Destaque, Notícias › 30/08/2019

22º Domingo do Tempo Comum

Deus se coloca no fim da fila

Frei Gustavo Medella

Em Portugal, chama-se “bicha”. No Brasil, fila. Reza a lenda que brasileiro é fã de fila. Há controvérsias. De qualquer modo, ela existe de muitos modos. Fila do banco, do pão, do supermercado, de entrada no teatro ou no estádio, do gás, do concurso, a famosa fila do SUS, a da espera ansiosa por um transplante, a do pronto-socorro. Pode ser ordenada a partir de muitos critérios: tamanho, chegada, idade, necessidade, urgência, a partir da distribuição de senhas etc. Às vezes, muitos podem ter a tentação de furá-la, entrando sorrateiramente à frente de um conhecido, acompanhando espertamente o fluxo, pedindo a ajuda ou a intercessão de alguém influente e poderoso. Se há algo comum entre as filas, de todo tipo e espécie, são as desvantagens que se encontra nos últimos lugares. Afinal, estes muitas vezes carecem de garantias. Não sabem se vai sobrar comida para eles, se haverá tempo hábil para seu atendimento, se serão de fato atendidos em suas demandas. O lugar dos últimos é um lugar de incertezas.

Quando vem participar integralmente da vida da humanidade em Jesus Cristo, Deus escolhe entrar no último lugar da fila, pois vem pobre, humilde, pequeno, discreto e sem privilégio. Dali, consegue ter uma visão do todo – e esta é uma das possíveis vantagens de se estar no fim da fila. Tem a possibilidade de perceber quem está mais necessitado, quem caminha com honestidade esperando a sua vez e consegue ver as artimanhas dos espertos, que nem sempre se utilizam dos meios mais lícitos para se manterem nos primeiros lugares e, assim, não deixam a fila andar. Do último lugar, o Senhor também se entristece com o egoísmo de quem passa duas, três ou mais vezes na fila sem olhar para seus irmãos que enfrentam a dura dor da carência.

É assumindo o lugar dos últimos que o Senhor cumpre os prodígios narrados pelo salmista: “Dos órfãos ele é pai, e das viúvas protetor: é assim o nosso Deus em sua santa habitação. É o Senhor quem dá abrigo, dá um lar aos deserdados, quem liberta os prisioneiros e os sacia com fartura” (Sl 67). Com seu modo de ser, Deus nos ensina a não brigarmos nem a gastarmos energia lutando pelos primeiros lugares, mas a nos colocarmos como últimos e servidores daqueles que não têm a quem recorrer a não ser ao Senhor.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Textos bíblicos para este domingo

Primeira Leitura: Eclesiástico 3,19-21.30-31

19 Filho, realiza teus trabalhos com mansidão e serás amado mais do que um homem generoso. 20Na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade e assim encontrarás graça diante do Senhor. Muitos são altaneiros e ilustres, mas é aos humildes que ele revela seus mistérios. 21Pois grande é o poder do Senhor, mas ele é glorificado pelos humildes. 30Para o mal do orgulhoso não existe remédio, pois uma planta de pecado está enraizada nele, e ele não compreende. 31O homem inteligente reflete sobre as palavras dos sábios e, com ouvido atento, deseja a sabedoria.


Salmo Responsorial: 67(68)

Com carinho preparastes uma mesa para o pobre.

Os justos se alegram na presença do Senhor, / rejubilam satisfeitos e exultam de alegria! / Cantai a Deus, a Deus louvai, cantai um salmo a seu nome! / O seu nome é Senhor: exultai diante dele! – R.
Dos órfãos ele é pai e das viúvas protetor: / é assim o nosso Deus em sua santa habitação. / É o Senhor quem dá abrigo, dá um lar aos deserdados, / quem liberta os prisioneiros e os sacia com fartura. – R.
Derramastes lá do alto uma chuva generosa / e vossa terra, vossa herança, já cansada, renovastes; / e ali vosso rebanho encontrou sua morada; / com carinho preparastes essa terra para o pobre. – R.


