Destaque, Notícias › 07/12/2018

2º Domingo do Advento

O que acontecia enquanto você nascia?

 Frei Gustavo Medella

Lembre-se do ano em que você nasceu. Que música fazia sucesso no rádio? Quem era o presidente do país? E o governador do estado? Quem era o papa? Que roupa as pessoas vestiam? Que meios de transporte o povo usava? Como era o bairro onde você e seus pais moravam? O que eles faziam?

Responder estas perguntas pode ser um exercício interessante e trazer para você descobertas até surpreendentes que possam, talvez, explicar um pouco do seu jeito de ser, da sua personalidade, de seus valores. Lançar está âncora certamente vai ajudá-lo a se perceber como fruto de um contexto, a se localizar no tempo e no espaço.

Contextualização semelhante a esta faz São Lucas no Evangelho deste 2º Domingo do Advento (Lc 3,1-6) ao traçar algumas coordenadas espaço-temporais do início do ministério de São João Batista. João está no deserto, mas não se encontra sozinho. É filho de um tempo, participante da vida de um lugar. Estes dados, embora óbvios, se tornam importante à medida que revelam o “modus operandi” de Deus no Mistério da Encarnação, desejando envolver-se profundamente com as mediações humanas, mesmo estando para além de todas elas.

João acolheu a Palavra que lhe foi dirigida e soube responder proativamente ao convite do Senhor. Pessoalmente, o Senhor também faz o convite a você. Aliás, tem feito desde que você nasceu. E agora, mais uma vez, você precisa responder: “O que o Senhor espera de mim, cristão batizado, no contexto de Brasil e de Igreja que vivo atualmente? De modo prático e concreto eu posso promover, de fato, a atualização do Natal que Deus deseja realizar na minha vida e na vida daqueles que comigo convivem?”


Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: Baruc 5,1-9

Leitura do livro do profeta Baruc – 1Despe, ó Jerusalém, a veste de luto e de aflição e reveste, para sempre, os adornos da glória vinda de Deus. 2Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus e põe na cabeça o diadema da glória do Eterno. 3Deus mostrará teu esplendor, ó Jerusalém, a todos os que estão debaixo do céu. 4Receberás de Deus este nome para sempre: “Paz da justiça e Glória da piedade”. 5Levanta-te, Jerusalém, põe-te no alto e olha para o oriente! Vê teus filhos reunidos pela voz do Santo, desde o poente até o levante, jubilosos por Deus ter-se lembrado deles. 6Saíram de ti, caminhando a pé, levados pelos inimigos. Deus os devolve a ti, conduzidos com honras, como príncipes reais. 7Deus ordenou que se abaixassem todos os altos montes e as colinas eternas e se enchessem os vales para aplainar a terra, a fim de que Israel caminhe com segurança, sob a glória de Deus. 8As florestas e todas as árvores odoríferas darão sombra a Israel, por ordem de Deus. 9Sim, Deus guiará Israel com alegria, à luz de sua glória, manifestando a misericórdia e a justiça que dele procedem.


Salmo Responsorial: 125(126)

Maravilhas fez conosco o Senhor, / exultemos de alegria!

Quando o Senhor reconduziu nossos cativos, / parecíamos sonhar; / encheu-se de sorriso nossa boca, / nossos lábios, de canções. – R.

Entre os gentios se dizia: “Maravilhas / fez com eles o Senhor!” / Sim, maravilhas fez conosco o Senhor, / exultemos de alegria! – R.

Mudai a nossa sorte, ó Senhor, / como torrentes no deserto. / Os que lançam as sementes entre lágrimas / ceifarão com alegria. – R.

Chorando de tristeza, sairão, / espalhando suas sementes; / cantando de alegria, voltarão, / carregando os seus feixes! – R.


