Destaque, Notícias › 28/09/2018

26º Domingo do Tempo Comum

Pecado para além do 6º Mandamento

Frei Gustavo Medella

Na lida pastoral, em torno do Sacramento da Confissão, o dia a dia dos confessionários revela ser bastante presente, em grande número de católicos, significativo escrúpulo em torno dos pecados relativos à sexualidade. Diversos são os que acorrem com frequência, às vezes semanal, ou a cada dois ou três dias, para relatar deslizes quanto ao 6º mandamento que realmente lhes tiram a paz. Propor-lhes um olhar mais amplo sobre a própria vida e apresentar-lhes a benevolência e a compreensão da Infinita Misericórdia de Deus nem sempre é tarefa das mais fáceis. Trazem dentro de si um rigor que lhes aprisiona e que vem sendo nutrido por pregações e condutas que nascem em setores da própria Igreja.

No Evangelho deste 26º Domingo do Tempo Comum, Jesus, lançando mão de palavras duras, adverte para outras possibilidades, certamente graves e danosas, de pecado, relacionadas às mãos, aos pés e aos olhos. Na tentativa de ampliar nossa consciência em torno do pecado e oferecer alguns elementos que nos alarguem a compreensão em torno do tema, vamos a breves considerações sobre possíveis condutas pecaminosas simbolizadas por estas partes do corpo humano:

1) “Se tua mão te leva a pecar, corta-a” (Mc 9,43a) – Refere-se ao pecado do egoísmo, da acumulação, do desejo de obter vantagens só para si. Tal conduta destrói por dentro a pessoa que a ela se entrega. Levada ao extremo,  conduz à desgraça descrita por São Tiago na 2ª Leitura deste Domingo: “E agora, ricos, chorai e gemei, por causa das desgraças que estão para cair sobre vós. Vossa riqueza está apodrecendo, e vossas roupas estão carcomidas pelas traças” (Tg 5,1-2).

2) “Se teu pé te leva a pecar, corta-o” (Mc 9,45a) – É o pecado da sede de poder, do desejo de dominação. Leva a abusos das mais variadas espécies diante dos quais sempre existe uma parte subjugada ou oprimida. Pode ocorrer em vários ambientes: nas famílias, na escola, no trabalho ou até nas comunidades de fé. Na linguagem atual, tal pecado adquire nomes como bullying, assédio, exploração, relacionamento abusivo. É o desejo incontrolável de domínio e exploração da natureza, que leva à destruição do meio ambiente e de nossa casa comum.

3) “Se teu olho te leva a pecar, arranca-o” (Mc 9,47a) – Trata-se do pecado de não reconhecer no outro um(a) irmão(ã), um(a) Filho(a) de Deus. É o olhar da condenação, da indiferença, da intolerância e do ódio. É a postura da inveja e do despeito. Olhar que fere, machuca, desagrega, destrói e até mata.

Ao perecermos das graves consequências destes tipos de pecado, podemos compreender com mais facilidade a dureza das palavras de Jesus no Evangelho deste domingo. Paz e Bem!

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Leituras deste 26º Domingo do TC

Primeira Leitura (Nm 11,25-29)

Leitura do Livro dos Números

25 Então Javé desceu na nuvem, falou com Moisés, separou uma parte do espírito que Moisés possuía, e a colocou nos setenta anciãos. Quando o espírito pousou sobre eles, puseram-se a profetizar; mas, depois, nunca mais o fizeram.

Plena participação popular -* 26 Dois homens do grupo tinham ficado no acampamento: um se chamava Eldad e o outro Medad. Embora estivessem na lista, não tinham ido à tenda. Mas o espírito pousou sobre eles e começaram a profetizar no acampamento. 27 Um jovem foi correndo contar a Moisés: «Eldad e Medad estão profetizando no acampamento!» 28 Josué, filho de Nun, que desde a juventude era ajudante de Moisés, interveio: «Moisés, meu senhor, proíba-os de fazer isso». 29 Moisés, porém, respondeu: «Você está com ciúme por mim? Oxalá todo o povo de Javé fosse profeta e recebesse o espírito de Javé!»

