Destaque, Notícias › 17/07/2020

16º Domingo do Tempo Comum

O fermento é pouco, é vivo e é dinâmico

Frei Gustavo Medella

Um vírus minúsculo, quase invisível, “toma conta do pedaço” e vem novamente mostrar à humanidade a importância do que é simples, pequeno e pouco: do abraço, do cafezinho da padaria, da mão de quem o enfermo pode segurar antes de dar o último suspiro, do prato de comida oferecido de graça a quem não tem com o que pagar. Vem provar que os delírios de grandeza e dominação que crescem no coração humano qual o joio junto do trigo estão conduzindo a vida para um caminho de autodestruição que atinge a natureza, as relações e as pessoas.

A saída deste temido labirinto parece distante, mas as previsões que se veem pela frente dão provas de que os passos da libertação devem ser dados numa direção bem diferente daquela na qual o mundo tem caminhado. E, para iluminar este caminho, a parábola do fermento na massa pode oferecer algumas pistas à missão evangelizadora da Igreja. Eis algumas (pistas):

Vencer o medo de se colocar em saída – Exaltando a ousadia dos apóstolos, São João Crisóstomo escreve: “E não me digas: O que podemos fazer doze homens perdidos em uma grande multidão? Porque precisamente o fato de que não recusais misturar-vos com as multidões torna imensamente mais admirável vossa eficácia”. Esta coragem de ser fermento e desaparecer no meio da massa para que o pão aconteça é a doação que Cristo espera de sua Igreja. Vencer a autorreferencialidade, colocar-se em campo sem medo, partir ao encontro das periferias, reafirmar a aliança com os pobres são opções fundamentais que devem ser apresentadas ao mundo como caminho de superação do egoísmo, da fome, do ódio, da miséria e da morte.

Deixar de lado a tentação de grandeza e poder – Uma pequena porção de fermento faz crescer uma grande quantidade de massa. A animação dos pequenos grupos, o incentivo e fomento da Igreja doméstica, a valorização do protagonismo dos leigos, a promoção da partilha do pouco podem ser ações pedagógicas para um mundo que necessariamente terá de lidar com o aumento da fome, da pobreza, do desemprego e de pessoas que necessitam da mão amiga de alguém estendida a elas. Que esta mão amiga seja a Igreja viva e atuante em cada um dos batizados e batizadas. Sobre o tema da simplicidade, recorda São João Crisóstomo: “Que ninguém se queixe, pois, de sua pequenez, pois o dinamismo da pregação é gigantesco, e aquele que uma vez fermentou, converte-se em fermento para os demais”.

O fermento é matéria viva – O dinamismo da Evangelização não combina com uma atitude acomodada de manutenção das estruturas. O fermento age porque está sempre em movimento, espalhando sua força de vida no interior da massa. Uma pastoral ativa e atenta aos sinais da realidade adquire força e relevância para fazer crescer o Reino de Deus expresso e apresentado nas palavras e ações de Cristo.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Textos bíblicos para este domingo

Primeira Leitura: Sb 12,13.16-19

13Não há, além de ti, outro Deus que cuide de todas as coisas e a quem devas mostrar que teu julgamento não foi injusto. 16A tua força é princípio da tua justiça, e o teu domínio sobre todos te faz para com todos indulgente.

17Mostras a tua força a quem não crê na perfeição do teu poder; e nos que te conhecem, castigas o seu atrevimento.18No entanto, dominando tua própria força, julgas com clemência e nos governas com grande consideração; pois, quando quiseres, está ao teu alcance fazer uso do teu poder.

19Assim procedendo, ensinaste ao teu povo que o justo deve ser humano; e a teus filhos deste a confortadora esperança de que concedes o perdão aos pecadores.


Salmo Responsorial: Sl 85

— Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel!

— Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel!

— Ó Senhor, vós sois bom e clemente,/ sois perdão para quem vos invoca./ Escutai, ó Senhor, minha prece,/ o lamento da minha oração!

