Destaque, Notícias › 19/06/2020

12º Domingo do Tempo Comum

Ninguém precisa ser melhor do que ninguém

Frei Gustavo Medella

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”
Poema em Linha Reta (Álvaro de Campos – Heterônimo de Fernando Pessoa)

Primeiramente um pedido de perdão se os versos que abrem esta reflexão não tragam termos dos mais polidos. No entanto, acenam para uma tendência muito arraigada no coração humano, que é a de viver a partir de aparências. É natural o fato de a pessoa desejar se distinguir por seus atributos mais nobres: força, coragem, beleza, habilidade, competência etc. Quanto às fraquezas, medos, covardias, infantilismos e egoísmos, cada um prefere guardar só para si e nem pensar muito nisso.

Defeitos e falhas, é sempre mais fácil e melhor perceber no outro e, se minha insegurança for muito elevada e a autoestima muito baixa, colocar em relevo as misérias alheias pode até mesmo fazer com que eu me sinta um pouco menos miserável. Esta é a queixa que o Profeta Jeremias apresenta na 1ª Leitura (Jr 20,10-13) diante daqueles que ficam lhe observando a fim de pegá-lo em alguma falha para lançar aos quatro ventos as fragilidades do profeta. Diante de tais investidas, Jeremias escolhe confiar na Justiça Divina.

No Evangelho (Mt 10,26-33), Jesus ensina que o esforço do ser humano em esconder a verdade sobre si é ilusório e inútil, “pois nada há de encoberto que não seja revelado, e nada há de escondido que não seja conhecido” (v. 26b). Com esta exortação, Jesus não deseja que saiamos pelo mundo considerando-nos as piores pessoas que existem, nem que fiquemos publicando nossas misérias e pecados. O mais sensato e maduro, neste caso, é reconhecer que todos temos falhas mas que, com o auxílio generoso de Cristo, temos condições de lançar luzes sobre nossas sombras e caminhar na luz do discernimento. Ninguém precisa ser melhor do que ninguém. Basta que sejamos bons e honestos diante de Deus, pois assim o seremos também diante das pessoas.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Libertar nossas comunidades do medo

José Antonio Pagola

As fontes cristãs apresentam Jesus dedicado a libertar as pessoas do medo. Ele se afligia ao ver as pessoas aterrorizadas pelo poder de Roma, intimidadas pelas ameaças dos mestres da lei, distanciadas de Deus pelo medo de sua ira, culpabilizadas por sua pouca fidelidade à lei. Do coração de Jesus, cheio de Deus, só podia brotar um desejo: “Não tenhais medo”. São palavras de Jesus que se repetem sempre de novo nos evangelhos. As que mais deveriam também repetir-se hoje em sua Igreja.

O medo se apodera de nós quando em nosso coração cresce a desconfiança, a insegurança ou a falta de liberdade interior. Este medo é o problema central do ser humano e só podemos libertar-nos dele enraizando nossa vida em um Deus que só busca o nosso bem.

Assim o via Jesus. Por isso dedicou-se, antes de tudo, a despertar a confiança no coração das pessoas. Sua fé profunda e simples era contagiosa: se Deus cuida com tanta ternura dos pardais do campo, os pequeninos pássaros da Galileia, como não vai cuidar de vós? Para Deus sois mais importantes e queridos que todos os pássaros do céu. Um cristão da primeira geração recolheu bem sua mensagem: “Descarregai em Deus tudo que vos abate ou oprime, pois a Ele só interessa o vosso bem”.

Com que força falava Jesus a cada enfermo: “Tem fé. Deus não se esqueceu de ti”. Com que alegria os despedia quando podia vê-los curados: “Vai em paz. Vive bem”. Seu grande desejo era que as pessoas vivessem em paz, sem medos nem angústias: “Não vos julgueis, nem vos condeneis mutuamente, não vos causeis dano. Vivei de maneira amistosa”.

São muitos os medos que fazem as pessoas sofrer em segredo. O medo causa dano, muito dano. Onde cresce o medo, perde-se Deus de vista e se afoga a bondade que há no coração das pessoas. A vida se apaga, a alegria desaparece.

