Destaque, Notícias › 14/09/2018

24º Domingo do Tempo Comum

Um caminho de solidariedade e solidão

Frei Gustavo Medella

Meu tempo, meus interesses, meu grupo de amigos, meu conforto, meu bem-estar, meu lazer. Tudo meu! O sentimento de posse pode levar o ser humano a se encerrar numa verdadeira bolha de ilusões, isolando-se de tudo que possa colocar em risco sua fantasiosa segurança pautada em bens, status, fama e privilégios. Quando o Sr. Egoísmo “toma conta do pedaço”, a primeira a cair fora é uma tal de Dona Empatia. Afundando-se neste lamaçal de vaidades, a pessoa perde toda a referência e passa a ter somente a si mesmo como parâmetro. A dor do outro facilmente se torna motivo de riso ou indiferença. Compromisso social?! Só comigo mesmo, às vezes ficando de fora até meu pai e minha mãe. Gratidão? A quem, se tudo o que tenho consegui com o meu esforço?

Também na vida de fé esta atitude daninha pode ganhar espaço. Neste caso, Deus passa a ser visto como provedor de benesses e agrados e a cruz, marca irrenunciável do seguimento de Cristo, encarada como desgraça que se abate sobre aqueles que não caíram no bem-querer divino. “Problema é deles! Que se lasquem se são vagabundos e azarados, se não souberam se filiar ao Deus da prosperidade e do sucesso!”

Jesus Cristo, no entanto, aponta para uma direção diametralmente oposta para este modo egocêntrico de conceber a vida e a relação com Deus. O caminho do Mestre é o caminho do Servo Sofredor (cf. Is 50,5-9a), que se interessa justamente pelos desafortunados e faz questão de carregar com eles seus sofrimentos, por mais terríveis que pareçam. A fé que Ele ensina e testemunha é sempre ativa e solidária, capaz de compadecer-se com a dor e a carência do outro e colocar à sua disposição tudo o que possui. Este é o Messianismo do Pobre de Nazaré, difícil de ser assimilado e entendido por aqueles que esperavam da parte de Deus uma ação triunfante e arrasadora.

Compreender a proposta de Jesus e buscar encarná-la no dia a dia exige um esforço constante de discernimento. Até São Pedro, discípulo da primeira hora, teve seus escorregões. Ao mesmo tempo que foi capaz de professar sua fé engajada em Jesus, enxergando nele o Messias, o Ungido de Deus, também cedeu à tentação de não compreender que o projeto de salvação assumido pelo Cristo também passava pelo abraço do cruel sofrimento da cruz no mais alto grau de despojamento e maturidade humana. A incompreensão de Pedro e dos contemporâneos de Jesus serviram para mostrar ao Filho de Deus que o caminho da solidariedade por ele escolhido é, muitas vezes, um caminho de solidão.

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Leituras deste 24º Domingo do TC

Primeira Leitura (Is 50,5-9a)

Leitura do Livro do Profeta Isaías:

5O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás. 6Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas.

7Mas, o Senhor Deus é meu Auxiliador, por isso não me deixei abater o ânimo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não sairei humilhado. 8A meu lado está quem me justifica; alguém me fará objeções? Vejamos. Quem é meu adversário? Aproxime-se. 9aSim, o Senhor Deus é meu Auxiliador; quem é que me vai condenar?

Responsório (Sl 114)

— Andarei na presença de Deus, junto a ele, na terra dos vivos.
— Andarei na presença de Deus, junto a ele, na terra dos vivos.
— Eu amo o Senhor, porque ouve/ o grito da minha oração./ Inclinou para mim seu ouvido,/ no dia em que eu o invoquei.
— Prendiam-me as cordas da morte,/ apertavam-me os laços do abismo;/ invadiam-me angústia e tristeza;/ eu então invoquei o Senhor:/ “Salvai, ó Senhor, minha vida!”
— O Senhor é justiça e bondade,/ nosso Deus é amor-compaixão./ É o Senhor quem defende os humildes;/ eu estava oprimido e salvou-me.
— Libertou minha vida da morte,/ enxugou de meus olhos o pranto/ e livrou os meus pés do tropeço./ Andarei na presença de Deus,/ junto a ele na terra dos vivos.