— As nações que criastes virão/ adorar e louvar vosso nome./ Sois tão grande e fazeis maravilhas;/ vós somente sois Deus e Senhor!

— Vós, porém, sois clemente e fiel,/ sois amor, paciência e perdão./ Tende pena e olhai para mim!/ Confirmai com vigor vosso servo.


Segunda Leitura: Rm 8,26-27

Irmãos: 26O Espírito vem em socorro da nossa fraqueza. Pois nós não sabemos o que pedir nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis. 27E aquele que penetra o íntimo dos corações sabe qual é a intenção do Espírito. Pois é sempre segundo Deus que o Espírito intercede em favor dos santos.


Evangelho: Mt 13,24-43

* 24 Jesus contou outra parábola à multidão: «O Reino do Céu é como um homem que semeou boa semente no seu campo. 25 Uma noite, quando todos dormiam, veio o inimigo dele, semeou joio no meio do trigo, e foi embora. 26 Quando o trigo cresceu, e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio. 27 Os empregados foram procurar o dono, e lhe disseram: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?’ 28 O dono respondeu: ‘Foi algum inimigo que fez isso’. Os empregados lhe perguntaram: ‘Queres que arranquemos o joio?’ 29 O dono respondeu: ‘Não. Pode acontecer que, arrancando o joio, vocês arranquem também o trigo. 30 Deixem crescer um e outro até à colheita. E no tempo da colheita direi aos ceifadores: arranquem primeiro o joio, e o amarrem em feixes para ser queimado. Depois recolham o trigo no meu celeiro!’ «

* 31 E Jesus contou outra parábola: «O Reino do Céu é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. 32 Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E se torna uma árvore, de modo que os pássaros do céu vêm e fazem ninhos em seus ramos.»

* 33 Jesus contou-lhes ainda outra parábola: «O Reino do Céu é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado.»

* 34 Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões. Nada lhes falava sem usar parábolas, 35 para se cumprir o que foi dito pelo profeta: «Abrirei a boca para usar parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo.»

* 36 Então Jesus deixou as multidões, e foi para casa. Os discípulos se aproximaram dele, e disseram: «Explica-nos a parábola do joio.» 37 Jesus respondeu: «Quem semeia a boa semente é o Filho do Homem. 38 O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno. 39 O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifadores são os anjos. 40 Assim como o joio é recolhido e queimado no fogo, o mesmo também acontecerá no fim dos tempos: 41 o Filho do Homem enviará os seus anjos, e eles recolherão todos os que levam os outros a pecar e os que praticam o mal, 42 e depois os lançarão na fornalha de fogo. Aí eles vão chorar e ranger os dentes. 43 Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça.»

* 24-30: O Messias já veio. Então, por que o Reino ainda não se instalou definitivamente? Resposta de Jesus: Isso não se deve à imperfeição natural dos homens, mas a uma sabotagem premeditada, feita por aquele que quer usurpar a autoridade de Deus no mundo. Não cabe aos homens fazer a separação entre bons e maus, pois só Deus pode fazer o julgamento.
* 31-32: Por que será que o Reino parece não estar se expandindo no mundo? Cf. nota em Mc 4,30-34.
* 33: A comunidade dos discípulos parece desaparecer no meio dos homens. Num segundo momento, porém, ela exerce ação transformadora no seio da sociedade.
* 34-35: Somente através da pessoa e missão de Jesus é possível compreender o mistério do Reino de Deus, escondido na história desde o início do mundo.
* 36-43: A explicação da parábola é alegoria que apresenta a dinâmica do Reino na história. Jesus instaurou o Reino dentro da história, e esta é feita pela ação de bons e maus. A vinda do Reino, porém, entra em luta contra o espírito do mal, e conduz os justos à vitória final. A história é tensão contínua voltada para a manifestação gloriosa do Reino.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

16º Domingo do Tempo Comum, ano A

Oração: “Ó Deus, sede generoso para com os vossos filhos e filhas e multiplicai em nós os dons da vossa graça, para que, repletos de fé, esperança e caridade, guardemos fielmente os vossos mandamentos”.