Segunda Leitura: Hebreus 12,18-19.22-24

Irmãos, 18vós não vos aproximastes de uma realidade palpável: “fogo ardente e escuridão, trevas e tempestade, 19som da trombeta e voz poderosa”, que os ouvintes suplicaram não continuasse. 22Mas vós vos aproximastes do monte Sião e da cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste; da reunião festiva de milhões de anjos; 23da assembleia dos primogênitos, cujos nomes estão escritos nos céus; de Deus, o juiz de todos; dos espíritos dos justos, que chegaram à perfeição; 24de Jesus, mediador da nova aliança.


Festejar o sábado é dar vida aos homens 
Evangelho: Lc 14,1.7-14

* 1 Num dia de sábado aconteceu que Jesus foi comer em casa de um dos chefes dos fariseus, que o observavam. * 7 Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares. Então contou a eles uma parábola: 8 «Se alguém convida você para uma festa de casamento, não ocupe o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que você; 9 e o dono da casa, que convidou os dois, venha dizer a você: ‘Dê o lugar para ele’. Então você ficará envergonhado e irá ocupar o último lugar. 10 Pelo contrário, quando você for convidado, vá sentar-se no último lugar. Assim, quando chegar quem o convidou, ele dirá a você: ‘Amigo, venha mais para cima’. E isso vai ser uma honra para você na presença de todos os convidados. 11 De fato, quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado.»

12 Jesus disse também ao fariseu que o tinha convidado: «Quando você der um almoço ou jantar, não convide amigos, nem irmãos, nem parentes, nem vizinhos ricos. Porque esses irão, em troca, convidar você. E isso será para você recompensa. 13 Pelo contrário, quando você der uma festa, convide pobres, aleijados, mancos e cegos. 14 Então você será feliz! Porque eles não lhe podem retribuir. E você receberá a recompensa na ressurreição dos justos».

* 14,1-6: A lei do sábado deve ser interpretada como libertação e vida para o homem.
* 7-14: Nos vv. 8-11, Jesus critica o conceito de honra baseado no orgulho e ambição, que geram aparências de justiça, mas escondem os maiores contrastes sociais. A honra do homem depende de Deus, o único que conhece a situação real e global do homem; essa honra supera a crença que o homem pode ter nos seus próprios méritos. Nos vv. 12-14, Jesus mostra que o amor verdadeiro não é comércio, mas serviço gratuito, pois o pobre não pode pagar e o inimigo não pode merecer. Só Deus pode retribuir ao amor gratuito.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

22º Domingo do Tempo Comum, ano C

Oração: “Deus do universo, fonte de todo bem, derramai em nossos corações o vosso amor e estreitai os laços que nos unem convosco para alimentar em nós o que é bom e guardar com solicitude o que nos destes”.

  1. Primeira leitura: Eclo 3,19-21.30-31

Sê humilde, e encontrarás graça diante de Deus.

A primeira leitura trata da humildade em confronto com o orgulho. A pessoa que trabalha com mansidão e humildade, exercendo seus talentos, será mais amada do que uma pessoa apenas generosa. Quanto mais uma pessoa “subir na vida”, tanto mais deve ser humilde; é isso que agrada a Deus. Deus revela seus mistérios aos humildes e não aos orgulhosos. Jesus louva ao Pai que assim age: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11,25). Os humildes – continua o texto – glorificam o poder do Senhor, enquanto os orgulhosos se glorificam a si mesmos. Por isso, para o orgulhoso não há remédio, porque o pecado está enraizado nele. Deus derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes (cf. Lc 1,52).

Salmo responsorial: Sl 67

Com carinho preparastes uma mesa para o pobre.

  1. Segunda leitura: Hb 12,18-19.22-24a

Vós vos aproximastes do monte Sião e
da cidade do Deus vivo.

