Notícias › 06/10/2017

27º Domingo do Tempo Comum

Os frutos amargos das escolhas mal feitas

Frei Gustavo Medella

“O que é que eu vou fazer com essa ‘tal liberdade’?”, perguntava a letra do pagode gravado pelo Grupo Raça Negra, sucesso na década de 1990. Traz uma grande questão existencial e filosófica que acompanha a humanidade desde que o mundo é mundo. Nas leituras deste 27º Domingo, duas parábolas vêm demonstrar quão desastrosos são os efeitos desta “tal liberdade” quando ela caminha apartada do discernimento.

O vinho azedo produzido pela vinha do amigo, cuidada com todo zelo e carinho, é um prenúncio do vinagre amargo que os torturadores ofereceram ao Cristo na Cruz. Os vinhateiros homicidas, por sua vez, ilustram a arrogância delirante do ser humano quando ele se julga proprietário daquilo que não é seu. Assim como a truculência dos poderosos do tempo de Jesus levaram ao derramamento do sangue de quem só fez o bem, cada escolha prepotente ou egoísta que fazemos, individual ou coletivamente, produz morte, injustiça e destruição.

Pensando-se em termos de uma ecologia integral, a humanidade, enquanto se deixa dirigir pela “força da grana”, demonstra-se uma péssima arrendatária da vinha que é o nosso planeta. A Terra sangra e, junto com ela, os mais pobres são os primeiros a colher os frutos azedos desta “hemorragia”: desemprego, doenças provenientes da falta de tratamento da água e do esgoto, falta de moradia, carência de áreas de lazer, invisibilidade social, indiferença globalizada em relação a refugiados, habitantes da periferia, pessoas sem escolaridade, moradores de rua, seres humanos subempregados ou escravizados.

E o que mais machuca é que não precisaria ser assim. Deus ofereceu aos cuidados do ser humano bens suficientes para que todos vivessem com dignidade. A “vinha” teria todos os requisitos para produzir frutos bem mais agradáveis.

O que nos anima é o fato de que a mesma “tal liberdade” que permite uma postura alienada de destruição também deixa aberta a porta da mudança para um modo – o Papa Francisco, na Laudato Si’, prefere chamar de “estilo” – de vida mais conforme ao sonho de Deus em relação à humanidade. É por esta fresta de esperança que devemos desejar seguir.

CONFIRA A REFLEXÃO EM VÍDEO:


Jesus acusa as autoridades

1ª Leitura: Is 5,1-7
Sl 79
2ª Leitura: Fl 4,6-9
Evangelho: Mt 21,33-43

* 33 «Escutem essa outra parábola: Certo proprietário plantou uma vinha, cercou-a, fez um tanque para pisar a uva, e construiu uma torre de guarda. Depois arrendou a vinha para alguns agricultores, e viajou para o estrangeiro. 34 Quando chegou o tempo da colheita, o proprietário mandou seus empregados aos agricultores para receber os frutos. 35 Os agricultores, porém, agarraram os empregados, bateram num, mataram outro, e apedrejaram o terceiro. 36 O proprietário mandou de novo outros empregados, em maior número que os primeiros. Mas eles os trataram da mesma forma. 37 Finalmente, o proprietário enviou-lhes o seu próprio filho, pensando: ‘Eles vão respeitar o meu filho’. 38 Os agricultores, porém, ao verem o filho, pensaram: ‘Esse é o herdeiro. Venham, vamos matá-lo, e tomar posse da sua herança’. 39 Então agarraram o filho, o jogaram para fora da vinha, e o mataram. 40 Pois bem: quando o dono da vinha voltar, o que irá fazer com esses agricultores?» 41 Os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: «É claro que mandará matar de modo violento esses perversos, e arrendará a vinha a outros agricultores, que lhe entregarão os frutos no tempo certo.» 42 Então Jesus disse a eles: «Vocês nunca leram na Escritura: ‘A pedra que os construtores deixaram de lado tornou-se a pedra mais importante; isso foi feito pelo Senhor, e é admirável aos nossos olhos’? 43 Por isso eu lhes afirmo: o Reino de Deus será tirado de vocês, e será entregue a uma nação que produzirá seus frutos.


* 33-46: Cf. nota em Mc 12,1-12. Mateus salienta a formação de um novo povo de Deus, formado agora não por uma nação particular, mas por todos aqueles que acreditam, comprometendo-se com Jesus.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


27º Domingo do Tempo Comum, ano A

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Ó Deus eterno e todo-poderoso, que nos concedeis no vosso imenso amor de Pai mais do que merecemos e pedimos, derramai sobre nós a vossa misericórdia, perdoando o que nos pesa na consciência e dando-nos mais do que ousamos pedir”.