Uma comunidade de seguidores de Jesus deve ser, antes de muitas outras coisas, um lugar onde as pessoas se libertem de seus medos e aprendam a viver confiando em Deus. Uma comunidade onde se possa respirar uma paz contagiosa e viver uma amizade entranhável que tornam possível escutar o apelo de Jesus: “Não tenhais medo!”


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.


Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura
Jr 20,10-13

Jeremias disse: 10“Eu ouvi as injúrias de tantos homens e os vi espalhando o medo em redor: ‘Denunciai-o, denunciemo-lo’. Todos os amigos observavam minhas falhas: ‘Talvez ele cometa um engano e nós poderemos apanhá-lo e desforrar-nos dele’. 11Mas o Senhor está ao meu lado, como forte guerreiro; por isso, os que me perseguem cairão vencidos. Por não terem tido êxito, eles se cobrirão de vergonha. Eterna infâmia, que nunca se apaga!

12Ó Senhor dos exércitos, que provas o homem justo e vês os sentimentos do coração, rogo-te me faças ver tua vingança sobre eles; pois eu te declarei a minha causa.

13Cantai ao Senhor, louvai o Senhor, pois ele salvou a vida de um pobre homem das mãos dos maus”.


Salmo Responsorial: Sl 68

— Atendei-me, ó Senhor, pelo vosso imenso amor!

— Atendei-me, ó Senhor, pelo vosso imenso amor!

— Por vossa causa é que sofri tantos insultos,/ e o meu rosto se cobriu de confusão;/ eu me tornei como um estranho a meus irmãos,/ como estrangeiro para os filhos de minha mãe./ Pois meu zelo e meu amor por vossa casa/ me devoram como fogo abrasador.

— Por isso elevo para vós minha oração,/ neste tempo favorável, Senhor Deus!/ Respondei-me pelo vosso imenso amor,/ pela vossa salvação que nunca falha!/ Senhor, ouvi-me, pois suave é vossa graça,/ ponde os olhos sobre mim com grande amor!

— Humildes, vede isto e alegrai-vos:/ o vosso coração reviverá,/ se procurardes o Senhor continuamente!/ Pois nosso Deus atende à prece dos seus pobres,/ e não despreza o clamor de seus cativos./ Que céus e terra glorifiquem o Senhor,/ com o mar e todo ser que neles vive!


Segunda Leitura
Rm 5,12-15

Irmãos: 12O pecado entrou no mundo por um só homem. Através do pecado, entrou a morte. E a morte passou para todos os homens, porque todos pecaram.

13Na realidade, antes de ser dada a Lei, já havia pecado no mundo. Mas o pecado não pode ser imputado, quando não há lei. 14No entanto, a morte reinou, desde Adão até Moisés, mesmo sobre os que não pecaram como Adão, o qual era a figura provisória daquele que devia vir. 15Mas isso não quer dizer que o dom da graça de Deus seja comparável à falta de Adão! A transgressão de um só levou a multidão humana à morte, mas foi de modo bem superior que a graça de Deus, ou seja, o dom gratuito concedido através de um só homem, Jesus Cristo, se derramou em abundância sobre todos.


Anúncio do Evangelho
Mt 10,26-33

Naquele tempo, disse Jesus a seus apóstolos: 26 “Não tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado, e nada há de escondido que não seja conhecido. 27 O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados! 28 Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma! Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno!

29 Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. 30 Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. 31 Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais. 32 Portanto, todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai que está nos céus. 33 Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus.


Reflexão do exegeta Frei Ludovico Garmus

12º Domingo do Tempo Comum, ano A

Oração: “Senhor, nosso Deus, dai-nos por toda a vida a graça de vos amar e temer, pois nunca cessais de conduzir os que firmais no vosso amor”.

 Primeira leitura: Jr 20,10-13

Ele salvou das mãos dos malvados a vida do pobre.

