Notícias › 28/09/2017

26º Domingo do Tempo Comum, ano A

Importa fazer de fato o que Deus espera

Frei Gustavo Medella

“Milho pouco meu pombo primeiro”, “Cada um por si e Deus por todos”, “Cada qual cuide de sua vida”, “Eu, e depois de mim, o dilúvio”,  “Quem pode mais, chora menos”, “Azar o seu”, “Tô nem aí”…

São muitos os ditos e expressões que fazem referência ao espírito de egoísmo e competição que pode marcar os grupos humanos. Se em parte esta postura individualista pode ser compreendida como fruto de um instinto de autoproteção, por outro lado precisamos concordar que, quando levada à radicalidade, tal atitude produz sofrimento, injustiça e solidão. Quanto maior o grau de egoísmo e indiferença, mais desumano e hostil se torna o ambiente.

Conhecedor profundo do coração humano e seguidor fiel de Cristo, São Paulo exorta os cristãos da comunidade de Filipos a vencerem em si toda e qualquer tentação à vanglória e à competição. Ele sabia bem que, caso este espírito adentrasse à comunidade, todo esforço empreendido na formação daquela comunidade estaria gravemente ameaçado de ir por água abaixo.

Além de prevenir os destinatários de sua mensagem, o apóstolo também confere um tom positivo à sua exortação, convidando cada membro da comunidade a cultivar em si os mesmos sentimentos de Cristo Jesus. A proposta é que cada irmão se antecipe no amor e no cuidado pelo outro. Se for para competir, que tentem se superar no serviço mútuo, colocando o outro como prioridade. Em vez do “cada um no seu quadrado”, São Paulo orienta: “E não cuide somente do que é seu, mas também do que é do outro” (Fl 2,4).

Operar neste registro nem sempre é tarefa fácil. O Evangelho (Mt 21, 28-32), de certa forma, ilustra este conflito que ocorre no coração humano. Ora agimos como o filho que no primeiro impulso diz “não” ao apelo do pai, mas depois se arrepende e acaba fazendo o que devia fazer. Ora respondemos “sim” de bate-pronto, mas depois desistimos de fazer o que nos é solicitado pelo pai.

Responder com coerência ao chamado de Deus expresso nos apelos de uma comunidade de fé é fruto de um cultivo que se faz no dia a dia. Muitas vezes – especialmente diante de respostas negativas ou malcriadas – vale a prescrição do exame de urina: “Despreze o primeiro jato”. E aí, depois que a poeira abaixa e a consciência fala mais alto, acabamos agindo como aquele que a princípio disse não, mas depois abraçou com dedicação e fidelidade o projeto do Pai.


Os dois filhos

1ª Leitura: Ez 18,25-28
Sl 24
2ª Leitura: Fl 2,1-11
Evangelho: Mt 21,28-32

-* 28 «O que vocês acham disto? Certo homem tinha dois filhos. Ele foi ao mais velho, e disse: ‘Filho, vá trabalhar hoje na vinha’. 29 O filho respondeu: ‘Não quero’. Mas depois arrependeu-se, e foi. 30 O pai dirigiu-se ao outro filho, e disse a mesma coisa. Esse respondeu: ‘Sim, senhor, eu vou’. Mas não foi. 31 Qual dos dois fez a vontade do pai?» Os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: «O filho mais velho.» Então Jesus lhes disse: «Pois eu garanto a vocês: os cobradores de impostos e as prostitutas vão entrar antes de vocês no Reino do Céu. 32 Porque João veio até vocês para mostrar o caminho da justiça, e vocês não acreditaram nele. Os cobradores de impostos e as prostitutas acreditaram nele. Vocês, porém, mesmo vendo isso, não se arrependeram para acreditar nele.»


* 28-32: O filho mais velho é figura dos pecadores públicos que se convertem à justiça anunciada por João Batista e por Jesus. O filho mais novo é figura dos chefes do povo, que se consideram justos e não se convertem.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


26º Domingo do Tempo Comum, ano A

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Ó Deus, que mostra seu poder no perdão e na misericórdia, derramai sempre em nós a vossa graça, para que, caminhando ao encontro das vossas promessas, alcancemos os bens que nos reservais”.

1. Primeira leitura: Ez 18,25-28

Quando o ímpio se arrepende da maldade que praticou,
conserva a própria vida.