Segunda Leitura: Filipenses 1,4-6.8-11

Leitura da carta de são Paulo aos Filipenses

Irmãos, 4sempre, em todas as minhas orações, rezo por vós com alegria, 5por causa da vossa comunhão conosco na divulgação do evangelho, desde o primeiro dia até agora. 6Tenho a certeza de que aquele que começou em vós uma boa obra há de levá-la à perfeição até o dia de Cristo Jesus. 8Deus é testemunha de que tenho saudade de todos vós, com a ternura de Cristo Jesus. 9E isto eu peço a Deus: que o vosso amor cresça sempre mais, em todo o conhecimento e experiência, 10para discernirdes o que é o melhor. E assim ficareis puros e sem defeito para o dia de Cristo, 11cheios do fruto da justiça que nos vem por Jesus Cristo, para a glória e o louvor de Deus.

João Batista prepara o povo

Evangelho: Lc 3,1-6

-* 1 Fazia quinze anos que Tibério era imperador de Roma. Pôncio Pilatos era governador da Judéia; Herodes governava a Galileia; seu irmão Filipe, a Itureia e a Traconítide; e Lisânias, a Abilene. 2 Anás e Caifás eram sumos sacerdotes. Foi nesse tempo que Deus enviou a sua palavra a João, filho de Zacarias, no deserto. 3 E João percorria toda a região do rio Jordão, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados, 4 conforme está escrito no livro do profeta Isaías: «Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparem o caminho do Senhor, endireitem suas estradas. 5 Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão aplainadas; as estradas curvas ficarão retas, e os caminhos esburacados serão nivelados. 6 E todo homem verá a salvação de Deus.»


* 3,1-20: A datação histórica (vv. 1-2) mostra que Lucas coloca os reis terrestres e as autoridades religiosas em contraste com a soberania e a autoridade de Jesus: o movimento profundo da história não se desenvolve no plano das aparências da história oficial. É Jesus quem realiza o destino do mundo, dando à história o verdadeiro sentido.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


2º Domingo do Advento, ano C

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: Ó Deus todo-poderoso e cheio de misericórdia, nós vos pedimos que nenhuma atividade terrena nos impeça de correr ao encontro do vosso Filho, mas instruídos pela vossa sabedoria, participemos da plenitude de sua vida”.

1. Primeira leitura: Br 5,1-9

Deus mostrará o seu esplendor.

O texto que ouvimos foi escrito no II século a.C., mas seu autor o atribui a Baruc, secretário do profeta Jeremias (sec. VI). Os destinatários do texto são judeus da diáspora, que, depois do exílio, estavam dispersos entre várias nações e esperavam a restauração de Judá. Para esses judeus dispersos Jerusalém continuava sendo o ponto de referência, o símbolo que unia a fé de todos os judeus no Deus salvador. O texto hoje lido traz palavras que respiram alegria e esperança. Nelas se manifesta a glória de Deus seu amor fiel ao povo escolhido. A presença salvadora de Deus ilumina todo o texto. Em nove versículos aparece dez vezes o nome de Deus, e mais duas em que é chamado, “o Eterno”, “o Santo”. O autor retoma as palavras do Segundo Isaías (Is 40–55), dirigidas aos exilados da Babilônia e as atualiza para os inícios da revolta dos Macabeus contra o domínio sírio. Jerusalém cobria-se, então, de vestes de luto e aflição, como a esposa abandonada e esquecida pelo marido (cf. Is 49,14: ‘O Senhor me abandonou, meu Deus me esqueceu’). Como sinal de perdão e reconciliação, o profeta convida Jerusalém a despir as roupas de luto e vestir-se com luxuosas vestes, trazidas por Deus, seu noivo. O Eterno coroa Jerusalém como rainha com um brilhante diadema e cobre-a com um manto da justiça para apresentá-la como esplêndida noiva, portadora da salvação para todas as nações. Para celebrar a nova relação com Jerusalém renovada, Deus lhe dará um novo nome: “Paz da justiça e glória da piedade”. Domingo passado, Jeremias também anunciava um novo nome de Jerusalémrestaurada: “O Senhor é a nossa justiça”. A troca de nome significa uma nova etapa do relacionamento com Deus, uma missão que Deus confia à pessoa escolhida. Assim, Abrão passa a ser chamado Abraão quando Deus lhe promete que será pai de muitas nações (Gn 17,5); João Batista recebe um novo nome para indicar sua missão de precursor do Messias (Lc 1,57-66); Saulo, ao iniciar a missão entre os pagãos, passa a ser chamado “Paulo” (At 13). – Quando acontecer a salvação de Israel, o próprio Deus preparará o caminho do retorno de seu povo, a natureza se transformará, “manifestando a misericórdia e a justiça que dele procedem”.

