Destaque, Notícias › 22/09/2017

25º Domingo do Tempo Comum

“Mistério da Salvação”

Frei Gustavo Medella

“Eis o mistério de Fé!” Logo depois da Consagração, quando o pão e o vinho se tornam Corpo e Sangue de Cristo, o sacerdote se dirige à assembleia com esta exclamação. É pelo mistério da fé que se pode acreditar na presença real de Cristo entre seu povo na forma das espécies eucarísticas, um modo simples – e misterioso – que o Senhor escolheu para estar junto do seu povo.

“Palavra da Salvação!”, exclama o padre ou o diácono depois de proclamar o Evangelho na celebração da Missa. A Palavra é manifestação do Cristo que se comunica com os seus. Outro modo simples – e também misterioso – que Deus elegeu para se comunicar com a humanidade.

“Mistério da Salvação!” Esta expressão, uma espécie de casamento entre as duas fórmulas litúrgicas expressas anteriormente, não existe no ritual da missa nem em outras celebrações sacramentais. No entanto, também traz em si a revelação da verdade divina, misteriosa em sua origem, pois Deus, infinito e insondável, só poderia ser mesmo mistério à parcialidade dos sentidos e do raciocínio humanos.

É o Mistério da Salvação que Jesus deseja explicar quando conta a parábola do patrão que sai em diferentes horas do dia a fim de buscar operários para sua vinha. O fato de um proprietário agrícola procurar em diferentes turnos trabalhadores para atuar em seu campo não tem nada de extraordinário, assim como a proposta que ele faz aos convidados: “Ide também vós para a minha vinha! E eu vos pagarei o que for justo” (Mt 20,4). Apenas demonstra a correção e a seriedade daquele homem. Até aqui, nada de surpreendente.

A surpresa vem justamente na hora do acerto. O proprietário destina a todos que trabalharam em sua vinha o mesmo pagamento, independente da hora que tenham começado a labutar. Quem trabalhou oito horas recebe o mesmo que aquele que pegou apenas por uma hora no “batente”. Decisão estranha para os critérios da lógica e da proporcionalidade. No entanto, totalmente normal e aceitável aos olhos do patrão que, misteriosamente, decidiu dispor de seus bens da referida maneira.

Aí se encontra o núcleo do tal “Mistério da Salvação” que, segundo o explicitado na parábola, é um convite realizado por Deus a todos, em diferentes momentos de suas vidas. Diz muito mais da graça do que do mérito. A nós, como possíveis operários, cabe ouvir e aceitar o convite insistente e democrático de Jesus e, uma vez que nos sentimos plenamente amados e salvos, sermos os porta-vozes do dono da vinha para que cada vez mais pessoas se sintam convidadas a participar do Mistério da Salvação. Na linguagem humana dos sentimentos, sentir-se salvo significa sentir-se profundamente amado e feliz.

A Salvação é moeda única, de valor inestimável e absoluto, destinada pelo Senhor a todo aquele que se decide abandonar-se confiantemente nos braços amorosos de Pai. Ninguém precisa se sentir mais ou menos salvo do que seu semelhante. Salvar-se é uma graça plena, inteira, oferecida por Deus com toda prodigalidade que lhe é própria.


