Notícias › 07/03/2019

1º Domingo do Tempo da Quaresma

Mais do que vencer, o importante é manter o foco

Frei Gustavo Medella

Causou polêmica a comissão de frente da Escola de Samba Gaviões da Fiel, de São Paulo, ao trazer um passista fantasiado de diabo e um segundo caracterizado como Jesus sendo arrastado e jogado no chão pelo primeiro. Havia também um terceiro elemento fantasiado de anjo. De acordo com a contextualização do enredo, que levou para a avenida a história do tabaco, a caracterização fazia referência a Santo Antão, Pai da vida monástica que, segundo uma lenda, ao sugar o veneno da picada de uma serpente e cuspi-lo no chão, fez brotar as primeiras folhas de tabaco. Na hagiografia de Santo Antão, constam episódios em que ele no deserto combateu frente e frente com a figura do mal.

Parece que o alvo maior de indignação é que, na “batalha” que se seguiu na avenida, o diabo parecia sair vencedor sobre Jesus, que era arremessado e arrastado pelo chão sem maiores reações. Era por demais escandaloso e difícil de aceitar para as pessoas de fé que, “Aquele em quem depositaram sua confiança” aparecesse derrotado pelas forças contrárias. No entanto, quem busca acompanhar pelos Evangelhos a atuação e o comportamento de Jesus, dificilmente o verá preocupado em vencer qualquer tipo de batalha ou apresentando-se como alguém competitivo e ávido pela vitória.

O próprio texto do Evangelho deste Primeiro Domingo da Quaresma (4,1-13) não revela em Jesus uma figura preocupada em sair-se vencedora de um duelo contra o mal. No deserto, Ele apenas deixava-se conduzir pelo Espírito. A necessidade de ganhar a qualquer custo, de provar que era o mais forte, de apresentar-se como soberano – parece – era prioridade do diabo. No fundo, uma imensa falta de maturidade. Em Jesus, ao contrário, o único cuidado era o de não perder o foco, de não deixar escapar o fio condutor da missão amorosa que o Pai estava lhe confiando. E, neste objetivo, Jesus obtém êxito, não sem esforço, pois teve de superar a fome, o medo e certas inseguranças que seu lado humano carregava. E Ele superou.

Fica o ensinamento: lidar com as força do mal, que gravita dentro e fora de nós, não deve ser um exercício de combate, mas de concentração, de não perder o foco, de nos mantermos conectados à missão que o Senhor confia a nós como confiou a Jesus. Nosso Senhor é maduro o suficiente para não se deixar ofender por uma representação carnavalesca. Muito mais ofensivo ao coração de Deus são os gestos de desumanidade que têm aflorado com intensidade nos sombrios tempos que estamos vivendo. Para superá-los, precisamos, juntos, permanecer unidos a Jesus, com força, fé e foco.

Imagem da Comissão de Frente da Escola Gaviões da Fiel.


Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: Dt 26,4-10

Assim Moisés falou ao povo: 4“O sacerdote receberá de tuas mãos a cesta e a colocará diante do altar do Senhor teu Deus. 5Dirás, então, na presença do Senhor teu Deus: ‘Meu pai era um arameu errante, que desceu ao Egito com um punhado de gente e ali viveu como estrangeiro. Ali se tornou um povo grande, forte e numeroso. 6Os egípcios nos maltrataram e oprimiram, impondo-nos uma dura escravidão.

7Clamamos, então, ao Senhor, o Deus de nossos pais, e o Senhor ouviu a nossa voz e viu a nossa opressão, a nossa miséria e a nossa angústia. 8E o Senhor nos tirou do Egito com mão poderosa e braço estendido, no meio de grande pavor, com sinais e prodígios. 9E conduziu-nos a este lugar e nos deu esta terra, onde corre leite e mel.10Por isso, agora trago os primeiros frutos da terra que tu me deste, Senhor’. Depois de colocados os frutos diante do Senhor teu Deus, tu te inclinarás em adoração diante dele”.


Responsório (Sl 90)

— Em minhas dores, ó Senhor, permanecei junto de mim!