Para confortar os judeus convertidos ao cristianismo, o autor da Carta aos Hebreus compara a antiga aliança com Deus no Sinai com a nova aliança em Cristo Jesus. Joga com as palavras aproximar/afastar, separar/reunir. A teofania (manifestação de Deus) do Sinai era descrita, até certo ponto, como “realidade palpável”. Mas também assustadora: fogo, escuridão, trevas e tempestade, som de trombeta e voz poderosa (Ex 19,16). O povo suplicava para não ouvir essa voz poderosa e pedia que o Senhor lhes falasse por intermédio de Moisés (Dt 5,23-30; 18,16). O povo devia afastar-se da montanha sagrada; somente Moisés pôde ali subir (Ex 19, 12-24). Por um lado, pela aliança Deus se unia a seu povo; por outro, era um Deus assustador, que afastava o povo.

Se na antiga aliança o povo não podia aproximar-se do monte santo nem de Deus, na nova aliança o cristão pode aproximar-se do monte Sião, cidade do Deus vivo, da cidade celeste, da reunião festiva de anjos, da assembleia dos primogênitos. Pode aproximar-se, sem temor, do próprio Deus, Juiz de todos, de Jesus de Nazaré. Em Jesus, mediador da nova aliança, Deus fez sua morada entre nós (Jo 1,14), para que pudéssemos morar para sempre com Ele na Jerusalém celeste, a cidade do Deus vivo. Em Jesus de Nazaré Deus se aproximou de nós, se fez humano para entrarmos em comunhão definitiva com Ele. “A proximidade com Jesus não assusta, mas compromete” (Konings).

Aclamação ao Evangelho:

Tomai meu jugo sobre vós e aprendei de mim,
que sou manso e humilde de coração!

  1. Evangelho: Lc 14,1.7-14

Quem se eleva, será humilhado,
e quem se humilha, será elevado.

Na aclamação ao Evangelho Jesus dizia: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”. E no texto que ouvimos Jesus aparece como exemplo de humildade. Jesus foi convidado por um fariseu para tomar uma refeição com ele. Como era se esperar, o fariseu convidou também seus amigos, irmãos, parentes e vizinhos ricos (v. 12); portanto, pessoas do mesmo nível social dos ricos. O fariseu e seus convidados observavam a Jesus, para terem motivo de acusá-lo de uma possível transgressão da Lei. Jesus também os observava e notou que os convidados escolhiam os primeiros lugares, mais próximos do dono da casa. Contou-lhes então uma parábola na qual um convidado a uma festa de casamento, que havia ocupado o primeiro lugar, teve que ceder seu lugar para outro convidado mais importante, passou muito vergonha e foi ocupar o último lugar. É melhor, dizia Jesus, ocupar o último lugar. Neste caso, se o dono da festa te disser: “Amigo, vem mais para cima, isto seria uma honra para ti diante dos convidados”. E Jesus mesmo tira a lição: “Quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado”.

Em seguida, Jesus aconselha o fariseu a não convidar os amigos de seu nível social, e sim, os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. Estes não poderiam retribuí-lo com um convite, como os amigos ricos. O Reino de Deus não é o da meritocracia, mas da gratuidade: os pobres e aleijados jamais teriam condições de convidar Jesus a um banquete, muito menos ao fariseu e seus amigos. O que traz a verdadeira felicidade, já aqui na terra, é a esperança da “ressurreição dos justos”, isto é, a participação no banquete da vida eterna.

Fariseu significa “separado”. Era a elite religiosa rigorista na interpretação da Lei, que se separava da massa dos pecadores e “impuros”. Jesus não separa, mas une e agrega (2ª leitura). Pede aos ricos que tenham misericórdia dos pobres, desçam de suas “árvores”, convertam-se e partilhem seus bens com os pobres, como o fez Zaqueu (cf. Lc 19,1-10).

