Destaque, Notícias › 17/08/2018

20º Domingo do Tempo Comum

Quem deseja subir deve ter a disposição de descer à radicalidade do serviço

Frei Gustavo Medella

As Igrejas do Oriente celebram o Mistério da Assunção como “Dormição de Maria”. Maria dorme o sono de Mãe. Um sono atento e preocupado, pronto para ser interrompido diante da menor necessidade de qualquer um dos filhos e filhas. Sono de quem adormece com um olho aberto sem se descuidar por um instante daqueles que estão sob sua responsabilidade. Assunta ao Céu e posta junto a seu Filho na Glória, Maria permanece na eternidade exatamente o que foi em vida: simples, próxima, disposta e disponível, como se demonstrou diante da necessidade inesperada de sua prima Isabel, grávida já em idade avançada.

Maria da Assunção é a Maria do Sim generoso ao Anjo Gabriel, colocando sua juventude a serviço do Plano de Deus. É a Maria do Magnificat que profetiza a ação de Deus em favor dos fracos e pequenos. É a Maria do dia a dia simples da casa modesta na humilde Vila de Nazaré. É a Mãe intercessora junto às Bodas de Caná, sabedoria que, enquanto Jesus estiver presente, a festa – sinal da vida, da esperança e dos sonhos – não pode e não vai acabar. A Senhora da Glória é a Mãe do Calvário em seu silêncio sofrido e solidário a todos que carregam as pesadas cruzes da injustiça, da doença, da tristeza, da exclusão.

Maria Assunta é a Mãe que apresenta o caminho para o Céu, fiel às lições de seu Filho: quem deseja subir deve ter a disposição de descer à radicalidade do serviço e da entrega, percorrendo a trilha do Lava-Pés. Na Solenidade da Assunção, peçamos à Mãe do Céu que guie nossos passos aqui na terra e ajude-nos a sermos fiéis aos propósitos de seu Filho.

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Leituras deste 20º Domingo do TC

Primeira Leitura (Ap 11,19a;12,1.3-6a.10ab)

Leitura do Livro do Apocalipse de São João:

19a Abriu-se o Templo de Deus que está no céu e apareceu no Templo a Arca da Aliança. 12,1Então apareceu no céu um grande sinal: uma Mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas.

3 Então apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão, cor de fogo. Tinha sete cabeças e dez chifres e, sobre as cabeças, sete coroas. 4Com a cauda, varria a terça parte das estrelas do céu, atirando-as sobre a terra. O Dragão parou diante da Mulher, que estava para dar à luz, pronto para devorar o seu Filho, logo que nascesse. 5E ela deu à luz um filho homem, que veio para governar todas as nações com cetro de ferro. Mas o Filho foi levado para junto de Deus e do seu trono. 6aA mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um lugar.

10ab Ouvi então uma voz forte no céu, proclamando: “Agora realizou-se a salvação, a força e a realeza do nosso Deus, e o poder do seu Cristo”.


Responsório (Sl 44)

— À vossa direita se encontra a rainha, com veste esplendente de ouro de Ofir.
— À vossa direita se encontra a rainha, com veste esplendente de ouro de Ofir.
— As filhas de reis vêm ao vosso encontro,/ e à vossa direita se encontra a rainha/ com veste esplendente de ouro de Ofir.
— Escutai, minha filha, olhai, ouvi isto:/ “Esquecei vosso povo e a casa paterna!/ Que o Rei se encante com vossa beleza!/ Prestai-lhe homenagem: é vosso Senhor!
— Entre cantos de festa e com grande alegria,/ ingressam, então, no palácio real”.


Segunda Leitura (1Cor 15,20-27a)

Leitura da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios:

Irmãos: 20Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram. 21Com efeito, por um homem veio a morte e é também por um homem que vem a ressurreição dos mortos. 22Como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão. 23Porém, cada qual segundo uma ordem determinada: Em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda.

24A seguir, será o fim, quando ele entregar a realeza a Deus-Pai, depois de destruir todo principado e todo poder e força. 25Pois é preciso que ele reine até que todos os seus inimigos estejam debaixo de seus pés. 26O último inimigo a ser destruído é a morte. 27aCom efeito, “Deus pôs tudo debaixo de seus pés”.


João aponta o Messias

Evangelho: Lc 1, 39-56

* 39 Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, às pressas, a uma cidade da Judéia. 40 Entrou na casa de Zacarias, e saudou Isabel. 41 Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança se agitou no seu ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. 42 Com um grande grito exclamou: «Você é bendita entre as mulheres, e é bendito o fruto do seu ventre! 43 Como posso merecer que a mãe do meu Senhor venha me visitar? 44 Logo que a sua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança saltou de alegria no meu ventre. 45 Bem-aventurada aquela que acreditou, porque vai acontecer o que o Senhor lhe prometeu.»