Jeremias recebeu a missão de ser profeta quando ainda era muito jovem (Jr 1,4-10). A missão era muito exigente e difícil: “Dou-te hoje poder sobre nações e reinos, para arrancar e destruir, para exterminar e demolir, para construir e plantar” (1,10). Pelos verbos, percebe-se que a missão era mais negativa do que positiva. Devia denunciar a injustiça e a violência cometida pelos reis e poderosos contra os pequenos e pobres, e anunciar-lhes o castigo divino caso não se convertessem. Por isso era rejeitado até pelos próprios familiares (16,1-13), ameaçado de morte e perseguido pelas autoridades (26,1-19). Diante da espinhosa missão, o profeta sente-se desanimado e entra em crise. Prestes a desistir de sua dura missão, chega a amaldiçoar o dia de seu nascimento (20,14-18). O texto que ouvimos pertence às assim chamadas “confissões de Jeremias”, diálogos íntimos que ele mantém com Deus (11,8-23; 12,1-5; 15,10-21; 17,12-18; 18,18-23; 20,7-18). Como Jeremias frequentava o Templo de Jerusalém, suas orações são parecidas com as lamentações de muitos Salmos, cantadas pelos levitas. Em nosso texto (20,10-13), porém, depois de lamentar-se, Jeremias renova sua confiança na certeza de que Deus o protegerá e lhe dará forças para cumprir sua missão.

Diante de Deus podemos sempre nos apresentar confiantes, como filhos e filhas. Em nossas súplicas, podemos dizer-lhe tudo o que pensamos e sentimos; podemos com franqueza desabafar nossas mágoas, desde que o desabafo sirva de ocasião para renovar nossa confiança em sua constante proteção.

Salmo responsorial: Sl 68

Atendei-me, ó Senhor, pelo vosso imenso amor!

Segunda leitura: Rm 5,12-15

O dom ultrapassou o delito.

Na carta à comunidade cristã de Roma Paulo explica que todos precisam de salvação (Rm 1,18–3,20). Paulo lembra que a desobediência do primeiro ser humano/Adão trouxe o pecado e a morte para todos os seus descendentes. Mas, a morte e ressurreição de Cristo trouxeram a graça e a reconciliação, mais universais e abundantes do que o estrago causado pelo pecado de Adão. Cristo pôs fim ao domínio da morte. O cristão pode, por vezes, sentir-se impotente diante das estruturas do pecado, do qual ele é vitima e também culpado. Mas, pela fé, ele sabe que pode vencê-las pela solidariedade sacramental, eclesial e existencial com a morte e ressurreição de Cristo.

Aclamação ao Evangelho

O Espírito Santo, a Verdade, de mim irá testemunhar

e vós minhas testemunhas sereis em todo lugar.

Evangelho: Mt 10,26-33

Não tenhais medo dos que matam o corpo.

O evangelho que ouvimos faz parte do discurso missionário de Mateus. A finalidade principal é incutir coragem aos discípulos em meio às perseguições dos anos 80-90 d.C. Cristãos eram conduzidos aos tribunais, açoitados nas sinagogas, processados diante de governadores e reis, e odiados por causa do nome do Cristo (Mt 10,17-25). O Evangelho apresenta quatro motivos para não temer as ameaças. 1) O ponto de partida da exortação é a afirmação de que o discípulo não está acima do mestre. A condição para seguir o Mestre é abraçar a cruz: “Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por amor de mim, há de encontrá-la” (16,25). Se o mestre foi perseguido, acusado, injuriado e morto, o discípulo deverá também estar preparado para sofrer a mesma sorte, por causa de sua fé e pregação do evangelho (10,24-25). – 2) O perseguidor só poderá tirar a vida do corpo, mas não a vida depois da morte, que está nas mãos de Deus (v. 28-29). – 3) Confiar na Providência divina: Deus cuida até dos pardais, quanto mais de seus discípulos (v. 29-31). – 4) Aos que derem testemunho de Cristo diante dos homens, Ele dará testemunho diante do “Pai que está nos céus” (v. 32-33). Na hora da perseguição o cristão era forçado a negar a sua fé; poderia tornar-se infiel. Deus, porém, permanece fiel: “Se o negarmos, também ele nos negará. Se somos infiéis, ele permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo” (2Tm 2,13). Quem der testemunho de Jesus aqui na terra, será defendido por Ele no juízo final