Frei Ludovico Garmus, OFM


Gente dentro, gente fora

Frei Clarêncio Neotti

Era sábado. Dia santo para os hebreus. Recordavam a criação do mundo e lembravam a libertação da vida escrava do Egito. Liam os Profetas e a Lei. Rezavam salmos de agradecimento. Era um refazer da fé, da unidade, da dependência de Deus. Era também um momento de confirmação do povo santo e escolhido. Jesus aceitou a refeição, mas foi além do comer e do falar. Mais tarde, o autor da Carta aos Hebreus imaginou a glória do céu como um sábado sem-fim (Hb 4,9-10). Mais de uma vez Jesus comparou o Reino dos Céus a um grande banquete, a uma ceia de comunhão eterna, como diz uma das Orações Eucarísticas.

Jesus contou duas parábolas. Uma, dirigida diretamente aos convivas. A outra, dirigida ao dono da casa, mas foi dita em voz alta para que os pobres e os estropiados, que estavam de fora, sem convite, pudessem-no escutar e entender. Aliás, nesse dia, os pobres e deficientes físicos deviam ser muitos.

Há um trecho, que é saltado na leitura de hoje, em que, apenas chegado ao banquete, Jesus cura um hidrópico (vv. 2-6). O fato deve ter aglomerado muitos para ver Jesus. A liturgia salta o milagre, porque quer acentuar a lição sobre a humildade e a gratuidade. A lição é de atualidade imensa. Se observarmos o mundo de hoje, vemos uns poucos sentados à mesa da fartura, conversando, não raramente sobre Deus, enquanto a maioria dos pobres é tolerada como espectadora, do lado de fora da sala do bem-estar.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.


O delicado perfume da gratuidade

Frei Almir Guimarães

A sociedade atual tende a produzir um tipo de homem insolidário, consumista, de coração mesquinho e horizonte estreito, incapaz de generosidade. É difícil ver gestos gratuitos. Às vezes até a amizade e o amor aparecem influenciados pelo interesse e pelo egoísmo.
José Antonio Pagola

Mais uma vez entramos em contato com a parábola dos convidados para uma festa de casamento que estavam ansiosos por ocupar os primeiros lugares à mesa do banquete. Foram afoitos. Poderia haver gente mais importante a ocupar os lugares que eles andavam pretendendo tomar. Tema da gratuidade, tema da humildade. Postura essencial para entrarmos no mundo de Jesus: pessoas não presunçosas, gente que conhece sua dignidade mas não querem estar sempre na passarela.

As coisas não aconteceram tal qual como são descritas por Lucas. Trata-se de uma história que deve nos levar a pensar. As pessoas começavam a chegar. Esperavam os noivos. O desejo de muitos era de ocupar os primeiros lugares, perto dos principais do lugar. Merecimento? Vontade de aparecer? Os que agora são convidados, posteriormente convidariam seus anfitriões. Jogo de troca. Toma lá, dá cá. Às vezes, como diz Pagola, até a amizade e o amor aparecem marcados pelo interesse e pelo egoísmo. Em nossos dias há pessoas que cumprem obrigações sociais em certos eventos… Há mesmo os que ousam ocupar os primeiros lugares sem mérito. Podem ser convidados a deixar o lugar para os amigos mais íntimos do anfitrião. Cuidado.

Humildade se opõe a orgulho, pretensões de superioridade, desejo de dominar, imaginação de que somos melhores do que os outros e merecedores de favores. Postura que torna a pessoa insolidária e mesquinha. Os de bom senso contemplam a falta de quem avança esquecendo os outros. Luta pelo poder, desejo desmedido do ego.