Segunda Leitura (Tg 2,14-18)

Leitura da Carta de São Tiago:

14Meus irmãos: que adianta alguém dizer que tem fé, quando não a põe em prática? A fé seria então capaz de salvá-lo? 15Imaginai que um irmão ou uma irmã não têm o que vestir e que lhes falta a comida de cada dia; 16se então alguém de vós lhes disser: “Ide em paz, aquecei-vos”, e: “Comei à vontade”, sem lhes dar o necessário para o corpo, que adiantará isso?

17Assim também a fé: se não se traduz em obras, por si só está morta.

18Em compensação, alguém poderá dizer: “Tu tens a fé e eu tenho a prática!” Tu, mostra-me a tua fé sem as obras, que eu te mostrarei a minha fé pelas obras!


Jesus é o Messias

Evangelho: Mc 8,27-35

-* 27 Jesus partiu com seus discípulos para os povoados de Cesaréia de Filipe. No caminho, ele perguntou a seus discípulos: «Quem dizem os homens que eu sou?» 28 Eles responderam: «Alguns dizem que tu és João Batista; outros, que és Elias; outros, ainda, que és um dos profetas.» 29 Então Jesus perguntou-lhes: «E vocês, quem dizem que eu sou?» Pedro respondeu: «Tu és o Messias.» 30 Então Jesus proibiu severamente que eles falassem a alguém a respeito dele.

31 Em seguida, Jesus começou a ensinar os discípulos, dizendo: «O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto, e ressuscitar depois de três dias.» 32 E Jesus dizia isso abertamente. Então Pedro levou Jesus para um lado e começou a repreendê-lo. 33 Jesus virou-se, olhou para os discípulos e repreendeu a Pedro, dizendo: «Fique longe de mim, satanás! Você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens.»

* 34 Então Jesus chamou a multidão e os discípulos. E disse: «Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. 35 Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim e da Boa Notícia, vai salvá-la.


 * 27-33: A pergunta de Jesus força os discípulos a fazer uma revisão de tudo o que ele realizou no meio do povo. Esse povo não entendeu quem é Jesus. Os discípulos, porém, que acompanham e vêem tudo o que Jesus tem feito, reconhecem agora, através de Pedro, que Jesus é o Messias. A ação messiânica de Jesus consiste em criar um mundo plenamente humano, onde tudo é de todos e repartido entre todos. Esse messianismo destrói a estrutura de uma sociedade injusta, onde há ricos à custa de pobres e poderosos à custa de fracos. Por isso, essa sociedade vai matar Jesus, antes que ele a destrua. Mas os discípulos imaginam um messias glorioso e triunfante.
* 34-38: A morte de cruz era reservada a criminosos e subversivos. Quem quer seguir a Jesus esteja disposto a se tornar marginalizado por uma sociedade injusta (perder a vida) e mais, a sofrer o mesmo destino de Jesus: morrer como subversivo (tomar a cruz).

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


24º Domingo do Tempo Comum – Ano B

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Ó Deus, criador de todas as coisas, volvei para nós o vosso olhar e, para sentirmos
em nós a ação do vosso amor, fazei que vos sirvamos de todo o coração”.

1. Primeira leitura: Is 50,5-9a

Ofereci minhas costas aos que me batiam.

O texto que ouvimos é um cântico, o terceiro dos quatro Cânticos do Servo do Senhor, que foram inseridos na segunda parte do livro de Isaías (Is 40–55). O Servo se apresenta como discípulo, preparado pelo próprio Deus para falar palavras de conforto aos judeus desanimados, no exílio da Babilônia. Cada manhã Deus abre os ouvidos do Servo para que possa acolher sua mensagem comunicá-la ao povo. No texto que ouvimos, porém, o Servo tem os ouvidos abertos não para receber e transmitir uma mensagem ao povo, mas para obedecer ao Senhor. O Servo é um discípulo obediente (do latim, obaudio, obedecer, escutar), sempre atento à mensagem divina. Por isso recebeu “uma língua de discípulo” (v. 4), capaz de transmitir palavras de conforto aos exilados. O Servo obediente não faz resistência à mensagem que Deus lhe pede para anunciar. Também não recua diante do desprezo, das humilhações e agressões sofridas por parte dos que se opõe à sua mensagem. Não recua diante dos opositores porque confia em Deus, que é seu Auxiliador. O profeta percebe Deus como um “Auxílio” sempre próximo, pronto para socorrê-lo, mais próximo do que Adão e Eva, “auxílio” um do outro, criados por Deus. A Palavra que ouvimos inspira confiança e uma atitude de discípulo, obediente à vontade do Senhor em à violência e ao desprezo sofrido.