O Papa Francisco nos convida a darmos este testemunho confiante e corajoso em meio ao povo cristão e não-cristão, a todas as pessoas carentes de Deus e necessitadas do socorro de “bons samaritanos”. Bom samaritano é aquele que se esquece de si mesmo para socorrer a vida do próximo que está em perigo. Somos convidados pelo Sínodo Pan-Amazônico a cuidar da vida dos mais pobres e estender o mesmo cuidado a toda a criação de Deus, nossa Casa Comum. Os gemidos da criação malcuidada se fazem ouvir ameaçadores na recente pandemia do Covid-19, que afeta a humanidade inteira.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.


Se com ele sofremos, com ele reinaremos

Frei Clarêncio Neotti

A perseguição religiosa não é coisa do passado. Em vários países a prática religiosa sofre muitas restrições. Em outros é obrigatória uma religião única e são excluídas outras. Em alguns se cultiva apenas a religião que encubra os atos de quem está no poder. Fala-se muitas vezes dos mártires dos primeiros séculos do cristianismo. Mas podemos afirmar com toda a segurança: os dias de hoje estão produzindo mais mártires que o primeiro milênio. Talvez não haja um país do mundo que não tenha sua lista de mártires. Isso mostra que o tribunal de Pilatos e o Calvário não são fatos e coisas do passado. Cada um desses mártires, homens e mulheres, pode dizer com São Paulo: “Me alegro com o sofrimento suportado. Completei em meu corpo o que faltava à paixão de Cristo” (Cl 1,24) e, “trazendo em meu corpo a morte, manifesto a vida em Jesus Cristo” (2Cor 4,11). Isso tem muito a ver com a Eucaristia, sacramento de morte e ressurreição: no próprio mistério da morte está a fonte da vida.

Cristo está presente e atuante não apenas em promessa. No mesmo texto em que Jesus previne contra as perseguições, calúnias e martírios, garante o amparo divino, maior que a ferocidade humana. O sangue dos mártires é um hino à confiança em Deus. Já o salmo 23, que tantas vezes cantamos na liturgia, conforta-nos: “Ainda que eu tenha de andar por um vale tenebroso, não temo mal algum, porque tu estás comigo” (Sl 23,4). Também o martirizado passa pela angústia do Cristo
na Cruz, de sentir-se sozinho e entregue à sanha dos inimigos (Mt 27,43). Fica-lhe, porém, a garantia do Evangelho: o próprio Cristo o bendirá diante de Deus (v. 32). Ou, como escreve São Paulo a Timóteo, comentando a passagem de hoje: “Se padecermos com ele, também com ele viveremos. Se com ele sofrermos, com ele reinaremos” (2Tm 2,11-12).


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.


“Não tenhais medo…”

Frei Almir Guimarães

A coragem não é um saber, mas uma decisão, não é uma opinião, mas um ato.
Jankélévitch

Surpreendentemente podemos não ter consciência da coragem que está em nós: como o ar que respiramos, como a luz que ilumina e que não vemos.
Régine du Charlat

♦ Nós, discípulos do Senhor, temos consciência de que, através de nossa vida, do tempo que vamos vivendo, continuamos a presença do Senhor lá onde nos é dado viver, somos portadores de sua Boa Nova e damos voz à sua voz. Somos embaixadores do Evangelho. Somos porta-vozes do Ressuscitado. O Senhor nos toca de forma que não podemos ficar inertes, mas criar condições para que ele seja reconhecido, buscado e amado… Ressoa sempre aos nossos ouvidos o “Ide, eu vos envio”. O sonho do mundo novo que é o Reino depende da coragem de cada um. Tornar o Evangelho conhecido e apreciado pode significar não aceitação de nossa pessoa, perda de simpatia, repúdio e até mesmo perseguição. Os profetas nem sempre angariaram simpatia. Em tal contexto, então, se manifestar o medo.