Responsório (Sl 18)

— A lei do Senhor Deus é perfeita, alegria ao coração.

— A lei do Senhor Deus é perfeita, alegria ao coração.

— A lei do Senhor Deus é perfeita,/ conforto para a alma!/ O testemunho do Senhor é fiel,/ sabedoria dos humildes.

— É puro o temor do Senhor,/ imutável para sempre./ Os julgamentos do Senhor são corretos/ e justos igualmente.

— E vosso servo, instruído por eles,/ se empenha em guardá-los./ Mas quem pode perceber suas faltas?/ Perdoai as que não vejo!

— E preservai o vosso servo do orgulho:/ não domine sobre mim!/ E assim puro, eu serei preservado/ dos delitos mais perversos.


Segunda Leitura (Tg 5,1-6)

Leitura da Carta de São Tiago

1E agora, ricos, chorai e gemei, por causa das desgraças que estão para cair sobre vós. 2Vossa riqueza está apodrecendo, e vossas roupas estão carcomidas pelas traças. 3Vosso ouro e vossa prata estão enferrujados, e a ferrugem deles vai servir de testemunho contra vós e devorar vossas carnes, como fogo! Amontoastes tesouros nos últimos dias. 4Vede: o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, que vós deixastes de pagar, está gritando, e o clamor dos trabalhadores chegou aos ouvidos do Senhor todo-poderoso. 5Vós vivestes luxuosamente na terra, entregues à boa vida, cevando os vossos corações para o dia da matança. 6Condenastes o justo e o assassinastes; ele não resiste a vós.


Quem está a favor de Jesus?

Evangelho: Mc 9,38-43.45.47-48

* 38 João disse a Jesus: «Mestre, vimos um homem que expulsa demônios em teu nome. Mas nós lhe proibimos, porque ele não nos segue.» 39 Jesus disse: «Não lhe proíbam, pois ninguém faz um milagre em meu nome e depois pode falar mal de mim. 40 Quem não está contra nós, está a nosso favor. 41 Eu garanto a vocês: quem der para vocês um copo de água porque vocês são de Cristo, não ficará sem receber sua recompensa.

* 42 E se alguém escandalizar um destes pequeninos que acreditam, seria melhor que ele fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada no pescoço. 43 Se a sua mão é ocasião de escândalo para você, corte-a. É melhor você entrar para a vida sem uma das mãos, do que ter as duas mãos e ir para o inferno, onde o fogo nunca se apaga. 45 Se o seu pé é ocasião de escândalo para você, corte-o. É melhor você entrar para a vida sem um dos pés, do que ter os dois pés e ser jogado no inferno. 47 Se o seu olho é ocasião de escândalo para você, arranque-o. É melhor você entrar no Reino de Deus com um olho só, do que ter os dois olhos e ser jogado no inferno, 48 onde o seu verme nunca morre e o seu fogo nunca se apaga.


* 38-41: Jesus não quer que o grupo daqueles que o seguem se torne seita fechada e monopolizadora da sua missão. Toda e qualquer ação que desaliena o homem é parte integrante da missão de Jesus.

* 42-50: Pequeninos são os pobres e fracos que esperam confiantes uma sociedade fraterna e igualitária. Eles ficariam escandalizados se os seguidores de Jesus andassem à busca de poder e formassem casta privilegiada. Isso seria trair a missão de Jesus, mal que deve ser cortado pela raiz.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


26º Domingo do Tempo Comum

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Ó Deus, que mostrais vosso poder sobretudo no perdão e na misericórdia, derramai sempre em nós a vossa graça, para que, caminhando ao encontro das vossas promessas, alcancemos os bens que nos reservais”.

1. Primeira leitura: Nm 11,25-29

Tens ciúmes por mim?
Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta.