* 46 Então Maria disse: «Minha alma proclama a grandeza do Senhor, 47 meu espírito se alegra em Deus, meu salvador, 48 porque olhou para a humilhação de sua serva. Doravante todas as gerações me felicitarão, 49 porque o Todo-poderoso realizou grandes obras em meu favor: seu nome é santo, 50 e sua misericórdia chega aos que o temem, de geração em geração. 51 Ele realiza proezas com seu braço: dispersa os soberbos de coração, 52 derruba do trono os poderosos e eleva os humildes; 53 aos famintos enche de bens, e despede os ricos de mãos vazias. 54 Socorre Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, 55 – conforme prometera aos nossos pais – em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre.» 56 Maria ficou três meses com Isabel; e depois voltou para casa.


* 39-45: Ainda no seio de sua mãe, João Batista recebe o Espírito prometido (1,15). Reconhece o Messias e o aponta através da exclamação de sua mãe Isabel.

* 46-56: O cântico de Maria é o cântico dos pobres que reconhecem a vinda de Deus para libertá-los através de Jesus. Cumprindo a promessa, Deus assume o partido dos pobres, e realiza uma transformação na história, invertendo a ordem social: os ricos e poderosos são depostos e despojados, e os pobres e oprimidos são libertos e assumem a direção dessa nova história.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Assunção de Nossa Senhora ao Céu

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, que elevastes à glória do céu em corpo e alma a imaculada Virgem Maria, Mãe do vosso Filho, dai-nos viver atentos às coisas do alto, a fim de participarmos da sua glória”.

1. Primeira leitura: Ap 11,19a; 12,1.3-6ab.10ab

Uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés.

O texto que ouvimos utiliza uma linguagem simbólica, de tipo apocalíptico, linguagem apropriada para revelar o agir de Deus na história do seu povo. O templo que se abre não é mais o segundo templo de Jerusalém, reconstruído após o exílio, mas é o templo escatológico, do fim dos tempos. A antiga arca da aliança, guardada no templo, marcava a presença do Deus que libertou seu povo da escravidão do Egito. Lembrava também a aliança que Deus fez com Israel no monte Sinai. A arca desapareceu quando Jerusalém foi destruída pelos babilônios. Segundo a lenda, a arca foi escondida numa caverna pelo profeta Jeremias, para ser reapresentada “quando de novo Deus for propício e reunir a comunidade” (2Mc 2,5-8). Segundo o vidente do Apocalipse, a arca da aliança reaparecerá no Templo da nova Jerusalém, substituindo a antiga aliança pela nova e definitiva aliança com Deus (Ap 21,1-4). A mulher com a coroa de doze estrelas simboliza o povo de Israel do qual nasceu o Messias, e também Maria, a mãe do Messias. A criança (Messias) recém-nascida, ameaçada pelo dragão, representa a Igreja perseguida. O dragão/serpente é o mesmo dragão cuja cabeça a primeira Eva haveria de esmagar (cf. Gn 3,15) e, de fato, esmagou por Maria Mãe de Jesus, o qual nos trouxe a salvação (Ap 12,10).

Trata-se de um texto cheio de esperança para a comunidade cristã perseguida, no tempo do vidente João. Maria assunta ao céu resume em si toda a certeza do triunfo e da glória do povo de Deus. O dragão ameaça a criança recém-nascida, isto é, a vida da jovem comunidade cristã. No Evangelho, Isabel e Maria geram a vida que renova e traz salvação para a comunidade. Hoje, o dragão ameaçador é o capitalismo consumista, que devora as riquezas de nossa “casa” comum. Ameaça não só a humanidade, mas a própria vida do planeta Terra. Que a Virgem Maria, Assunta ao Céu, nos proteja e nos ajude a esmagar a cabeça do dragão, símbolo das forças do mal.

Salmo responsorial: Sl 44(45)

À vossa direita se encontra a rainha,
com veste esplendente de ouro de Ofir.

2. Segunda leitura: 1Cor 15,20-27a

Cristo, como primícias; depois os que pertencem a Cristo.

Paulo nos diz que a ressurreição dos mortos acontece numa ordem de sequência, onde Cristo é o primeiro dos ressuscitados e garantia de nossa futura ressurreição: “Em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda”. Ninguém melhor do que Maria pertence ao seu Filho. A fé nos diz que em Maria já se realizou esta ressurreição, que todos nós esperamos, quando morrermos. Então, “o último inimigo a ser vencido será a morte” (1Cor 15,26).

