Destaque, Notícias › 30/08/2018

22º Domingo do Tempo Comum

Meta do cristão é eliminar qualquer sinal de idolatria

Frei Gustavo Medella

“Pois, qual é a grande nação cujos deuses lhe são tão próximos, como o Senhor nosso Deus, sempre que o invocamos?” (Dt 4,7). O Pai apresentado por Jesus Cristo é Deus que caminha junto a seus filhos e filhas. Uma proximidade cheia de cuidado, empatia e compaixão. Em Cristo, o Senhor experimenta a dor e a luta dos seus e, solidário, empreende todos os esforços para salvá-los, para trazê-los de volta à vida, para guardá-los em sua dignidade inviolável. Encarna-se num amor absoluto capaz de transpor todas as barreiras para chegar ao profundo do coração humano. Este é o modo de ser do verdadeiro Deus.

O ídolo, biblicamente apontado como o deus falso, o deus da morte, não tem nenhum comprometimento com aqueles que o idolatram. Quando se aproxima, é apenas para manter-se no estado de dominação e superioridade que conquistou à custa do suor e do sangue de muitos. E a idolatria mais presente e destrutiva no mundo atual – arriscaria mencionar – é a que se põe a idolatrar o deus-dinheiro, onipresente na divindade denominada “mercado”, portadora de uma lógica numericamente fundamentada mas humanamente devastadora. Seus sacerdotes, a serviço do interesse daqueles que possuem milhões de vezes mais do que necessitam para viver, criam raciocínios tão sofisticados que iludem até mesmo os que são explorados e aviltados em seus direitos a fim de manter intactos os privilégios da alta cúpula consagrada a este deus.

Suas armadilhas são tão sutis e bem disfarçadas que arrancam aplausos daqueles que entram no pacto na hora de fazer o bolo crescer, mas são esquecidos no momento de repartir a massa inchada e disforme de um sistema que reiteradamente se mostra injusto e assassino. E mata mesmo!

1) Mata quando monetariza as relações em torno de serviços básicos como a educação, a saúde e a segurança, deixando entregue à própria sorte quem não teve a sorte de juntar grana suficiente para ter acesso ao que lhe é de direito.

2) Mata quando aprisiona e castiga pobres e carentes e deixa livre os grandes assaltantes dons bens públicos que podem pagar os melhores advogados.

3) Mata quando adota um discurso pautado na força e na violência para resolver problemas que têm em sua gênese o escândalo da injustiça social.

4) Mata quando vira as costas para crianças e jovens da periferia que desde muito cedo aprendem a lidar com muitos NÃOS em relação às suas necessidades fundamentais.

No Evangelho, Jesus instrui os seus discípulos a romperem com a hipocrisia de achar que a solução dos problemas humanos passa por um combate ingênuo e superficial entre quem é do bem e quem é do mal. A questão é muito mais profunda e deve começar numa conversão pessoal que nasce das entranhas de cada um a vencer, primeiro em si, todas as tentações a que os ídolos convocam os seus adoradores (confira a lista destas tentações em Mc 7,21-22). O desejo e a meta do cristão é converter-se ao Deus da Vida, mantendo bem longe de si qualquer vestígio ou sinal de idolatria, especialmente ao deus-dinheiro.

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Leituras deste 22º Domingo do TC

Primeira Leitura (Dt 4,1-2.6-8)

Leitura do Livro do Deuteronômio:

1Moisés falou ao povo, dizendo: “Agora, Israel, ouve as leis e os decretos que eu vos ensino a cumprir, para que, fazendo-o, vivais e entreis na posse da terra prometida pelo Senhor Deus de vossos pais.

2Nada acrescenteis, nada tireis à palavra que vos digo, mas guardai os mandamentos do Senhor, vosso Deus, que vos prescrevo.

6Vós os guardareis, pois, e os poreis em prática, porque neles está vossa sabedoria e inteligência perante os povos, para que, ouvindo todas estas leis, digam: ‘Na verdade, é sábia e inteligente esta grande nação!’ 7Pois, qual é a grande nação cujos deuses lhe são tão próximos, como o Senhor nosso Deus, sempre que o invocamos? 8E que nação haverá tão grande que tenha leis e decretos tão justos, como esta lei que hoje vos ponho diante dos olhos?”


