Destaque, Notícias › 21/09/2018

25º Domingo do Tempo Comum

Frei Gustavo Medella

É clássica a lenda do gênio da lâmpada que, ao aparecer para aquele que esfregou a garrafa mágica, concede a ele o privilégio de fazer três pedidos. Esta normalmente é a hora crítica para aquele que foi agraciado e que, diante de tantas possibilidades que lhe são abertas, pensa consigo: “O que vou pedir, o que de fato me fará feliz? Fortuna? Conforto? Aventuras? Fama?” Muitas são as piadas e histórias pitorescas que nascem deste episódio, mexendo profundamente com a imaginação humana. Diante deste leque de possibilidades que se abre, encaixa-se como uma luva a advertência de São Tiago na 2ª Leitura deste 25º Domingo do Tempo Comum: “Pedis, sim, mas não recebeis, porque pedis mal. Pois só quereis esbanjar o pedido nos vossos prazeres” (Tg 4,3).

Com estas palavras, São Tiago não deseja fazer um fervorinho moralista, mas exortar seus irmãos na fé a exercer o discernimento. Dado que escolher significa sempre eleger algumas prioridades, a grande preocupação do Apóstolo é que aqueles que estão sob seus cuidados escolham bem, que seus sonhos e projetos sejam direcionados a uma realização plena e duradoura.

No entanto, escolher bem nem sempre é fácil. Até os discípulos que tiveram o privilégio de conviver pessoalmente com Jesus cometeram suas gafes. No Evangelho deste domingo (Mc 9,30-37), enquanto o Mestre, certamente angustiado, antecipava as consequências de sua escolha de fidelidade ao Reino, os discípulos debatiam possíveis privilégios e quem era mais importante na hierarquia do discipulado. Jesus, pacientemente, mais uma vez insiste e reorienta os seus para que sejam bem-sucedidos em sua escolha: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” (Mc 9,34).

Ao nos aproximarmos de uma escolha fundamental para o país, tomemos muito cuidado com os “gênios” e suas promessas. Atenção também com o que desejamos pedir a eles: Como cristãos, penso que nossos pedidos deveriam caminhar na direção da justiça, da paz, da distribuição justa dos bens, no fim da exclusão, na defesa da vida, no respeito e tolerância às diferenças. Caso contrário, o feitiço certamente poderá virar-se contra os feiticeiros.

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Leituras deste 25º Domingo do Tempo Comum

Primeira Leitura:

Sabedoria 2,12.17-20

Leitura do livro da Sabedoria – Os ímpios dizem: 12“Armemos ciladas ao justo, porque sua presença nos incomoda: ele se opõe ao nosso modo de agir, repreende em nós as transgressões da lei e nos reprova as faltas contra a nossa disciplina. 17Vejamos, pois, se é verdade o que ele diz e comprovemos o que vai acontecer com ele. 18Se, de fato, o justo é ‘filho de Deus’, Deus o defenderá e o livrará das mãos dos seus inimigos. 19Vamos pô-lo à prova com ofensas e torturas, para ver a sua serenidade e provar a sua paciência; 20vamos condená-lo a morte vergonhosa, porque, de acordo com suas palavras, virá alguém em seu socorro”. ­– Palavra do Senhor.

Salmo Responsorial: 53 (54)

É o Senhor quem sustenta minha vida!

Por vosso nome, salvai-me, Senhor; / e dai-me a vossa justiça! / Ó meu Deus, atendei minha prece / e escutai as palavras que eu digo! – R.

Pois contra mim orgulhosos se insurgem, † e violentos perseguem-me a vida: / não há lugar para Deus aos seus olhos. / Quem me protege e me ampara é meu Deus; / é o Senhor quem sustenta minha vida! ­– R.

Quero ofertar-vos o meu sacrifício / de coração e com muita alegria; / quero louvar, ó Senhor, vosso nome, / quero cantar vosso nome, que é bom! – R.