Salmo responsorial: Sl 114

Andarei na presença de Deus, junto a ele, na terra dos vivos.

2. Segunda leitura: Tg 2,14-18

A fé, se não se traduz em obras, por si só está morta.

Paulo, nas suas cartas, fala da fé como dom de Deus, condição para nos tornarmos filhos de Deus. Pelas nossas boas obras – diz ele – jamais poderemos “comprar” ou merecer este dom. Tiago fala para cristãos, que já receberam o dom da fé e são filhos de Deus. Havia nas comunidades cristãs pessoas que interpretavam mal as palavras de Paulo, como se bastasse ter fé em Cristo, sem as boas obras. Para estes, Tiago lembra que não basta ter fé em Deus, ter fé em Cristo Jesus, para ser salvo. A fé que na se traduz em obras – diz Tiago –, por si só está morta. É preciso que a fé dos que são filhos de Deus brilhe pelas boas obras que praticam. Mateus deixa isso claro: “Vós sois a luz do mundo (…) assim que deve brilhar vossa luz diante das pessoas, para que vejam vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,14-16).

Aclamação ao Evangelho:

Eu de nada me glorio, a não ser, da cruz de Cristo;
Vejo o mundo em cruz pregado e para o mundo em cruz me avisto.

3. Evangelho: Mc 8,27-35

Tu és o Messias… O Filho do Homem deve sofrer muito.

Domingo passado vimos como Jesus curou um surdo-mudo, tocando-lhe com saliva os ouvidos e a língua. Tirou o surdo-mudo de seu isolamento. Agora ele podia ouvir e ser ouvido. Apesar da proibição de divulgar o fato, o homem não parou de falar. Jesus curava cegos, surdos, mudos, coxos e leprosos, mas estava preocupado com os discípulos. Ainda antes do evangelho que acabamos de escutar, Jesus curou um cego em Betsaida (Mc 8,22-26). Havia bastante tempo que o seguiam e continuavam surdos e cegos diante de seus ensinamentos e de sua pessoa. Jesus estava impaciente e queria curar a cegueira e a surdez dos próprios discípulos: “Tendo olhos, não vedes e tendo ouvidos não ouvis” (8,18)? Por isso retirou-se com os discípulos para Cesareia de Filipe, junto às nascentes do rio Jordão. Era hora de esclarecer qual era a sua missão. Queria saber o que pensava o povo a seu respeito. Eles respondem: “Alguns dizem que és João Batista; outros que és Elias, outros ainda, que és um dos profetas”. Então Jesus pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Nesse momento devem ter olhado para Pedro… Ele, então, tomou a palavra e disse: “Tu és o Messias”. Chegamos assim ao núcleo central da fé cristã, isto é, que Jesus é o Messias esperado, o Cristo, o Ungido do Senhor. Jesus, porém, proíbe que falem disso aos outros. Precisava antes esclarecer que tipo de Messias ele era, para não alimentar, mais ainda, falsas expectativas. Pedro, provavelmente, pensava num Messias “filho de Davi”, guerreiro e libertador da opressão estrangeira. Jesus precisava corrigir esta imagem de Messias que estava na cabeça de Pedro e dos discípulos. Por isso “começou a ensiná-los” em que sentido ele era o Messias. Jesus nunca disse ser Ele o Messias, e sim, o Filho do Homem. Como tal, devia sofrer e ser rejeitado pelos chefes do povo; devia morrer, mas ressuscitaria após três dias. Pedro, percebendo que seu projeto de fazer de Jesus um “filho de Davi” guerreiro caía por terra, tenta corrigi-lo e ensinar qual Messias eles esperavam. Jesus olha para os discípulos e chama Pedro de “satanás”, – isto é, adversário, alguém que tenta desviá-lo do projeto de Deus, e manda que se coloque atrás dele. Jesus é o mestre que mostra o caminho e ensina. Como discípulo, Pedro devia seguir o mestre e o caminho do Servo Sofredor (1ª leitura), escolhido por Jesus. Por fim, Jesus convida os discípulos e a multidão (todos) a segui-lo pelo mesmo caminho: Quem quiser seguir a Jesus, tornar-se seu discípulo, deve renunciar-se a si mesmo, tomar a sua cruz. Renunciar-se a si mesmo é saber “perder a sua vida” por causa de Cristo e do Evangelho, para poder ganhá-la. – Fica a pergunta: Quem é Jesus para mim? Um Messias triunfante, ou um Messias que enfrenta o sofrimento e é solidário com os sofredores? Jesus deu a resposta no ensinamento que ouvimos. Saberemos quem é Jesus Cristo, colocando-nos no seu seguimento, como discípulos.