Salmo responsorial: Sl 125

Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria!

2. Segunda leitura: Fl 1,4-6.8-11

Ficareis puros e sem defeito para o dia de Cristo.

Paulo se dirige à comunidade de Filipos, expressando toda a sua alegria e afeto. É a primeira comunidade fundada por Paulo e Silas na Europa. Era um grupo de judeus e simpatizantes do judaísmo, liderados por uma mulher chamada Lídia, que se reunia aos sábados num “lugar de oração”, fora dos muros da cidade (At 16,6-15). Eles acolheram de coração aberto e com alegria a Boa-Nova Jesus Cristo. Paulo anunciava com alegria o Evangelho, alegria que contagiou a comunidade, formada, sobretudo, por mulheres. Paulo agradece a Deus o apoio que os filipenses sempre lhe deram na divulgação do Evangelho. Reza para que, enquanto esperam a vinda de Cristo Jesus, cresçam no amor e levem à perfeição a “boa obra” neles iniciada por Deus. Produzam “o fruto da justiça”, que Jesus Cristo plantou em seu coração. A comunidade acolhedora de Filipos é um exemplo vivo da “Alegria do Evangelho” que deve brilhar em nossa vida cristã, como fala o Papa Francisco. É pela prática do bem que Deus por nós é louvado e glorificado.

Aclamação ao Evangelho: Lc 3,4.6 

Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas.
Toda a carne há de ver, a salvação do nosso Deus.

3. Evangelho: Lc 3,1-6 

Todas as pessoas verão a salvação de Deus.

Lucas situa o início da atividade de João Batista no contexto histórico universal e local, para marcar a importância de seu ministério. Tibério César era então o imperador romano; Pilatos era o governador da Judeia; Herodes Antipas governava a Galileia; Herodes Filipe, a Itureia e Traconítide, e Lisânias, a Abilene; Anás e Caifás eram os sumos sacerdotes. João Batista é apresentado como um profeta do Antigo Testamento, a quem “a palavra de Deus foi dirigida” no deserto. O deserto para Israel é o lugar em que Deus se encontra com seu povo, libertado da escravidão; faz com ele uma aliança e põe à prova sua fidelidade. João Batista percorre a região do deserto de Judá ao longo do rio Jordão, prega “um batismo de conversão para o perdão dos pecados”. Seu lema é tirado do Profeta Isaías: “preparai o caminho do Senhor do Senhor”, do Senhor que vem salvar seu povo. O batismo de conversão exige eliminar os obstáculos que colocamos para a salvação que Deus vem nos trazer. As veredas e caminhos tortuosos a serem endireitados (1ª leitura) são frutos do pecado que nos desviam e afastam do Senhor. Com Jeremias podemos clamar: “Faze-me voltar e eu voltarei [a ti], porque tu és o Senhor meu Deus” (Jr 31,18b). Endireitar os caminhos tortuosos é abrir o coração para Deus que vem nos trazer a salvação: “Deixai-vos reconciliar com Deus” (2Cor 5,20b). A salvação que Deus vem nos trazer é para todos os que por ele são amados (Lc 2,14) e se deixam reconciliar com ele. A salvação está aberta para todos: “Todas as pessoas verão a salvação de Deus”. Cabe a nós preparar nosso coração para acolher o Senhor que vem nos trazer a Salvação. Preparar-se é buscá-lo de todo o coração. É pedir que nos mostre o caminho para encontrá-lo, como diz Santo Anselmo: “Senhor meu Deus, ensinai a meu coração onde e como vos procurar, onde e como vos encontrar”.