Segunda Leitura: Tiago 3,16-4,3

Leitura da carta de são Tiago

Caríssimos, 16onde há inveja e rivalidade, aí estão as desordens e toda espécie de obras más. 17Por outra parte, a sabedoria que vem do alto é, antes de tudo, pura, depois pacífica, modesta, conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade e sem fingimento. 18O fruto da justiça é semeado na paz, para aqueles que promovem a paz. 4,1De onde vêm as guerras? De onde vêm as brigas entre vós? Não vêm, justamente, das paixões que estão em conflito dentro de vós? 2Cobiçais, mas não conseguis ter. Matais e cultivais inveja, mas não conseguis êxito. Brigais e fazeis guerra, mas não conseguis possuir. E a razão está em que não pedis. 3Pedis, sim, mas não recebeis, porque pedis mal. Pois só quereis esbanjar o pedido nos vossos prazeres. – Palavra do Senhor.


Quem é o maior?

Evangelho: Mc 9,30-37

30 Partindo daí Jesus e seus discípulos atravessavam a Galiléia. Jesus não queria que ninguém soubesse onde ele estava, 31 porque estava ensinando seus discípulos. E dizia-lhes: «O Filho do Homem vai ser entregue na mão dos homens, e eles o matarão. Mas, quando estiver morto, depois de três dias ele ressuscitará.» 32 Mas os discípulos não compreendiam o que Jesus estava dizendo, e tinham medo de fazer perguntas.

33 Quando chegaram à cidade de Cafarnaum e estavam em casa, Jesus perguntou aos discípulos: «Sobre o que vocês estavam discutindo no caminho?» 34 Os discípulos ficaram calados, pois no caminho tinham discutido sobre qual deles era o maior. 35 Então Jesus se sentou, chamou os Doze e disse: «Se alguém quer ser o primeiro, deverá ser o último, e ser aquele que serve a todos.» 36 Depois Jesus pegou uma criança e colocou-a no meio deles. Abraçou a criança e disse: 37 «Quem receber em meu nome uma destas crianças, estará recebendo a mim. E quem me receber, não estará recebendo a mim, mas àquele que me enviou.»


* 30-37: Os discípulos não compreendem as conseqüências que a ação de Jesus vai provocar, pois ainda concebem uma sociedade onde existem diferenças de grandeza. Quem é o maior? Jesus mostra que a grandeza da nova sociedade não se baseia na riqueza e no poder, mas no serviço sem pretensões e interesses.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


25º Domingo do Tempo Comum, Ano B

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Ó Pai, que resumistes toda a lei no amor a Deus e ao próximo, fazei que, observando o vosso mandamento, consigamos chegar um dia à vida eterna”.

1. Primeira leitura: Sb 2,12.17-20

Vamos condená-lo à morte vergonhosa.

O Livro da Sabedoria é contemporâneo a Jesus Cristo e foi escrito na diáspora dos judeus de Alexandria. É um verdadeiro tratado de “teologia política”, uma crítica sapiencial aos governantes. A comunidade judaica sofria perseguições, opressões e discriminações por parte das autoridades gregas e romanas, apoiadas por judeus que abandonaram a fé. O texto que ouvimos descreve o conflito entre os ímpios – judeus que renegaram sua fé – e os justos, isto é, judeus piedosos, observantes da Lei. Este conflito está também presente no livro dos Salmos (cf. Sl 1). Mais do que as palavras, a própria vida dos justos condena as ações destes judeus ímpios, que imitavam o comportamento dos pagãos. Os ímpios sentem-se incomodados pela fé e pelas práticas dos justos e ficam indignados que se considerem “filhos de Deus”. Por isso, tramam todo tipo de ofensas e torturas, atentam contra a própria vida dos justos, para ver se Deus virá para socorrê-los e libertá-los de suas mãos. As injúrias dos ímpios contra os justos lembram as que Jesus sofreu na cruz (ver o Evangelho e Mt 20,18-19; 27,38-44).

Salmo responsorial: Sl 53

É o Senhor quem sustenta minha vida!

2. Segunda leitura: Tg 3,16–4,3

O fruto da justiça é semeado na paz, para aqueles que promovem a paz.

