Destaque, Notícias › 06/09/2018

23º Domingo do Tempo Comum

A alegria de celebrar o Domingo de Natal

Frei Gustavo Medella

Frequenta as missas do Santuário São Francisco, em São Paulo, um rapaz cego-surdo chamado Natal. Para participar da celebração, Natal mantém suas mãos fixas às mãos de um intérprete da Língua Brasileira dos Sinais (LIBRAS). É pelo tato que Natal decodifica as mensagens e se sente parte integrante da assembleia litúrgica. A presença devota de Natal e o carinho a ele devotado pela comunidade permitem a Cristo novamente nascer vigoroso no coração de quem consegue ver a ação de Deus no cúmulo das fragilidades humanas.  Em seus limites, Natal revela à comunidade o mistério de Deus que se faz frágil e deseja contar com o auxílio humano. A comunidade, por sua vez, tem a chance de, na figura daquele rapaz, acolher o próprio Deus que em Jesus se faz proximidade e fragilidade. Uma experiência concreta e encarnada da força que nasce da singeleza do Natal.

No Evangelho deste 23º Domingo do Tempo Comum (Mc 7,31-37), Jesus se faz todo-ouvidos para acolher o drama de um homem surdo que falava com dificuldade. Mais do que uma explicação inteligível, lógica e bem colocada, o que toca o coração de Deus é a disposição do coração humano em acolher sem reservas a bondade e a misericórdia do Pai. Jesus, expressão máxima do Amor que se antecipa às necessidades dos seus, coloca-se a serviço daquele ser humano, devolvendo-lhe a capacidade plena do falar e do ouvir.  A esperança voltou a habitar aquele pobre coração. Para ele, o encontro pessoal com Cristo foi ocasião de se tornar também participante do mistério fascinante do Natal. O mundo está carente destas testemunhas “natalinas”, capazes de fazer a esperança renascer nos corações desanimados.

rodape-medella


Leituras deste 23º Domingo do TC

Primeira Leitura (Is 35,4-7a)

Leitura do Livro do Profeta Isaías:

4 Dizei às pessoas deprimidas: “Criai ânimo, não tenhais medo! Vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus; é ele que vem para vos salvar”.

5 Então se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos. 6 O coxo saltará como um cervo e se desatará a língua dos mudos, assim como brotarão águas no deserto e jorrarão torrentes no ermo.

7 aA terra árida se transformará em lago, e a região sedenta, em fontes d’água.


Responsório (Sl 145)

— Bendize, ó minha alma, ao Senhor. Bendirei ao Senhor toda a vida!
— Bendize, ó minha alma, ao Senhor. Bendirei ao Senhor toda a vida!
— O Senhor é fiel para sempre,/ faz justiça aos que são oprimidos;/ ele dá alimento aos famintos,/ é o Senhor quem liberta os cativos.
— O Senhor abre os olhos aos cegos,/ o Senhor faz erguer-se o caído;/ o Senhor ama aquele que é justo./ É o Senhor quem protege o estrangeiro.
— Ele ampara a viúva e o órfão,/ mas confunde os caminhos dos maus./ O Senhor reinará para sempre!/ Ó Sião, o teu Deus reinará/ para sempre e por todos os séculos!


Segunda Leitura (Tg 2,1-5)

Leitura da Carta de São Tiago:

1 Meus irmãos: a fé que tendes em nosso Senhor Jesus Cristo glorificado não deve admitir acepção de pessoas.

2 Pois bem, imaginai que na vossa reunião entra uma pessoa com anel de ouro no dedo e bem vestida, e também um pobre, com sua roupa surrada, 3 e vós dedicais atenção ao que está bem vestido, dizendo-lhe: “Vem sentar-te aqui, à vontade”, enquanto dizeis ao pobre: “Fica aí, de pé”, ou então: “Senta-te aqui no chão, aos meus pés”, 4 não fizestes, então, discriminação entre vós? E não vos tornastes juízes com critérios injustos?

5 Meus queridos irmãos, escutai: não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam?


Jesus inicia uma nova criação

Evangelho: Mc 7,31-37

-* 31 Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por Sidônia e continuou até o mar da Galiléia, atravessando a região da Decápole. 32 Levaram então a Jesus um homem surdo e que falava com dificuldade, e pediram que Jesus pusesse a mão sobre ele. 33 Jesus se afastou com o homem para longe da multidão; em seguida pôs os dedos no ouvido do homem, cuspiu e com a sua saliva tocou a língua dele. 34 Depois olhou para o céu, suspirou e disse: «Efatá!», que quer dizer: «Abra-se!» 35 Imediatamente os ouvidos do homem se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade. 36 Jesus recomendou com insistência que não contassem nada a ninguém. No entanto, quanto mais ele recomendava, mais eles pregavam. 37 Estavam muito impressionados e diziam: «Jesus faz bem todas as coisas. Faz os surdos ouvir e os mudos falar.»