  1. Primeira leitura: Sb 12,13.16-19

Concedeis o perdão aos pecadores.

O sábio medita e contempla o agir de Deus com os seres humanos. Deus é poderoso e justo, mas prefere cuidar de todas as suas criaturas. Tem força para aniquilar os pecadores, mas controla o princípio da justiça punitiva pela sua clemência. A bondade divina não diminui em nada sua justiça e seu poder. Ele “ensina ao seu povo que o justo deve ser humano” e nos dá a “confortadora esperança” de que Deus “concede o perdão aos pecadores”. Meditemos e louvemos a “humanidade” de nosso Deus.

Salmo responsorial: Sl 85

Ó Senhor, vós sois bom, sois clemente e fiel!

  1. Segunda leitura: Rm 8,26-27

O Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. 

Domingo passado Paulo dizia que pelo batismo já recebemos o Espírito Santo que age em nós, suscitando os primeiros frutos do Espírito. No entanto, estamos gemendo como que em dores de parto junto com todas as criaturas dominadas pelo pecado, na esperança de ver desabrochar a nova criação. Pela força do Espírito Deus continua criando e renovando a sua criação (cf. Sl 104,30). Hoje Paulo nos convida a ouvir a voz, os gemidos do Espírito criador. Ele se faz ouvir no âmbito da Igreja, na voz dos leigos, no âmbito político, na voz do povo e no respeito da vida de todas as criaturas (ecologia integral). É o Espírito Santo que convoca todas as religiões e pessoas de boa vontade para o cuidado da vida de todos os seres criados. Como esses gemidos se explicam nas parábolas do joio, do fermento e do grão de mostarda (Evangelho)?

Aclamação ao Evangelho: Mt 11,25

   Eu te louvo, ó Pai Santo, Deus do céu, Senhor da terra:

            Os mistérios do teu Reino aos pequenos, Pai, revelas!

  1. Evangelho: Mt 13,24-43

Deixai crescer um e outro até a colheita.

O evangelho de hoje está unido à primeira leitura pela ideia do julgamento de Deus, justo e indulgente para com todos. Relaciona-se também aos gemidos do Espírito da segunda leitura. Domingo passado, refletimos sobre a parábola do semeador: Jesus (e a Igreja) que anuncia o Reino de Deus e vê resultados diferentes de sua ação. Hoje ouvimos três pequenas parábolas de Jesus, do joio, da mostarda e do fermento na massa. Elas continuam e aprofundam a parábola do semeador. A parábola do joio reflete sobre os fatores que impedem o crescimento da semente: terreno ruim, pedras e espinhos aniquilam o crescimento da semente; a terra boa, por sua vez, produz diferentes resultados na hora da colheita. Além do bom semeador que semeia sementes boas, outras sementes são semeadas pelo inimigo na mesma terra. A sociedade em que vivemos é a terra capaz de receber sementes boas e ruins. Pelos frutos, bons ou maus, conhecemos quem é o semeador e a qualidade da semente semeada. Quem semeia hoje as sementes más da injustiça, da desigualdade, da corrupção e da violência em nossa sociedade? Além da boa semente que os pais procuram semear no coração de seus filhos, quais outras sementes influenciam negativamente a educação dos filhos? E o que dizer da qualidade que os ministros da Igreja semeiam? O que devemos fazer? Tomas atitudes radicais como propunham os trabalhadores ao seu patrão? Sermos impacientes e radicais como João e Tiago, que pediam a Jesus para rogar pragas aos samaritanos que não o acolheram? Ou agir com sabedoria e prudência como o dono da plantação sugeriu (cf. primeira leitura).

As leituras nos convidam a confiar na força criadora do Espírito Santo, que cria e renova todas as coisas. O poder de Deus se esconde no dinamismo de uma pequena porção de fermento, capaz de levedar a massa, e na insignificância de uma sementinha de mostarda que oculta uma frondosa árvore. Paulo, ao falar da ação da graça em sua vida, diz: “Pois quando me sinto fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10). – Deus é misericordioso e aguarda com paciência os frutos, como vemos na parábola da figueira estéril (Lc 13,6-9).