Tempo de preparar os caminhos do Senhor

Frei Almir Guimarães

Neste tempo do Advento somos convidados a nos portar como sentinelas, pessoas que não sejam sonolentas. Sentinelas que esperamos a visita do Senhor. Sentinelas para advertir a nossos irmãos que andam um tanto entorpecidos pelo dinheiro, pelos bens, pela loucura dos prazeres doidos que o Senhor marca um encontro com eles no rosto do Menino das Palhas.

>> Baruc tem uma palavra nova e de alegria para seus ouvintes. O profeta faz uma atenta leitura dos acontecimentos e fica convencido de que estão para chegar tempos novos. Que Jerusalém dispa a veste de luto e se revista da glória. Que a cidade santa veja os filhos que voltam do exílio, da dor, do esquecimento. Deus não se esquece dos seus. Ele mesmo deu ordens: que os vales sejam cobertos e as colinas abaixadas para que o povo possa caminhar expeditamente. Palavras  encorajadoras para todos nós que andamos à procura do Senhor na secura de tantos momentos e no tormento de uma vida sem viço nem força. “As florestas e todas as árvores odoríferas darão sombra a Israel, por ordem de Deus”. Um grito: que sejam preparados caminhos para o Senhor. Aquele que está para vir precisa ter caminhos abertos.

>> Um voz clama no deserto. É o Batista. Repete o que já fora dito: é hora de preparar os caminhos do Senhor. Tudo parecia bem assentado em ordem. O imperador Tibério estava no palácio romano, Pôncio Pilatos governava a Judeia, Herodes administrava a Galileia. Anás e Caifás eram os sumos sacerdotes naquele momento. Nesse tempo ecoou a voz de João, o Batista, no deserto: preparai os caminhos do Senhor. Estamos vivendo o temo do retiro do advento. Queremos que nosso interior não seja morno, rotineiro e que a celebração do Natal não seja para nós apenas uma questão de comida, bebida e dinheiro.

>> Há muitos que, ao longo de sua trajetória da existência, já se encontraram com o Cristo. Ultrapassaram o estágio dos ritos e das manifestações agitadas, o predomínio das palavras, das rezas vazias e, de alguma forma, estes andaram reescrevendo em suas vidas o evangelho de Jesus: intimidade com o Mestre, oração silenciosa no quarto, cuidado de não magoar o Senhor no rosto dos mais sofredores. Andam vivendo junto com outras pessoas de coração reto e são o fermento de um mundo novo. Seguem os caminhos do Senhor.

>> Mas há pessoas que precisam reencontrar o fascínio por Deus. Há os que foram educados na fé apenas com aulas de religião, sem apoio de suas famílias, que aprenderam lições de religião com a mente e nunca se deram conta da presença de Cristo em suas vidas nesse aqui e agora. Adultos que foram se tornando sentiram que aquele catecismo e aquelas aulas teóricas, as intransigências, a linguagem racional não podia mais lhe dar alegria. Quem poderia mostrar caminhos novos para estes?

>> Há os mornos. Não são bons, nem maus. Quase certinhos. Mas estão instalados num jeito de viver que não produz alegria profunda. Estão mais ou menos satisfeitos com sua vida. Missa de domingo, uma reza aqui e ali, fidelidade ao dízimo… Mas onde estão fogo? Mornos, talvez rotineiros. Que caminhos podemos preparar para tantos e tantas?

>> Como na realidade preparar caminhos para o Senhor? Fazemos muitas coisas, inventamos pastorais para cá e para lá. Será que não estamos apenas fazendo um máquina girar que torna as pessoas apenas “religiosas”? Será que não andamos impermeáveis a certas determinações mais radicais do evangelho e ficamos presos ao culto? Em que Jesus hoje nos reconheceria como discípulos seus?

 Eis alguns “caminhos” a serem preparados ou inventados ou buscados:

>> Pessoas muito próximas do evangelho, do sermão da montanha, pessoas vivendo os valores do evangelho haverão de chamar atenção para um caminho feliz de viver a fé.

>> Os cristãos não podem viver cada um para o seu lado. Parece que o Senhor pode encontrar um caminho na medida em que nos reunimos, dividimos nossas alegras, vivemos um fraternidade interesse uns pelos outros. É caminho para o Senhor chegar a nós e aos outros.

