Destaque, Notícias › 15/09/2017

Perdoar é perder!

Frei Gustavo Medella

1) Perder o orgulho e reconhecer que, assim como o outro que comigo falhou, eu também sou passível de erros e posso falhar também, se não com este “mesmo outro”, com “outros outros” que apareçam em meu caminho.

2) Perder a necessidade quase infantil de sempre ter razão, de ser o “dono da verdade”, de ter na ponta da língua a resposta que deixa o outro desconcertado, o revide imediato que me enche da falsa sensação de que o caminho do “olho por olho e dente por dente”  é o que me fará feliz.

3) Perder o medo de ir ao outro para pedir perdão quando necessário for, afinal, ao perdoar, percebo o bem que esta escolha me fez e desejo também proporcioná-la àquele a quem desejo pedir o perdão.

4) Perder a preocupação em torno do que os outros vão pensar de mim caso eu venha a perdoar a quem me ofendeu pois, ao contrário do que se pode pensar, perdoar é um ato de força, fé e coragem.

5) Perder a sensação de que Deus, em seu infinito poder, seja distante e inacessível. O Crucificado é a expressão mais transparente e legítima de um Deus que não se cansa de perdoar, extrapolando até mesmo a hipérbole pedagógica das “setenta vezes sete” apresentada por Jesus.

6) Perder desconfiança em relação a mim mesmo e na capacidade que Deus me concede para amar. Quem perdoa mais consegue amar-se mais. Quem perdoa também se perdoa.

7) Perder a ilusão de que temos controle sobre nossa vida e a vida dos outros. Perdoar é chegar à conclusão de que somos de fato finitos e limitados e, mesmo diante de tal precariedade, chamados a nos amar e a nos respeitar.

8) Perder o espírito de autossuficiência que nos isola e nos entristece. Ninguém se basta e saber perdoar é reconhecer que precisamos uns dos outros para vivermos com qualidade.

9) Perder a mágoa que corrói o coração. Perdoar é depor um peso difícil de carregar, chamado de ressentimento, uma bagagem incômoda e improdutiva que muitas vezes nos impomos quando somos resistentes à prática do perdão.

10) Perder, ou melhor, derrubar a barreira e o muro que construí para me isolar daqueles que me magoaram ou ofenderam. Assim posso transitar com mais liberdade pelos relacionamentos sem me sentir isolado ou solitário por conta das decepções e dissabores que sofri.

Pensando bem, perdoar é perder para ganhar. Simplificando: perdoar é ganhar.

Perdoar sem limites

1ª Leitura: Eclo 27,30-28,7
Sl 102
2ª Leitura: Rm 14,7-9
Evangelho: Mt 18,21-35

* 21 Pedro aproximou-se de Jesus, e perguntou: «Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?» 22 Jesus respondeu: «Não lhe digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete. 23 Porque o Reino do Céu é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados. 24 Quando começou o acerto, levaram a ele um que devia dez mil talentos. 25 Como o empregado não tinha com que pagar, o patrão mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher e os filhos e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida. 26 O empregado, porém, caiu aos pés do patrão e, ajoelhado, suplicava: ‘Dá-me um prazo. E eu te pagarei tudo’. 27 Diante disso, o patrão teve compaixão, soltou o empregado, e lhe perdoou a dívida. 28 Ao sair daí, esse empregado encontrou um de seus companheiros que lhe devia cem moedas de prata. Ele o agarrou, e começou a sufocá-lo, dizendo: ‘Pague logo o que me deve’. 29 O companheiro, caindo aos seus pés, suplicava: ‘Dê-me um prazo, e eu pagarei a você’. 30 Mas o empregado não quis saber disso. Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que devia. 31 Vendo o que havia acontecido, os outros empregados ficaram muito tristes, procuraram o patrão, e lhe contaram tudo. 32 O patrão mandou chamar o empregado, e lhe disse: ‘Empregado miserável! Eu lhe perdoei toda a sua dívida, porque você me suplicou. 33 E você, não devia também ter compaixão do seu companheiro, como eu tive de você?’ 34 O patrão indignou-se, e mandou entregar esse empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida. 35 É assim que fará com vocês o meu Pai que está no céu, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão.»

* 21-35: Na comunidade de Jesus não existem limites para o perdão (setenta vezes sete). Ao entrar na comunidade, cada pessoa já recebeu do Pai um perdão sem limites (dez mil talentos). A vida na comunidade precisa, portanto, basear-se no amor e na misericórdia, compartilhando entre todos esse perdão que cada um recebeu.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

24º Domingo do Tempo Comum, ano A

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Ó Deus, criador de todas as coisas, volvei para nós o vosso olhar e, para sentirmos a ação do vosso amor, fazei que vos sirvamos de todo o coração”.

1. Primeira leitura: Eclo 27,33–28,9

Perdoa a injustiça cometida por teu próximo;
quando orares, teus pecados serão perdoados.