♦ “A fé é uma luta ativa contra o medo: foi assim para o profeta Jeremias e para os discípulos de Jesus. A fé exige coragem. Jesus exorta os discípulos a não temerem quem possa persegui-los, quem se oponha ao seu testemunho e à sua pregação. Jesus pede-lhes que realizem um êxodo do medo” (Luciano Manicardi).

♦ Não é aqui o espaço de dissertar todas as nuances e matizes do medo e da coragem. Na vida há pequenos medos ou receios: medo de um cachorro, medo de altura, receio de ingerir um determinado alimento.. Há medos escondidos: que um casamento esteja no fim, que podemos fracassar com determinadas escolhas, medo de não ser um bom educador dos filhos. Há o medo-pavor de uma guerra, de assaltos a mão armada, pavor de um vírus que veio da China.

♦ “Coragem nas coisas do cotidiano, aparentemente banal mas que pede resistência. Cada manhã levantar-se, lavar-se, começar tudo de novo. Suportar o cansaço, os transportes públicos desgastantes, suportar os outros, a si mesmo, e a monotonia dos relacionamentos. Há a coragem de ser a si mesmo: de não ter medo de suas riquezas nem de suas limitações. A coragem de não mentir, de não mentir-se a si mesmo. Coragem de dizer sua verdade mesmo que possa não ser reconhecida nem aceita. Coragem de correr o risco de se enganar… (Régine du Charlat)

♦ “Vicente Madoz publicou um excelente trabalho com o título “Os medos do homem moderno”, no qual, com a clarividência e simplicidade de um verdadeiro perito, vai analisando tanto os medos irracionais do homem atual, quanto seus medos concretos da doença, da velhice, da morte, do fracasso da solidão. A inquietude e desgosto de não poucas pessoas têm a ver, sem dúvida, com as profundas e rápidas mudanças que estão acontecendo na sociedade. Também têm a ver com o individualismo, a insolidariedade ou o pragmatismo exagerado. Mas é fácil detectar, além disso, uma angústia existencial, às vezes solapada ou disfarçada, que está muito ligada às grandes incógnitas da vida, e que surge em não poucos diante da doença, da velhice, do fracasso, do desamor e da morte” (Pagola, Mateus, p.219).

♦ Os textos bíblicos da liturgia de hoje apontam para o medo na proclamação da fé e na vivência de nosso ser cristão. Temos medo de tirar as últimas consequências do Evangelho. Ficamos a meio do caminho. Não conseguimos, por medo de dizer o que pensamos, ser transparentes. Camuflamos. Temos receio de gastar nosso tempo com os projetos de Jesus e do mundo novo. Trata-se de correr um risco. Talvez o mais grave seja esse medo de morrer a nós mesmos. Não compreendemos que o grão de trigo precisa morrer para poder dar fruto. Não se trata de provocar o inimigo com vara curta. Há momentos cruciais em nossa história que pedem coragem.

♦ No plano individual para o discípulo se trata da coragem de ser o que é: um peregrino apaixonado pelo mundo, irmão de todos, reconciliador e promotor da paz, límpido nos relacionamentos, generoso nas posturas, sem estrelismos e vedetismos, profundamente ouvinte do Deus amor, ser continuação de Cristo. De outro lado a Igreja, a comunidade eclesial onde nos encontramos com o com o Ressuscitado haverá de perder medo de tirar as últimas consequências da fé. Uma Igreja despojada, sem poderio externo, uma Igreja sem outro interesse senão o bem do homem, mesmo que perca benesses do mundo. Uma Igreja capaz de correr o risco do novo.

♦ “Mandando os discípulos “proclamarem sobre os terraços” o que lhes tinha dito, ensinado e confiado na obscuridade (Mt 10,27), Jesus pede aos cristãos e às Igrejas a coragem da palavra, a parresia, a franqueza, a audácia do anúncio evangélico. O que se opõe à parresia é o medo que reduz a liberdade do cristão e o leva a mover-se e agir de acordo com as lógicas de conveniência, lógicas “políticas” a dizer e não dizer consoante as circunstâncias, a usar as palavras de modo camaleônico” (Manicardi). Não é possível que nos envergonhemos das palavras de Jesus.