Responsório (Sl 14)

— Senhor, quem morará em vossa casa e no vosso monte santo habitará?
— Senhor, quem morará em vossa casa e no vosso monte santo habitará?
— É aquele que caminha sem pecado/ e pratica a justiça fielmente;/ que pensa a verdade no seu íntimo/ e não solta em calúnias sua língua.
— Que em nada prejudica o seu irmão,/ nem cobre de insultos seu vizinho;/ que não dá valor algum ao homem ímpio,/ mas honra os que respeitam o Senhor.
— Não empresta o seu dinheiro com usura,/ nem se deixa subornar contra o inocente./ Jamais vacilará quem vive assim!


Segunda Leitura (Tg 1,17-18.21b-22.27)

Leitura da Carta de São Tiago:

Irmãos bem-amados: 17Todo dom precioso e toda dádiva perfeita vêm do alto; descem do Pai das luzes, no qual não há mudança nem sombra de variação. 18De livre vontade ele nos gerou, pela Palavra da verdade, a fim de sermos como que as primícias de suas criaturas.

21bRecebei com humildade a Palavra que em vós foi implantada, e que é capaz de salvar as vossas almas. 22Todavia, sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. 27Com efeito, a religião pura e sem mancha diante de Deus Pai é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo.

22º Domingo do Tempo Comum, ano B

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Deus do universo, fonte de todo bem, derramai em nossos corações o vosso amor e estreitai os laços que nos unem convosco para alimentar em nós o que é bom e guardar com solicitude o que nos destes”.

1. Primeira leitura: Dt 4,1-2.6-8

Nada acrescenteis à palavra que vos digo,
mas guardai os mandamentos do Senhor.

O texto que ouvimos foi escrito quando Israel estava no exílio da Babilônia. O povo havia perdido a terra prometida, não tinha mais o culto no templo de Jerusalém. Apesar de viverem no meio de “um povo de fala estranha e língua pesada” (Ez 3,5), era grande a tentação de adorar os deuses locais e abandonar o Deus libertador do Egito. Mas havia a lei da Aliança (Ex 20,1–23,19), reapresentada no livro do Deuteronômio, que, mesmo no exílio, podia conservar a unidade e identidade de Israel. Israel deve cumprir as leis e decretos que Moisés ensina para ser abençoado e poder viver em paz na sua terra. Por isso, a exaltação da Lei de Moisés. Se os babilônios e outros povos têm sua sabedoria e suas leis, Israel tem uma sabedoria superior, porque vem de Deus. São leis que garantem a liberdade, a unidade e a paz para o povo. A Lei do Senhor é como o sol, que “ilumina os olhos” e mostra o caminho a seguir para ser feliz (cf. Sl 19).

Salmo responsorial: Sl 14

Senhor, quem morará em vossa casa
e no vosso monte santo habitará?

2. Segunda leitura: Tg 1,17-18.21b-22.27

Sede praticantes da Palavra.

Tiago faz uma bela exortação aos cristãos de seu tempo, que continua válida em nossos dias. Lembra que tudo é graça, é dom de Deus, o “Pai das luzes. Pela Palavra da verdade ele nos gerou, pelo batismo, para a vida de filhos e filhas de Deus. Esta Palavra é a fé em Jesus Cristo e a mensagem do Evangelho, que em nós “foi implantada”. A Palavra foi implantada para ser cultivada, colocada em prática e produzir frutos. Por isso, o Apóstolo nos convida: “Sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes”. A religião cristã autêntica, que agrada a Deus Pai, são os bons frutos que ela produz: evitar a contaminação pelo mundo e cuidar com amor dos pobres e sofredores, expressado no amor aos órfãos e viúvas.

Aclamação ao Evangelho

Deus, nosso Pai, nesse seu imenso amor,
foi quem gerou-nos com a palavra da verdade,
nós, as primícias do seu gesto criador!

2. Evangelho: Mc 7,1-8.14-15.21-23

Vós abandonais o mandamento de Deus
para seguir a tradição dos homens.

