Destaque, Notícias › 10/10/2019

28º Domingo do Tempo Comum

Quando “ir” significa “voltar”

Frei Gustavo Medella

Acordar, recordar, concordar… Ações que têm o coração como raiz: a “corda-mãe”, a matriz pulsante que confere o som, a vibração, a percussão e o ritmo da vida e da existência. Após alcançar de Deus a graça da cura, Naamã, o sírio, recolhe duas medidas do coração da terra para que seu coração jamais se esquecesse d’Aquele que o fazia pulsar, pelo qual superara as dores e lutas da doença, do medo, da incompletude. Diante da sábia recusa de Eliseu, Naamã percebe que não há maior presente a deixar do que a gratidão e o reconhecimento.

Em resposta à Palavra proclamada, o Salmo (97) também menciona o quanto Deus recorda ao povo seu amor sempre fiel: corda que, ao contrário do que se pensa, não se arrebenta no lado mais fraco, mas torna-se corda de salvação para acudir o indigente, o pobre, o desvalido. Corda que não aprisiona, mas liberta até quem está prisioneiro da truculência, do orgulho e da sede de dominação, tal como estava o Apóstolo Paulo conforme o mesmo descreve na 2ª Carta a Timóteo (2Tm 2,8-13). Ele estava preso, mas nada é capaz de algemar a Palavra.

No Evangelho, a Palavra libertadora se faz proximidade e instrução. O Mestre não prescreve nenhuma receita extraordinária àqueles leprosos que se recomendaram à sua compaixão: “Ide apresentar-vos aos sacerdotes”. Compadecer-se é ajudar o outro a trilhar seu próprio caminho de descoberta e libertação. É permitir que a própria pessoa se descubra protagonista do caminho de amor que Deus chama cada um de seus filhos a percorrer.

No percurso da maturidade, entre dez homens com o mesmo problema, apenas um percebe que, com frequência, na vida, ir significa voltar. Atento à ordem do Mestre, a si mesmo e ao caminho que percorria, percebeu-se curado e assimilou a lição de que a meta não se encontra estática no fim da caminhada, mas se constrói passo a passo, como a graça que eles receberam no caminho. Cada passo é um milagre!

O texto é claro em garantir que os dez leprosos ficaram curados no caminho. No entanto, não deixa tão explícito se os outros nove que não voltaram para agradecer ao Senhor já teriam se dado conta da própria cura. A liturgia deste 28º do Tempo Comum é oportunidade valiosa para que nós e nossas comunidades façamos um discernimento à luz da fé, a fim de não negligenciarmos as muitas graças que devemos, diariamente, render a Deus pelas muitas curas que Ele nos proporciona no decorrer da caminhada.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: 2Rs 5,14-17

Naqueles dias, 14Naamã, o sírio, desceu e mergulhou sete vezes no Jordão, conforme o homem de Deus tinha mandado, e sua carne tornou-se semelhante à de uma criancinha, e ele ficou purificado.

15Em seguida, voltou com toda a sua comitiva para junto do homem de Deus. Ao chegar, apresentou-se diante dele e disse: “Agora estou convencido de que não há outro Deus em toda a terra, senão o que há em Israel! Por favor, aceita um presente de mim, teu servo”.

16Eliseu respondeu: “Pela vida do Senhor, a quem sirvo, nada aceitarei”. E, por mais que Naamã insistisse, ficou firme na recusa.

17Naamã disse então: “Seja como queres. Mas permite que teu servo leve daqui a terra que dois jumentos podem carregar. Pois teu servo já não oferecerá holocausto ou sacrifício a outros deuses, mas somente ao Senhor”.


Responsório: Sl 97

— O Senhor fez conhecer a salvação/ e às nações revelou sua justiça

— O Senhor fez conhecer a salvação/ e às nações revelou sua justiça.

— Cantai ao Senhor Deus um canto novo, / porque ele fez prodígios! /
Sua mão e o seu braço forte e santo/ alcançaram-lhe a vitória.

— O Senhor fez conhecer a salvação, / e às nações, sua justiça;/
recordou o seu amor sempre fiel/ pela casa de Israel.

— Os confins do universo contemplaram/ a salvação do nosso Deus. /
Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira, / alegrai-vos e exultai!


