Destaque, Notícias › 05/07/2018

14º domingo do Tempo Comum

A voz deste Espírito/Espinho

Frei Gustavo Medella

Um dos números mais engraçados dos palhaços no circo é quando um deles, portando um alfinete, espeta o traseiro do outro que, sentado na cadeira, levanta com o susto. A espetada informa ao que estava sentado que é hora de levantar, que ali não dá para continuar.

Na primeira leitura deste 14º Domingo do Tempo Comum (Ez 2,2-5), o Profeta Ezequiel fala de um espírito que entra nele para colocá-lo de pé. É o Espírito do Senhor, impelindo-o à missão de profetizar, investindo-o da coragem necessária para cumprir a tarefa a ele confiada. Na segunda leitura (2Cor 12,7-10), São Paulo descreve um espinho espetado em sua carne para que a grandeza das manifestações que recebeu não o tornem uma pessoa soberba.

Tanto no caso do Profeta como do Apóstolo, o Espírito que põe de pé e o espinho espetado na carne fazem lembrar a imagem do alfinete do palhaço. Ezequiel não poderia se acomodar no momento em que a profecia se fazia urgente para mudar a postura e atitude de um povo que estava no caminho da perdição. São Paulo, ele mesmo reconhece, precisava vencer a tentação da soberba e da autossuficiência, descobrindo em sua fraqueza a força que vem de Deus.

No Evangelho (Mc 6,1-6), quem precisava ser espetado eram os conterrâneos e contemporâneos de Jesus. Estavam alheios e desconfiados da ação de Deus na história deles. Desta desconfiança brotavam as manifestações de despeito em relação à sabedoria e à autoridade de Jesus. No fundo, traziam consigo o chamado “complexo de vira-latas” que nasce no coração de um povo quando este deixa de se amar e, com a “baixa” na autoestima, passa a ser o primeiro a olhar para si mesmo com preconceito e desprezo.

Na Igreja da atualidade, o Papa Francisco tem sido a voz deste Espírito/Espinho que promove a desinstalação a fim de que a grande família dos batizados se lance no mundo e coloque-se a serviço especialmente daqueles que mais precisam. O “repouso no Espírito” é bom, mas desde que garanta a força para a profecia e a missão. Levantar-se do comodismo é tarefa inadiável para uma Igreja que deseja ser “samaritana”, para uma comunidade que tem como objetivo atualizar as práticas e os ensinamentos de Cristo para os dias de hoje. Sem medo, deixemo-nos inspirar/espetar pelo Senhor.

 CONFIRA A REFLEXÃO EM VÍDEO:


Leituras do 14º Domingo do TC

Primeira Leitura (Ez 2,2-5)

Leitura da Profecia de Ezequiel:

2 Naqueles dias, depois de me ter falado, entrou em mim um espírito que me pôs de pé. Então, eu ouvi aquele que me falava, 3 o qual me disse: “Filho do homem, eu te envio aos israelitas, nação de rebeldes, que se afastaram de mim. Eles e seus pais se revoltaram contra mim até ao dia de hoje. 4 A estes filhos de cabeça dura e coração de pedra, vou-te enviar, e tu lhes dirás: ‘Assim diz o Senhor Deus’.

5 Quer te escutem, quer não — pois são um bando de rebeldes — ficarão sabendo que houve entre eles um profeta”.

Responsório (Sl 122)

— Os nossos olhos estão fitos no Senhor: tende piedade, ó Senhor, tende piedade!

— Os nossos olhos estão fitos no Senhor: tende piedade, ó Senhor, tende piedade!

— Eu levanto os meus olhos para vós,/ que habitais nos altos céus./ Como os olhos dos escravos estão fitos/ nas mãos do seu senhor.

— Como os olhos das escravas estão fitos/ nas mãos de sua senhora,/ assim os nossos olhos, no Senhor,/ até de nós ter piedade.