Deus deu os mandamentos e as leis para um povo libertado da escravidão do Egito. Praticando o que as leis prescreviam Israel mostrava a fidelidade e o amor ao Deus que o escolheu como seu povo: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o coração, com toda a alma, com todas as forças. E trarás no teu coração todas estas palavras que hoje te ordeno” (Dt 6,5-6). No tempo de Jesus, porém, os mestres da lei multiplicaram as interpretações da lei, chegando a formular 613 preceitos, muitos deles relacionados com “pureza” e “impureza”, sobretudo, de caráter cultual. Os fariseus consideravam-se modelos da fiel observância destes preceitos. Eles eram os “puros” e desprezavam os trabalhadores da roça, os saduceus, os samaritanos e os pagãos, considerados todos impuros. Os fariseus e mestres da Lei vieram de Jerusalém para fiscalizar a não observância da ”tradição dos antigos”, por parte de Jesus e seus discípulos: “Por que os teus discípulos não seguem a tradição dos antigos, mas comem o pão sem lavar as mãos?” Na resposta Jesus os acusa de praticarem uma falsa religiãobaseada em preceitos humanos, que os afasta de Deus. Eles abandonam o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens. Para Jesus, a pureza vem do coração humano sincero: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8). Estes, sim, estão próximos de Deus. Longe de Deus estão os que planejam todo tipo de maldade em seu coração e a põem em prática. É por isso que Jesus cita Isaías: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”. Este princípio valia na antiga aliança e vale para quem segue a Jesus: “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’, entrará no reino dos Céus, mas quem fizer a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21).

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A oração passa pelo coração

Frei Clarêncio Neotti

Marcos não escreve o Sermão da Montanha, como o fizeram Lucas (6, 17-49) e, sobretudo, Mateus (5, 6 e 7). Mas, no Evangelho de hoje, transmite uma regra básica de moral, que bem pode substituir os ensinamentos do Sermão da Montanha: Jesus, grande conhecedor do coração humano, diz-nos que a consciência (o coração) é a raiz, a fonte e o fator decisivo das boas ou más ações da criatura humana. A oração mecânica, apenas dita com os lábios, é insuficiente. É preciso que se reze com o coração, isto é, com a participação de todo o nosso ser.

Os que cumprem as leis e os preceitos apenas em sua parte externa, formal, não louvam a Deus. Também não louva a Deus quem cumpre todas as leis no que elas têm de externo, mas não tira a maldade de seu coração. O pior de todos, porém, é aquele que não sabe, ou finge não saber, distinguir o bem e o mal. O Novo Testamento não estará sob o guarda-chuva da lei, mas sob o guarda-sol do amor.

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Não basta honrar o Senhor com os lábios

Frei Almir Guimarães

Com efeito, a religião pura e sem mancha diante de Deus Pai é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e não se deixar contaminar pelo mundo  (Tiago 1,27).

Sim, certamente é grande ilusão querer louvar e honrar o Senhor apenas com os lábios. É preciso que brote um suspiro de alegria, reconhecimento e súplica do fundo de nós mesmos.  As aparências podem enganar. O hábito não faz o monge. Não basta apenas que as pessoas individualmente sejam transparentes. O seu conjunto precisa fazer vibrar a mesma corda. Para ser digna de crédito, a Igreja tomada em seu todo, precisará ter um coração aberto para o Senhor. Tiago lembra que a religião pura é cuidar do que é frágil como as viúvas e os órfãos.  Em suma, os cristãos na Igreja, não poderão se contaminar com a mentalidade do mundo. Talvez o apóstolo Tiago esteja simplificando demais as coisas quando afirma em sua carta que a religião pura consiste apenas em socorrer órfãos e viúvas. Quem sabe ela seja um pouco mais. Tem toda razão, no entanto, quando afirma que se trata de não se conformar com a mentalidade do mundo. Quer que os sentimentos e comportamentos brotem do mais íntimo de cada um iluminados pelas exigências do Evangelho. Coerência e sinceridade.

Somos pessoas (e cristãos) que queremos acertar. Temos vontade de que nosso rosto exterior corresponda ao nosso semblante interior.  Buscamos coerência. Quando não a alcançamos podemos mesmo sentir uma sensação de desconforto  interior. Há, no entanto, gestos concretos que não correspondem à verdade de nós mesmos.  Jesus, no evangelho deste domingo, procura denunciar como falsos certos procedimentos e comportamentos, tradições e observâncias: na volta do mercado lavar as mãos, tomar banho, lavar copos jarros, vasilhas de cobre… tradições humanas.   Tudo bem.  São costumes humanos. Será que isto é que conta?  Os religiosos da época foram inventando normas que colocaram como sendo vontade de Deus, como critérios absolutos de sua vida. Eles e nós deixamos de ouvir a voz de Deus em nossa consciência  e passamos a viver uma religião de ritos, que não parte da verdade interior.

Jesus costumava denunciar com audácia os perigos de uma religião por demais exteriorizada.  Sua especialidade era a busca ferrenha da vontade de Deus. Denunciava o escândalo de uma religião sem Deus, vazia de Deus e o pecado de transformar observâncias humanas  a serviço de outros interesses.