Segunda Leitura: 2Tm 2,8-13

Caríssimo: 8Lembra-te de Jesus Cristo, da descendência de Davi, ressuscitado dentre os mortos, segundo o meu evangelho. 9Por ele eu estou sofrendo até às algemas, como se eu fosse um malfeitor; mas a palavra de Deus não está algemada. 10Por isso suporto qualquer coisa pelos eleitos, para que eles também alcancem a salvação, que está em Cristo Jesus, com a glória eterna.

11Merece fé esta palavra: se com ele morremos, com ele viveremos. 12Se com ele ficamos firmes, com ele reinaremos. Se nós o negamos, também ele nos negará. 13Se lhe somos infiéis, ele permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo.


Cura dos dez leprosos: Fé e gratidão

Evangelho: Lc 17, 11-19

*  11 Caminhando para Jerusalém, aconteceu que Jesus passava entre a Samaria e a Galileia. 12 Quando estava para entrar num povoado, dez leprosos foram ao encontro dele. Pararam de longe, e gritaram: 13 «Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!» 14 Ao vê-los, Jesus disse: «Vão apresentar-se aos sacerdotes.» Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados. 15 Ao perceber que estava curado, um deles voltou atrás dando glória a Deus em alta voz. 16 Jogou-se no chão, aos pés de Jesus, e lhe agradeceu. E este era um samaritano. 17 Então Jesus lhe perguntou: «Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão? 18 Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?» 19 E disse a ele: «Levante-se e vá. Sua fé o salvou.»

* 11-19: O ponto alto da narrativa é a fé do samaritano. É fé madura: nasce da esperança (vv. 12-13), cresce na obediência à palavra de Jesus (v. 14) e se manifesta na gratidão (v. 16). Com isso, ele não só recebe a cura, mas é salvo. Sua vida chega à plenitude, ao reconhecer que em Jesus o amor de Deus leva os homens a viver na alegria da gratidão. A vida que Deus dá em Jesus Cristo é gratuita, é graça.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

28º Domingo do tempo Comum

Oração: “Ó Deus, sempre nos preceda e acompanhe a vossa graça para estejamos sempre atentos ao bem que devemos fazer”.

  1. Primeira leitura: 2Rs 5,14-17

Naamã voltou para junto do homem de Deus,

e fez sua profissão de fé.

Entre Israel e Damasco havia permanente estado de guerra. Numa das incursões, um bando de arameus levou prisioneira uma garota de Israel. A menina se tornou criada da mulher de Naamã, um valente guerreiro que sofria de lepra. Um dia a garota falou para sua patroa: “Se meu patrão pudesse se apresentar ao profeta de Samaria, ele o libertaria da lepra”. O profeta era Eliseu, muito conhecido em Damasco porque se opunha aos crimes e à idolatria do rei de Israel. Num momento de trégua, Naamã, com toda a pompa de um guerreiro famoso, dirigiu-se até a casa de Eliseu para ser curado da lepra. Eliseu, porém, não o recebeu. Apenas mandou que fosse banhar-se sete vezes no rio Jordão. Furioso, Naamã já se preparava para voltar a Damasco, mas seus servos o convenceram a fazer o que o profeta lhe havia mandado. Naamã obedeceu e ficou limpo de sua lepra. A primeira leitura de hoje nos conta como ele volta até Eliseu para agradecer ao profeta pela cura obtida. Naamã queria dar presentes a Eliseu, mas o profeta se recusou a aceitá-los. Então, Naamã pede licença a Eliseu para levar em dois jumentos duas cargas de terra até Damasco, para sobre ela construir um altar e ali adorar o Deus de Israel, que reconhece como único verdadeiro Deus. – O que nos ensina esta singela legenda? O profeta é um simples intermediário do verdadeiro Deus. Transmite sua palavra que deve ser obedecida. A obediência exige humildade e fé: Naamã precisava acreditar que, banhando-se sete vezes nas águas do Jordão, ficaria curado (Evangelho). Não foi Eliseu que o curou, mas o Senhor Deus de Israel. Ele não é um Deus da morte (guerra), mas o Deus da vida que não conhece fronteiras nem limites de raça ou religião. Por outro lado, os dons gratuitos de Deus não se pagam; pedem gratidão, louvor e adoração, como o fez Naamã. A cura e a salvação são um dom gratuito (Rm 3,24), que Deus oferece a todos, judeus e pagãos.

Salmo responsorial: Sl 97

O Senhor fez conhecer a salvação

e às nações revelou sua justiça.