O autor destas palavras é um sábio (200 a.C.), que dá conselhos a seus ouvintes. Para viver uma vida feliz aponta algumas condições: 1) libertar-se do rancor e da vingança contra o ofensor; 2) perdoar a injustiça cometida pelo próximo, porque, quando orar, seus pecados serão perdoados; 3) quem guarda rancor contra o próximo e dele não se compadece, quando pedir perdão de seus pecados não será atendido; 4) lembrar-se que um dia iremos morrer e prestar contas a Deus; 5) Pensar na aliança que Deus fez conosco e não levar em conta a falta alheia (Evangelho). – Jesus inclui o pedido de perdão na oração do Pai-Nosso.

Salmo responsorial: Sl 102

O Senhor é bondoso, compassivo e carinhoso.

2. Segunda leitura: Rm 14,7-9

Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor.

O apóstolo Paulo escreve à comunidade cristã em Roma. Era uma comunidade mista, composta por cristãos de origem judaica e cristãos de origem pagã. Por informações do o casal judeu-cristão, Áquila e Priscila, expulsos de Roma (cf. At 18,1-4), Paulo sabia das tensões entre cristãos de origem judaica e cristãos de origem pagã, motivadas por diferenças culturais e costumes alimentares (Rm 14,1-6). Um judeu-cristão, por exemplo, não comia carne vendida no mercado público, porque podia ser carne de animal sacrificado aos ídolos pagãos. No caso de uma refeição em comum, Paulo recomenda que o gentio-cristão, acostumado a comer de tal carne, se abstenha de comê-la em respeito à consciência “fraca” do judeu-cristão (cf. 1Cor 8,1-13). O importante, diz Paulo, é que tanto quem come de tudo com quem se abstêm de algum alimento, ambos devem dar graças a Deus (Rm 14,6). No texto que acabamos de ouvir (v. 7-9), Paulo insiste no essencial que une a todos os cristãos: Cristo Jesus. Não vivemos nem morremos para nós mesmos. Vivemos e morremos para o Senhor, porque pertencemos todos ao Senhor. O que importa é que Cristo morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos mortos e dos vivos.

Aclamação ao Evangelho

Eu vos dou este novo mandamento,
nova ordem, agora, vos dou;
que, também, vos ameis uns aos outros
como eu vos amei, diz o Senhor.

3. Evangelho: Mt 18,21-35

Não te digo perdoar até sete vezes,
mas até setenta vezes sete.

O texto hoje lido faz parte do assim chamado “sermão da comunidade” de Mateus. A passagem começa com a pergunta de Pedro sobre o perdão das ofensas (v. 21-22) e continua com a parábola do devedor cruel (v. 23-35), ambas exclusivas de Mt. O evangelista, depois de tratar do perdão de ofensas graves que envolvem a comunidade cristã (cf. domingo passado: v. 15-20), fala agora do limite do perdão entre duas pessoas da comunidade. É Pedro que, em nome dos discípulos, introduz a questão com uma pergunta: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” No judaísmo rabínico o limite máximo para o perdão fraterno era de até quatro vezes. Na pergunta, Pedro amplia o imperativo do perdão para sete vezes, número considerado perfeito. Na resposta, Jesus amplia de certa forma o imperativo do perdão até o infinito: “Não te digo, até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. Porque o perdão de Deus é gratuito, é fruto de seu amor infinito. O amor de Deus é a medida do amor ao próximo e também do perdão a ele dado ou dele recebido: “Se perdoardes as ofensas dos outros, vosso Pai celeste também vos perdoará” (Mt 6,14).

O perdão é gratuito, mas supõe por parte do ofensor a disposição de pedir e acolher o perdão oferecido por Deus, como aprendemos na Oração do Senhor: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. É o que Jesus nos ensina na parábola do devedor cruel (Mt 18,23-35). Um homem devia ao seu patrão uma enorme fortuna, simplesmente impagável. No acerto de contas, o patrão mandou que o empregado fosse vendido, com mulher e filhos e com tudo que possuía, para pagar ao menos parte da dívida. O empregado, porém, prostrado aos pés do patrão, suplicava: “Dá-me um tempo e eu te pagarei tudo!” O patrão, cheio de compaixão, perdoou tudo o que o empregado lhe devia e mandou soltá-lo. Este, porém, logo que saiu, foi cobrar uma insignificante dívida de seu companheiro; agarrou-o e quase o sufocando dizia: “Paga-me o que deves”. O pobre do companheiro lhe suplicava: “Dá-me um tempo e te pagarei tudo”. Mas o empregado não quis saber e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse a divida. Ao saber disso, o patrão, cheio de indignação mandou chamar o empregado cruel e lhe disse: “Eu te perdoei tudo porque me suplicaste. Não devias também tu ter compaixão de teu companheiro como eu tive de ti?” E o empregado foi entregue aos torturadores até que pagasse tudo. – Na minha relação com o próximo sou mais parecido com o Pai misericordioso ou ao empregado cruel? O perdão que pedimos e o perdão que damos aos outros são a melhor preparação para celebrarmos dignamente a Eucaristia.