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Sabedoria divina, sabedoria humana

Frei Clarêncio Neotti

Não dá de seguir Jesus, tendo como critério de orientação a sabedoria humana (que manda satisfazer os instintos, usar de tudo, armazenar, ambicionar, ser autossuficiente, silenciar a oposição, eliminar os contrários, receber o máximo com o mínimo de esforço). Ao mesmo tempo que Jesus começa a viagem decisiva a Jerusalém, começa a revelar aos Apóstolos as qualidades do verdadeiro discípulo, qualidades diferentes das que exigiam de seus seguidores os mestres da lei e da espiritual idade judaica. Inclusive o discípulo deverá morrer com o mestre. Pode não ser uma morte física, mas certamente será uma morte aos próprios interesses, em benefício dos interesses de Deus.

Na primeira parte do Evangelho, Marcos anotou as diferentes reações dos ouvintes de Jesus: admiravam-se (5,20), ficavam estupefatos (1,27), maravilhavam-se (1,22; 6,2; 7,37), impressionavam-se extraordinariamente (2,12; 5,42). Muitos o tinham em conta de profeta, isto é, de alguém que proclamava a presença de Deus e exigia das criaturas um comportamento correspondente a essa presença divina. Imaginavam-no santo. Isso fica claro no trecho que lemos hoje, quando o povo o compara a Elias, considerado o mais santo dos profetas, ou a João Batista, recém-assassinado e de quem todos guardavam santa memória.

Ao longo da viagem a Jerusalém, Jesus procurará mostrar aos Apóstolos que ele é mais que Elias e Moisés. O episódio da Transfiguração ocorre imediatamente após o trecho de hoje, e mostra, sem deixar dúvidas, a superioridade de Jesus sobre Elias e Moisés. Ao mesmo tempo, Jesus ensinará aos discípulos que não é suficiente impressionar-se com ele e admirar seus milagres. É preciso assumir sua maneira de pensar, de comportar-se, de fazer a vontade do Pai até a morte e morte de Cruz (Fl 2,8).

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Nosso verdadeiro encontro com Cristo Jesus

Frei Almir Guimarães

Mais uma vez, pela leitura do evangelho deste domingo, somos levados a fazer uma viagem a Cesareia de Filipe. Mais uma vez ouvimos aquela pergunta feita lá, mas que parece sempre penetrar nossos ouvidos, esperando uma resposta que parta de nossa verdade mais profunda. “E vós quem dizeis que eu sou?” Sabemos perfeitamente que precisamos dar, em cada estação de nossa vida, uma resposta mais completa e mais satisfatória.

Nosso conhecimento de Jesus pode muito bem ter começado em nossas famílias, nas imagens do Coração de Jesus, no catecismo da primeira comunhão, nos santinhos que distribuímos aos parentes e amigos. Rezávamos o terço com os mistérios de Cristo… nascimento, morte, ressurreição… missa de domingo, comunhão, cuidado para não mastigar a hóstia… Talvez tenhamos nos acostumado. E ressoava aos nossos ouvidos afirmações dogmáticas: Jesus é o Filho de Deus, homem e Deus. Noções cerebrais… Fomos vivendo com nossas certezas e nossas dúvidas que fomos abafando… e seguindo, quem sabe, apenas mais uma religião com suas tradições… alguns tiveram ocasião de continuar nossa busca… outros desistiram da religião e ficaram com uma vaga imagem de Cristo. Quem é Cristo para mim?

Estamos no universo da fé. Esse Jesus que percorreu os caminhos da terra, amou, viveu, encontrou pessoas, falou de um mundo novo que vinha propor da parte de um Pai que ele amava e que estava com ele, esse Jesus foi levado à morte e, segundo os relatos de pessoas da época, foi tirado da morte. Ele vive, ele é o ressuscitado, não tem mais esse corpo que temos, mas se esconde em sinais: a Palavra que é proclama que encerra inaudito  vigor, os mais abandonados da terra que escondem sua presença, o mistério pão e do vinho, a comunidade de dois ou três que se reúne em seu nome na certeza de sua presença… A primeira coisa a fazer é lutar para acreditar e se deixar acompanhar pelo ressuscitado que atravessa portas fechadas e paredes espessas. Era assim a postura das primeiras comunidades.