— Tende piedade, ó Senhor, tende piedade;/ já é demais esse desprezo!/ Estamos fartos do escárnio dos ricaços/ e do desprezo dos soberbos!

Segunda Leitura (2Cor 12,7-10)

Leitura da Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios:

Irmãos: 7 Para que a extraordinária grandeza das revelações não me ensoberbecesse, foi espetado na minha carne um espinho, que é como um anjo de Satanás a esbofetear-me, a fim de que eu não me exalte demais.

8 A esse propósito, roguei três vezes ao Senhor que o afastasse de mim. 9 Mas ele disse-me: “Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força se manifesta”. Por isso, de bom grado, eu me gloriarei das minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim.

10 Eis porque eu me comprazo nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias sofridas por amor a Cristo. Pois, quando eu me sinto fraco, é então que sou forte.

Evangelho: Mc 6, 1-6

O escândalo da encarnação

-* 1 Jesus foi para Nazaré, sua terra, e seus discípulos o acompanharam. 2 Quando chegou o sábado, Jesus começou a ensinar na sinagoga. Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam: «De onde vem tudo isso? Onde foi que arranjou tanta sabedoria? E esses milagres que são realizados pelas mãos dele? 3 Esse homem não é o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? E suas irmãs não moram aqui conosco?» E ficaram escandalizados por causa de Jesus. 4 Então Jesus dizia para eles que um profeta só não é estimado em sua própria pátria, entre seus parentes e em sua família. 5 E Jesus não pôde fazer milagres em Nazaré. Apenas curou alguns doentes, pondo as mãos sobre eles. 6 E Jesus ficou admirado com a falta de fé deles.

* 6,1-6a: Os conterrâneos de Jesus se escandalizam: não querem admitir que alguém como eles possa ter sabedoria superior à dos profissionais e realize ações que indiquem uma presença de Deus. Para eles, o empecilho para a fé é a encarnação: Deus feito homem, situado num contexto social.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Comentário de Frei Ludovico Garmus

Oração: “Ó Deus, que pela humilhação do vosso Filho reerguestes o mundo decaído, enchei os vossos filhos e filhas de santa alegria, e dai aos que libertastes da escravidão do pecado o gozo das alegrias eternas”.

Primeira leitura: Ez 2,2-5

São um bando de rebeldes, e ficarão sabendo que houve entre eles um profeta.

Ezequiel conta em primeira pessoa sua experiência de ser chamado por Deus como profeta. Outros profetas como Amós (7,15), Jeremias (1,7) e Isaías (6,8-11) também contam sua vocação profética. Ezequiel narra como foi arrebatado pelo espírito divino. Deus como que invade sua pessoa (3,12.24; 8,3) e toma conta de sua fala (3,1-3). E o profeta torna-se assim o porta-voz de Deus, mas continua livre em acolher, ou não, o chamado divino. Por outro lado, o profeta tem consciência de estar falando em nome de Deus. Os ouvintes têm a liberdade de acreditar, ou não, que Ezequiel fala em nome de Deus. Por isso Deus adverte Ezequiel sobre as dificuldades da missão: “Eu te envio aos israelitas, nação de rebeldes, que se afastaram de mim… filhos de cabeça dura e coração de pedra”. O profeta tinha que falar em nome de Deus a um povo rebelde e agressivo, que o cercava como se fossem espinhos e escorpiões (v. 6-7). Não obstante a rebeldia, Deus misericordioso continua falando a Israel porque são seus filhos. Mas, se persistirem endurecendo o coração, sobrevirá o silêncio de Deus, como diz o profeta Amós: “Enviarei fome ao país, não uma fome de pão, nem uma sede de água, mas de ouvir as palavras do Senhor. Andarão cambaleando de um mar a outro, do norte até o oriente, procurando a palavra do Senhor, mas não a encontrarão” (8,11-12). – Ouçamos hoje a voz do Senhor!

Salmo responsorial: Sl 122

Os nossos olhos estão fitos no Senhor; tende piedade, ó Senhor, tende piedade!