O texto que ouvimos retoma a questão da partilha do poder como serviço em vista do bem do povo (Ex 18,13-27). Na caminhada pelo deserto, o povo se queixava que no Egito tinham alimentos em abundância, no deserto, apenas o maná. Moisés, cansado de ouvir as reclamações, recorre a Deus. Não queria mais bancar a babá do povo, que não era seu, mas de Deus. Na leitura de hoje, em resposta, Deus manda escolher 70 homens, líderes do povo, para ajudá-lo. Moisés convocou os 70 anciãos e colocou-os em volta da tenda de reunião. Deus retirou um pouco do espírito de Moisés e o deu aos anciãos. Então eles começaram a profetizar, mas logo pararam. Enquanto isso aconteceu na tenda, dois homens estavam profetizando fora da tenda, no acampamento. Josué, servo e possível sucessor de Moisés, protestou porque eles não estiveram na tenda de reunião entre os 70. E Moisés respondeu: “Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta”.

O relato mostra que o espírito não é monopólio de Moisés, e sim um dom de Deus, parte do qual ele retira e o dá aos anciãos. Deus não pode ser monopolizado pelo poder humano. O povo não foi bem atendido porque havia um conflito entre Moisés, que mantinha o monopólio do espírito e os anciãos, que desejam participar. Outro conflito se estabelece quando Josué joga Eldad e Medad, que profetizavam no acampamento, contra Moisés e os anciãos; eles não estavam na tenda, portanto profetizavam sem o controle de Moisés e dos anciãos. A solução do conflito surge quando Moisés reconhece que o espírito não é um monopólio seu, mas um dom de Deus para o bem de todo o povo. Em outras palavras, o espírito é um dom de Deus, um carisma, partilhado como serviço de todo o povo. O dom de Deus é concedido não para dividir, mas para unir a comunidade. É o espírito que une Moisés, Josué, os anciãos, Eldad e Medad com o povo, todos a serviço uns dos outros. Paulo diz muito bem que os dons do Espírito unificam a Igreja num só corpo, pelo vínculo do amor (cf. 1Cor 12–13). – Uma Igreja fechada em si mesma (na tenda!) abafa o espírito. Eldad e Medad apontam para a tão desejada “Igreja em saída” do Papa Francisco. (ver o Evangelho).

Salmo responsorial: Sl 18

A lei do Senhor Deus é perfeita, alegria ao coração.

2. Segunda leitura: Tg 5,1-6

Vossa riqueza está apodrecendo.

Tiago já havia criticado a discriminação entre ricos e pobres na comunidade cristã (2,1-5). Na leitura que ouvimos, mais uma vez, tece duras críticas contra alguns cristãos ricos de seu tempo. Para eles anuncia o iminente juízo de Deus: De que serve o acúmulo de bens, se a riqueza vai apodrecer, as roupas luxuosas serão comidas pelas traças, o ouro e a prata irão enferrujar! E denuncia: a riqueza é amontoada à custa de salários não pagos, a justiça é comprada e assim os pobres são condenados à morte. Enfim, os ricos se dizem cristãos, mas não vivem a proposta do reino de Deus, pregada por Jesus: “Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6,24). “Como é difícil para os que têm riquezas entrar no reino de Deus!” (Lc 18,24). Entrar no reino de Deus, seguir a Jesus Cristo como discípulo, exige cortar o “olho grande” para as riquezas e cego para os pobres (evangelho). É um convite para olharmos os pobres com os olhos de Jesus. Trilhões de dólares viram cinza no jogo especulativo das bolsas. A riqueza não partilhada com os pobres vira pó. Sábia é esta Palavra de Deus, não só para os cristãos, mas para todas as pessoas de boa vontade.

Aclamação ao Evangelho:

Vossa Palavra é verdade, orienta e dá vigor;
Na verdade santifica vosso povo, ó Senhor!

3. Evangelho: Mc 9,38-43.45.47-48

Quem não é contra nós é a nosso favor.
Se tua mão te leva a pecar, corta-a!

Domingo passado, Jesus explicava aos discípulos que a sua missão como Messias era a do Servo Sofredor. Não veio para ser servido e cortejado como rei, mas para servir aos mais pobres e dar a vida por todos. Enquanto isso, os discípulos discutiam quem deles seria o maior no reino, em Jerusalém. Jesus lhes ensinou que o maior deve tornar-se o menor, colocar-se a serviço dos pobres e necessitados. Deve acolher a todos, especialmente os pequenos e pobres, como Jesus fazia, ao abraçar uma criança.