Os cristãos da primeira e da segunda geração nunca pensaram que com eles estava nascendo uma religião. De fato, não sabiam com que nome designar aquele movimento que ia crescendo de maneira insuspeitável. Viviam sob o impacto da lembrança de Jesus que sentiam vivo entre eles.

Crer em Cristo é ter a certeza de sua  presença no meio de nós, como ressuscitado. É ter a sorte de ter se encontrado com ele. Para além dos costumes religiosos, do batismo e matrimônio recebidos como sacramentos há pessoas que, misteriosamente, foram colocadas diante dele e tiveram que responder: “Quem sou eu para você?”

Com claridade incomum ele se apresentou: no rosto de uma criança, numa Palavra do Evangelho que nos atingiu de modo particular, numa reunião de pessoas transparentes e belas que viviam de sua vida, no rosto de um homem não piegas que, ao morrer, levava nos lábios, o nome de Jesus. Certas palavras:  Quem tem sede, venha a mim… eu sou o pão da vida… os que me seguem deixam tudo…” Por vezes um retiro, outras vezes uma leitura, ainda em momentos de silêncio, com a graça de Deus, temos vontade de dizer: “É o Senhor!”

Vivemos um tempo em que se tem a impressão que a fé em Cristo não anima a vida. José  Antonio Pagola: “Digamos sinceramente, será que essa ausência de dinamismo cristão, está incapacidade de ir crescendo no amor e fraternidade com todos, essa inibição e passividade para lutar arriscadamente pela justiça, essa falta de criatividade evangélica para descobrir as novas exigências do Espírito não estão delatando uma falta de comunicação viva com  Cristo  ressuscitado?

Como chegar a viver um relacionamento vivo e pessoal com  Cristo Jesus?

tique-20 Verificar se não andamos saciados demais com coisas que alimentam nosso ego e nos satisfazem. Até que ponto somos pessoas que sentimos sede de plenitude? Não se conformar com a mediocridade.

tique-20 Frequentar pessoal e comunitariamente as páginas dos evangelho mormente o sermão da montanha e as parábolas.

tique-20 Ter à mão um livro simples e claro e que nos fala da coisas da fé.

tique-20 Eliminar corajosamente de nossa vida tudo aquilo que nos torna homens carnais.

tique-20 Exames de consciência regulares para saber se entramos no caminho certo já que Jesus diz ser o caminho.

tique-20 Fazer de nossa missa dominical um acontecimento espiritual e não apenas um rito cumprido que tranquiliza a consciência.

A quem iremos, Senhor, só tu tens palavras de vida eterna.

Prece

Jesus,
tu me conheces e sabes o que quero.
Conheces meus projetos e minhas fraquezas.
Nada posso ocultar-te, Jesus.
Gostaria de deixar de pensar em mim
e conseguir dedicar mais tempo a ti.
Gostaria mesmo de entregar-me totalmente a ti.
Teria muito gosto de seguir teus passos
onde quer que fores.
Mas nem isso me atrevo a dizer-te porque sou fraco.
Tu o sabes melhor do que eu.
Sabes bem de que barro sou feito,
tão frágil e inconstante.
Por isso mesmo preciso mais de ti,
para que me guies, sejas meu apoio e meu descanso.
Obrigado, Jesus, pela tua amizade. Amém

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O que Jesus nos pode trazer?

José Antonio Pagola

“Quem dizeis que eu sou?” Não sei exatamente como responderão a esta pergunta os cristãos de hoje, mas talvez possamos intuir um pouco o que pode ser para nós nestes momentos se conseguirmos encontrar-nos com ele com mais profundidade e verdade.

Jesus pode nos ajudar, antes de mais nada, a conhecer-nos melhor. Seu evangelho leva a pensar e nos obriga a colocar-nos as perguntas mais importantes e decisivas da vida. Sua maneira de sentir e de viver a existência, seu modo de reagir diante do sofrimento humano, sua confiança indestrutível num Deus amigo da vida é o que a história humana produziu de melhor.

Jesus pode ensinar-nos, sobretudo, um novo estilo de vida. Quem se aproxima dele não se sente tanto atraído por uma nova doutrina quanto convidado a viver de uma maneira diferente, mais arraigado na verdade e com um horizonte mais digno e mais esperançoso.

Jesus pode nos libertar também de formas pouco sadias de viver a religião: fanatismos cegos, desvios legalistas, medos egoístas. Pode, sobretudo, introduzir em nossas vidas algo tão importante como a alegria de viver, o olhar compassivo para as pessoas, a criatividade de quem vive amando.