Tiago critica a falta de coerência dos cristãos de seu tempo. É uma comunidade dividida por rixas, inveja, rivalidades e injustiças. Uma comunidade carente de paz, necessitada de amor. Faltava-lhes a “sabedoria que vem do alto”, a sabedoria do Evangelho. Tiago faz o elogia desta sabedoria: Ela é pura, pacífica, modesta, conciliadora, é misericordiosa, é imparcial e sincera. Elogio parecido com o de Paulo aos frutos da caridade/amor (1Cor 13). A comunidade perdera o seu foco, que é a pessoa de Jesus Cristo e sua mensagem (Evangelho). Até nas orações pediam coisas supérfluas, menos a “sabedoria que vem do alto”.

Aclamação ao Evangelho

Pelo Evangelho o Pai nos chamou,
a fim de alcançarmos a glória de Nosso Senhor Jesus Cristo.

3. Evangelho: Mc 9,30-37

O Filho do Homem vai ser entregue… Se alguém quiser ser o primeiro,
que seja aquele que serve a todos.

Estamos no bloco central do Evangelho de Marcos (8,27–10,52). Nesta parte, Pedro confessa que Jesus é o Messias, o Ungido do Senhor. Jesus, por sua vez, ensina e explica em que sentido ele é o Cristo / Messias. Não é o filho de Davi que vai tomar conta do poder político e religioso em Jerusalém, mas o Servo Sofredor. Ensina também que o discípulo deve seguir o caminho do Mestre, como já vimos no domingo passado. Também no evangelho de hoje Jesus continua ensinando, a caminho de Jerusalém. Mais uma vez anuncia aos discípulos que Ele, o Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens, será morto, mas após três dias ressuscitará. Marcos comenta que eles não estavam entendo o que Jesus lhes falava e tinham medo de perguntar. Maus discípulos que não querem que o Mestre lhes explique as dúvidas. Foi mais fácil Jesus curar o surdo-mudo (7,31-37) e o cego, mesmo em dois tempos (8,22-26), do que curar a cegueira e a surdez de seus discípulos. Eles pressentiam o perigo nas palavras do Mestre e tinham medo, mas faziam como o avestruz, que enterra a cabeça na areia para fugir do perigo. Na realidade, eles não queriam desistir de seu projeto de fazer de Jesus um Messias-Rei. Por isso, já estavam distribuindo os cargos neste novo reino e discutiam entre si quem deles seria o maior. Nas discussões acaloradas deve ter crescido o ciúme e a rivalidade. Ao chegarem a Cafarnaum, Jesus perguntou o que estavam discutindo no caminho. Eles ficaram calados. Jesus, então, senta-se, como Mestre, para lhes ensinar o caminho do discípulo: “Quem quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos”.

Esta á a postura do Mestre na última ceia: “Se, pois eu, Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,14). Os discípulos queriam ser os primeiros, os maiores, e disputavam entre si um lugar de honra no imaginado reino de Jesus em Jerusalém. Para estes “maiores” Jesus, sentado, continua ensinando. Pegou uma criança, colocou-a no meio, junto de si, abraçou-a e disse: “Quem acolher em meu nome uma destas crianças, é a mim que está acolhendo”. Jesus se faz pequeno para abraçar todos os pequenos, os pobres e os sofredores e nos convida a fazermos o mesmo. Fazendo assim, acolhemos o próprio Deus, que se identifica com os pobres, famintos, nus e presos injustamente (Mt 25,31-46). Eis o “caminho” do discípulo, neste mundo repleto de sofredores em que estamos vivendo.

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Ser o último e servir a todos

Frei Clarêncio Neotti

Se dizemos que era bastante comum entre os judeus discutir precedências pessoais, não estamos dizendo coisas estranhas, porque a mentalidade moderna é igual. Procuram-se sempre a vantagem, o aparecer, o impor-se; escolhem-se os primeiros lugares e o estar com gente importante. Essa mania está no sangue humano. Há psicólogos que afirmam que o ser humano parece viver com fortes saudades de um paraíso, de um senhorio perdido, e sente-se infeliz enquanto não tiver um comando, um subalterno, nem que seja um cachorro fiel ou um gato obediente. O homem é um ser em busca de poder e de aplauso.