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.


Temos saudades do paraíso perdido

Frei Clarêncio Neotti

A maior prova para a nossa paciência é a coexistência com o mal. O sonho de uma terra sem males é inato ao homem. Encontramo-lo em todos os povos, desde os mais primitivos até os mais avançados (Is 11,1-9). É a saudade de um paraíso perdido. Até mesmo os profetas imaginavam a chegada do Messias como alguém que extirparia por inteiro o mal da face da terra. Assim pensava também João Batista (Mt 3,10). E, quando ele percebeu que Jesus, em vez de eliminar os pecadores, comia com eles e andava com eles (Lc 7,34), ficou preocupado. João Batista começou a se perguntar se Jesus era o Messias ou se devia esperar por outro (Mt 11,3). Jesus trouxe um tempo de graça e salvação. Ele comparou esse tempo ao plantio e crescimento do trigal. O Reino de Deus, na sua realização terrena, embora sendo de graça e santidade, não nos dispensa a paciência.

Há os que se escandalizam com a existência do mal. Dizem: se Deus é o criador de tudo, como pode haver tantos males e maldades? Se Deus é bom, como pode permitir tanta desgraça? O Concílio Vaticano II viu nesse escândalo uma das razões
do ateísmo moderno (Gaudium et Spes, 19). Se há males que o próprio homem cria e pratica, há os que não dependem de sua vontade, como terremotos, tufões e mortes prematuras. O homem consegue explicar os males que nascem de seu coração, como a guerra, a corrupção e a violência. Mas não tem explicação para o mal em si. São Paulo chamou o mal de mistério (2Ts 2,7). O homem é posto diante do mal. A ele deve resistir. A ele deve superar. Com ele deve conviver, mantendo-se fiel ao bem. Deus é o exemplo de paciência, lembrado por Jesus, que faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos (Mt 5,45). É bendito todo o esforço humano para vencer o mal. Isso é paciência, uma qualidade ativa e forte. A vitória completa sobre o mal acontecerá somente na plenitude do Reino: no céu.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.


Jesus, contador de histórias

Frei Almir Guimarães

♦ Continuamos a leitura do evangelho de Mateus em nossas liturgias dominicais. Jesus aparece hoje como um contador de histórias com três de suas saborosas parábolas: joio e trigo, grãozinho de mostarda e fermento que a mulher coloca na massa que descrevem o Reino, o mundo novo cuja inauguração o Pai confiou a Jesus. Para falar do assunto curiosamente Jesus se serve de imagens “culinárias”, coisas do campo e da cozinha.

♦ Por detrás dessas figurações-historietas e das outra leituras somos convidados a corrigir a rota de nosso caminhar. O texto do Livro da Sabedoria exalta a excelsa grandeza do Senhor e a certeza de que o olhar que o Senhor nos dirige é benigno e bondoso. Paulo lembra que em nossa oração o Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. Deus mesmo reza em nós. Nesse pano de fundo vamos colaborando na construção do Reino.

♦ Reino, Reino de Deus, mundo novo, mundo segundo os sonhos do Altíssimo. Jesus veio anunciar e inaugurá-lo. Colocou depois, em nossas mãos sobre nossos ombros a continuação de sua obra, reino de justiça e de paz, de vida e verdade, de amor e de graça. Somos artesãos do Mundo segundo o coração de Deus.

♦ Não podemos ir rápido demais na construção e aperfeiçoamento do Reino. Será preciso dar tempo ao tempo. Vivemos, damos nossos testemunho de amigos e discípulos do Senhor. A experiência está sempre a nos dizer a erva daninha que não lançamos à terra cresce e abafa o trigo. Há santos caminhando por ai, mas há aproveitadores, gente que destrói a beleza dos inocentes, pessoas que ardilosamente inventam meios e modos em derrubar os outros, que contaminam com o veneno da maldade.