>> Na medida em que nos aproximamos respeitosamente da vida  abrimos caminhos para que as pessoas  busquem a Deus: vida profunda, vida antes do nascimento, vida das crianças, viço dos casados, respeito pela vida contra os crimes, assassinatos, queima de arquivos. Não seria assim que os defensores da vida abrem caminho para Deus?

>> Tudo indica que um fresta por onde o Senhor pode passar nas pessoas é o coração contrito. Será preciso descer de um pedestal de onipotência e reconhecer falha, negligência, culto do ego. O Senhor não rejeita um coração contrito e humilhado.

>> Importante a coerência entre o discurso e a vida. As pessoas acreditam em testemunhas e pouco em oradores com discursos bonitos, de oradores que se escutam falar.

Texto para reflexão

Caminhos para acolher o  Senhor que está para chegar em nossas vidas:

Para alguns a vida transformou-se num labirinto. Ocupados em mil coisas, movem-se, agitam-se sem cessar mas não sabem de onde vêm e para onde vão. Abre-se neles uma fresta para Deus quando se detêm para encontrar o melhor de si mesmos.

Há os que vivem uma vida sem sentido, chata, insignificante, na qual a única coisa que conta é estar entretido. Estes  só poderão vislumbrar Deus se começarem a prestar atenção ao mistério que pulsa no fundo da vida.

Outros vivem submersos na “espuma das aparências”. Só se preocupam com sua imagem, com o aparente e externo. Encontrar-se-ão  mais perto de Deus se buscarem com simplicidade a verdade.

Os que vivem fragmentados em mil pedaços pelo ruído, pela retórica, pelas ambições ou pela pressa darão passos em direção a Deus se se esforçarem um fio condutor que humanize sua vida. Muitos irão encontrando com Deus se souberem passar de uma atitude defensiva a uma postura de acolhida, do tom arrogante à oração humilde, do medo ao amor, da autocondenação à acolhida de seu  perdão. E todos nós daremos mais lugar a Deus em nossa vida se o buscarmos com um coração simples.

José Antonio Pagola – O caminho aberto por Jesus –  Marcos – Vozes, p. 22-23


Perguntas

José Antonio Pagola

Dentro de cada um de nós há um mundo quase inexplorado que muitos homens e mulheres não chegam sequer a suspeitar. Vivem só a partir de fora. Ignoram o que se esconde no fundo de seu ser. Não é o mundo dos sentimentos ou dos afetos. Não é o campo da psicologia ou da psiquiatria. É um país mais profundo e misterioso. Chama-se interioridade.

Desse mundo nasce a pergunta mais simples e elementar do ser humano: Quem sou eu? Mas, antes de começarmos a responder alguma coisa, as perguntas continuam brotando sem essar: Donde venho? Por que estou na vida? Para quê? Em que terminará tudo isto?

São perguntas às quais nem o psicólogo nem o psiquiatra podem responder. Interrogações que nos colocam diretamente diante do mistério. De tudo isto nada sabemos. A única coisa certa é que caminhamos pela vida como que às escuras.

Muitas pessoas hoje não têm tempo nem disposição de ânimo para fazer-se estas perguntas. Já é muito alguém viver, procurar um trabalho, sustentar uma família e enfrentar com coragem os problemas de cada dia.

Outros não querem ouvir tais perguntas. São questões demasiadamente abstratas. Em todo caso, seriam perguntas para esse punhado de pessoas estranhas que se dedicam a disquisições metafísicas que não levam a nada: é preciso ser mais realistas e pragmáticos, ter os pés no chão. Além disso, estamos muito ocupados. Sempre temos algo para fazer; é preciso trabalhar, relacionar-nos com os amigos, assistir ao programa de televisão, deslocar-nos de um lugar para outro. Não temos um minuto livre. E, certamente, para entrar nesse mundo das “perguntas últimas” da vida precisamos de certa calma e silêncio. A agitação, a pressa, o excesso de atividade impedem o ser humano de ouvir-se por dentro. Todos os dias precisamos, como diz belamente Patxi Loidi, de “um bom instante de inatividade para adentrarmos descalços nosso mundo interior”.