Ao menos em cinco ocasiões e modos diferentes, Jesus procurou inverter essa tendência, exigindo espírito de serviço, espírito de renúncia, espírito de simplicidade. Ele mesmo era um exemplo vivo. No domingo passado, ensinava-nos a renúncia aos próprios interesses (Mc 8,34). O contrabalanço desse ensinamento o encontramos no Jardim das Oliveiras, quando Jesus reza ao Pai: “Não se faça a minha vontade, e sim a tua” (Lc 22,42). Ao ensinamento segue o exemplo. Hoje ele pede uma segunda qualidade do discípulo: ser o último e servir a todos (v. 35). Certamente uma exigência difícil para a criatura humana que sonha com o poder, o dominar, o ser servida e aplaudida. O exemplo vamos encontrá-lo de novo no caminho do Calvário, quando, na Última Ceia, depois de lavar os pés dos Apóstolos, Jesus acrescentou: “Se eu, que sou o Mestre e o Senhor, lavei-vos os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo” (Jo 13,14-15).

Enquanto não fizermos do serviço humilde e alegre um comportamento de nossa vida, parecer-nos-emos aos discípulos hoje: Jesus fala em paixão e morte, em sofrimento e ressurreição, e eles brigam entre si para saber quem é o maior,

isto é, quem deles tem ou terá maior poder ou mais súditos.

Enquanto o homem tiver a mentalidade de ‘ser maior’, teremos na prática o quadro descrito por Tiago na segunda leitura de hoje: ciúme, ambição, lutas, conflitos, cobiça, inveja, insatisfação (Tg 3,16-4,3).

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Grandes são aqueles que servem

Frei Almir Guimarães

Mais uma semana de nossa vida. O tempo passa e na sucessão desses momentos vamos modelando nosso rosto espiritual vivendo as coisas de todos os dias.  Domingo após domingo somos confrontados  com uma Palavra da Escritura que, saindo das letras impressas no papel, atinge nosso interior,  lá onde somos nós mesmos. O nosso interior é o ninho da Palavra. Tantos ângulos, tantos aspectos: o tema do justo que sofre, o justo que não vê reconhecimento, os que buscam os primeiros lugares. Temas para nossa reflexão.

Houve uma discussão entre os discípulos durante o caminho para Cafarnaum.  Queriam saber quem era o maior.  Compreendemos, estes moços estavam numa aventura com Cristo e queriam saber quem era o maior. Afinal de contas tinham embarcado numa aventura prestigiosa. Sempre ressoa fortemente aos nossos ouvidos as palavras que Jesus dirigiu aos doze: “Se alguém quiser ser o primeiro,  que seja o último de todos e aquele que serve a todos”. Será que o evangelho está nos convidando para sermos inoperantes, sem garra, sem brio?

Não pedimos para nascer. Viemos ao mundo pelo desejo de nossos pais e sustentados pela mãe terra, por pessoas que nos precederam e vivemos carregando aspirações, sonhos e projetos.  Somos homem ou mulher, sentimos que há em nós um chamado para o casamento e a família. Há também o convite a que tornemos o mundo habitável com nosso trabalho, cultivando a terra, inventando meios de transporte, curando as enfermidades, descobrindo novidades eletrônicas. Somos chamados a trabalhar.

Pode acontecer que cada um se acantone no seu mundo e viva a tudo isso de um jeito pouco generoso, meio egoísta, muito egoísta. Pode ser que na realização desses projetos todos insira-se um desejo de ganhar, de superioridade,  de competição, de eliminação  mais ou menos sumária de concorrentes. Melhores e piores. Chefes e subalternos. Os que mandam e os que obedecem. Os filhos de Zebedeu queriam saber quem seria o maior nesse Reino de que Jesus falava.

Jesus então a aproveita o ensejo para que todos entendam que há uma lei mais importante, a do mútuo e atencioso serviço. “Se alguém quiser ser o primeiro que seja o último de todos e aquele que serve a todos”.

Jesus, com efeito, veio para servir e não para ser servido.  Com seu jeito de viver e conviver, com suas palavras e gestos, com sua paixão e morte  mostrou carinho no servir.