Ezequiel fala ao povo que foi levado para o exílio. Os exilados tinham perdido a Terra Prometida, o reino de Judá e o templo de Jerusalém. Longe de sua terra, consideravam-se injustamente punidos por Deus. Consideravam-se inocentes, pensando que estavam pagando pela culpa de seus pais: “Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos ficaram embotados” (Ez 18,2). O Profeta responde que Deus pune nos filhos a culpa dos pais, mas cada um é responsável pelo seu próprio pecado. A solução não é acusar os outros, mas examinar o próprio coração, reconhecer os próprios pecados e arrepender-se para obter a vida: “Pois eu não sinto prazer na morte de ninguém… Convertei-vos e vivereis!” (18,32). Deus é misericordioso, sempre disposto a perdoar a quem se arrepende e está disposto a mudar de conduta.

Salmo responsorial: Sl 24,4bc-5.6-7.8-9

Recordai, Senhor meu Deus, vossa ternura e compaixão!

2. Segunda leitura: Fl 2,1-11

Tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus.

Paulo escreve da prisão. Mesmo assim, sua carta é perpassada de alegria que brota de sua união com Cristo. Com esse espírito, exorta a comunidade a viver em harmonia a fé, na união do amor fraterno. Não querendo ser o maior, mas o menor entre os irmãos; buscando não o próprio interesse, mas o dos outros (Fl 2,1-5). Como modelo apresenta o próprio Cristo Jesus. Como Filho de Deus, podia ter escolhido o caminho do poder, mas, esvaziou-se e assumiu a condição de servo. Colocou-se no mesmo chão em que nós vivemos. Mais ainda: Apresentou-se como quem é “manso e humilde de coração” (Mt 11,29), pondo-se a serviço de todos: “Eu estou no meio de vós como quem serve” (Lc 22,27). Identificou-se não com os poderosos, mas com a maioria das pessoas, sujeitas à dominação, exploradas, desprezadas, marginalizadas; tornou-se solidário com todos os “crucificados” da história humana. Como o Servo do Cântico de Isaías, foi obediente até a morte de cruz. Por isso o Pai o ressuscitou dos mortos. O caminho de Cristo tornou-se o caminho do cristão. Paulo, mesmo preso, está cheio de alegria porque procura viver o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus e convida os cristãos a imitar o seu modelo, Jesus. Paulo contava com a possibilidade de ser condenado à morte; por isso, o texto que ouvimos é uma espécie de testamento espiritual.

Aclamação ao Evangelho: Jo 10,27

Minhas ovelhas escutam a minha vos,
minha voz estão elas a escutar;
eu conheço, então, minhas ovelhas,
que me seguem, comigo a caminhar.

3. Evangelho: Mt 21,28-32

Arrependeu-se e foi. Os cobradores de impostos e as prostitutas
vão entrar antes de vós no Reino do céu.

Jesus estava discutindo com os sumos sacerdotes e anciãos, que vieram questionar sua autoridade por ter armado uma “confusão” com os vendedores no templo. Neste contexto Jesus lhes conta a parábola dos dois filhos. O pai tinha uma vinha, isto é, um sítio onde se plantavam cereais e frutas como a oliveira, a figueira e a videira. O sítio precisava de cuidados e o pai pediu ao primeiro filho: “Filho, vai trabalhar hoje na vinha!” Mas o filho respondeu com grosseria “não!”; depois se arrependeu e foi trabalhar. Pediu a outro filho a mesma coisa e ele logo disse: “Sim, Senhor, eu vou!” Mas não foi. Quando Jesus perguntou aos adversários qual foi o filho que fez a vontade do pai, a resposta era evidente: “O primeiro”. – O primeiro filho pecou por falta de educação, mas, arrependido, acabou cumprindo a vontade do pai. O segundo filho foi até educado com o pai, mas não cumpriu sua vontade. É sobre o segundo filho que se concentra o foco da parábola, que Jesus aplica aos seus adversários: “As prostitutas e os cobradores de impostos vos precedem no Reino dos Céus”. Porque ouviram aos apelos de conversão de João Batista e se converteram, o que não aconteceu com os adversários de Jesus. No sermão da montanha Jesus disse: “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21). – Seria bom nos colocarmos na pele dos sumos sacerdotes e anciãos e nos deixarmos julgar pelas palavras de Jesus.


Para Jesus, os últimos são os primeiros

José Antonio Pagola

Jesus conheceu uma sociedade dividida por barreiras de separação e atravessada por complexas discriminações. Nela encontramos judeus que podem entrar no templo e pagãos excluídos do culto; pessoas “puras” com as quais se pode tratar, e pessoas “impuras” que devem ser evitadas; “próximos” aos quais se deve amar e “não próximos” que se pode abandonar; homens “piedosos” observantes da lei e “pessoas malditas” que não conhecem nem cumprem o prescrito; pessoas “saudáveis” abençoadas por Deus e “enfermos” malditos que não têm acesso ao templo; pessoas “justas” e homens e mulheres “pecadores”.