• Aqueles que vivem identificados com o Ressuscitado, que convivem com ele, que jogaram as cartas nele sabem que na hora exata a força do testemunho não há de faltar. As palavras do Evangelho querem manter viva nos discípulos sua proximidade, seu cuidado e seu amor por eles. Nas tribulações vencerão o medo com o amor.


Texto para reflexão

Medo. Sentimos medo diante de um perigo real.
O simples viver não está isento de riscos.
O medo pode ser sadio: adverte-nos que pode haver perigo à vista.
Triste quando somos presa de medrosa insegurança,
ou habitados por um medo difuso.
O medo anula nossa energia interior, sufoca a criatividade torna-nos seres rígidos.
Sem vida interior, sem uma amizade com aquele que venceu medo, seremos criaturas sem coragem.
Jesus afirma: “Coragem, eu venci o mundo”.


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.


Perseguição e firmeza

Pe. Johan Konings

Inúmeros – hoje mais que nunca – são os perseguidos, martirizados e mortos por defenderem a justiça e a solidariedade. Quem é profeta é perseguido, mas, se permanece fiel à sua missão, Deus não o abandona. Quem luta por Deus pode contar com ele. É o que nos ensina a primeira leitura.

Jesus enviou seus discípulos para anunciar e implantar o reino de Deus. No evangelho de hoje, ele ensina aos discípulos-seguidores a firmeza profética. Ensina-os a não ter medo daqueles que matam o corpo, mas a viver em temor diante daquele que tem poder para destruir corpo e alma no inferno, o Juiz supremo (Mt 10,28).

Jesus representa o Pai, e o Pai endossa a obra de Jesus. Quem for testemunha fiel de Cristo será por ele recomendado a Deus. Isso era válido no tempo em que o evangelho foi escrito, quando se apresentavam as perseguições e as deserções. Continua válido hoje. Se formos fiéis a Cristo, que nos associa à sua missão, podemos confiar que Deus mesmo não nos deixará afundar. Em Jesus está nossa firmeza. Por isso respondemos com convicção “Amen” (= “está firme”) à invocação “por Cristo, com Cristo e em Cristo” no fim da oração eucarística. Se, porém, deixarmos de dar nosso testemunho e cedermos diante dos ídolos (poder, lucro, manipulação etc.), espera-nos a sorte dos ídolos: o vazio, o nada… É uma questão de opção.

Proclamar o Reino em solidariedade com Cristo significa, hoje, empenho pela justiça. Empenho colocado à prova por forças externas (perseguições, matanças de agentes pastorais junto ao povo) e internas (desânimo, acomodação etc.). No nosso engajamento, podemos confiar em Deus e em sua providência; e, por causa de Deus, podemos confiar em nosso engajamento, permanecer firmes naquilo que assumimos, mesmo correndo perigo de vida. Pois é melhor morrer do que desistir do sentido de nossa vida. É melhor morrer em solidariedade com Cristo do que viver separado dele.

A mensagem principal do evangelho de hoje é a posição central de Jesus em nossa vida. É isso que devemos dar a conhecer por nossas palavras e ações. É segundo nossa fé professada em Jesus ou segundo nossa negação dele que nossa vida é julgada diante de Deus. Isso não é ambição desmedida de Jesus, mas mero realismo. O caminho que Jesus nos mostra, e a respeito do qual ele pede nosso testemunho, é o caminho da vida. Não podemos, diante do mundo, professar o contrário, pois então negamos, sob os olhos de Deus, o caminho de vida que, em Jesus, ele nos proporciona. É uma questão que diz respeito a Deus, referência última do nosso viver. Não podemos concordar com um sistema econômico, social, político e até pretensamente cultural que exclui, cada dia mais, as pessoas da paz e do bem-estar comum e, inclusive, leva ao abismo o próprio ambiente da vida humana. Não é para um sistema de morte que Jesus deu sua vida. Devemos professar Jesus que deu sua vida para que todos tenham vida e possam viver na abundância da graça que ele trouxe ao mundo.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

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