Em latim se diz humilitas. A palavra deriva de humus, isto é, terra, chão, humus. Humildade significa a coragem de aceitarmos nosso vínculo com a terra, a vontade de conciliarmos com nossa realidade, com o fato que viemos da terra e fomos alçados à dignidade de filhos de Deus por graça, sem mérito de nossa parte. Sabemos que tudo é graça, tudo é dom. Não somos os donos de nós mesmos. Ele, o Senhor, nos inventou e anda nos acompanhando e fecundando o labor de nossas mãos. Tudo dele recebemos. Quando atribuímos valores a nós mesmos estamos roubando o que é do Senhor. São Francisco de Assis dizia: “Nada de vós retenhais para vós mesmos, para que totalmente vos receba quem totalmente se vos dá” (Carta a toda a Ordem 29). O pior que pode acontecer com uma pessoa é que ela viva orgulhosamente. Este talvez seja o mais grave pecado. Homem algum é uma ilha. O mestre não hesitou em ser lavador dos pés dos irmãos.

Jesus buscava organização do mundo diferente, sob a lei da partilha. Uma sociedade em que as pessoas pensassem nos mais fracos, nos sem prestígio público, que não ficasse vidrada nas pessoas que pudessem lhes dar lucros, em amizades interesseiras.

A leitura do Eclesiástico aborda o mesmo tema: “Para o mal do orgulhoso não existe remédio, pois uma planta de pecado está enraizada nele e ele não compreende”.

Em inúmeras passagens a Escritura nos diz que Deus se revela aos humildes e se fecha aos soberbos, que o publicano que rezava com o coração arrependido encontrou a Deus e não o fariseu presunçoso. É extremamente agradável conviver com pessoas simples. Não conseguimos dar atenção por longo tempo a pessoas amantes de ilusórias grandezas e que aberta ou camufladamente incensam-se a si mesmas.

A pessoa humilde não precisa alardear sua humildade: sua vida respira simplicidade e temos vontade de conviver com ela. Os que se dizem humildes, nem sempre o são.

A pessoa humilde aceita que sua agenda seja modificada diante de um exigência urgente. Não reclama. Troca o bom pelo melhor.
A pessoa humilde aceita ocupações simples, domésticas, feitas no oculto.
A pessoas humildes dizem como Maria: “O Senhor fez em mim maravilhas.., santo é seu nome. É o Senhor que opera o bem em nós”.
O humilde volta atrás numa decisão tomada desde que outro o convença de algo melhor.
O humilde não é intransigente, mas senta-se à mesa do diálogo. É homem de negociações.

Anselm Grün: “Pessoas humildes não são pessoas que se diminuem ou que sintam paralisadas diante de qualquer tarefa, por se acharem incapazes das mesmas. Humildes são aqueles que têm a coragem de assumir a própria realidade e, nela, comportam-se modestamente”.

Eclesiástico: “Na medida em que fores grande deverás praticar a humildade e assim encontrarás graça diante de nosso Senhor”.


Texto seleto

Maria reconhece sua pequenez diante da grandeza de Deus, e porque reconhece é porque ela pode também alegrar-se. Colocar nossa vida nua, a nossa inteira e pequena vida nas mãos de Deus em nada nos diminui. São Paulo há de escrever, na linha do Magnificat, “quando sou fraco, então sou forte, porque nos basta a graça de Deus (2Cor 12,10). (…). Deus nos ama sem por que, ama-nos porque nos ama. A fraqueza que achamos dentro de nós não é obstáculo ao seu amor, ao contrário do que pensamos. Deixemos Deus amar a nossa pequenez, insignificância, escassez, o nosso nada. Porque só isso permitirá que abramos realmente as portas do nosso coração a Deus e aí ele possa dizer que a nossa vocação, qualquer que seja, será o Amor (José Tolentino Mendonça).


Oração

Pai amado, realiza por meio de nós a obra da verdade.
Mantém nossas mãos ocupadas em servir a todos.
Faze com que nossa voz anuncie a todos o teu reino.
Faze com que nossos pés avancem sempre pelos caminhos da justiça.
Guia-nos da ignorância para a tua luz.


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.


Gratuitamente

José Antonio Pagola

Há uma “bem-aventurança” de Jesus que nós, cristãos, temos ignorado. “Quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. Feliz de ti, porque eles não podem retribuir-te”. Na realidade, fica difícil para nós entender estas palavras, porque a linguagem da gratuidade nos é estranha e incompreensível.