  1. Segunda leitura: 2Tm 2,8-13

Se com Cristo ficamos firmes, com ele reinaremos.

Paulo está preso em Roma por causa do Evangelho que prega. Do cárcere continua animando Timóteo a lembrar-se sempre dos sofrimentos de Cristo e de sua ressurreição. Este é o Evangelho que Paulo prega e razão de estar agora preso num cárcere comum, como se fosse um malfeitor. Paulo sofre algemado, mas a Palavra de Deus não pode ser algemada. Por isso, exorta Timóteo a não esmorecer no anúncio desta Palavra, a fim de que todos alcancem a salvação que está em Cristo. Paulo conclui com um antigo hino cristão que exorta a manter uma fé firme e confiante. Mesmo se formos infiéis – diz Paulo – “Deus permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo”.

Aclamação ao Evangelho: 1Ts 5,8

Em tudo dai graças, pois, esta é a vontade

de Deus para convosco em Cristo Jesus.

  1. Evangelho: Lc 17,11-19

Não houve quem voltasse para dar glória a

a não ser este estrangeiro.

No Evangelho ouvimos a narrativa da cura dos dez leprosos, exclusiva de Lucas. Ele é o único evangelista não judeu, portanto um “estrangeiro”. Possível companheiro de Paulo nas viagens missionárias entre os pagãos, Lucas preocupa-se em mostrar que a salvação trazida por Cristo está aberta para todos os povos (Lc 2,14.31-32; At 1,8). Não esconde sua simpatia pelos samaritanos, desprezados e considerados inimigos pelos judeus (cf. Lc 9,51-56). Esta simpatia se manifesta na parábola do Bom Samaritano, apresentado como modelo a ser seguido pelos judeus e por nós todos (10,30-37). Depois, nos Atos dos Apóstolos, os samaritanos são os primeiros não-judeus que acolhem o Evangelho pregado pelo diácono Filipe (At 8,4-25). O Evangelho de hoje coloca a cena da cura dos dez leprosos durante a viagem de Jesus a Jerusalém. Jesus passava, entre a Samaria e a Galileia, com seus discípulos e o povo. Quando estava para entrar num povoado, depara-se com um grupo de leprosos. Eles não podiam entrar no povoado por causa da doença que os afligia. Vendo Jesus passar, eles param à distância e gritam: “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós”! Ao vê-los Jesus percebeu que desejavam ser curados, e lhes diz: “Ide apresentar-vos aos sacerdotes”. Era previsto pela Lei que um leproso que se considerasse curado devia apresentar-se aos sacerdotes. Os sacerdotes não curavam a lepra, mas deviam confirmar a verdade da cura, para que o leproso pudesse voltar ao convívio da família e participar do culto (Lv 14,1-32). Portanto, Jesus exige a fé e confiança em sua palavra. Enquanto os leprosos se dirigiam a Jerusalém ficaram curados. Nove deles quando se viram curados foram apresentar-se aos sacerdotes, conforme exigia a Lei. Apenas um deles, voltou até Jesus e, glorificando a Deus em alta voz, atirou-se aos pés de Jesus para lhe agradecer; e este era um samaritano. Com certo espanto, Jesus exclama: “Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este “estrangeiro”? Os outros nove tiveram confiança na palavra de Jesus e ficaram curados. Cumpriram a Lei, mas não glorificaram a Deus que os curou. O samaritano não foi até o templo de Garizim apresentar-se aos sacerdotes samaritanos, mas voltou glorificando a Deus para agradecer a Jesus pela cura. Os sacerdotes de Jerusalém podiam apenas verificar a cura. Jesus, porém, diz ao samaritano: “Levanta-te e vai! Tua fé te salvou”. – Neste Evangelho destacam-se a fé, a gratidão e a salvação universal em Cristo. Expressamos nossa fé com gratidão, como Naamã e o samaritano, pelos bens que Deus nos dá? A Eucaristia que celebramos é por excelência ação de graças, gratidão pela salvação que Cristo nos trouxe pela sua morte e ressurreição.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.