Aclamação ao Evangelho

Maria é elevada ao céu,
alegram-se os coros dos anjos.

3. Evangelho: Lc 1,39-56

O Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor:
elevou os humildes.

O Cântico de Maria revela a pedagogia de Deus: Deus opera “grandes coisas”, isto é, a obra de nossa salvação, através da humildade de Maria, a serva do Senhor. No encontro das duas mães, Maria e Isabel, encontram-se também as crianças, João Batista (o Precursor) e Jesus (o Salvador prometido). Pela saudação de Maria comunicam-se as mães. Mas o louvor de Isabel a Maria – aquela “que acreditou” – brota do reconhecimento prévio da presença do Messias Jesus pelo seu filho João. No seio de Isabel o filho se agita, dá o alarme e, cheia de alegria, ela exclama: “Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?” É o encontro do tempo da promessa, que termina com João Batista, com o tempo da realização da promessa, que se inicia com Jesus. Torna-se verdadeiro o que diz o salmo: “Da boca das criancinhas tiraste o teu louvor” (Sl 8,3). De fato, Isabel louva Maria e Maria põe-se a louvar o Senhor, que fez grandes coisas nela e por meio dela, ao gerar em seu seio o Salvador do mundo. Assim se manifesta o amor misericordioso de Deus, para Israel, seu povo, e para toda a humanidade. Maria é Assunta ao céu. Maria que em sua vida colocou-se a serviço de Deus; por obra do Espírito Santo acolheu em seu ventre o Filho de Deus e tornou-se a serva do Senhor. Ao final de sua vida foi definitivamente atraída/assumida por Deus: “Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus” (1Cor 3,22-23). Na Solenidade da Assunção de Maria ao Céu, o louvor de Maria torna-se o nosso louvor. “Terminado o curso de sua vida terrena”, Maria foi assunta em corpo e alma ao Céu significa que nela já se realizou de modo absoluto a vida em Deus. Pois “a morte liberta a semente de ressurreição que se esconde dentro da vida mortal”. Para nós, a Assunção significa que aquilo que “Maria vive agora, no corpo e na alma, é o que nós iremos também viver quando morrermos e formos ao céu” (L. Boff).

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Exulto em Deus, meu Salvador

Frei Clarêncio Neotti

Os Evangelhos, sobretudo o de Marcos, descrevem uma longa caminhada de Jesus, desde o norte da Palestina até Jerusalém. Mas não é a geografia e o tempo que contam, e, sim, outra caminhada: a que deve fazer todo o discípulo, ajudado pelos ensinamentos novos de Jesus. Trata-se de um verdadeiro caminho de fé, de uma lenta passagem do homem carnal ao homem espiritual (Gl 5,16-25). Também a Liturgia de hoje traz a viagem como símbolo: Maria parte de Nazaré, desce ao longo do rio Jordão e sobe as montanhas de Judá até Ain Karem, onde moravam Zacarias e Isabel, pais de João Batista. Na casa de Isabel canta o Magnificat, o hino da encarnação, o hino do agradecimento, o hino do cumprimento das promessas.

Chamei a viagem de símbolo. Não que ela não tivesse acontecido. Mas por mostrar muito bem uma outra viagem que celebramos hoje. Maria, que saiu de si mesma, renunciou a seus interesses para servir com exclusividade o mistério de Cristo; desceu, durante a vida, às baixuras da humanidade pecadora, fazendo-se, como seu Filho, solidária com os irmãos (Hb 2,17), assumindo a condição de serva, humilhando-se em tudo (Fl 2,7-8); depois subiu com ele a noite do Calvário, alcançou a manhã solar da Ressurreição; da Páscoa subiu aos céus, cantando uma segunda vez o Magnificat, para agradecer a glorificação da humildade e da pequenez, a vitória sobre a morte, as grandes coisas operadas por Deus em benefício seu e da humanidade.

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A Senhora da Glória

Frei Almir Guimarães

Hoje a Virgem Maria, Mãe de Deus,
foi elevada à glória do céu.
Aurora e esplendor da Igreja triunfante,
ela é consolo e esperança para o povo
ainda em caminho,
pois preservaste da corrupção da morte,
aquela que gerou de modo inefável,
vosso próprio Filho feito homem,
autor de toda a vida.

Prefácio da solenidade da Assunção

Nossa viagem no tempo

Nossa vida pode se comparar a uma viagem através do tempo. Entre o nascer e o morrer atravessamos planícies, escalamos montanhas, andamos com facilidade ou precisamos de apoios. Vamos colocando gestos, pensamentos e ações. E tudo passa. Não conseguimos reter essa sucessão de coisas, de estados interiores, esse incessante fluir. Tudo tem o perfume da caducidade.