Parece que os discípulos ainda não haviam entendido a mensagem de Jesus. Porque no evangelho de hoje, João avisa a Jesus que alguém, não pertencente ao grupo, estava expulsando demônios em nome de Jesus. “Nós o proibimos”, informava João com certo orgulho. – Quem era João e por que protesta? João e seu irmão Tiago queriam os primeiros lugares ao lado de Jesus, no futuro reino em Jerusalém. Pedro, Tiago e João eram os mais achegados a Jesus. Estão com ele na Transfiguração, no Jardim de Getsêmani e quando ressuscita a filha do chefe da sinagoga (Mc 5,35-43). João queria manter o controle de fazer o bem (milagres) como privilégio do grupo dos apóstolos. – Jesus responde: “Não o proibais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim. Quem não é contra nós é a nosso favor”. Fazer milagres em nome de Jesus é fazer o bem aos necessitados, sem buscar vantagens pessoais. Jesus significa “Deus salva”, salva a vida das pessoas. Todas as pessoas que fazem o bem ao próximo, mesmo não cristãs, agem como Jesus. Mostram a face bondosa do Pai celeste. Nos ditos seguintes, Jesus esclarece que até um copo d’água dado por um pagão a um cristão terá sua recompensa. Por outro lado, quem escandaliza (leva a pecar) um cristão (“os pequeninos que crêem”) – seja ele pagão ou cristão – não merece participar da Vida. Para entrar na Vida pelo caminho de Jesus Cristo exige-se cortar/podar tudo que nos leva a pecar, desviando-nos deste caminho. (ver 2ª leitura).

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Respeitar os que estão a caminho

Frei Clarêncio Neotti

Outra qualidade do discípulo: não agir à espera de recompensa. Nem recompensa dos homens nem recompensa de Deus. Uma lição difícil para o mundo de hoje, que raramente conhece a gratuidade do fazer. Todos  devemos  ter um coração agradecido. Se o temos, sabemos retribuir os benefícios que recebemos. Mas quem presta auxílio não deve fazê-lo, esperando recompensa ou pela vaidade de acumular méritos ou de ter crédito. O Antigo Testamento desenvolveu toda uma teologia da recompensa. Jesus não a segue, mas nos diz que somos servos de todos. Servos que Deus, por amor, elevou a filhos seus. E a Deus cabe recompensar (v. 41), não na medida de nosso crédito, mas na medida de sua misericórdia. Um copo d’água pode valer tanto quanto ou mais que uma fortuna.

Outra qualidade: o respeito pelos que estão ainda a caminho da fé. Os judeus eram extremados nesse ponto: evitavam qualquer contato com pagãos e pecadores. Não só evitavam, mas manifestavam desprezo. Aos que ainda não têm fé Jesus chama carinhosamente de “pequeninos” (v. 42). O bom discípulo não deve ‘escandalizá-los’. (Há traduções que falam em ‘corromper’, ‘levar ao pecado’) A palavra ‘escândalo’, na Bíblia, não tem o sentido sensacionalista que tem hoje. Está ligada a ‘tombo’, ‘queda provocada por um tropeço’. O discípulo de Jesus respeita os fracos na fé, serve-lhes de apoio, faz-se ‘luz’, isto é, salvação para eles.

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Um estilo de vida alternativo

Frei Almir Guimarães

Mais uma reunião nossa no dia do Senhor, no domingo, o dia do sol. O Ressuscitado marca encontro conosco uma vez por semana. Manifesta seu carinho e as palavras do Evangelho, proferidas na liturgia, parecem que estão saindo de seus lábios e nos atingem lá onde começa no eu mais profundo.

Marcos fala da maneira como podemos entrar na vida, ou seja,  na plenitude de nossos dias e  também  num estado definitivo de comunhão com aquele que nos tirou do nada e nos fez e faz viver.  Entrar na vida… melhor entrar sem uma mão, um pé ou um olho. Ingenuidade tomar estas  palavras ao pé da letra.  É evidente que  Jesus está querendo dizer que aqueles que querem ser colaboradores do Reino Novo , reino de fraternidade, atenções mútuas serão os que usam mãos, pés e olhos de uma forma transparentemente bela. O que está em jogo é o verdadeiro sucesso de cada um na aventura de viver.  Resumindo, trata-se de  usar nossos membros de maneira generosa e correta, construindo um mundo novo.