Lei e fé

Frei Clarêncio Neotti

O pedido que os leprosos fazem demonstra fé em Jesus e uma fé que se exprime com humildade. Vejo a fé na palavra ‘Mestre’. Vejo a humildade no ‘tem piedade de nós’. A fé se desenvolve normalmente pela obediência: eles obedecem a Jesus e vão cumprir uma lei. À primeira vista, parece que o samaritano desobedeceu à ordem de Jesus e justamente ele recebeu o elogio e a graça da salvação. Mas o que Lucas quer acentuar é que a fé verdadeira não consiste em obedecer às leis formalmente, como pensavam os fariseus e os escribas, mas em proclamar a boa nova da salvação recebida gratuitamente do Senhor. E foi isso que fez o samaritano “em alta voz” (v. 15).

O samaritano era considerado pelos hebreus um herege, um pecador. Mais vezes o samaritano é posto como exemplo, exatamente pela péssima situação social de que gozava. Lembremos apenas a parábola do “Bom samaritano” (Lc 10,30-37), apresentado por Jesus como um homem mais humano e generoso que um sacerdote e um levita, e posto como modelo de comportamento caridoso a um Doutor da Lei. Estamos de novo num dos temas preferidos de Lucas: mostrar que Jesus veio, sobretudo, para os desprezados e humilhados. Na lógica de Jesus, “os últimos serão os primeiros” (Lc 13,30).

Jesus mostra alguma dor por não terem voltado os outros nove (v. 17). Certamente, não é por não ter visto gratidão neles, mas porque eles se julgaram credores da graça recebida. Pediram, receberam e, se receberam, mereciam-na. Essa atitude, bastante encontradiça ainda hoje, afronta a gratuidade da graça divina e a nossa dependência do Deus criador, pelo fato de sermos criaturas. Nossa vida deveria transformar-se em contínua eucaristia, isto é, em permanente ação de graças, porque permanentemente o olhar misericordioso do Senhor está voltado para nós.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.


Quando vamos respirar novamente o perfume da gratidão?

Frei Almir Guimarães

 Nós te pedimos hoje, Senhor, a ousadia de um gesto gratuito: nem que seja abrir uma janela; nem que seja reparar a ternura no rosto dos que nos rodeiam; nem que seja um frágil minuto de silêncio diante de tua imensidão.
José Tolentino Mendonça, “Um Deus que dança”, p. 107

Muitos passam pela vida indiferentes a tudo. Só tem olhos para o que serve a seus próprios interesses. Não se deixam surpreender por nada de gratuito, não se deixam amar ou abençoar por ninguém. Fechados em seu mundo, têm bastante trabalho em defender seu pequeno bem-estar cada vez mais triste e egoísta. De seu coração nunca brota o agradecimento.
Pagola, Lucas, p.291

♦ Estamos diante do tema da gratidão, do agradecimento. Parece urgente uma reflexão sobre o assunto. Nossos tempos não são afeitos à gratidão. Vivemos uma civilização mercantilista. As coisas de que precisamos nós as compramos com o dinheiro e assim estamos quites com todos. Damos, para receber e ponto final. Nada mais que comércio. Não queremos viver de favores e de dependência e tantos vínculos. Não desejamos precisar de ninguém. Não queremos depender de favores.

♦ Naamã, o sírio, curado da lepra desejava oferecer presentes a Eliseu que este não aceitou. Sua ação foi gratuita. O sírio, em sinal de alegria grata, quer levar terra do país, quantidade que dois jumentos pudessem carregar, como sinal de gratidão pela cura. O doente samaritano curado voltou para agradecer a cura. E Jesus: “Onde estão os outros?”

♦ Gratidão, reconhecimento pelo bem que nos é feito, sentimento nobre que se expressa por gestos e palavras a convicção de que outros andam nos ajudando a viver. Fazem-no a partir de uma fonte de bondade que jorra de seu interior, a partir de uma urgência que experimentam de não serem apenas seres interesseiros.

♦ Louvado seja o Senhor, fonte do amor bondoso. Somos alvo desse amor. Ele nos criou e nos colocou na vida para que pudéssemos empreender a peregrinação por entre vales e montanhas, sentindo o perfume das flores e ouvindo a música da vida. Quis que fossemos homem e mulher, quis nos amar, nos quis. Louvado e glorificado seja o nosso grande benfeitor. Somos e pobres tudo ganhamos do grande Benfeitor.