— Em minhas dores, ó Senhor, permanecei junto de mim!

— Quem habita ao abrigo do Altíssimo/ e vive à sombra do Senhor onipotente,/ diz ao Senhor: “Sois meu refúgio e proteção,/ sois o meu Deus, no qual confio inteiramente”.

— Nenhum mal há de chegar perto de ti,/ nem a desgraça baterá à tua porta;/ pois o Senhor deu uma ordem a seus anjos/ para em todos os caminhos te guardarem.

— Haverão de te levar em suas mãos,/ para o teu pé não se ferir nalguma pedra./ Passarás por sobre cobras e serpentes,/ pisarás sobre leões e outras feras.

— “Porque a mim se confiou, hei de livrá-lo/ e protegê-lo, pois meu nome ele conhece./ Ao invocar-me, hei de ouvi-lo e atendê-lo, e a seu lado eu estarei em suas dores”.


Segunda Leitura: Rm 10,8-13

Irmãos: 😯que diz a Escritura? “A palavra está perto de ti, em tua boca e em teu coração”. Essa palavra é a palavra da fé, que nós pregamos.

9Se, pois, com tua boca confessares Jesus como Senhor e, no teu coração, creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo. 10É crendo no coração que se alcança a justiça e é confessando a fé com a boca que se consegue a salvação. 11Pois a Escritura diz: “Todo aquele que nele crer não ficará confundido”.

12Portanto, não importa a diferença entre judeu e grego; todos têm o mesmo Senhor, que é generoso para com todos os que o invocam. 13De fato, todo aquele que invocar o Nome do Senhor será salvo.


Evangelho: Lc 4,1-13

* 1 Repleto do Espírito Santo, Jesus voltou do rio Jordão, e era conduzido pelo Espírito através do deserto. 2 Aí ele foi tentado pelo diabo durante quarenta dias. Não comeu nada nesses dias e, depois disso, sentiu fome. 3 Então o diabo disse a Jesus: «Se tu és Filho de Deus, manda que essa pedra se torne pão.» 4 Jesus respondeu: «A Escritura diz: ‘Não só de pão vive o homem’.» 5 O diabo levou Jesus para o alto. Mostrou-lhe por um instante todos os reinos do mundo. 6 E lhe disse: «Eu te darei todo o poder e riqueza desses reinos, porque tudo isso foi entregue a mim, e posso dá-lo a quem eu quiser. 7 Portanto, se te ajoelhares diante de mim, tudo isso será teu.» 8 Jesus respondeu: «A Escritura diz: ‘Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá’.» 9 Depois o diabo levou Jesus a Jerusalém, colocou-o na parte mais alta do Templo. E lhe disse: «Se tu és Filho de Deus, joga-te daqui para baixo. 10 Porque a Escritura diz: ‘Deus ordenará aos seus anjos a teu respeito, que te guardem com cuidado’. 11 E mais ainda: ‘Eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em nenhuma pedra’.» 12 Mas Jesus respondeu: «A Escritura diz: ‘Não tente o Senhor seu Deus’.» 13 Tendo esgotado todas as formas de tentação, o diabo se afastou de Jesus, para voltar no tempo oportuno.

* 4,1-13: Cf. nota em Mc 1,12-13 e em Mt 4,1-11. Lucas inverte a ordem das duas últimas tentações, porque em Jerusalém (Templo) é que acontecerá a suprema tentação e a vitória final sobre ela.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Comentários exegéticos de Frei Ludovico Garmus

1º Domingo da Quaresma, ano C

Oração: “Concedei-nos, ó Deus onipotente, que, ao longo esta Quaresma, possamos progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder a seu amor por uma vida santa”.

  1. Primeira leitura: Dt 26,4-10

Profissão de fé do povo eleito.