O Reino é dom gratuito

1ª Leitura: Is 55,6-9
Sl 144
2ª Leitura: Fl 1,20c-24.27ª
Evangelho: Mt 20,1-16ª

* 1 «De fato, o Reino do Céu é como um patrão, que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. 2 Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha. 3 Às nove horas da manhã, o patrão saiu de novo. Viu outros que estavam desocupados na praça, 4 e lhes disse: ‘Vão vocês também para a minha vinha. Eu lhes pagarei o que for justo’. 5 E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três horas da tarde, e fez a mesma coisa. 6 Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse: ‘Por que vocês estão aí o dia inteiro desocupados?’ 7 Eles responderam: ‘Porque ninguém nos contratou’. O patrão lhes disse: ‘Vão vocês também para a minha vinha’. 8 Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: ‘Chame os trabalhadores, e pague uma diária a todos. Comece pelos últimos, e termine pelos primeiros’. 9 Chegaram aqueles que tinham sido contratados pelas cinco da tarde, e cada um recebeu uma moeda de prata. 10 Em seguida chegaram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. No entanto, cada um deles recebeu também uma moeda de prata. 11 Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: 12 ‘Esses últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor do dia inteiro!’ 13 E o patrão disse a um deles: ‘Amigo, eu não fui injusto com você. Não combinamos uma moeda de prata? 14 Tome o que é seu, e volte para casa. Eu quero dar também a esse, que foi contratado por último, o mesmo que dei a você. 15 Por acaso não tenho o direito de fazer o que eu quero com aquilo que me pertence? Ou você está com ciúme porque estou sendo generoso?’ 16 Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos.»


* 20,1-16: No Reino não existem marginalizados. Todos têm o mesmo direito de participar da bondade e misericórdia divinas, que superam tudo o que os homens consideram como justiça. No Reino não há lugar para o ciúme. Aqueles que julgam possuir mais méritos do que os outros devem aprender que o Reino é dom gratuito.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


25º Domingo do Tempo Comum, ano A

Frei Ludovico Garmus, OFM

Oração: “Ó Pai, que resumistes toda a lei no amor a Deus e ao próximo, fazei que, observando o mandamento do amor a Deus e ao próximo, consigamos chegar um dia à vida eterna”.

1. Primeira leitura: Is 55,6-9

Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos.

O texto que ouvimos foi escrito (540 a.C.) por um profeta anônimo, discípulo do grande profeta Isaías (séc. VIII a.C.), quando termina o império da Babilônia e começa o império dos persas. O profeta convoca os exilados a buscar o Senhor “enquanto pode ser achado” e invocar “enquanto ele ainda está perto”. É o momento de invocar o Senhor; é a hora da conversão, pois Deus está pronto para perdoar. Ele não abandonou seu povo no exílio, como muitos pensavam. Pelo contrário, está bem próximo de seu povo e pode ser encontrado. Para que isso aconteça, o pecador deve buscar o Senhor, invocar seu santo nome e abandonar o mau caminho, pois Ele é generoso no perdão. Agora é o momento histórico para isso aconteça: Ciro, o rei persa, vai permitir a volta do povo à Terra Prometida. O que parece humanamente impossível acontecer (vossos pensamentos, vossos caminhos) – diz Deus – é possível para Deus (meus caminhos, meus pensamentos)

Nossa existência neste mundo é o tempo da conversão e da graça divina da salvação. Basta abandonar os maus caminhos e voltar-se a Ele para acolher sua graça. Deus não quer a morte de ninguém, mas convida todos à conversão (cf. Ez 18,32).

Salmo responsorial: Sl 144(145)

O Senhor está perto da pessoa que o invoca!

2. Segunda leitura: Fl 1,20c-24.27ª

Para mim, o viver é Cristo.

A comunidade de Filipos era formada por alguns judeus, por simpatizantes do judaísmo e, sobretudo, por muitos pagãos convertidos. É a primeira comunidade cristã da Europa fundada por Paulo, durante a segunda viagem missionária, pelos anos 49-50. Tornou-se a comunidade mais querida do Apóstolo, que a visitou mais duas outras vezes (57-58). Paulo escreve da prisão em Éfeso. É uma carta muito pessoal, na qual procura confortar e animar os cristãos. Nela expressa também seus sentimentos na perspectiva de uma possível condenação à morte. Nestas circunstâncias Paulo se pergunta o que lhe seria melhor: morrer para estar definitivamente com Cristo – o que lhe seria vantajoso – ou viver para continuar servindo à comunidade? Em outras palavras, sem Cristo a vida não teria sentido para Paulo. O importante para ele é estar unido a Cristo, seja morrendo, seja vivendo pela causa do Evangelho. “Mas para vós é mais necessário que eu continue minha vida neste mundo” – diz o Apóstolo – a fim de que os filipenses possam ter a mesma experiência de união com Cristo como a de Paulo. Para os cristãos o centro da vida cristã é Jesus Cristo. – “Onde estiver vosso tesouro, aí também estará o vosso coração” (Mt 6,21). Jesus compara o Reino de Deus (Céus) a um tesouro escondido no campo ou a uma pérola muito preciosa. E quem é sábio investe tudo o que tem para conquistá-lo (Mt 13,44-46).