* 31-37: A missão de Jesus inicia nova criação (Gn 1,31). Para isso ele abre os ouvidos e a boca dos homens, para que eles sejam capazes de ouvir e falar, isto é, discernir a realidade e dizer a palavra que a transforma.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


23º Domingo do Tempo Comum, ano B

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Ó Deus, pai de bondade, que nos redimistes e adotastes como filhos e filhas, concedei aos que crêem no Cristo a verdadeira liberdade e a herança eterna”.

1. Primeira leitura: Is 35,4-7a

Os ouvidos dos surdos se abrirão
e a boca do mudo gritará de alegria.

A primeira parte do Livro de Isaías (Is 1–39) denuncia os pecados de Judá e anuncia a salvação. Anuncia também o julgamento das potências estrangeiras e vizinhos, que oprimiram o povo eleito. Depois do julgamento divino do vizinho reino de Edom, em Is 35, um profeta pós-exílico anuncia mais uma vez a salvação para Israel. Um “apêndice histórico” (Is 36–39) conclui esta primeira parte de Isaías. No texto que ouvimos, o profeta fala a um povo desanimado e sem esperança. Os que ouviram as promessas do profeta anônimo no exílio (Is 40–55) encontraram em Judá uma realidade nada animadora. As estes o profeta reafirma que as promessas continuam válidas. Por isso não devem desanimar, mas confiar na presença de Deus. Ele é o Deus criador que age na história humana. Vê o sofrimento do povo e vem para salvá-lo. A salvação é descrita com imagens de transformação da natureza, na qual o que parece errado será corrigido: os cegos tornarão a ver bem, os surdos a ouvir, os mudos a falar e até no deserto brotarão torrentes de água. Com esta linguagem o profeta procura recuperar a fé, a esperança e a confiança no Deus de Israel. Quando João Batista da prisão manda perguntar a Jesus: “És tu aquele que há de vir ou devemos esperar outro?” (Mt 11,5), Jesus manda dizer-lhe que a profecia de Is 35,5-6 estava se cumprindo em sua missão (ver o Evangelho).

O salmo responsorial (145,7-10) apresenta oito ações salvadoras de Deus, que transformam a vida humana. Elas se tornam evidentes na pregação e na ação de Jesus em favor dos pobres e injustiçados. Jesus nos convida a agirmos da mesma forma como Deus age. Então nossa vida será um sincero louvor a Deus.

Salmo responsorial: Sl 145,7-10

Bendize, ó minha alma ao Senhor.
Bendirei ao Senhor por toda a vida!

2. Segunda leitura: Tg 2,1-5

Não escolheu Deus os pobres deste mundo
para serem herdeiros do Reino?

O Apóstolo conhecia as comunidades cristãs e percebia que alguns comportamentos não condiziam com a fé em Jesus Cristo. Como exemplo cita a acepção ou discriminação de pessoas na comunidade. Fiéis ricos e bem vestidos recebiam um lugar de destaque, enquanto os pobres deviam ficar de pé ou sentar-se no chão. Todo ser humano possui a mesma dignidade, tem os mesmos direitos e merece ser tratado com igual respeito (Dt 16,19). Tanto mais o cristão, seguidor de Cristo, que revela a face amorosa do Pai, deve evitar a discriminação no trato com os irmãos de fé. O modelo é o próprio Deus, que “escolheu os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam”. O critério último no relacionamento com os irmãos de fé é o amor de Deus.

Aclamação ao Evangelho

Jesus Cristo pregava o Evangelho, a boa notícia do Reino
e curava seu povo doente de todos os males, sua gente!

3. Evangelho: Mc 7,31-37

Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar.