No livro do Deuteronômio, Moisés apresenta pela segunda vez a Lei que Israel devia observar, após tomar posse da terra prometida. O texto que hoje ouvimos foi extraído do cap. 26, que conclui o segundo dos cinco discursos de Moisés que compõe o livro. O texto apresenta o rito seguido quando se ofereciam os primeiros frutos da terra (primícias). Para agradecer a Deus pelo dom da terra, o israelita dirigia-se ao santuário e apresentava ao sacerdote uma cesta com os primeiros frutos do início de sua colheita. Nesta ocasião, fazia uma “profissão de fé”, recordando os grandes feitos do Senhor em favor de seu povo. Esta profissão de fé é por alguns considerada como o “pequeno credo histórico” de Israel. Este credo está focado no êxodo do Egito, no dom da libertação e nos compromissos que o povo libertado assume. Lembra a eleição divina de Jacó/Israel, a descida ao Egito, o aumento dos filhos de Israel, a opressão do povo no Egito, a libertação pela mão poderosa do Senhor; a condução pelo deserto e o dom da terra “onde corre leite e mel”. Pronunciada a profissão de fé, o israelita explicava o sentido de sua oferta: “Por isso, agora eu trago os primeiros frutos da terra que tu me deste, Senhor”, e prostrava-se em adoração. O “credo” não cita uma fórmula de verdades abstratas, mas lembra os principais atos salvíficos de Deus em favor do povo de Israel.

A Palavra de Deus ouvida e explicada na homilia é um convite para rezar o “Credo”, com o coração agradecido a Deus por tudo que faz em nossa vida e na vida da Igreja.

Salmo responsorial: Sl 90

Em minhas dores, ó Senhor, permanecei junto de mim!

  1. Segunda leitura: Rm 10,8-13

Profissão de fé dos que creem em Cristo.

Paulo não fundou a comunidade cristã de Roma, formada por cristãos provenientes da Palestina e da Síria. Entre eles, certamente, havia cristãos de origem judaica. Paulo desejava conhecer esta comunidade florescente, não para ali permanecer, mas como uma ponte para levar a boa-nova de Cristo até a Espanha. Antes de chegar a Roma, na Carta aos Romanos, Paulo explica à comunidade cristã de Roma o “evangelho” que ele costuma pregar nas igrejas por ele fundadas. Segundo seu evangelho, Cristo Jesus, o Messias esperado, não veio apenas para salvar os judeus. Em Cristo Jesus a boa-nova da salvação está aberta a judeus e pagãos. Não importa a diferença entre judeu e grego; todos têm o mesmo Senhor, que é generoso para com todos os que o invocam. Por isso, observar a Lei de Moisés não é condição para tornar-se cristão. A fé em Cristo, esta sim, é que salva. “Se com tua boca confessares Jesus como o Senhor e, no teu coração, creres que Deus o ressuscitou dos Mortos, serás salvo”. No entanto, não basta confessar a fé da boca para fora. Somos discípulos de Cristo e ele nos convida a seguir seu exemplo e praticar as obras de misericórdia que ele praticou (Gl 5,13-26; cf. Tg 2,14-26).

Aclamação ao Evangelho: Mt 4,4b

Louvor e glória a ti, Senhor, Cristo, Palavra de Deus.

  1. Evangelho: Lc 4,1-13

Jesus, no deserto, era guiado pelo Espírito e foi tentado.

Ao ser batizado por João, Jesus é apresentado pelo Pai como seu Filho: “Tu és o meu Filho amado, de ti em me agrado” (Lc 3,21-22). Logo em seguida, Lucas introduz a genealogia de Jesus. A genealogia de Lucas começa com José e segue em linha ascendente: “Ao iniciar seu ministério, Jesus tinha uns trinta anos, filho, segundo se pensava, de José” (cf. Lc 4,22), passa por Davi, por Abraão e pelos patriarcas, até chegar a Deus: “… (filho) de Enós, de Set, de Adão, (filho) de Deus” (3,23-38). Só então segue a narrativa das tentações sofridas por Jesus, que hoje ouvimos (4,1-11). Jesus é levado ao deserto pelo Espírito Santo, que pousou sobre Ele após o batismo. É o Filho de Deus que se confronta com o tentador. De fato, nas duas primeiras tentações o diabo chama Jesus de Filho de Deus: “Se és Filho de Deus…”