Aclamação ao Evangelho:

Vinde abrir o nosso coração, Senhor;
ó Senhor, abri o nosso coração,
e, então, do vosso Filho a palavra,
poderemos acolher com muito amor.

3. Evangelho: Mt 20,1-16a

Estás com inveja porque eu estou sendo bom?

O Evangelho que ouvimos é conhecido como a “parábola dos trabalhadores da vinha”. Nesta parábola Jesus parte da realidade dura do trabalho no campo, de todos conhecida. Na lei judaica se previa que o valor da diária (doze horas de trabalho) fosse pago no fim do dia. Era uma espécie de salário mínimo. No costume romano, o valor da diária era uma moeda de prata, considerado o mínimo suficiente para alimentar uma família de seis pessoas, por um dia. Na época das colheitas, os homens que esperavam ser contratados reuniam-se, desde a madrugada, numa praça. Os patrões se dirigiam à praça, bem cedo, uma só vez, e iam escolhendo os mais fortes e saudáveis; assim, os mais fracos e doentes ficavam sobrando, às vezes, sem conseguirem trabalhar; com isso, a família ficava sem comida no final do dia. O bom patrão da parábola se dirige várias vezes à praça e contrata os que “sobraram”. Com os primeiros combina como diária uma moeda de prata; aos outros promete pagar o que fosse justo, que, no costume de então, seria o proporcional às horas trabalhadas. No final do dia, o bom patrão começa a pagar pelos trabalhadores da última hora e lhes paga uma moeda de prata, o suficiente para sustentar uma família. Os contratados da primeira, vendo que os últimos ganhavam uma moeda de prata, esperavam ganhar mais de uma moeda de prata (valor combinado), e por isso reclamam. O bom patrão (Deus) responde que eles receberam o que foi combinado (justiça humana: “vossos pensamentos”, 1ª leitura), mas ele tinha direito de dar a mesma paga aos contratados nas últimas horas, pois levava em consideração a necessidade de suas famílias (justiça divina: “meus pensamentos”). Na resposta aos trabalhadores das primeiras horas, o patrão se justifica com três perguntas, que nos convidam a refletir no sentido da parábola: 1) “Não combinamos uma moeda de prata?” – 2. Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence?” – 3. “Ou estás com inveja, porque eu estou sendo bom?” – A salvação trazida por Jesus Cristo não é um “direito” reservado aos judeus e fariseus (trabalhadores da primeira hora), que se consideravam perfeitos na observância da Lei. Pelo contrário, é oferecida a todos, incluindo pecadores e pagãos, trabalhadores da última hora. É assim que funciona a justiça de Deus. Ele oferece gratuitamente a salvação a todos seus filhos e suas filhas.


Confiar na bondade de Deus

José Antonio Pagola

Estou cada vez mais convencido de que muitos dos que se dizem ateus são pessoas que, quando recusam a Deus, na verdade estão recusando um “ídolo mental” que se fabricaram quando eram crianças. A ideia de Deus que trazem em seu interior e com a qual viveram durante alguns anos tornou-se pequena. Num certo momento, esse Deus tornou-se para elas um ser tão estranho, incômodo e molesto que prescindiram dele.