Nunca sai de nossas vistas interiores a cena do lava-pés.  Antes de terminar seus dias lava os pés dos seus como um empregado e diz que só terão parte no seu mundo os que servem.  Os príncipes, os que buscam os primeiros lugares, os que respiram o ar da competição estão fora do mundo novo. Quando Jesus chama atenção para o humilde serviço não está querendo insinuar  que as pessoas se acomodem, deixem de estudar, não busquem melhorar, mas que saibam que a grandeza está no existir para, no serviço, no cuidado pelo outro.  Maior será o que melhor servir.  Serviço e fraternismo  estão intimamente ligados.

E lá se vão alguns exemplos:

tique-20 Homem e mulher, pai e mãe, filhos e pais vivem servindo uns aos outros: o cuidado da casa, a saúde de todos, a ajuda mútua, a educação para os valores, a dissolução de rixas, o incentivo para que nunca se acomodem à mediocridade, o perdão quando necessário, a atenção dos filhos para com os pais, a acolhida dos hóspedes, o cuidado daqueles que foram atingidos pelo Mal de Alzheimer. Sempre o serviço.

tique-20 Médicos, dentistas, motoristas, padeiros, garis, pintores de parede, pedreiros, advogados têm direito ao justo salário.  Haverão de ser   profissionais de qualidade.  Por detrás de seu trabalho estão seres  humanos aos quais servem:  curar as doenças do corpo e do espírito,  levar as pessoas nos coletivos de um lado para o outro com delicadeza, deixar a cidade limpa para que não haja doenças e as pessoas gostem de caminhar pelas e sentar-se  nas praças.  O maior no  Reino é aquele que serve.

tique-20 Governadores, deputados, prefeitos existem para servir.  Foram eleitos para tanto.  Recebem bons salários.  Não têm o direito de usufruir do cargo para proveito próprio.  Os políticos deveriam receber no dia da posse uma bacia e um avental.  Com sua ação,  batalhando para o justo emprego dos dinheiros públicos servem à senhora idosa atendida num hospital público, aos meninos sem pais que vão às escolas,  aos cidadãos que precisam viajar em coletivos limpos, confortáveis e não em carroças.  Os homens públicos existem para servir.

tique-20 A paróquia não é, em primeiro lugar, uma central burocrática, mas lugar onde as pessoas servem.  O padre serve a Palavra,  encontra-se com as pessoas quando elas precisam, inventam meios e modos de lavar  os pés dos que a ele são confiados. A pessoa recebe na secretária paroquial não é mera marcadora de missas ou de recepção do dízimo, mas alguém que está ali para servir. Paróquia, central de todos serviços:  serviço da fé na preparação  para os sacramentos, serviço aos pais para que sejam melhores pais,  serviço aos desamparados,  serviço da profecia  da denúncia da corrupção, competição e falcatruas que destroem o ser humano. Efetivamente  viemos para servir e os serviços cria laços fraternos.

Gostaria de concluir com poucas linhas da Regra de São Francisco:  “E ninguém se denomine prior, mas todos, sem exceção, sejam chamados de irmãos menores. E um lave os pés do outro”

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Como aproximar-nos das crianças?

José  Antonio Pagola

Não é nada fácil a arte de educar. As ciências da pedagogia nos falam hoje de muitos fatores que tornam esta tarefa árdua e complexa. Mas a primeira dificuldade talvez seja a de encontrar-nos realmente com a criança.

Não é fácil para um homem ou uma mulher, integrados numa sociedade como a nossa, aproximar-se de verdade das crianças. Os olhares e os gestos espontâneos das crianças nos desarmam. Não podemos falar-lhes de nossos lucros nem de nossas contas-correntes. Elas não entendem nossos cálculos e nossas hipocrisias. Para aproximar-nos delas teríamos que voltar a apreciar as coisas simples da vida, aprender novamente a ser felizes sem possuir muitas coisas, amar com entusiasmo a vida e tudo o que está vivo.