Vamos modelando nosso rosto interior ao longo do tempo que passa. Não somos seus proprietários. O Senhor é o dono do tempo. Tudo passa. Há tempo para tudo, como diz o Eclesiastes: tempo para rir e para chorar, para trabalhar e descansar, tempo para viver e morrer.

A impressão que temos é que há tempos fortes e vigorosos que, de alguma forma, deixam marcas para sempre. Pensamos nas boas ações feitas no tempo. Há, de outro lado, o tempo das coisas mortas. Fica, de alguma forma, o bem que foi feito. Terrível pensar nesses tempos vazios, tempo em que nos ocupamos demais de nós mesmos, esquecemos o Senhor, tempo marcado pelo pecado.

Uma existência sem tempos mortos

Hoje, solenidade da Assunção de Maria, a cheia de graça, o tabernáculo do Senhor, a mãe da divina graça, comemoramos o tempo de Maria que se transformou em eternidade. Vivera ela também sob o signo do efêmero e o transitório.  Vicissitudes, vida de menina moça, a promessa de casamento, o anúncio da chegada do Menino, sua trajetória. Nasce num cantinho da Palestina: cuidado com o pão cotidiano, ramalhete de preocupações e de sofrimentos, buquê de alegrias, horas cinzentas e momentos doloridos como todos vivemos.

Nesse caminhar, por graça de Deus, Maria não conheceu a tragédia do pecado, dessa fissura interior, desse desejo de fazer o bem e, na realidade, fazer o mal. Maria não conheceu a tragédia do pecado. Nada teve Maria de que se arrepender, de renegar qualquer coisa de seu passado. Quando terminou sua carreira estava pronta para entrar na glória. Não  conheceu tempos mortos.

Fixando nosso olhar nessa mulher agraciada vemos aquela na qual o Senhor opera maravilhas, uma fiel serva do Senhor que levava para o fundo do coração, aquela que uniu sua história com a história de Jesus no alto do monte do Gólgota. A Igreja nos ensinou que, ao entrar no mundo, ela não conheceu a desgraça do pecado. Pura em todo o seu ser por privilégio. Elevada à glória depois da caminhada.

Maria é a porteira da glória. Está nos espaços espirituais que chamamos de céu, de glória, por isso seu nome é Maria da Glória, Maria do face a face eterno. Nós que não fomos privados do pecado, mas resgatados pela paixão, morte e ressurreição de Jesus também nos destinamos a pátria… Por graça de Deus nosso tempo vai ganhando características de para sempre.

Na Constituição Apostólica que declarou o dogma da Assunção de Maria (1° de novembro de 1950), o então Papa Pio XII cita São João Damasceno: “Convinha que aquela que guardara ilesa a virgindade no parto, conservasse seu corpo, mesmo depois da morte, imune de toda corrupção. Convinha que aquela que trouxera no seio o Criador como criancinha fosse morar nos tabernáculos divino dos céus. Convinha que, tendo demorado o olhar em seu Filho na cruz e recebido  no peito a espada da dor, ausente no parto, o contemplasse assentado junto do Pai. Convinha que a Mãe de Deus possuísse tudo o que pertence ao Filho e fosse venerada como mãe e serva de Deus”.

Nesse mesmo documento o Papa Pio XII: “Por conseguinte, desde toda a eternidade unida misteriosamente a Jesus Cristo, pelo mesmo desígnio de predestinação, a augusta Mãe de Deus, imaculada na concepção, virgem inteiramente intacta na divina maternidade, generosa companheira do divino Redentor, que obteve pleno triunfo sobre o pecado e suas consequências, ela alcançou ser guarda imune da corrupção do sepulcro, como suprema coroa dos seus privilégios. Semelhantemente a seu Filho, uma vez vencida a morte, foi levada em corpo e alma à pátria celeste, onde, rainha, refulge  à direita de seu Filho o imortal rei dos séculos”.

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Maria, modelo de Igreja

José Antonio Pagola

No começo de seu evangelho, Lucas nos apresenta Maria acolhendo com alegria o Filho de Deus em seu seio. Como enfatizou o Concílio Vaticano II, Maria é modelo para a Igreja. Dela podemos aprender a ser mais fiéis a Jesus e ao seu Evangelho. Quais podem ser as características de uma Igreja mais mariana em nossos dias?

Uma Igreja que fomenta a “ternura maternal” para com todos os seus filhos e filhas, promovendo o calor humano em suas relações. Uma Igreja de braços abertos, que não rejeita nem condena, mas acolhe e encontra um lugar adequado para cada um.