♦ Gratidão diante do mistério de Cristo. “Já não vos chamo de servos mas de amigos”. Ele vem, vem sussurrar palavras de amor, mostrar um horizonte de vida em plenitude, vem ensinar-nos a arte da felicidade, da alegria, mesmo nos desafios da “perfeita alegria”. Vem para ser o doador da vida. “Minha vida ninguém me tira. Eu a dou livremente”. Nossas eucaristias não consistem em ritos monótonos, mas em prece de louvor ao Pai pela vida de Jesus. A Eucaristia é precisamente prece de ação de graças. Como vemos a missa? Como a vivemos? “Isto é meu corpo, meu sangue… façam isso para celebrar a minha memória.” Explosão de alegria e de reconhecimento no dia do Sol, o domingo. “Não vos chamo de servos, mas de amigos!”

♦ Em torno à mesa, membros de uma família, pessoas de coração reto, agradecem ao Senhor o escondidinho de carne, o suflê de legumes, a musse de maracujá, os alimentos que refazem suas forças. Deus belo colocou vida na terra e permitiu que tivéssemos, o pão de cada dia, “fruto da terra e do trabalho humano”. Nada mais normal do que uma oração de agradecimento.

♦ Indubitavelmente experimentamos gratidão pelas pessoas que nos trataram com dedicação e esmero: os pais que tivemos, os professores da escola primária e de outras etapas do estudo, os vizinhos que nos ensinaram a viver com sua postura e seus comportamentos, aqueles que nos acolheram e nos ajudaram em situações delicadas. Nossos benfeitores estarão sempre escutando nosso: “Muito obrigado”.

♦ Agradeceremos de modo especial pessoas que, com habilidade e competência, nos mostraram o caminho de Deus, pessoas que com seu testemunho e garra nos ensinaram a buscar a Deus, a rezar, a ter gosto pelas coisas do Evangelho, aos sacerdotes que deixaram transparecer nas celebrações fagulhas de esperança. Sobretudo pessoas que nos fizeram livres de nossos pequenos interesses.

♦ Na vida de todos os dias, pessoas remuneradas nos prestam serviços os mais variados: balconistas nos atendem, médicos nos examinam, motoristas de táxi ou de coletivos nos levam de um lado para o outro, caixas dos supermercados nos apresentam a conta de não sei quantos itens. Fazem sua obrigação, é certo. Mas são pessoas humanas, felizes ou descontentes com a vida, sadios ou doentes, normais ou “especiais”. São vidas e histórias que estão a nosso serviço. Mesmo sendo remunerados não custa nada que escutem nossa gratidão expressa num “muito obrigado”.

Texto para a reflexão

♦ O primeiro dom que recebemos, o mais básico, o mais valioso, o mais fundamental é o dom da vida. Jamais poderemos pagar por ele àqueles que nos proporcionaram. Sempre estaremos em dívida, pois, ainda que queiramos, não teremos a capacidade de criar quem nos criou, nem estender sua vida indefinidamente, ou dar-lhe outra após ter deixado este mundo. O dom vida é material e imaterial, porque inclui um corpo, mas também um espírito e uma enormidade de capacidades que, com o tempo, vão tomando corpo e forma (Francesc Torralba).


Oração 

Graças

Graças, Senhor, pela vida,
Graças por cada um de nós
e por nosso mútuo bem querer.
Graças porque juntos buscamos a Ti.
Graças porque nos deste a vida e a fé.
Graças por termos descoberto
o pobre que nos lembra Jesus
que não tinha nem uma pedra para reclinar a cabeça.
Graças pelo carinho da avó
e pela caixa de bombons do  padrinho.
Graças pelos que nos ajudaram
a ver as coisas com um olhar de bondade.
Graças pelos corajosos que dizem a verdade
e ajudam a construir um mundo tecido de bondade.
Graças, Senhor, por teu olhar e pela vida.


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.


Recuperar a gratidão

José Antonio Pagola

Houve quem dissesse que a gratidão está desaparecendo da “paisagem afetiva” da vida moderna. O conhecido ensaísta José Antonio Marina recordava recentemente que a passagem de Nietzsche, Freud e Marx nos deixou submersos numa “cultura da suspeita” que torna difícil o agradecimento.

Desconfia-se do gesto realizado por pura generosidade. De acordo com o professor, “tornou-se dogma de fé que ninguém dá nada de graça e que toda intenção aparentemente boa oculta uma impostura”. É fácil, então, considerar a gratidão como “um sentimento de bobos, de equivocados ou de escravos”.