O Evangelho que ouvimos conta-nos o milagre da cura de um surdo-mudo. Antes deste episódio, Jesus havia curado numerosos enfermos que eram trazidos até o caminho por onde ele passaria. Era tanta a fé das pessoas que lhe pediam que, ao menos, as deixasse tocar suas vestes. Depois discutiu com os fariseus e mestres da lei sobre a questão da pureza. Em seguida, a pedido de uma mulher cananeia curou sua filha. Segue, então, o evangelho que acabamos de ouvir. Jesus acabava de voltar à terra dos judeus, vindo da terra pagã de Tiro e Sidônia. Imediatamente trouxeram um surdo-mudo para que lhe impusesse as mãos. Sabiam que Jesus curava as pessoas tocando-as com as mãos, deixando-se tocar por elas ou, simplesmente, porque tinham fé. Jesus não cura para dar um espetáculo. Por isso, afasta-se da multidão, para dar atenção pessoal ao necessitado. Jesus não olha para nós como multidão. Olha para cada um de nós como pessoa, com as suas necessidades e limitações. Olha para cada um de nós com os olhos de Deus. Toca com os dedos os ouvidos e a língua do surdo-mudo com saliva, olha para o céu, suspira, e diz: “Abre-te!” Jesus repete os gestos do Criador, quando modela com os seus dedos o barro para formar o ser humano. O suspiro de Jesus lembra o sopro divino da criação (cf. Gn 2,7; Sl 8; 104,29-30). É também o suspiro de alguém solidário com os deficientes e sofredores. Por isso o povo exclama: “Ele tem feito bem todas as coisas: Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar”. Jesus devolve à sociedade um homem novo, capaz de comunicar-se, de ouvir e ser ouvido, condição básica para conviver com os outros, para acolher e proclamar a fé. O toque nos ouvidos e na boca do recém-batizado lembra que a fé é comunicada pela palavra, para ser professada pela palavra. Jesus também queria “abrir” os ouvidos de seus discípulos e provocar neles a profissão de fé (cf. 8,14-38), preparando-os para a missão evangelizadora. O que Jesus quer dizer para mim com este milagre? Jesus nos tocou os ouvidos pela sua palavra e, agora, quer tocar a cada um de nós com a celebração da eucaristia, para curar nossos males.

rodape-ludovico


Escuta e diálogo

Frei Clarêncio Neotti

Jesus tinha poderes divinos e, portanto, podia curar o surdo. No entanto, “eleva os olhos para o céu” (v. 34), como fizera antes do milagre da multiplicação dos pães (Mc 6,41), para significar que toda a força vem do alto, do Pai, origem de todos os bens. Saliva, língua, mão, doença, são coisas e fatos reais. Coisas físicas, diríamos. Jesus une maravilhosamente a realidade ao espiritual, a criatura necessitada e fragilizada ao Criador sempre desejoso de repartir seus dons. Todos nós, ainda que batizados, trazemos um pouco do surdo de hoje, quando não sabemos ligar as realidades terrenas a Deus, Sumo Bem e fonte de toda a vida.

Observe-se ainda que primeiro se lhe abrem os ouvidos, depois o mudo começa a falar. Isso não é por acaso. Na prática, uma criança primeiro escuta, depois aprende a falar. Acontece na caminhada da fé a mesma coisa. Primeiro devemos escutar (lembremos mais uma vez que ‘escutar’, na Bíblia, tem mais o sentido de ‘pôr em prática’, ‘encarnar’, ‘vivenciar’, do que ouvir fisicamente com os ouvidos). Só pode proclamar a alegria da fé quem a vive. Se falo de Deus, sem havê-lo escutado primeiro, certamente estarei falando de mim mesmo. Aliás, quem não sabe escutar não sabe dialogar.

A frase dita pelo povo: “Fez bem todas as coisas” (v. 37) evoca o texto do Gênesis, ao criar Deus o homem: “Deus viu tudo quanto havia feito e achou que estava muito bom” (Gn 1,31). O homem curado por Jesus, que escuta a palavra de Deus e a proclama, fazendo comunhão com Deus e com a comunidade, é a criatura elevada novamente àquela dignidade primitiva, antes do pecado. A missão de Jesus pode ser definida como uma recriação do mundo.

rodape-clarencio


Um pedaço da história de cada um

Frei Almir Guimarães

Imediatamente os ouvidos do surdo se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar expeditamente.

Isaías, o profeta, nos poucos versículos da primeira leitura da liturgia da missa desse domingo,   enche os espaços com um brado de esperança: Ele vem, o  Senhor, vem para salvar. Os cegos enxergarão e os ouvidos dos surdos se abrirão.  E o coxo, pasmem, saltará de alegria. Marcos, em seu evangelho,  faz o relato de um surdo curado.  Jesus  fica sendo conhecido como aquele que “tem feito bem todas as coisas: aos surdos faz ouvir e aos mudos falar”.