Uma Igreja que, como Maria, proclama com alegria a grandeza de Deus e sua misericórdia também para com as gerações atuais e futuras. Uma Igreja que se transforma em sinal de esperança por sua capacidade de transmitir vida.

Uma Igreja que sabe dizer “sim” a Deus sem saber muito bem para onde a levará sua obediência. Uma Igreja que não tem respostas para tudo, mas que busca com confiança a verdade e o amor, aberta ao diálogo com os que não se fecham ao bem.

Uma Igreja humilde como Maria, sempre à escuta de seu Senhor. Uma Igreja mais preocupada em comunicar o Evangelho de Jesus do que em ter tudo bem definido.

Uma Igreja do Magnificat, que não se compraz nos soberbos, nos poderosos e nos ricos deste mundo, mas que procura pão e dignidade para os pobres e famintos da Terra, sabendo que Deus está do seu lado.

Uma Igreja atenta ao sofrimento de todo ser humano, que sabe, como Maria, esquecer-se de si mesma e “andar depressa” para estar perto de quem precisa de ajuda. Uma Igreja preocupada com a felicidade dos que “não têm vinho” para celebrar a vida. Uma Igreja que anuncia a hora da mulher e promove com prazer sua dignidade, responsabilidade e criatividade feminina.

Uma Igreja contemplativa que sabe “guardar e meditar em seu coração” o mistério de Deus encarnado em Jesus, para transmiti-lo como experiência viva. Uma Igreja que crê, ora, sofre e espera a salvação de Deus anunciando com humildade a vitória final do amor.

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Magnificat: a mãe gloriosa e a grandeza dos pobres

Pe. Johan Konings

Em 1950, o Papa Pio XII definiu a Assunção de Maria como dogma, ou seja, como ponto referencial de sua fé. Maria, no fim de sua vida, foi acolhida por Deus no céu “com corpo e alma”, ou seja, coroada plena e definitivamente com a glória que Deus preparou para os seus santos. Assim como ela foi a primeira a servir Cristo na fé, ela é a primeira a participar na plenitude de sua glória, a “perfeitissimamente redimida”. Maria foi acolhida completamente no céu porque ela acolheu o Céu nela – inseparavelmente.

O evangelho de hoje é o Magnificat de Maria, resumo da obra de Deus com ela e em torno dela. Humilde serva – nem tinha sequer o status de mulher casada -, ela foi “exaltada” por Deus, para ser mãe do Salvador e participar de sua glória, pois o amor verdadeiro une para sempre. Sua grandeza não vem do valor que a sociedade lhe confere, mas da maravilha que Deus opera nela. Um diálogo de amor entre Deus e a moça de Nazaré: ao convite de Deus responde o “sim” de Maria, e à doação de Maria na maternidade e no seguimento de Jesus, responde o grande “sim” de Deus, a glorificação de sua serva. Em Maria, Deus tem espaço para operar maravilhas. Em compensação, os que estão cheios de si mesmos não deixam Deus agir e, por isso, são despedidos de mãos vazias, pelo menos no que diz respeito às coisas de Deus. O filho de Maria coloca na sombra os poderosos deste mundo, pois enquanto estes oprimem, ele salva de verdade.

Essa maravilha, só é possível porque Maria não está cheia de si mesma, como os que confiam no seu dinheiro e seu status. Ela é serva, está a serviço – como costumam fazer os pobres – e, por isso, sabe colaborar com as maravilhas de Deus. Sabe doar-se, entregar-se àquilo que é maior que sua própria pessoa. A grandeza do pobre é que ele se dispõe para ser servo de Deus, superando todas as servidões humanas. Mas, para que seu serviço seja grandeza, tem que saber decidir a quem serve: a Deus ou aos que se arrogam injustamente o poder sobre seus semelhantes. Consciente de sua opção, o pobre realizará coisas que os ricos, presos na sua autossuficiência, não realizam: a radical doação aos outros, a simplicidade, a generosidade sem cálculo, a solidariedade, a criação de um homem novo para um mundo novo, um mundo de Deus.

A vida de Maria, a “serva”, assemelha-se à do “servo”, Jesus, “exaltado” por Deus por causa de sua fidelidade até a morte (Fl 2,6-11). O amor torna semelhantes as pessoas. Também a glória. Em Maria realiza-se, desde o fim de sua vida na terra, o que Paulo descreve na 2ª leitura: a entrada dos que pertencem a Cristo na vida gloriosa do pai, uma vez que o Filho venceu a morte.

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