Na 1ª tentação o diabo sugere a Jesus, que estava com fome, que usasse seu poder divino e transformasse pedras em pão. Jesus responde: “A Escritura diz: ‘não só de pão vive o homem”. O Filho de Deus não usa seu poder para ser servido, mas para servir. Jesus não veio para resolver sozinho o problema do pão. No milagre da “multiplicação” dos pães, Jesus não transformou pedras em pão, mas dividiu os cinco pães e dois peixes, trazidos por um menino pobre, e os partilhou com mais de cinco mil pessoas. Esse é o milagre, que Jesus propõe como desafio a todos nós, é possível se nos alimentarmos com a Palavra de Deus e seguirmos o exemplo de partilha dado por Jesus.

Na 2ª tentação o diabo promete entregar a Jesus todo o poder e glória, todas as riquezas e bens deste mundo, com a condição que, prostrado, o adorasse. Novamente Jesus responde com a Escritura: “Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás”. Há muita gente que sucumbe a esta tentação. Coloca as riquezas no lugar de Deus, adora-as e torna-se incapaz de partilhá-las com os necessitados: “Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Lc 16,13). “Onde estiver vosso tesouro, aí também estará o coração” (Mt 6,21). Deus nos criou para amá-lo e servi-lo de todo o coração, para amar e servir ao próximo como a nós mesmos.

Na 3ª tentação o diabo levou Jesus ao Templo, onde os judeus cantavam salmos, serviam e adoravam a Deus. Era o lugar sagrado que Jesus, aos doze anos, chamou de “casa do meu Pai”. Mas o tentador coloca Jesus no ponto mais alto do Templo e diz: “Se és Filho de Deus, atira-te daqui para baixo”. E cita um salmo de confiança: “Deus ordenará aos seus anjos a teu respeito, que te guardem com cuidado”. E Jesus responde: “A Escritura diz: Não tentarás o Senhor teu Deus”. – O Templo, para Jesus, é o lugar de encontro com Deus, e não um palco para dar espetáculo. O Filho de Deus na sua condição divina não veio para suspender as leis da natureza. Ao contrário, assume a natureza humana em Jesus de Nazaré, para tornar-se solidário com os seres humanos, em tudo, menos no pecado (cf. Fl 2,5-11).


Se não vencermos estas tentações, não celebraremos a Páscoa

Frei Clarêncio Neotti

Todos os anos a Igreja abre os domingos da Quaresma com as tentações de Jesus no deserto. Se a Quaresma é um tempo de revisão de vida e de purificação, as três tentações sofridas por Jesus resumem as grandes tentações que a criatura humana sofre ao longo da vida. As mesmas tentações de Adão no paraíso terrestre (Gn 3). Tentações que, se não forem vencidas, nos impedem de celebrar a Páscoa e dela receber os frutos da redenção.

A primeira é a tentação de antepor os bens materiais aos bens espirituais. A luta pela conquista do pão e tudo o que o pão significa pode levar-nos a não nos alimentar da Palavra de Deus e, como consequência, a sermos fracos diante das vicissitudes da vida e a desanimarmos na caminhada da santidade. A segunda é a tentação do poder, acompanhada de sua irmã gêmea, a tentação de dominar, que impedem a vida fraterna e comunitária, fundamental no Reino de Deus. A terceira é a tentação do orgulho, que pode chegar ao ponto de determinar o que Deus pode ou não pode fazer. O orgulhoso é incapaz de um relacionamento com Deus.

Nas três tentações estão incluídas muitas outras. Na primeira, por exemplo, com facilidade, encontramos a gula e a ganância, a avareza, o mau costume da propina e o apego doentio aos bens materiais. A segunda, a do poder, faz-se sempre acompanhar da injustiça e da exploração, da violência e da insensibilidade, da eliminação violenta ou astuta de adversários ou concorrentes, da prepotência e da inveja, do luxo e da aparência. A terceira traz consigo a soberba e a vanglória, a impiedade e a hipocrisia, a arrogância e a blasfêmia, a autossuficiência, o desprezo da graça e a incredulidade. Toda pessoa adulta tem experiência, em maior ou menor grau, dessas tentações. A superação das tentações por parte de Jesus é uma grande lição de comportamento para cada um de nós.