1. Primeira leitura: Is 5,1-7

A vinha do Senhor dos exércitos é a casa de Israel.

O profeta Isaías vivia na capital, Jerusalém, e conhecia muito bem os maus costumes e as injustiças praticadas pela corte e a classe dominante. O Profeta investe tais práticas injustas e abomináveis. Para se fazer ouvir, parte de uma canção de amor na qual se canta o amor não correspondido de uma noiva para com seu noivo. A vinha era já conhecida como símbolo do povo de Israel, no seu relacionamento com Deus. Na canção, a vinha, cuidada com muito carinho, tornou-se uma decepção e o dono da vinha decide abandoná-la e destruí-la. Quando o profeta diz: “Não deixarei as nuvens derramar a chuva sobre ela”, todos perceberam qual era o significado simbólico da parábola: O “amigo” ou dono da vinha é Deus e a vinha é o seu povo, como é explicado no v. 7: em vez de frutos de justiça e bondade que Deus esperava colher do povo de Judá, só encontrou injustiças e maldade. – A canção de amor é uma parábola, símbolo do amor de Deus não correspondido por seu povo Israel. Em minha vida cristã, estou correspondendo com os frutos que Deus, no seu amor, espera de mim?

Salmo responsorial: Sl 79,9.12.13-14.15-16.20

A vinha do Senhor é a casa de Israel.

2. Segunda leitura: Fl 4,6-9

Praticai o que aprendestes, e o Deus da paz estará convosco.

Paulo está na expectativa da parusia (vinda) iminente do Senhor em sua glória (cf. Mt 26,64). Na primeira carta aos Tessalonicenses, convicto que a vinda do Senhor Jesus Cristo aconteceria em breve, Paulo descreve como ela acontecerá: “… os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os vivos, que estamos aqui na vida terrena, seremos arrebatados juntamente como eles para as nuvens, ao encontro do Senhor nos ares” (1Ts 4,16-17). Hoje, na carta aos cristãos de Filipos recomenda que se preocupem com o que vale a pena. Lembra-lhes o que Jesus já disse: “Não vos preocupeis com vossa vida… vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai, em primeiro lugar, o reino de Deus e sua justiça…” (Mt 6,25-31-32). Recomenda que se façam orações, súplicas e ações de graças, pelas necessidades da comunidade, diante de Deus. Paulo pede também a nós que nos ocupemos “com o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro e amável…”, como ele mesmo costuma fazer. Não importa quando virá o Senhor em sua glória, mas como gostaríamos estar quando Ele vier.

Aclamação ao Evangelho

Eu vos escolhi, foi do meio do mundo, a fim de que deis um fruto que dure.
Eu vos escolhi, foi do meio do mundo. Amém! Aleluia, Aleluia!

3. Evangelho: Mt 21,33-43

Arrendou a vinha a outros vinhateiros.

Na primeira leitura a vinha simbolizava o povo de Israel que, segundo a ameaça do profeta, seria rejeitado por Deus por causa de sua infidelidade. Na parábola que Jesus conta sobre a vinha, quem é rejeitado não é a vinha, mas os vinhateiros homicidas que rejeitam o dono da vinha, matam os seus servos e seu próprio filho, que lhes envia. Com a pergunta: “O que fará o dono da vinha, quando voltar, com esses vinhateiros?” Jesus arranca da boca dos próprios sumos sacerdotes e escribas a sentença: “O dono da vinha fará perecer de morte horrível os malfeitores e arrendará a vinha a ouros lavradores que lhe deem os frutos a seu tempo”. Sentença que o próprio Jesus confirma: “O reino de Deus será tirado de vós e será dado a um povo que produza os devidos frutos” (v. 43). São eles que criticam Jesus por não ter proibido as crianças de o aclamarem no Templo: “Hosana ao Filho de Davi” (21,14-17). Rejeitam, portanto, Jesus como Messias. Com isso rejeitam também o Reino de Deus anunciado por Jesus e acolhido com alegria pelos pecadores e pobres e, mais tarde, pelos pagãos. Estes serão os novos arrendatários da vinha. E deles – isto é, de nós, hoje – Deus espera colher os frutos de justiça e santidade. Nós temos o privilégio de sermos os novos escolhidos para trabalhar na vinha do Senhor. Mas “o privilégio gera obrigações, a graça gera responsabilidades” (L. Boff) de sermos os portadores da salvação trazida por Jesus Cristo para todos os homens.