Perdoar nos faz bem

José Antonio Pagola

As grandes escolas de psicoterapia quase não estudaram a força curadora do perdão. Até há bem pouco, os psicólogos não lhe concediam um papel no crescimento de uma personalidade sadia. Pensava-se erroneamente – e ainda se continua pensando – que o perdão é uma atitude puramente religiosa.

Por outro lado, a mensagem do cristianismo reduziu-se com frequência a exortar as pessoas a perdoar com generosidade, fundamentando esse comportamento no perdão que Deus nos concede; mas não ensinam quase nada sobre os caminhos que a pessoa deve percorrer para chegar a perdoar de coração. Portanto, não é estranho que haja pessoas que ignoram quase tudo sobre o processo do perdão.

Mas o perdão é necessário para conviver de maneira sadia: na família, onde os atritos da vida diária podem gerar frequentes tensões e conflitos; na amizade e no amor, onde se deve saber agir diante de possíveis humilhações, enganos e infidelidades; em múltiplas situações da vida, nas quais temos que reagir diante de agressões, injustiças e abusos. Quem não sabe perdoar pode ficar ferido para sempre.Existe algo que é necessário esclarecer desde o começo. Muitos se acham incapazes de perdoar porque confundem a ira com a vingança. A ira é uma reação saudável de irritação diante da ofensa, da agressão ou da injustiça sofrida: o indivíduo se rebela de maneira quase instintiva para defender sua vida e sua dignidade. Pelo contrário, o ódio, o ressentimento e a vingança vão mais longe do que esta primeira reação: a pessoa vingativa busca causar dano, humilhar e até destruir a quem lhe fez mal.

Perdoar não quer necessariamente dizer reprimir a ira. Ao contrário, reprimir estes primeiros sentimentos pode ser prejudicial se a pessoa acumula em seu interior uma ira que mais tarde se desviará para outras pessoas inocentes ou para ela mesma. É mais sadio reconhecer e aceitar a ira, compartilhando talvez com alguém a raiva e a indignação.

Depois será mais fácil acalmar-se e tomar a decisão de não continuar alimentando o ressentimento nem as fantasias de vingança, para não causar-nos um dano ainda maior. A fé num Deus que perdoa é então para o crente um estímulo e uma força inestimáveis. Para quem vive do amor incondicional de Deus é mais fácil perdoar.

Trecho do livro “O Caminho aberto pro Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes

Perdão e reconciliação

Pe. Johan Konings

No domingo passado ouvimos o ensinamento de Jesus sobre a correção fraterna. Mas não basta “corrigir”, importa que o que estava errado seja realmente superado pelo perdão. E que adianta pedir perdão a Deus, se a gente mesmo não perdoa?

Já o Antigo Testamento nos ensina que não podemos pedir perdão se não perdoamos. A 1ª  leitura fundamenta o perdão fraterno na Aliança: somos todos “povo de Deus”. Como posso condenar para sempre o meu irmão, que é filho de Deus? Se fizesse tal coisa, eu negaria minha comunhão com Deus, e então, o perdão de Deus não me alcançaria.

E Jesus, no evangelho, nos ensina a estarmos sempre dispostos a perdoar, inúmeras vezes. Conta a parábola do homem que foi absolvido de uma dívida enorme, mas não quis perdoar uma ninharia a seu colega. Resultado: seu patrão o condenou a pagar tudo. Quem não é capaz de perdoar não é capaz de viver em fraternidade, em comunhão.

O que importa para Deus, em última instância, não é acertar contas, e sim, promover a comunhão, a amizade e a reconciliação. Talvez seja preciso primeiro pôr as contas em dia, mas o objetivo final é a fraternidade. Quem não sabe reconciliar-se com seu irmão não pode ser amigo de Deus, que é o Pai de todos.

Num mundo de competição, como é o nosso, nada se perdoa, não se leva desaforo para casa, vinga-se a honra etc. Devemos substituir esse modelo de competição e de vingança pelo modelo de comunhão. Quando perdoo, não perco nada: pelo contrário, ganho a comunhão com o irmão e a realização de minha vocação: a semelhança com Deus (cf. Gn 1,26).

O ser humano é tão coitado, que qualquer coisa que alguém lhe estiver devendo lhe parece uma carência vital… Apenas Deus é bastante rico para perdoar sempre a quem se arrepende. A Igreja deve ser um sinal de Deus no mundo. Deve imitar Deus no perdão – no sacramento da reconciliação – e ensinar a mesma coisa aos homens. O sacramento da reconciliação é uma alegria, não um desagradável dever. É uma celebração da magnanimidade de nosso Deus. “Confessar” significa proclamar não só os pecados, mas, sobretudo o louvor do Deus que perdoa. O sacramento da reconciliação é um serviço que Deus confiou à Igreja, comunidade de salvação, para ajudar o irmão a corrigir seu caminho, a reconciliar-se com Deus e com seus irmãos na fé, e a proclamar a grandeza do amor de Deus. Para quem vivia em pecado grave, é uma verdadeira ressurreição.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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