Tentação, deserto, Quaresma

Frei Almir Guimarães

Antes de mais nada, as tentações de Jesus nos ajudam a identificar com mais lucidez e responsabilidade as tentações pelas quais pode passar hoje sua Igreja e nós que a formamos. Como seremos uma Igreja fiel a Jesus se não estamos conscientes das tentações mais perigosas que nos podem desviar hoje de seu projeto e de seu estilo de vida? José Antonio Pagola

>> O primeiro domingo da Quaresma sempre coloca diante de nossos olhos a figura de Jesus sendo tentado no deserto. Esse é o teor do Evangelho de Lucas hoje proclamado. Tentações de Jesus e nossas tentações. A primeira leitura, por sua vez, é uma profissão de fé na bondade de Deus que fez Israel atravessar o deserto e chegar à terra prometida. “Meu pai era um arameu errante que desceu do Egito com um punhado de gente e ali viveu como estrangeiro. Ali se tornou um povo grande, forte e numeroso. Os egípcios nos maltrataram e oprimiram impondo-nos uma dura escravidão”.

>> Houve a libertação. Houve o tempo do deserto. Israel viveu a festa da volta. Deveria percorrer o deserto até chegar o destino. Deserto, no entanto das coisas duras. Falta de água, falta de comida, falta de certeza de que o empreendimento iria dar certo. Infidelidades. Desconfiança de Deus e de Moisés. O povo começa a fabricar um bezerro de ouro e cultuar essa imagem de metal. Não tem paciência de esperar a realização da promessa. Moisés intercede por este povo de cabeça dura. Um povo que irrita o próprio Deus.

>> Na primeira tentação, Jesus recusa de atender à solicitação do diabo de transformar pedras em pão. A pessoa precisa, comer mas nem só pão vive o homem. Na segunda tentação, o inimigo sugere a Jesus o poder. Jesus, por sua vez, quer introduzir os homens num reino de justiça e de amor. A terceira tentação é solicitação para que Jesus provoque a Deus. Que ele se jogasse monte abaixo. Afinal de contas, o Senhor o tomaria pelas mãos. Jesus responde que não se tenta a Deus.

>> Tentações de Jesus, nossas tentações. A satisfação das necessidades materiais não constitui o objetivo de nossa vida. A felicidade última do ser humano não consiste no desfrute e posse dos bens. Homem e mulher vão se tornando humanos quando aprendem a ouvir a Palavra do Pai. O ser humano existe para compartilhar e não possuir, dar e não reter, criar vida e não explorar o irmão.

>> O sentido da vida não é buscar o poder, o mando, a dominação, o êxito pessoal a todo custo. Segundo Jesus, a pessoa acerta quando não busca seu próprio prestigio e poder, na competição e na rivalidade, mas quando é capaz de viver o serviço generoso e desinteressado.

>> Deve-se resistir à tentação de querer milagres e manifestações extraordinárias de Deus a nosso favor. Não se pode tentar a Deus. O problema último da vida não se resolve sem riscos, lutas e esforços. Nada de fazer de Deus um mágico que venha resolver nossos problemas. A verdadeira fé não nos conduz à passividade, a deixar tudo a cargo de um Deus que imaginamos estar à nossa disposição. Quem compreendeu um pouco o que é ser fiel a Deus arrisca-se na luta pela justiça, paz e verdade.

>> A Quaresma é tempo de examinar nossas tentações. Quaresma tempo de arrumar nossa vida. Quais seriam algumas de nossas tentações?

= Em nossa vida, por vezes, temos a tentação de deixar de lado empenhos e expedientes de vivência cristã porque “sentimos” Deus distante, não ouvindo nossos rogos e apelos. Vivemos então na repetição monótona até mesmo de gestos religiosos mas colocados sem alma. Tentação de parar no meio da estrada e sentir saudades das panelas do Egito.