♦ Não dá para separar os bons dos maus antes da hora. Jesus veio como Pastor e não aquele que condena. Nenhum pecado pode cortar irremediavelmente as pontes de comunicação com de Deus. Trigo e joio estão misturados. A parábola fala da paciência de Deus, do dar tempo ao tempo. “Não nos deve perturbar o escândalo de uma Igreja medíocre, comprometida, distante do ideal evangélico de pureza, de santidade, de desapego. Sendo feita de homens e vivendo mergulhada no mundo, a Igreja corre sempre o risco de se contaminar com o mundo e ver crescer em suas fileiras o joio ao lado do trigo” (Missal da Paulus, p.750). Sempre houve na Igreja a tentação de cortar e queimar o joio antes: hereges condenados à fogueira, excomunhões, anátemas. A parábola do joio e do trigo fala da paciência de Deus.

♦ Construção do Reino: esforços de semear a verdade, recolher os jogados à beira do caminho, dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, entrar no silêncio do quarto, fazer com que os inimigos se deem as mãos. Para que isso aconteça com pequenos gestos: uma palavra amiga, um serviço prestado, uma dívida perdoada, um generosidade demonstrada, os pés de alguém lavados. O Reino é semelhante a coisa pequenas. Cuidado com os grandes êxitos nesse terreno. Podem ocultar poder. Somos operários do Reino no cotidiano das coisas pequenas.

♦ “Para seguir a Jesus não é preciso sonhar com coisas grandiosas. Que seus seguidores busquem uma Igreja poderosa que se imponha às outras é um erro. O ideal não é o exaltado cedro no alto da montanha, mas o arbusto de mostarda que cresce junto aos caminhos e acolhe os pintassilgos. Deus não esta no êxito, no poder, ou na superioridade. Para descobrir sua presença salvadora será preciso prestar atenção ao pequeno, ao comum e cotidiano. A vida não é apenas aquilo que se vê. É muito mais. Assim pensava Jesus” (Pagola, Mateus, p. 161)

♦ Irradiação é a palavra que pode ajudar a compreender a imagem do fermento. Algo minúsculo em relação ao todo. Quando juntado ao trigo a tudo penetra escondidamente. Assim, os discípulos de Jesus estão em todas em todas partes: são doutores e padeiros, políticos e empregados domésticos, são pais, mães, novos e idosos. Vivem no mundo, mas carregam em si os germes do mundo novo. Não são apenas pessoas de missa de domingo mas gente de discretamente coloca o “vírus” de Jesus por onde passam. Quando pensamos na missão do laicato no mundo de hoje temos em mente ações concretas em prol da humanização do humano, mas sobretudo no testemunho, no força do fermento, do sal e da luz. Os cristãos são fermento de um mundo novo.

Como são importantes essas histórias que Jesus contava!!


Oração

Olhar-te lentamente,
isto é tudo.
Olhar-te lentamente.
E desta forma
algo se move dentro de mim.
Olhar-te lentamente,
nada mais e isto é tudo,
olhar-te lentamente.
Que tenho eu de mim
se não o que me concedeste,
teu fogo, teu amor,
teu ar, teu vento?

J. Zubiaurre


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.


Fermento de uma vida mais humana

José Antonio Pagola

Surpreende ver com que frequência Jesus se dirige a seus discípulos para adverti-los contra uma falsa “impaciência messiânica” que não sabe respeitar o ritmo da ação discreta, mas vigorosa, de Deus.

Aos que esperam que Ele dê início a um movimento contundente e arrojado, capaz de terminar com outras correntes e alternativas, Jesus lhes fala de uma ação mais humilde e respeitosa de Deus. O mundo é um campo de sementeiras opostas. E o Reino de Deus cresce aí na densidade dessa vida às vezes tão ambígua e complexa.

Aí está Deus salvando o ser humano: nesses comportamentos coletivos, animados umas vezes por grandes ideais e outras vezes por obscuros egoísmos; nesses mil gestos que fazemos cada dia e onde se mescla a generosidade com as mesquinharias mais inconfessáveis.