Jesus pode nos redimir de imagens doentias de Deus que vamos arrastando sem medir os efeitos daninhos que exercem sobre nós. Pode nos ensinar a viver Deus como uma presença próxima e amistosa, fonte inesgotável de vida e ternura. Deixar-nos conduzir por ele nos levará a encontrar-nos com um Deus diferente, maior e mais humano do que todas as nossas teorias.

Isso sim. Para encontrar-nos com Jesus num nível um pouco autêntico precisamos atrever-nos a sair da inércia e do imobilismo, recuperar a liberdade interior e estar dispostos a “nascer de novo”, deixando para trás a observância rotineira e tediosa de uma religião convencional.

Sei que Jesus pode ser o curador e libertador de não poucas pessoas que vivem presas na indiferença, distraídas pela vida moderna, paralisadas por uma religião vazia ou seduzidas pelo bem-estar material, mas sem caminho, sem verdade e sem vida.

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Seguir um Messias diferente…

Pe. Johan Konings

Dizem que o povo não gosta de jogar voto fora. Vota em quem pensa que vai ganhar. Assim, quem representa os deserdados não tem ibope, enquanto os políticos corruptos são reeleitos e a situação não muda nunca. Parece que também Simão Pedro não gostava de torcer pelo time perdedor. Queria estar do lado do poder. Tinha chegado à conclusão de que Jesus era o Messias (8,29). Mas quando Jesus começou a explicar que o Messias e Filho do Homem devia sofrer e morrer, Pedro quis fazer-lhe a lição: sofrer, nunca! (8,31-32). Então, Jesus lhe dirige dura advertência: “Vai, satanás, para trás de mim, pois não tens em mente as coisas de Deus e sim as dos homens” (8,33). Pedro é chamado de satanás, não de diabo, porque o satanás é uma figura folclórica na literatura bíblica, exercendo o papel de tentador, de sedutor (cf. Jô 2,1-2). Jesus associa Pedro ao “sedutor”, porque tentou desviá-lo do caminho do sofrimento. Então, Jesus o manda para o lugar do discípulo obediente, atrás do mestre, para segui-lo carregando a cruz (Mc 8,34-35).

Jesus é Messias, mas à maneira do Servo Sofredor de que fala Isaías (1ª leitura). Este oferece as faces a quem lhe arranca a barba, não teme o fracasso, pois Deus está com ele. O Servo Sofredor é como um herói que desce na cova dos leões: desce nas profundezas do ódio para vencê-lo, por dentro, assumindo o sofrimento injustamente infligido. Seu poder não é como os poderes deste mundo; é a força de Deus que vence o poder pelo amor. Mas para isso, ele tem de escutar a voz de Deus: “O Senhor abriu meu ouvido” (Is 50,5).

Acreditar em Jesus é aderir ao Servo, o líder rejeitado e morto, mas que é também ressuscitado por Deus, como está em Mc 8,31 (Pedro parece não ter percebido esse “detalhe”). Ser cristão é seguir Jesus pelo caminho do sofrimento. Não existe fé cristã sem via sacra. E isso não pelo prazer de sofrer, mas porque é preciso enfrentar a injustiça e tudo quanto se opõe a Deus no próprio campo de batalha. Ser cristão não é compatível com sempre ter sucesso no mundo; quem não é perseguido provavelmente não está trilhando os passos de Jesus.

A Igreja não é para torcedores que pagam para ver o time ganhar; é para jogadores dispostos a enfrentar sacrifícios. Mas esta comparação esportiva é perigosa: pode sugerir autoafirmação, e então estaríamos novamente pensando nas coisas dos homens e não nas de Deus. Não se trata de autoafirmação, nem de heroísmo para glória própria, mas antes, de ter um ouvido aberto à voz de Deus, que nos mostra um caminho que por nós mesmos não suspeitávamos ser o caminho de Deus. Trata-se de ter um coração de discípulo, que saiba escutar Deus nos seus planos mais misteriosos. Será que Deus não está mostrando um caminho de “mais vida” quando sugere cuidar de uma criança doente, de pessoas excluídas, do silêncio de quem não pode falar, do esquecimento de si?… Tenhamos o ouvido aberto!

Cristo nos deu o exemplo. Nele confiamos. Tendo em vista sua “vitória”, não importa que “perdemos nossa vida” segundo os critérios deste mundo. Ganharemos Deus.

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