= Estamos por demais envolvidos no mundo dinheiro, do ter, do usufruir as coisas, dos bens, do garantir o futuro, do acúmulo de bens nem sempre necessários. Não precisamos entrar em detalhes: gastança, consumismo, mercado, sofisticação. Seres epidérmicos e superficiais. Sem saudades porque anestesiados pela sociedade do ter.

= Grave tentação é a da indiferença. Não queremos esforçarmo-nos. Que tudo continue girando, o mundo, as pessoas… Esses outros, de perto e de longe, queremos que não nos perturbem. Imersos em nosso mundo pessoal e de pequenos interesses, movimentação incessantemente a telinha do celular, deixamos que as “pessoas se virem”. ApatiA. Inércia.

= Há ainda essa sutil tentação de não enfrentar nosso mistério pessoal, de fazer constantes viagens ao mais profundo de nós mesmos, na auscultação dos desejos mais profundos e com medo de que assim tenhamos que fazer opções que não queremos acolher. Tentação do medo de lançar-se na aventura da vida como Abraão.

= Tentação da intolerância. Tudo muda. Muda o mundo, mudam as pessoas, mudam os comportamentos. Há a tentação de intransigência em todos os níveis: no seio da família, na rejeição de comportamentos diferentes de nosso modo de ver as coisas, tentação do fanatismo religioso que em nome de Deus mata. Necessário se faz criar um clima de diálogo sereno, humilde e respeitoso.

= Nos diferentes níveis da vida e da sociedade há a tentação do poder, da busca do prestígio e da força em detrimento dos outros. Terrível tentação que gera excluídos e suscita ódios pessoais, grupais e nacionais. Sempre de novo os cristãos sabem que precisam andar com uma bacia a lavar os pés das pessoas e enxuga-los com seu carinho.

= Tentação de ter, de lucro e de poder que se manifesta na falta de apreço pela natureza. Desejo de fazer prédios, destruir por causa do agronegócio. Tentação terrível porque somos responsáveis de deixar a casa arrumada para os próximos habitantes.


Texto para reflexão

Saber viver com poucas coisas

O Evangelho é anunciado por aqueles que sabem viver com simplicidade. Homens e mulheres livres que conhecem o prazer de caminhar pela vida sem se sentirem escravos das coisas. Não são os poderosos, os financistas, os tecnocratas, os grandes estrategistas da política que vão construir um mundo mais humano. Esta sociedade precisa descobrir que é preciso votlar a uma vida simples e sóbria. Não basta aumentar a produção e atingir um nível superior de vida. Não é suficiente ganhar mais, comprar cada vez mais coisas, desfrutar de maior bem estar. Esta sociedade precisa como nunca do impacto de homens e mulheres que saibam viver com poucas coisas.

Pagola, Marcos, p. 133


Oração

Perdão, Senhor, porque somos pessimistas
e reparamos quase sempre o negativo.
Perdão, porque somos covardes e logo nos assustamos.
Perdão porque somos autossuficientes
e confiamos só em nossas forças.
Perdão porque somos céticos
e nos custa crer e confiar em ti.
Perdão, porque não olhamos para o futuro,
ocupados e preocupados apenas com o presente.
Perdão, porque nos queixamos de tudo.
Perdão, porque fugimos do esforço
e logo nos cansamos.
Perdão porque queremos tudo já e
não sabemos esperar.


Transformar tudo em pão

José Antonio Pagola

Esta é a nossa grande tentação. Reduzir todo o horizonte de nossa vida à mera satisfação de nossos desejos: empenhar-nos em transformar tudo em pão para satisfazer nossas apetências.

Nossa maior satisfação, e às vezes quase a única, é digerir e consumir produtos, artigos, objetos, espetáculos, livros, televisão. Até o amor ficou transformado frequentemente em mera satisfação sexual.

Corremos a tentação de buscar o prazer para além dos limites da necessidade, inclusive em detrimento da vida e da convivência. Acabamos lutando para satisfazer nossos desejos, mesmo à custa dos outros, provocando a competição e a guerra entre nós.