Àqueles que esperam o desenrolar imediato de algo espetacular e poderoso, Jesus lhes fala de um reinado de Deus mais simples e discreto. Algo que não visa desencadear movimentos grandiosos de massa. O Reino de Deus já está atuando, mas a modo de um grão de mostarda minúsculo e quase irrisório que germina com humildade, ou como uma porção quase imperceptível de fermento que se perde na massa fermentando-a totalmente.

Não é lançando excomunhões sobre outros grupos, partidos ou ideologias, nem condenando tudo o que não coincide com o nosso pensamento que vamos abrir caminho ao Reino de Deus. Não o implantaremos na sociedade concentrando grandes massas ou conseguindo o aplauso passageiro das multidões.

O Reino de Deus é um “fermento de humanidade” que cresce em qualquer rincão obscuro do mundo, onde se ama o ser humano e onde se luta por uma humanidade mais digna. Só abriremos caminho ao Reino de Deus deixando que a força do Evangelho transforme nosso modo de viver, amar, trabalhar, desfrutar, lutar e ser.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.


Paciência na evangelização

Johan Konings

O evangelho apresenta um Jesus muito tolerante. Isso pode até desagradar a quem gostaria de um Jesus mais radical. A Igreja parece tão pouco radical. Por que não romper de vez com os que não querem acompanhar? Ou será que a radicalidade do evangelho é outra coisa do que imaginamos? Neste evangelho (Mt 13, 24-43), Jesus descreve o Reino de Deus (o agir de Deus na história), em três parábolas. Na primeira, explica que junto com os frutos bons (o trigo) podem crescer frutos menos bons (o joio); é melhor deixar a Deus a responsabilidade de separá-los, na hora certa….Na segunda, ensina que o agir de Deus tem um alcance que sua humilde aparência inicial não deixa suspeitar (a sementinha).

Na terceira, adverte que a obra de Deus muitas vezes é escondida, enquanto na realidade penetra e leveda o mundo, invisivelmente, como o fermento da massa.

Nós gostamos de ver resultados imediatos. Somos impacientes e dominadores para com os outros. Deus tem tanto poder, que ele domina a si mesmo… Não é escravo de seu próprio poder. Sabe governar pela paciência e o perdão (1ª leitura). Seu “reino” é amor, e este penetra aos poucos, invisivelmente, como o fermento. Impaciência em relação ao Reino de Deus é falta de fé. O crescimento do Reino é “mistério”, algo que pertence a Deus.

No tempo de Mateus, a impaciência era explicável: espera-se a volta de Cristo (a Parusia) para breve. Hoje, já não é essa a razão da impaciência. A causa da impaciência bem pode ser o imediatismo de pessoas aparentemente “superengajadas”, e podemos questionar se muito ativismo é verdadeira generosidade a serviço de Deus ou apenas auto-afirmação. É preciso dar tempo às pessoas para que fiquem cativados pelo Reino. E a nós mesmos também. Isso exige maior fé e dedicação do que certo radicalismo mal-entendido, pelo qual são rechaçadas as pessoas que ainda estão crescendo.

Devemos ter paciência especial para com aqueles que, vivendo em condições subumanas, não conseguem assimilar algumas exigências aparentemente importantes da Igreja. Para com os jovens. Para com os que perderam a cabeça pelas complicações da vida moderna urbana, ou por causa da televisão, que pouco se preocupa em propor às pessoas critérios de vida equilibrada. Devemos dar tempo ao tempo… e entrementes dar força ao trigo, para que não se deixe sufocar pelo joio.

Em nossas comunidades, importa cativar os outros com paciência. Fanatismo só serve para dividir. Moscas não se apanham com vinagre. Importa ter confiança em Deus, sabendo que ele age, mesmo. E então nos sentiremos seguros para colaborar com ele, com “magnanimidade”, com grandeza de alma – pois é assim que se deveria traduzir o que geralmente se traduz com o termo desvirtuado “paciência”…. Deus reina por seu amor, e o amor não força ninguém, mas cativa a livre adesão.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

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