Não sei se esta atitude está tão generalizada. Mas é certo que, em nossa “civilização mercantilista”, há cada vez menos lugar para o gratuito. Tudo se troca, se empresta, se deve ou se exige. Neste clima social a gratidão desaparece. Cada um tem o que merece, o que ganhou com seu próprio esforço. A ninguém se dá nada de presente.

Algo semelhante pode acontecer na relação com Deus se a religião se transforma numa espécie de contrato com ele: “Eu te ofereço orações e sacrifícios e tu me asseguras tua proteção. Eu cumpro o que está estipulado e tu me recompensas”. Desaparecem assim da experiência religiosa o louvor e a ação de graças a Deus, fonte e origem de todo bem.

Para muitos crentes, recuperar a gratidão pode ser o primeiro passo para sanar sua relação com Deus. Este louvor agradecido não consiste primariamente em tributar-lhe elogios nem em enumerar os dons recebidos. A primeira coisa é captar a grandeza de Deus e sua bondade insondável. Intuir que só se pode viver diante dele dando graças. Esta gratidão radical a Deus produz na pessoa uma forma nova de olhar para si mesma, de relacionar-se com as coisas e de conviver com os outros.

O crente agradecido sabe que sua existência inteira é dom de Deus. As coisas que o rodeiam adquirem uma profundidade antes ignorada: não estão aí apenas como objetos que servem para satisfazer necessidades, mas são sinais da graça e da bondade do Criador. As pessoas que ele encontra em seu caminho são também dom e graça: através delas se oferece ao crente a presença invisível de Deus.

Dos dez leprosos curados por Jesus, só um volta “glorificando a Deus” e só ele ouve as palavras de Jesus: “Tua fé te salvou”. O reconhecimento prazeroso e o louvor a Deus sempre são fonte de salvação.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.


Gratidão

Pe. Johan Konings

1ª leitura nos oferece uma das mais belas histórias do Antigo Testamento. Naamã, general sírio, foi curado da lepra pelo profeta israelita Eliseu. Para mostrar a sua gratidão, levou consigo para a Síria, nos seus jumentos, uns sacos cheios de terra de Israel, para, lá na Síria, adorar o Deus de Israel no seu próprio chão! Em contraste com este exemplo de singela gratidão, o evangelho narra a história dos dez leprosos que foram curados por Jesus e dos quais apenas um voltou para agradecer. E esse que voltou para agradecer era, por sinal, um estrangeiro (como o general sírio), pior, um samaritano, inimigo do povo de Jesus…

A gratidão é uma flor rara. Brota, frágil e efêmera, nas épocas de trocar presentes (Natal, Páscoa…), mas desaparece durante o resto do ano. Quase ninguém agradece pelos dons que recebe continuamente, dia após dia: a vida, o ar que respira, os pais, irmãos, vizinhos… As antigas orações estão cheias de ação de graças. O próprio termo “eucaristia”, que indica a principal celebração cristã, significa “ação de graças”. Hoje em dia, quando se faz uma ação de graças partilhada, a maioria das pessoas não consegue formular um agradecimento… Numa missa, depois da comunhão, o padre convidou os fiéis a formular orações de louvor e gratidão, não de pedido. A primeira voz que se fez ouvir rezou: “Eu te agradeço, Senhor Deus, porque sei que te posso pedir por meu marido e meus filhos….” Se fosse apenas o costume de pedir, não seria grave. Pedir com simplicidade é o outro lado da gratidão. Mas a mania de pedir sem agradecer reflete a mentalidade de nosso ambiente: sempre querer levar vantagem. Será por causa das dificuldades da vida? Mas os que têm a vida mais folgada é que mais pedem sem agradecer… Falta motivação para se dirigir em simples agradecimento àquele que é a fonte de todos os bens. Talvez não seja apenas a gratidão que desapareceu. Receio que Deus mesmo tenho sumido dos corações.

Não só as pessoas individuais, também as comunidades eclesiais devem precaver-se desse perigo. Lutar pelo amor-com-justiça é bom e necessário, mas luta deve estar inspirada pela visão alegre e alentadora do bem que Deus dispõe para todos, e não pela insatisfação e frustração. Um espírito de gratidão pelo que já se recebeu, em termos de solidariedade e fraternidade, é o melhor remédio para que a luta não faça azedar as pessoas. Então, a desgraça que se vive não abafará a gratidão; será apenas um desafio a mais para que tudo o que fizermos seja uma ação de graças a Deus, conforme a palavra de Paulo (2ª leitura).


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

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