Aproximemo-nos mais de perto dos pormenores de Marcos.  Jesus está na região pagã da Decápole, das cidades gregas.  O pessoal lhe traz um homem  que  não ouvia e que falava com dificuldade.  Terrível quando não ouvimos as conversas à nossa volta e quando gaguejamos para dizer o que se passa em nosso interior.  Marcos diz  que Jesus vai realizar alguma coisa longe da multidão. Podemos supor que se trata de  gesto prenhe de significado. Talvez Jesus não quisesse  muito alarido, muito gritaria.  Os circunstantes trouxeram-lhe o homem para que Jesus lhe impusesse as mãos. Gesto concreto. Transmissão?  Sentimento de proximidade de Jesus com o outro?  Curiosamente Jesus continua com procedimentos palpáveis, sensíveis e, para nós, até certo ponto estranhos:  coloca os dedos nos ouvidos do surdo, cospe, com saliva toca a língua do doente.  Tudo culmina com este desfecho: “Olhando para o céu suspirou e disse: “Efatá”, que quer dizer,  “abre-te”. Imediatamente seus ouvidos se abriram , sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade”.

Há indícios que tudo isso tem a ver com o batismo, com o ingresso do homem no mundo novo de Jesus. A Igreja retomou elementos desta “cura” inserindo-os no ritual do batismo.  Os que querem aderir ao mundo novo de Jesus necessitam ouvir a voz do Mestre que vai penetrando com remédio de uma surdez diferente.

Uma das experiências que fazemos, nós cristãos,  diante da proposta que nos é feita de viver e viver segundo os sonhos de Deus que Jesus manifestou  é da surdez associada ao mutismo de não sabermos dizer ao Senhor o que  precisa ser dito.  Surdos e mudos perambulamos vida afora.

Na medida em que entramos em nós mesmos, em que vivemos junto com verdadeiros discípulos de Jesus vamos nos dando conta que as circunstâncias, a indolência e a má vontade foram nos impedindo de ouvir a voz da consciência e os apelos do Evangelho para uma vida nova:  vida a partir de nossa verdade,  revestindo-nos de singeleza e simplicidade,  vida de filhos do Pai que nos ama e nos quer e de irmãos dos que caminham ao nosso lado.  Somos surdos aos apelos de recolher os jogados à beira da estrada. Colocamos pedras enormes na sede que começou a se manifestar em nós como busca de plenitude.  Fomos endurecendo  nosso ouvir do coração.

Jesus suspira e nos toca. Sempre o faz  coração da comunidade da Igreja que é o albergue do Ressuscitado. Queremos ouvir o  murmurar das páginas do Sermão da Montanha,  precisamos  ouvir os apelos do pai que está doente, que precisa de nós, dos filhos que andam perdidos, da mulher e do marido que são deixados por  vezes ficam de lado  durante a dança macabra que fazemos em torno de nós mesmos.  “Efata” quer dizer abre-te.  Não queremos e não podemos  nos instalar numa espécie  de estado de surdez ao novo, ao que nos redime, ao que torna vida na terra quase que um paraíso.

Abre-te… é  uma exigência para podermos enxergar.  A luz do Ressuscitado  pode então nos penetrar. Nada de ficar fechado em seu pequeno mundo de convicções, mas auscultar os sinais dos tempos.   Os que nos aproximamos de Jesus, fora da multidão, poderemos fazer a experiência da libertação dos ouvidos:  “ seus ouvidos se abriram e sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade”.

rodape-almir


Não fechar-nos ao mistério da vida

José Antonio Pagola

Camus descreveu como poucos o vazio da vida monótona de cada dia. Escreve assim em “O mito de Sísifo”: “Acontece que todos os cenários vêm abaixo. Levantar-se, o bonde, quatro horas de repartição pública ou escritório, almoço, bonde, quatro horas de trabalho, descanso, dormir, e a segunda-terça-quarta-quinta-sexta-sábado, sempre o mesmo ritmo, seguindo o mesmo caminho de sempre. Um dia surge o ‘porquê’ e tudo volta a começar no meio desse cansaço tingido de admiração”.

Não é difícil sintonizar com os sentimentos do escritor francês. Às vezes é a vida monótona de cada dia que nos formula, em toda a sua rudeza, as interrogações mais profundas de nosso ser: “Tudo isto para quê? Para que vivo? Vale a pena viver assim? Tem sentido esta vida?