Enganamo-nos se pensamos que é esse o caminho da libertação e da vida. Não experimentamos nunca, pelo contrário, que a busca exacerbada de prazer leva ao tédio, ao fastio e ao esvaziamento da vida? Não estamos vendo que uma sociedade que cultiva o consumo e a satisfação não faz senão gerar falta de solidariedade, irresponsabilidade e violência?

Esta civilização, que nos “educou” para a busca do prazer fora de toda razão e medida, está precisando de uma mudança de direção que nos possa infundir um novo alento de vida.

Precisamos voltar ao deserto. Aprender de Jesus, que se negou a realizar prodígios por pura utilidade, capricho ou prazer. Escutar a verdade que se encerra em suas inesquecíveis palavras: “Não só de pão vive o ser humano, mas de toda Palavra que sai da boca de Deus”.

Não precisamos libertar-nos de nossa avidez, egoísmo e superficialidade, para despertar em nós o amor e a generosidade? Não precisamos escutar Deus, que nos convida a desfrutar criando solidariedade, amizade e fraternidade?


Treinamento de fé

Pe. Johan Konings

Devidamente desacelerados do Carnaval, celebramos o 1º domingo da Quaresma. Aos mais velhos, “Quaresma” lembra jejum e penitência. Mas Isaías diz que Deus não se alegra com uma cara abatida. Talvez devamos encarar a Quaresma sob outro ângulo: como treinamento da fé. Em que acreditamos, afinal? Por qual convicção colocamos a mão no fogo, resistimos a provações, empenhamos a nossa vida?

Na sua origem, a Quaresma era o tempo de preparação dos catecúmenos para receber o batismo na noite pascal. Neste sentido, a 1ª leitura nos lembra o “credo” que o antigo israelita pronunciava na hora de oferecer os primeiros frutos de sua terra: o povo foi salvo por Deus. A 2ª leitura lembra o credo do cristão (que o batizando com toda a comunidade pronunciava na noite pascal): nossa salvação pela fé em Jesus Cristo. O evangelho mostra este credo em ação: Jesus dá o exemplo de adoração exclusiva a Deus. Jesus foi posto à prova. O diabo lhe sugeriu que transformasse pedras em pão, dominasse o mundo, deslumbrasse o povo … Mas Jesus preferiu fazer de sua vida um grande ato de adoração a Deus. E o diabo o deixou até a hora da grande provação – a hora da paixão e morte.

A Quaresma é uma subida à Páscoa, como os israelitas subiam a Jerusalém para oferecer suas ofertas e como Jesus subiu para oferecer sua vida. Nossa subida à Páscoa está sob o signo da provação e comprovação de nossa fé. Encaminhamo-nos para a grande renovação de nossa opção de fé. Se, nos primeiros tempos da Igreja, a Quaresma era preparação para o batismo e a profissão de fé, para nós é caminhada de aprofundamento e renovação de nossa fé. Pois uma fé que não passa por nenhuma prova e não vence nenhuma tentação pode se tomar acomodada, morta. Ora, a renovação de nossa opção de fé não acontece na base de algum exercício piedoso ou cursinho teórico. É uma luta, como foi a tentação de Jesus no deserto, ao longo de quarenta dias. A fé se confirma e se aprofunda em sucessivas decisões, como as de Jesus, quando resistia com firmeza e perspicácia às tentações mais sutis: riqueza, poder, sucesso.

Precisamos de treinamento em nossa opção por Deus. Antigamente, esse treinamento consistia no jejum, na mortificação corporal. Mas em nossa situação da América Latina, empobrecida e desigual, o treinamento da opção da fé se realiza sobretudo na sempre renovada opção pelos pobres e excluídos, no adestramento para a solidariedade cristã. A Campanha da Fraternidade nos treina para colocar nossa fé em prática. Adestra-nos para enfrentar os demônios de hoje, a tentação da idolatria da riqueza, da dominação, da discriminação, da competição. Exercitamos a nossa opção de fé, praticando-a na solidariedade fraterna, para, com Jesus, chegar à doação da própria vida, na hora da grande prova. Quem não se exercitar, talvez não saberá resistir.

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