2. Segunda leitura: 2Cor 12,7-10

Gloriar-me-ei das minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim.

Ezequiel teve que enfrentar a dureza de coração de seus opositores. Deus o anima a não temê-los, “mesmo que espinhos te cerquem e estejas assentado sobre escorpiões” (Ez 2,6). Jesus foi expulso pelos doutores da Lei e fariseus não só de Nazaré, mas também da sinagoga (evangelho). Da mesma forma o apóstolo Paulo teve que enfrentar tanto inimigos externos, como adversários dentro do próprio cristianismo. Eram cristãos de linha judaica, que contestavam seu apostolado porque Paulo defendia a liberdade frente à Lei de Moisés. Na Segunda Carta aos Coríntios (cap. 10–12) Paulo defende seu modo de pregar o Evangelho e a autoridade de seu apostolado, do qual tinha orgulho. No texto que ouvimos reconhece, porém, suas fraquezas. Paulo fala de um “espinho na carne” que o atormentava (doença, prisões, tentações, oposição de judeu-cristãos ou remorso de seu passado?), para que não se orgulhasse dos dons e das revelações recebidas de Cristo. Reconhece que a força de seu ministério vem de Cristo: “Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força se manifesta”.

Aclamação ao Evangelho: Lc 4,18

O Espírito do Senhor, sobre mim fez a sua unção;
enviou-me aos empobrecidos a fazer feliz proclamação.

Evangelho: Mc 6,1-6

Um profeta só não é estimado em sua pátria.

Depois de ser batizado por João e tentado pelo demônio no deserto, Jesus iniciou sua atividade nas aldeias em torno do lago de Genesaré. A fama de seus milagres e de sua pregação já havia chegado até Nazaré. De fato, seus parentes o haviam procurado em Cafarnaum para tirá-lo de circulação, pois pensavam que estava ficando louco (3,21.31-35). Mas a pregação de Jesus sobre a boa-nova do Reino de Deus nem sempre tinha sucesso. Sua mensagem dividia o auditório. Havia os que o seguiam na esperança de serem beneficiados por algum milagre. Outros o seguiam para ouvir sua mensagem; outros, ainda, o seguiam apenas para contestar suas palavras e criticar suas ações. Jesus exemplifica as diferentes respostas dos ouvintes na parábola do semeador (Mc 4,1-20). No entanto, diante dos aparentes fracassos Jesus continuava confiante na semente da Palavra que semeava. As parábolas da “semente que cresce sozinha” e do “grão de mostarda” (4,26-32) no-lo demonstram claramente. Com esta confiança Jesus chega à aldeia de Nazaré, onde fora criado. Quando Jesus entra na sinagoga podemos imaginar que a expectativa em ouvi-lo era enorme. Logo, porém, da admiração pelos milagres e sabedoria de seu ensinamento os ouvintes passam para a desconfiança e o desdém. Desautorizaram a Jesus porque não estudou a Lei junto aos mestres da Lei em Jerusalém. Jesus não passava de um carpinteiro, um trabalhador braçal. Todo mundo conhecia sua mãe e seus familiares. Jesus ficou admirado da falta de fé de sua gente: “Um profeta só não é estimado em sua pátria entre seus parentes e familiares”. Diante da incredulidade dos conterrâneos, Jesus “curou apenas alguns doentes”. A primeira vez que Jesus entra numa sinagoga de Cafarnaum para ensinar todos reconhecem sua autoridade: “O que é isso? Uma doutrina nova dada com autoridade!” (1,27). A última vez que Jesus ensina numa sinagoga é na sua terra natal e dela sai desautorizado (6,29). Mesmo assim, continua ensinando nos povoados dos arredores e curando os doentes. O evangelho deve ser anunciado “quer te escutem, quer não” (1ª leitura). João Batista já dizia: “quem tem ouvidos [para ouvir Jesus], que ouça” (Mt 11,15).

rodape-ludovico

WP Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com