Da história do Cristianismo podemos tirar lições para nossos dias: A promessa de um Messias salvador pertencia aos judeus, mas os governantes religiosos não acolheram Jesus de Nazaré como o Messias esperado. Então, os que creram em Jesus Cristo como Salvador tornaram-se os herdeiros da promessa. O Cristianismo, florescente (até o séc. VI) no norte da África, no Oriente Médio e na Ásia Menor, foi por sua vez varrido pela invasão dos seguidores de Maomé. Na Europa atual, a Igreja Católica e as Igrejas Evangélicas estão perdendo rapidamente sua importância. O que poderá com o Cristianismo, sobretudo católico, no Brasil e na América Latina, se não anunciarmos e vivermos intensamente a mensagem de Cristo? “Mas, quando vier o Filho do homem, encontrará fé sobre a terra” (Lc 18,8)?


Uma certa história de vinhateiros

Frei Almir Guimarães

Hoje somos convidados a refletir sobre a parábola dos vinhateiros homicidas, um dos textos mais “duros” do Novo Testamento. Um homem tinha uma vinha que havia plantado com todo cuidado. Pôs uma cerca em volta, fez um lugar para esmagar as uvas e construiu uma torre de guarda.  Tendo que viajar arrendou-a a vinhateiros. Na volta da viagem mandaria seus empregados aos vinhateiros para que lhe trouxessem o resultado da colheita. Os empregados são mal recebidos: alguns espancados, outros espancados e outros mortos. O dono pensou que, ao menos, fossem respeitar seu filho.  Os vinhateiros se livraram do filho com  a ideia de que assim eles seriam os herdeiros. Historicamente, a parábola parece ser dirigida aos  judeus  que  seriam “os vinhateiros homicidas”. Não ouviram os profetas e rejeitaram o Messias enviado à vinha.

Como poderíamos  aplicar os ensinamentos desta parábola aos dias de hoje?  A nós, cristãos e discípulos do Senhor, foi confiada a tarefa de cuidar da Igreja, de viver no mundo que o Senhor ama e para o qual nos envia. Através de nossa voz somos profetas e embaixadores de Jesus.  Através de nós o mundo ouve a voz do Senhor. A nós foi confiada a dilatação do Reino de Deus.  Somos convidados a construir um mundo de fraternidade, de bondade, de ternura e de reconciliação.  Trabalhamos na Igreja e no mundo esperando a volta do Senhor. Somos operários da vinha. O Senhor nos cumulou de dons e talentos e quer nos ver trabalhando generosamente em sua vinha.

Os casados haverão de se estimar na força do amor de Cristo, construirão uma família de acordo com o coração de Deus.  Constituirão uma comunidade de vida e de amor, de amor fiel, de acolhida da vida, espaço de oração, de crescimento humano e cristão e não simplesmente um abrigo para marido, mulher e filhos.  O  dono da vinha  gosta de ver os frutos  da Igreja doméstica e de um lar cristão. Os casados cultivam esse amor conjugal e familiar que torna o mundo belo e prazenteiro.  Apresentam ao Senhor o fruto  que conseguiram.

Aos sacerdotes  é pedido que  animem a vida dos fiéis, que reúnam as pessoas em torno da Palavra e do Pão,  que façam vir à tona os talentos e dons que foram concedidos a uns e outros, que procurem os mais abandonados e desesperançados e coloquem em seus corações um desejo de serem do Senhor.

Não somos donos do mundo. Tudo recebemos de graça e de graça trabalhamos para que tudo frutifique. Esclarecedoras estas palavras de  José Antonio Pagola: “O Reino de Deus não é da Igreja. Não pertence à hierarquia. Não é propriedade destes ou daqueles teólogos. Seu único dono é o Pai. Ninguém deve sentir-se proprietário de sua verdade nem de seu espírito. O Reino de Deus está no “povo que produz seus frutos” de justiça, compaixão e defesa dos últimos”  (O Caminho aberto por Jesus , Mateus, p.257).


Os frutos da sociedade atual

José Antonio Pagola

Não é uma visão simplista a dos que consideram “a propriedade privada, o lucro e o poder” como os pilares nos quais se apoia a sociedade industrial ocidental. Se analisarmos as constantes que estruturam nossa conduta social, veremos que elas lançam suas raízes quase sempre no desejo ilimitado de adquirir, lucrar e dominar. Os frutos amargos desta conduta são evidentes em nossos dias.