Não poucas pessoas me perguntam o que poderiam fazer para encontrar-se com Deus. Algumas me escrevem pedindo-me algum bom livro que desperte Sua fé. Sem dúvida, tudo pode ajudar. Mas não devemos esquecer que para Deus se caminha sempre a partir de dentro, não a partir de fora.

Talvez a melhor maneira de ouvir o convite do Batista a “preparar os caminhos do Senhor” seja fazer silêncio, escutar essas perguntas simples que brotam de nosso interior e estar mais atentos ao mistério que nos envolve e penetra por todos os lados.

Lembremos o célebre convite de Santo Anselmo de Cantuária: “Eia, homenzinho, deixa por um momento tuas Ocupações habituais, entra por um instante em ti mesmo, longe de teus pensamentos. Lança para fora de ti as preocupações sufocantes; afasta de ti tuas inquietações trabalhosas. Dedica alguns instantes a Deus e descansa ao menos por um momento em sua presença”.


“Paz-da-justiça”: desimpedir a chegada de Deus

Pe. Johan Konings

Ainda três domingos nos separam do Natal. Logo mais estaremos celebrando que Deus quer chegar até nós. Mas será que nós lhe abrimos caminho? O evangelho nos apresenta João Batista, o austero pregador de conversão. Convoca o povo para endireitar os caminhos e aplanar as estradas, a fim de que Deus nos possa alcançar.

Para quem acredita, tal esforço não é penoso, pois a chegada de Deus não significa fiscalização, mas salvação: “Todos experimentarão a salvação que vem de Deus” (Lc 3,6). Quem espera coisa boa chegar, prepara a estrada com prontidão e alegria.

A 1ª leitura canta a beleza desta salvação que Deus nos traz: a cidade vai se chamar “Paz-da-Justiça e Glória-da-Piedade”. A justiça – o plano de Deus – produz paz e bem para todos, e o respeito e amor a Deus (a “piedade”) produzem a glória, a beleza e o esplendor de nossa sociedade. O contrário é verdade também: a exploração egoísta produz conflitos, e a idolatria do dinheiro, do poder e do prazer, um mundo desigual e inumano.

Se quisermos empenhar-nos por um mundo onde Deus se sinta em casa, afastaremos alegres os obstáculos que impedem isso. Obstáculos em nosso próprio coração: egoísmo, ambiguidade, desamor … Obstáculos no coração de nossa sociedade: estruturas injustas, desigualdades ruinosas, leis que produzem monstros de riqueza ao lado de miseráveis, política em favor só de alguns e não de todos …

Os obstáculos a serem derrubados estão em parte dentro de nós mesmos e, em parte, na estrutura de nossa sociedade. Importa trabalhar nos dois níveis, e isso, com alegria. Não com rancor, próprio dos que antes odeiam os outros (e até a si mesmos) do que amam o bem … O rancor não faz Deus chegar. O que marca quem procura experimentar a “salvação que vem de Deus” é a alegria. É uma alegria limpar o caminho para que a “Paz-da-Justiça” possa chegar, ainda que custe suor e luta.

Essa “Paz-da-Justiça” não provém de uma justiça qualquer, inventada por nós e feita sob a nossa medida, conforme nossos próprios interesses. Ela está em Jesus Cristo que vem. Para conhecer esta paz, importa ver o que Jesus faz e preparar-se para fazer o mesmo, como indivíduo e como sociedade. Vivermos conforme a justiça que Jesus nos mostra, participarmos do amor que ele tem ao Pai, é isso que vai ser nosso brilho e felicidade.

O sentido do Advento e do Natal não é algo sentimental, chorar de emoção por causa de uma criancinha. É alegrar-se porque aquele que podemos chamar de “filho de Deus” veio – e sempre vem – viver no meio de nós, para com seu exemplo e sabedoria, lucidez e entrega de vida, mostrar, no concreto, o que significa o bem conforme a última instância, que é Deus – a “Paz-da-Justiça”.

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