Por isso é mais fácil tratar a criança como um pequeno computador que alimentamos de dados do que aproximar-nos dela para abrir-lhe os olhos e o coração para tudo o que é bom, belo, nobre. É mais cômodo sobrecarregá-la de atividades escolares e extraescolares do que acompanhá-la no descobrimento da vida.

Somente homens e mulheres respeitosos, que sabem escutar as perguntas importantes da criança para apresentar-lhe com humildade as próprias convicções, podem ajudá-la a crescer como pessoa. Somente educadores que sabem intuir a solidão de tantas crianças, para oferecer-lhes sua acolhida carinhosa e firme, podem despertar nelas o verdadeiro amor à vida.

Como dizia A. de Saint-Exupéry, e talvez hoje mais do que nunca, “as crianças precisam ter muita paciência com os adultos”, porque elas não encontram em nós a compreensão, o respeito, a amizade e a acolhida que buscam.

Embora a sociedade não saiba valorizar e agradecer devidamente a tarefa silenciosa de tantos educadores que desgastam sua vida, suas forças e seus nervos junto às crianças, eles precisam saber que seu trabalho, quando realizado responsavelmente, é um dos mais importantes para a construção de um povo. E os que o fazem a partir de uma atitude cristã devem recordar que “quem acolhe uma criança em nome de Jesus, é a Jesus que acolhe”.

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Seguir Jesus: ambição ou humildade?

Pe. Johan Konings

Políticos em campanha eleitoral levantam crianças diante das câmeras da televisão… Mas qual deles se importa realmente com o futuro das crianças abandonadas, com os meninos de rua, com a educação popular? O que conta não é a criança, e sim, o voto.

Jesus faz da pouca importância das crianças uma lição para seus seguidores. Os discípulos não compreendiam quando Jesus falava de seu sofrimento; pelo contrário, ficavam discutindo quem era o maior dentre eles. Por causa disso, Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles e disse que a criança estava aí como se fosse ele mesmo – e até mais do que isso: “Quem acolher em meu nome uma destas crianças estará acolhendo a mim mesmo. E quem me acolher, estará acolhendo não a mim, mas Àquele que me enviou” (evangelho).

A liturgia de hoje nos ajuda a cavoucar mais a fundo o mistério que está por trás dessas palavras. Enquanto os discípulos não levaram muito a sério as crianças, Jesus se identifica com uma criança, porque tem uma profunda consciência do amor paterno de Deus. Na 1ª leitura, o justo que chama Deus de pai é considerado insuportável pelos poderosos, que só dão importância à força e à arrogância. E a 2ª leitura nos mostra quanto mal faz a ambição dentro da comunidade cristã. Na lógica o mundo, o que importa é a prepotência, a ambição. Mas Deus é o pai do justo, sobretudo do justo oprimido. Na criança desprotegida, ele mesmo se torna presente.

O justo humilde, perseguido pelos prepotentes, e que chama Deus de pai, é a prefiguração do próprio Jesus. A grandeza mundana não importa. Uma criança sem importância pode ser representante de Jesus e, portanto, de seu Pai, Deus mesmo. E se não for uma criança, pode ser um mendigo, um desempregado, um aidético…. No aspecto de não terem poder, esses sem-poder parecem-se com Jesus. Nossa “ambição” deve ser: servir Jesus neles. Então, seremos grandes.

Alguém talvez chame isso de falsa modéstia: dizer-se humilde julgando-se superior aos outros. Já os empresários o chamarão de desperdício, pois quem se refugia na humildade nunca vai realizar as grandes coisas de que nossa sociedade tanto precisa… O raciocínio de Jesus vai no sentido oposto: as ambições deste mundo facilmente encontram satisfação, se há quem delas pode tirar proveito. Todo mundo colabora. Mas quem não tem poder só pode contar com Deus e com os “filhos de Deus”, os que querem ser semelhantes a ele. Então, de repente, não é a ambição que move o mundo, mas a força do amor que Deus implantou em nós. Não o orgulhoso ou o ambicioso, mas o humilde consegue despertar a força do amor que dorme no coração do ser humano. A criança desperta em nós o que nos torna semelhantes a Deus, nosso Pai.

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