José Antonio Pagola assim explica esta perícope:

Mão: símbolo da atividade e do trabalho.  Jesus usa suas mãos para abençoar, curar e tocar os excluídos. Melhor corta as mãos quando são usadas para ferir, submeter,  humilhar.  Melhor cortar a mão em tais situações. Claro, uma metáfora.

Pés: correspondem a nossos deslocamentos rumo aos outros. Podem causar danos se nos levam a espaços onde não podemos servir ou continuarmos com nossa banalidade de existir. Jesus caminha ao encontro das pessoas. Os pés causam dano se nos levam a espaços de  destruição.

Olhos: representam desejos e aspirações das pessoas. Olhar as pessoas com atenção, carinho, atenção, acolhedoramente. Não olhar apenas para satisfazer seus pequenos interesses.

Trata-se em resumo de fazer claras opções por Jesus. Se assim não for seremos seres medíocres até o fim e haveremos de perder a chance de viver e de viver de verdade.

O Evangelho coloca sempre diante de nós caminhos alternativos.  Marcus  Borg, um dos mais conhecidos investigadores da figura de Jesus, designa-o de “mestre de uma sabedoria subversiva”.  Alberto de Migno  lembra que essas palavras fortes de Jesus não perderam sua força.  Os valores que propõe  estão na contramão do que chamam valores o mercado e o mundo do consumismo.  E, no entanto,  os valores propostos por Jesus  são capazes de levar o ser humano  ao máximo desenvolvimento, embora, à primeira vista pareçam desconcertantes:  o perdão diante da violência, partilhar em vez de acumular;  olhar com carinho e não desprezar;  cooperar em vez de competir; ser austeros e não consumistas;  amar sem esperar retorno; dar a vida em vez de querer desfrutar até a última gota.

Pedro José Gómez Serrano  falando do estilo alternativo que  Jesus propõe ao seus  para o sucesso mais profundo de sua existência: “Não falamos da felicidade  de passar bem na vida, nem da alegria que nos proporcionam  êxitos pessoais  ou falta de conflito;  mas a que nasce de sentir-se profundamente amados e ter uma existência  que espalha vida e alegria à sua volta”.

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Fidelidade a Jesus e pluralismo

José Antonio Pagola

Pouco a pouco vai-se tomando consciência de que um dos fatos mais importantes e de consequências mais profundas da época moderna é, sem dúvida, o pluralismo. A cultura moderna, o desenvolvimento dos meios de comunicação e a mobilidade das pessoas fazem com que qualquer pessoa entre hoje em contato com outras culturas, religiões ou ideologias muito diferentes das suas.

O fato não é novo na história da humanidade e aconteceu com certa frequência nas grandes cidades. O novo do pluralismo moderno é a força que vai adquirindo esse fenômeno que o sociólogo norte-americano Peter L. Berger chama de “a contaminação cognoscitiva”: os diferentes estilos de vida, valores, crenças, posições religiosas e morais se misturam cada vez mais. E não só no seio da sociedade; também no interior de cada pessoa.

As pessoas reagem de diversas maneiras diante desta realidade. Muitos caem num relativismo generalizado; descobriram que sua religião ou sua moral não são as únicas possíveis e, pouco a pouco, foi se abrindo nelas a brecha da dúvida: “Onde estará a verdade?” Há os que optam então por aprofundar-se em sua própria fé para conhecê-la e fundamentá-la melhor. Mas há também os que se entregam a um relativismo total: “Não se pode saber nada com certeza” “tudo dá na mesma”, “para que complicar-se mais?”

Outros, pelo contrário, se entrincheiram numa ortodoxia de gueto. Torna-se difícil para eles viver sem segurança absoluta, sobretudo no que diz respeito às questões mais vitais da existência. Por isso, quando numa sociedade cresce o relativismo, é normal que o absolutismo e o integrismo doutrinal adquiram um forte atrativo para alguns. É preciso defender a própria ortodoxia e combater os erros: “Fora de nosso grupo não há nada de bom nem verdadeiro”. Naturalmente, não penso apenas em “ortodoxias” de caráter religioso; existem também as de ordem política ou ideológica.