Em nossa “civilização do possuir” quase nada é gratuito. Tudo é intercambiado, emprestado, devido ou exigido. Ninguém acredita que “é melhor dar do que receber”. Só sabemos prestar serviços remunerados e “cobrar juros” por tudo o que fazemos ao longo da vida.

No entanto, os momentos mais intensos e culminantes da vida são aqueles em que sabemos viver a gratuidade. Só na entrega desinteressada pode-se saborear o verdadeiro amor, a alegria, a solidariedade, a confiança mútua. Gregório Nazianzeno diz que “Deus fez o homem cantor de sua irradiação” e, certamente, nunca o homem é tão grande como quando sabe irradiar amor gratuito e desinteressado.

Não poderíamos ser mais generosos com os que nunca nos poderão retribuir o que fizermos por eles? Não poderíamos aproximar-nos dos que vivem sozinhos e desamparados, pensando apenas no bem deles? Viveremos sempre buscando nosso interesse?

Acostumados a correr atrás de todo tipo de gozos e satisfações, atrever-nos-emos a saborear a felicidade oculta, mas autêntica, que se encerra na entrega gratuita a quem de nós precisa? Charles Péguy, um seguidor fiel de Jesus, vivia convencido de que, na vida, “aquele que perde, ganha”.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.


Simplicidade e gratuidade

Pe. Johan Konings

As leituras de hoje insistem em virtudes fora de moda: mansidão e humildade (1ª leitura), modéstia e gratuidade (evangelho). Quanto à modéstia, Jesus usa um argumento da sabedoria popular, do bom senso: se alguém for sentar no primeiro lugar num banquete e um convidado mais digno chegar depois dele, esse primeiro terá de ceder seu lugar e contentar-se com qualquer lugarzinho que sobrar. Mas quem se coloca no último lugar só pode ser convidado para subir e ocupar um lugar mais próximo do anfitrião.

Ora, citando essa humildade de quem se faz de burro para comer milho, Jesus pensa em algo mais. Por isso, acrescenta uma outra parábola, para nos ensinar a fazer as coisas não por interesse egoísta, mas com gratuidade. Seremos felizes – diz Jesus – se convidarmos os que não podem retribuir, porque Deus mesmo será então nossa recompensa. Estaremos bem com ele, por termos feito o bem aos seus filhos mais necessitados.

A gratuidade não é a indiferença do homem frio, que faz as coisas de graça porque não se importa com nada, pois isso é orgulho! Devemos ser gratuitos simplesmente porque os nossos “convidados” são pobres e sua indigência toca o nosso coração fraterno. O que lhes damos tem importância, tanto para eles como para nós. Tem valor. Recebemo-lo de Deus, com muito prazer. E repartimo-lo, porque o valorizamos. Dar o que não tem valor não é partilha: é liquidação… Mas quando damos de graça aquilo que com gratidão recebemos como dom de Deus, estamos repartindo o seu amor.

Tal gratuidade é muito importante na transformação que a sociedade está necessitando. Importa não apenas “fazer o bem sem olhar para quem” individualmente, mas também social ou coletivamente: contribuir para as necessidades da comunidade, sem desejar destaque ou reconhecimento especial; trabalhar e lutar por estruturas mais justas, independentemente do proveito pessoal que isso nos vai trazer; praticar a justiça e humanitarismo anônimos; ocupar-nos com os insignificantes e inúteis…

Assim, a lição de hoje tem dois aspectos: para nós mesmos, procurar a modéstia, ser simplesmente o que somos, para que a graça de Deus nos possa inundar e não encontre obstáculo em nosso orgulho. E para os outros, sermos anfitriões generosos, que não esperam compreensão, mas, sem considerações de retorno em dinheiro ou fama, oferecem generosamente suas dádivas a quem precisa.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

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