“Deixais de lado o mandamento de Deus, para aferrar-vos à tradição dos homens”. Vejamos como José  Antonio Pagola reflete sobre a questão:

tique-20Acolhemos normas e tradições humanas e as colocamos no lugar de Deus: lavação de copos, dias para fazer o bem e dias para não trabalhar, preces feitas de tal jeito e unicamente deste jeito.  Tais normas e tradições são colocadas no lugar da vontade de Deus.  Ritos e rubricas: louva-se a Deus com os lábios, mas o coração está longe dele. Pronuncia-se o credo convencional mas se crê no que convém. Cumprem-se os ritos, mas não existe obediência a Deus e sim aos homens.

tique-20Apequenamos o Evangelho para não precisar converter-nos demais. Orientamos a vontade de Deus para o que nos interessa e esquecemos a exigência absoluta do amor.

tique-20Agarramo-nos a um jeito de praticar a religião que não transforma nossa vida nem tenta transformar o mundo.

tique-20Há esse continuar a honrar o Senhor com os lábios, mas com a recusa de convertermo-nos e assim vivendo esquecidos do projeto de Deus.

tique-20Os costumes e as tradições têm força. Os convencionalismos sociais impõem-se. Duras, mas verdadeiras são estas reflexões de Pagola: “Mas, de fato, estas celebrações, não são muitas vezes um encontro sincero com Deus. Muitos casamentos, batizados e primeiras comunhões ficam reduzidos a uma reunião de caráter social, a um ato imposto pelo costume ou a um rito que faz  sem entender bem o que significa, e sem que, evidentemente, implique algum compromisso para a vida (O caminho aberto por Jesus. Marcos, p. 147).

tique-20E ainda: “E quando  na comunidade cristã se dão orientações para celebrar uma liturgia mais verdadeira, ou quando o sacerdote procura ajudar a viver a celebração de maneira mais responsável pedem-lhe que não incomode muito, que termine quanto antes sua  pregação e que continue administrando o sacramento como sempre se fez. O que realmente importa é o vestido da menina (da noiva), a foto dos noivos, as flores do altar ou o vídeo da cerimônia. Que tudo saia bonitinho e impressionante”(idem ibidem).

Positivamente, como as coisas precisam acontecer?

tique-20Um cultivo delicado de uma sinceridade em todos os campos da vida.

tique-20Não se esconder atrás de montagens que nada mais são do que fachadas.

tique-20Apresentar-se ao Senhor na nudez de sua verdade.

tique-20Procurar um santo e sadio equilíbrio entre um homenagear e honrar o Senhor e o socorro “aos órfãos e às viúvas”.

tique-20Nunca ter o propósito de apresentar-se com uma sorte de impecabilidade porque andou fazendo as coisas como mandava o figurino.

tique-20Não buscar refúgio numa recitação automática do Credo, mas na humilde busca das verdade de sua vida.

Prece

Jesus, mistério de Deus encarnado,
às vezes ficamos surpresos
ao descobrir quão perto
Tu te manténs de nós.
E nos dizes a cada um:
“Entrega-te com toda simplicidade a Deus,
basta tua pouca fé”.

Irmão Roger de Taizé

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Indiferença progressiva

José Antonio Pagola

A crise religiosa vai descambando pouco a pouco para a indiferença. De modo geral não se pode falar propriamente de ateísmo, nem sequer de agnosticismo. O que melhor define a postura de muitos é uma indiferença religiosa, na qual já não há perguntas nem dúvidas nem crises.

Não é fácil descrever esta indiferença. A primeira coisa que se observa é uma ausência de inquietude religiosa. Deus não interessa. A pessoa vive na despreocupação, sem nostalgias nem horizonte religioso algum. Não se trata de uma ideologia. É, antes, uma “atmosfera envolvente”, onde a relação com Deus fica diluída.

Existem diversos tipos de indiferença. Alguns vivem nestes momentos um afastamento progressivo; são pessoas que vão se distanciando cada vez mais da fé, cortam laços com o religioso, afastam-se da prática; pouco a pouco Deus vai se apagando em suas consciências. Outros vivem simplesmente absorvidos pelas coisas de cada dia; nunca se interessaram muito por Deus; provavelmente receberam uma educação religiosa fraca e deficiente; hoje vivem esquecidos de tudo.

Em alguns a indiferença é fruto de um conflito religioso vivido às vezes em segredo; sofreram medos ou experiências frustrantes; não guardam boa recordação do que viveram quando crianças ou adolescentes; não querem ouvir falar de Deus, porque lhes causa dano; defendem-se esquecendo-o.