Não me custa nada compreender essas pessoas. Dialogando com algumas delas, lembrei-me mais de uma vez daquelas palavras acertadas do patriarca Máximos IV durante o Concílio: “Eu também não creio naquele deus em que os ateus não creem”. Na realidade, o deus que alguns suprimiram de suas vidas é uma caricatura que se formaram falsamente dele. Se esvaziaram sua alma desse “deus falso”, não será para dar lugar algum dia ao Deus verdadeiro?

Mas, como pode hoje uma pessoa encontrar-se com Deus? Se ela se aproximar de nós que nos dizemos crentes, certamente vai encontrar-nos rezando, não ao Deus verdadeiro, mas a um pequeno ídolo sobre o qual projetamos nossos interesses, medos e obsessões. Um Deus do qual pretendemos apropriar-nos e ao qual tentamos utilizar para nosso proveito, esquecendo sua imensa e incompreensível bondade para com todos.

Jesus rompe com todos os nossos esquemas, quando nos apresenta na Parábola do “Senhor da Vinha” esse Deus que “dá a todos sua diária”, quer a mereçam ou não, e diz assim aos que protestam: “Vais ter inveja porque Eu sou bom?”

O que temos a fazer é esquecer-nos de nossos esquemas, fazer silêncio no nosso interior, escutar até o fundo a vida que palpita em nós … e esperar, confiar, deixar aberto nosso ser. Deus não se oculta indefinidamente a quem o busca com coração sincero.

Trecho do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes.


O Reino de Deus é de graça?

Pe. Johan Konings

O evangelho de hoje é “escandaloso”. O patrão sai a contratar diaristas para a safra da uva. Sai de manhã cedo, às nove, ao meio-dia, às três da tarde, e ainda uma vez às cinco da tarde. Na hora do pagamento, começa pelos últimos contratados, paga-lhes a diária completa; e depois, paga a mesma quantia aos que passaram o dia todo no serviço…

Será justo que alguém que trabalhou apenas uma hora pode ganhar tanto quanto o que trabalhou o dia inteiro?

Alguém que viveu uma vida irregular, mas se converte na última hora, pode entrar no céu igual aos piedosos? Aos que se escandalizam com isso, o “senhor” responde: “Estás com inveja porque eu estou sendo bom?” Quando Deus usa da mesma bondade para com os que pouco fizeram e para com os que labutaram o dia todo, ele não está sendo injusto, mas bom. Já no Antigo Testamento, Deus se defende contra a acusação de injustiça por perdoar ao pecador (1ª leitura).

Deus não pensa como a gente. Nós raciocinamos em termos de discriminação; Deus, em termos de comunhão. Nós pensamos em economia material, Deus segue a economia da salvação. Sua graça é infinita; ninguém a merece propriamente, e todos podem participar, por graça, se estão em comunhão com ele. Nós, facilmente achamos que os outros não fazem o suficiente para participar do Reino; não se engajam, não se esforçam… Mas quem faz o suficiente? O que importa não é o quanto fazemos: será sempre insuficiente! Importa que queiramos participar, ainda que tarde. E uma vez que está participando, a gente faz tudo…

O dom de Deus não pode ser merecido; é graça. Claro, quem trabalha na vinha do Senhor, se esforça. Mas esse esforço não é para “merecer”, mas por gratidão e alegria, por termos sido convidados, ainda que tarde – pois, em relação ao antigo Israel, nós “pagãos” somos os da undécima hora… Nosso empenho não é trabalho forçado, mas participação. Não somos movidos pelo moralismo, mas pela graça. Se entendermos bem isso, valorizaremos mais aquela humilde, mas autêntica boa vontade daqueles que sempre foram marginalizados, na Igreja e na sociedade, e que agora começam a participar mais plenamente: a Igreja dos pobres.

Então, tem ainda sentido falar em “merecer o céu”? Estritamente falando, é impossível. O céu não se paga. Mas se essa expressão significa nossa busca de estar em comunhão com Deus e viver em amizade com ele, tem sentido. Inclusive, essa busca já é o começo do céu.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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