O afã de possuir vai configurando pouco a pouco um modo de ser humano insolidário, preocupado quase exclusivamente com seus bens, indiferente ao bem comum da sociedade. Não esqueçamos que, se a propriedade é chamada “privada”, é precisamente porque se considera o proprietário com poder para privar os outros de seu uso ou desfrute. O resultado é uma sociedade estruturada em função dos interesses dos mais poderosos, e não a serviço dos mais necessitados e mais “privados” de bem-estar.

Por outro lado, o desejo ilimitado de adquirir, conservar e aumentar os próprios bens vai criando um ser humano que luta com egoísmo pelo seu e se organiza para defender-se dos outros. Vai surgindo assim uma sociedade que separa e enfrenta os indivíduos, empurrando-os para a rivalidade e a competição, e não para a solidariedade e o serviço mútuo.

Por fim, o desejo de poder propicia uma sociedade baseada na agressividade e na violência, onde, com frequência, só conta a lei do mais forte e poderoso.

Não esqueçamos que na sociedade se recolhem os frutos que vão sendo semeados em nossas famílias, centros docentes, instituições políticas, estruturas sociais e comunidades religiosas.

Erich Fromm se perguntava, e com razão: “É cristão o mundo ocidental?” A julgar pelos frutos, a resposta seria basicamente negativa. Nossa sociedade ocidental quase não produz “frutos do Reino de Deus”: solidariedade, fraternidade, serviço mútuo, justiça para os mais desfavorecidos e perdão.

Hoje continuamos escutando o grito de alerta de Jesus: “O Reino de Deus será dado a um povo que produza seus frutos”. Não é o momento de lamentar-se esterilmente. A criação de uma sociedade nova só será possível se os estímulos de lucro, poder e domínio forem substituídos pelos da solidariedade e da fraternidade.

Trecho do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes.


Deus rejeitou o povo que elegera?

Pe. Johan Konings

As leituras de hoje suscitam uma pergunta: se Deus escolheu Israel como povo eleito, por que mudou de ideia? Será que rejeitou os judeus? No evangelho, Jesus narra uma parábola a respeito disso. No Antigo Testamento, o povo de Israel é a “vinha de Deus”. O profeta Isaías denuncia que ela não produz frutos (1ª leitura). Jesus, no evangelho, diz que são os arrendatários – os chefes de Israel – que não querem pagar sua parte ao “Senhor da vinha”. Mais: quando este manda seu filho, matam-no, querendo apoderar-se de sua herança… Mas a vinha lhes é tirada e dada a “outro povo”, que entregará seus frutos no devido tempo.

Jesus se refere à sua própria missão e também ao nascimento do novo povo de Deus, a Igreja, a partir da ressurreição de Cristo, “pedra rejeitada pelos construtores, mas que se tornou pedra angular”. Os líderes do antigo povo de Deus não queriam produzir frutos para Deus. Queriam a vinha para si. É como os opressores de hoje, que querem o poder pelo poder e pelo proveito, e não como liderança responsável para, junto com o povo, produzir “frutos de justiça”. Jesus e seus fiéis constituem uma denúncia viva contra tais usurpadores. E, como na parábola, também hoje acontece que os enviados do “senhor da vinha” são rechaçados e mortos. Porém, como Deus fundou seu novo povo sobre seu enviado e “mártir” (testemunha) por excelência, que é Jesus Cristo, assim também o sangue dos mártires da América Latina hoje será embasamento do povo de Deus.

Os opressores matam os enviados, os profetas. Mas os que sentem arder em si a voz profética de Deus devem reclamar da sociedade humana “frutos de justiça”. Por outro lado, os que são constituídos no poder (os arrendatários) devem considerar o poder como um serviço, a fim de produzir com o povo a justiça que Deus espera. O povo não é sua propriedade. O único senhor do povo é Deus.

Deus não “rejeitou os judeus”, mas rechaça os líderes que dominam o povo para proveito próprio e não estão a serviço da justiça e do amor. Israel recebeu a missão de ser o povo-testemunha de Deus; mas quando seus líderes rejeitaram Jesus, que veio inaugurar o reinado de Deus, este reuniu em torno do seu Cristo o novo povo-testemunha, constituído de todas as nações: a Igreja, comunidade dos seguidores de Jesus.

Por outro lado, também nesta Igreja existe o perigo de querer guardar os frutos para si. O evangelista João diz expressamente que a glória do Pai se manifesta nos frutos do amor fraterno produzido por aqueles que estão unidos à videira que é Cristo (Jo 15, 1-8). E os que se separarem da videira e não produzirem esse fruto serão cortados fora. Fique, pois, claro; que ser a vinha de Deus não é um privilégio irrevogável, mas uma missão para produzir fruto, e isso vale tanto para o povo no tempo de Jesus como para sua Igreja hoje.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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