Jesus sobre os demônios ao próprio chefe dos demônios. Jesus responde com três argumentos: I) o demônio não é combate contra si mesmo; 2) está aí alguém que é mais forte que o demônio (o “anunciado” da 1ª leitura); 3) não existe pecado mais grave do que caluniar o Espírito de Deus – e é isso que esses mestres estão fazendo! A cena termina, depois, com uma palavra de Jesus a respeito de seus parentes que não compreendem a sua atuação. Jesus diz que sua verdadeira família são aqueles que escutam seu ensinamento e praticam a vontade de Deus.

Jesus é o Messias, vindo com o poder de Deus. É com esse poder e com nenhum outro que ele expulsa as forças malignas. E com o mesmo poder ensina a vontade de Deus, pedindo que a pratiquemos, para nos tomarmos seus verdadeiros irmãos.

Expulsar o que se opõe ao bem e praticar a vontade do Pai são dois lados da mesma moeda. Se pretendemos aderir a Jesus e à sua prática, devemos também, no Espírito de Deus, libertar os nossos irmãos das possessões demoníacas de hoje, aquilo que os desvia do plano do Pai, aquilo que os impede de doar-se à prática do Reino: os vícios do consumo, da droga, da ganância, as amarras de uma sociedade estruturada para fazer reinar a injustiça … todas as forças que oprimem o bem que Deus colocou em seus filhos e filhas.

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