O risco é sempre a fuga. Enclausurar-nos sem mais na ocupação de cada dia. Viver sem interioridade. Caminhar sem bússola. Não refletir. Perder, inclusive, o desejo de viver com mais profundidade. Não é tão difícil viver assim. Basta fazer o que quase todos fazem.

Seguir a corrente. Viver de maneira mecânica. Substituir as exigências mais radicais do coração por todo tipo de “necessidades” supérfluas. Não escutar nenhuma outra voz. Permanecer surdos a qualquer chamado profundo.

O relato da cura do surdo-mudo é um chamado à abertura e à comunicação. Aquele homem surdo e mudo, fechado em si mesmo, incapaz de sair de seu isolamento, precisa deixar que Jesus trabalhe seus ouvidos e sua língua. A palavra de Jesus ressoa também hoje como um imperativo para cada um: “Abre-te”

Quando não escuta os anseios mais humanos de seu coração, quando não se abre ao amor, quando, em suma, se fecha ao Mistério último que nós crentes chamamos “Deus”, a pessoa se separa da vida, se fecha à graça e tapa as fontes que a poderiam fazer viver.

rodape-pagola


A verdadeira religião liberta o ser humano do mal

Pe. Johan Konings

No domingo passado, vimos Jesus criticando as tradições humanas que desviam a gente da verdadeira vontade de Deus, o bem de seus filhos e filhas. Agora, o evangelho mostra o exemplo do próprio Jesus. Depois de ter dado à mulher pagã as “migalhas” do pão dos filhos, Jesus cura, na mesma região pagã (a Decápole), um surdo-mudo, e o povo se põe a clamar: “Tudo ele tem feito bem!” Com isso, Jesus realiza o que o profeta Isaías sonhou para o tempo do Messias: os olhos dos cegos vão se abrir, abrem-se também os ouvidos dos surdos, os aleijados vão pular feito cabritos e a língua dos mudos entoará um cântico (1ª leitura). Convém lembrar aqui que os cegos e os coxos eram excluídos do templo…. A vinda do Messias transforma os excluídos – pagãos, coxos, cegos, aidéticos, favelados, presos – em filhos do Reino. Conforme Santo Irineu, a glória de Deus é que o ser humano tenha vida – e a vida do ser humano é contemplar Deus…. Trata-se de uma certeza fundamental de nossa fé: Deus deseja que todos e todas tenham vida. A religião é para o bem da humanidade.

Com certeza, todo mundo se declara de acordo com isso. Mas, muitas vezes, a religião é usada para dominar as pessoas, para que fiquem quietas e não protestem contra a exploração pelos poderosos (que querem até passar por bons cristãos)… Será isso promover a vida do ser humano? Dizem que os que sofrem serão recompensados na eternidade. Mas isso não justifica que se faça sofrer aqui na terra! Também a vida neste mundo pertence a Deus: é o aperitivo da vida eterna.

O Deus da Bíblia quer o bem das pessoas desde já. Pode existir doença, sofrimento, mas não é a última palavra. Somos chamados a participar com Deus no aperfeiçoamento da criação. Por isso, o povo saúda a chegada do Messias exclamando: “Tudo ele tem feito bem”.

Deus não pode servir para legitimar nenhuma opressão. A verdadeira religião liberta o ser humano do mal, também do mal político e econômico. Religião que pactua com a opressão não é a de Jesus. O cristianismo deve servir para o bem do ser humano: o bem de todos e do homem todo.

A religião serve para o bem de todos, eliminando exploração e discriminação (2ª leitura). Para dar chances a uma ordem melhor, provoca até revoluções, se as estruturas vigentes produzem desigualdade e injustiça. Pois a justiça é a exigência mínima do amor.

A religião serve para o bem do homem todo, para aquelas dimensões que facilmente são esquecidas: a integridade da vida (contra a tortura, a irresponsabilidade com a vida nova etc); a integridade do verdadeiro amor (contra a exploração erótica, o amor descartável etc), o crescimento espiritual (contra o imediatismo, o materialismo etc), o sentido último da vida (contra a mecanização e encobrimento da morte).

Para que o povo excluído possa exclamar: “Tudo ele tem feito bem”, muito ainda deve mudar na maneira de vivermos o ensinamento e o exemplo de Jesus!

rodape-konings

WP Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com