A atuação de Jesus nesta sociedade é tão surpreendente que ainda hoje resistimos aceitá-la. Ele não adota a postura dos fariseus que evitam todo contato com impuros e pecadores. Não segue a retidão elitista de Qumran, onde se redigem listas precisas dos que ficam excluídos da comunidade.

Jesus se aproxima precisamente dos mais discriminados. Senta-se para comer com publicanos. Deixa uma pecadora beijar seus pés. Toca com sua mão os leprosos. Ele busca salvar “o que está perdido”. As pessoas o chamam “amigo de pecadores”. Com insistência provocativa vai repetindo que “os últimos serão os primeiros” e que os publicanos e as prostitutas vão preceder os escribas e sacerdotes no caminho do Reino de Deus.

Quem suspeita hoje realmente que os bêbados, os vagabundos, os mendigos e todos os que formam o refugo, a escória da sociedade podem ser diante de Deus os primeiros? Quem se atreve a pensar que as prostitutas, os dependentes de drogas ou os aidéticos podem preceder a não poucos eclesiásticos de vida irrepreensível?

Não obstante, embora quase ninguém mais vos diga isto, vós, os indesejáveis e anatematizados, tendes que saber que o Deus revelado em Jesus Cristo continua sendo de verdade vosso amigo. Vós podeis “entender” e acolher o perdão de Deus melhor do que muitos cristãos que não sentem necessidade de arrepender-se de nada.

Quando nós vos evitamos, Deus se aproxima de vós. Quando nós vos humilhamos, Ele vos defende. Quando vos desprezamos, Ele vos acolhe. No mais escuro de vossa noite, não estais sós. No mais profundo de vossa humilhação, não estais abandonados. Não há lugar para vós na nossa sociedade, nem no nosso coração. Precisamente por isso tendes um lugar privilegiado no coração de Deus.

Trecho do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes.


Formalismo religioso e verdadeiro serviço a Deus

Pe. Johan Konings

Na 1ª leitura, Ezequiel ensina que o justo, quando se desvia, se perde, enquanto o pecador que corrige sua vida se salva. Jesus, no evangelho, denuncia a atitude dos supostos “justos”. Não se converteram à pregação de João Batista; os publicanos e as prostitutas, sim. Referindo-se a isso, Jesus faz uma comparação: o “bom filho” diz ao pai que fará, mas não faz; o filho rebelde diz que não fará, mas faz… Qual dos dois, então, é o verdadeiro “justo”?

Não adianta ter o rótulo de justo por causa de habitual bom comportamento e por dizer piedosamente “sim” a Deus. Importa fazer de fato o que Deus espera. E se fizermos o que Deus espera de nós, não importa que antes tenhamos sido pecadores. Fazendo o que Deus espera, o pecador torna-se justo; não o fazendo, o justo torna-se pecador. O “estar bem com Deus” nunca é “direito adquirido”. Não há assentos cativos no céu… Um ladrão, acostumado desde o instituto de menores a viver de bens alheios, arrisca sua vida para salvar um banhista no mar; populares, não casados na Igreja, organizam uma vaquinha para ajudar uma família sem meios de sustento; um beberrão torna-se crente e deixa de beber, para sustentar melhor sua família. Pelo outro lado: padres e religiosos proclamam a “opção pelos pobres”, mas só têm tempo para os ricos e os inteligentes… Qual deles é o justo?

Apliquemos na prática o critério de discernimento que Cristo mesmo sugere na parábola: que é o que a pessoa diz e o que ela faz? Descobriremos com perspicácia o que é acomodação e o que é conversão, também em nós mesmos.

Importa reconhecer a justiça dos que não têm a fama, mas a praticam. E denunciar – para o bem deles e de todos; – os que têm fama de justiça, mas não a praticam. Neste sentido, para ser fiel a Jesus, a comunidade cristã deve expulsar o formalismo religioso, que consiste em observar as coisas formais e exteriores da religião, sem fazer de verdade o que Deus espera de nós: a contínua conversão e a prática da justiça e da solidariedade para com o irmão.

Convém meditar neste sentido o que fez o filho por excelência, Jesus: não se apegou a privilégios de divindade, mas fez a vontade do Pai, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz (2ª leitura).

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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