Não é fácil viver hoje com honestidade as próprias convicções numa sociedade que parece tolerar tudo, mas na qual, ao mesmo tempo, os fanatismos voltam a ganhar tanta força. Nós cristãos precisaremos aprender a viver nossa própria fé sem dissolvê-la levianamente em falsos relativismos e sem fechar-nos cegamente em fanatismos que pouco têm a ver com o espírito de Jesus.

Sempre é possível a fidelidade a Jesus e ao seu projeto, e a abertura honesta a tudo de bom e positivo que se encontra fora do cristianismo. É esta a lição que nos chega desse Jesus que, em certa ocasião, corrige seus discípulos quando rejeitam um homem que “expulsa demônios” só porque, conforme dizem, “não é dos nossos”. A mensagem de Jesus é clara: aquele que faz o bem, mesmo que não seja dos nossos, está a nosso favor.

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Pensamento inclusivo

Pe. Johan Konings

A cristandade tradicional caracterizava-se por atitudes exclusivistas. Só a Igreja católica estava certa… Dizia-se que quem morre fora da Igreja católica vai ao inferno. (Deveria ser mandado ao inferno quem fala assim…)

O evangelho conta um episódio que nos ensina o contrário. Os discípulos ficam nervosos porque alguém anda expulsando demônios no nome de Jesus, sem fazer parte do grupo deles. Naquele tempo, todo tipo de tratamento sugestivo estava na moda, como hoje. Visto que Jesus era o sucesso do momento, alguns que não eram de seu grupo usavam seu nome para expulsar uns demoniozinhos. Que mal havia nisso? Nenhum, mas os discípulos queriam direitos autorais!

A liturgia ilustra o problema com outro episódio. O povo de Israel andando pelo deserto, o Espírito desce sobre a assembleia dos anciãos. Mas dois não foram à assembleia e receberam o Espírito assim mesmo. Os outros reclamam. Então, Moisés responde: “Oxalá todo o povo de Deus profetizasse e Deus infundisse a todos o seu espírito” (1ª leitura).

Nem todos os cristãos são tão mesquinhos assim que pretendem reservar para a própria agremiação os dons de Deus. Desde o Humanismo, bem antes do Concílio Vaticano II, os educadores cristãos ensinavam que os pagãos Platão e Virgílio eram profetas, pois anunciaram coisas que, depois, se verificaram em Jesus. Houve até quem chamasse Karl Marx de profeta (com menos mérito, pois viveu bem depois de Jesus e repetiu muita coisa que Jesus e a Bíblia disseram antes dele…). As coisas boas que esses pagãos falaram não deixaram de ser um testemunho a favor de Jesus.

“Quem não é contra nós está em nosso favor” (Mc 9,40). Esta é a lição (Jesus disse também: “Quem não está comigo é contra mim”, Mt 12,30, mas isso, em caso de conflito e perseguição).

O nome de Jesus representa o Reino do Pai. O nome de Jesus se liga a uma realidade nova, a vontade de Deus. “Ninguém que faz milagres em meu nome poderá logo depois sair falando mal de mim” (Mc 9,39). Por tudo aquilo que ele disse e fez, pelo dom da própria vida, Jesus ligou a seu nome a nova realidade que se chama o “Reino de Deus”. Quem consegue usar o nome de Jesus como força positiva certamente colabora de alguma maneira com o Reino.

Não é preciso ser católico batizado para colaborar com os valores do evangelho. Os primeiros missionários no Brasil ficaram cheios de admiração porque os índios pagãos pareciam ter mais valores evangélicos que os colonos portugueses escravocratas. O testemunho do evangelho pode existir fora da comunidade cristã, e nós devemos alegrar-nos por causa disso.

Então, em vez de dizer que fora da Igreja não há salvação, vamos dizer: tudo o que salva expande o que estamos fazendo na Igreja. Pensamento inclusivo.

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