A indiferença de outros é, antes, resultado de circunstâncias diversas. Saíram de seu pequeno povoado e hoje vivem de maneira diferente num ambiente urbano; casaram-se com alguém pouco sensível ao religioso e mudaram de costumes; separaram-se de seu primeiro cônjuge e vivem uma situação de casal não “abençoado” pela Igreja. Não é que estas pessoas tenham tomado a decisão de abandonar a Deus, mas de fato sua vida vai se afastando dele.

Há ainda outro tipo de indiferença encoberta pela piedade religiosa. É a indiferença dos que se acostumaram a viver a religião como uma “prática externa” ou uma “tradição rotineira”. Todos nós precisamos ouvir a queixa de Deus. Jesus no-la recorda com palavras tomadas do profeta Isaías: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”.

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A verdadeira religião

Pe. Johan Konings

O evangelho nos regala com um dos trechos mais significativos de Marcos: a discussão sobre o que é puro e o que impuro (Mc 7,1-23). Os discípulos se puseram a comer sem lavar as mãos. Mas lá estavam alguns vizinhos piedosos, da irmandade dos fariseus, acompanhados de professores de teologia (escribas), vindos da capital, de Jerusalém. Logo se intrometeram, dizendo que é proibido comer sem lavar as mãos. (Como também se deviam lavar as coisas que se compravam no mercado, os pratos e tigelas e tudo o mais). Mas Jesus acha tudo isso exagerado, sobretudo porque dão a isso um valor sagrado.

Na realidade, a piedade de Israel era relativamente simples. Religião complicada era a dos pagãos, que viviam oferecendo sacrifícios e queimando perfumes para seus deuses, cada vez que desejavam alguma ajuda ou queriam evitar um castigo. Mas a religião de Israel era sóbria, pois só conhecia um único Deus e Senhor. Consistia em observar o sábado, oferecer uns poucos sacrifícios, pagar o dízimo e, sobretudo, praticar a lealdade (amor e justiça) para com o próximo. Moisés já tinha dito que não deviam acrescentar nada a essas regras simples, admiradas até pelos outros povos (1ª leitura). E Tiago – o mais judeu dos autores do Novo Testamento – diz claramente: “Religião pura e sem mancha diante do Deus e Pai é esta: assistir os órfãos e as viúvas em suas dificuldades e guardar-se livre da corrupção do mundo” (Tg 1,27; 2ª leitura).

Mas, no tempo de Jesus, os “mestres da Lei” tinham perdido esse sentido de simplicidade. Complicaram a religião com observância que originalmente se destinavam aos sacerdotes. Clericalizavam a vida dos leigos. Queriam ser mais santos que o Papa! Chegavam a dizer que era mais importante fazer uma doação ao templo do que ajudar com esse dinheiro os velhos pais necessitados. Inversão total das coisas. Ajudar pai e mãe é um dos Dez Mandamentos, enquanto de doações ao templo os Dez Mandamentos nem falam.  Declaravam também impuras um montão de coisas. No templo, tudo bem, o bezerro ou o cordeirinho a ser oferecido tem de ser bonito, puro, sem defeito. Mas no dia-a-dia, a gente come o que tem e do jeito como pode. Sobretudo a gente pobre, os migrantes, como eram os amigos de Jesus. Contra todas essas invenções piedosas, Jesus se inflama. Não é aquilo que entra na gente _ e que é evacuado no devido lugar – que torna impuro, mas a malícia que sai de sua boca e de seu coração (Mc 7,18-23).

Jesus quis sempre ensinar o que Deus quer. A Lei era uma maneira para “sintonizar” com a vontade de Deus. E Jesus respeita a Lei, melhorando-a para torná-la mais de acordo com a vontade de Deus, que é o verdadeiro bem do ser humano. Isso é o essencial. O demais deve estar a serviço do verdadeiro bem da gente e não o impedir. A verdadeira sintonia com Deus, a verdadeira piedade é o amor a Deus e a seus filhos e filhas. Práticas piedosas que atravancam isso são doentias e/ou hipócritas.

Mais ainda que a Lei de Moisés em sua simplicidade original, a “religião de Jesus” deve brilhar por sua profunda sabedoria e bondade. Deve mostrar com toda a clareza o quanto Deus ama seus filhos e filhas ensinando-lhes a amarem-se mutuamente. Daí nossa pergunta: nossas práticas religiosas ajudam a amar mais a Deus e ao próximo, ou apenas escondem nossa falta de compromisso com a humanidade pela qual Jesus deu a sua vida?

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