Destaque, Notícias › 18/10/2019

29º Domingo do Tempo Comum

Dona Insistência X Dr. Prepotência

Frei Gustavo Medella

À viúva anônima, poder-se-ia dar o nome de “Dona Insistência”. Ao juiz intrépido, “Dr. Prepotência”. Eis que no embate de interesses, a segunda vence o primeiro porque antes supera em si o medo, a desesperança, a acomodação e não deixa de insistir. É o caminho percorrido por Jesus, diante das muitas barreiras e dificuldades que encontra no decorrer de sua missão. É o trajeto dos discípulos de Jesus quando estes desejam de fato manter a fidelidade no seguimento do Mestre: Insistir e resistir até que justiça aconteça e a vida prevaleça.

Insistência e resistência também são os nomes de Franciscos, o de Assis e o de Roma. O primeiro, com sua “santa teimosia”, vence, em si e fora de si, todos os apelos e contrariedades que lhe poderiam impedir de abraçar plenamente o Evangelho como forma de vida. Luta para contrariar os próprios sonhos de nobreza, as projeções de sucesso que o pai sobre ele depositava, as pressões de amigos e conhecidos diante da loucura representada pela nova vida que desejava abraçar. Briga para ter como única garantia a mesma pobreza que garantiu o Filho de Deus enquanto neste mundo caminhou.

O outro Francisco, de Roma, insiste, sem peso ou pesar, na promoção de uma Igreja simples, serva, profética, misericordiosa e em saída. E, por conta de tal insistência, segue ofendido por muitos “Doutores Prepotência” que teimam em lhe acusar de herege, comunista e daí para pior. Não se abala, pois sabe-se possuidor da única riqueza da qual não poderia abrir mão: a fidelidade a Jesus Cristo e ao Evangelho, ou seja, à autêntica Tradição.

Todo o resto é supérfluo ou, ainda mais, totalmente descartável: poder, ostentação, busca de privilégios, grandes manifestações de força e sucesso devem ser depostos com coragem e desprendimento, a fim de que a busca de fidelidade a uma pretensa Tradição não recaia numa decadente e destrutiva traição a Cristo e ao Evangelho. Vociferar ofensas contra o sucessor de Pedro é o cúmulo da falta de conhecimento histórico e teológico que invalida na raiz todo cabedal de conhecimento que os tais “Doutores Prepotência” julgam ter. Rezemos por eles e peçamos a Deus discernimento e humildade para não nos tornarmos como eles.

Como cristão e batizado que procura, em meio às próprias mazelas e pecados, um seguimento razoavelmente fiel a Jesus, não tenho dúvida e tenho lado: fico com a viúva “Dona Insistência”, fico com Cristo e fico com os Franciscos, o de Assis e o de Roma. Amém.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Textos bíblicos para este domingo

Primeira Leitura: Êx 17,8-13

Naqueles dias, 8 os amalecitas vieram atacar Israel em Rafidim. 9 Moisés disse a Josué: “Escolhe alguns homens e vai combater contra os amalecitas. Amanhã estarei, de pé, no alto da colina, com a vara de Deus na mão”.

10 Josué fez o que Moisés lhe tinha mandado e combateu os amalecitas. Moisés, Aarão e Ur subiram ao topo da colina. 11 E, enquanto Moisés conservava a mão levantada, Israel vencia; quando abaixava a mão, vencia Amalec. 12 Ora, as mãos de Moisés tornaram-se pesadas. Pegando então uma pedra, colocaram-na debaixo dele para que se sentasse, e Aarão e Ur, um de cada lado, sustentavam as mãos de Moisés. Assim, suas mãos não se fatigaram até ao pôr-do-sol, 13 e Josué derrotou Amalec e sua gente a fio de espada.


Responsório: Sl 120

— Do Senhor é que me vem o meu socorro, do Senhor, que fez o céu e fez a terra.

— Do Senhor é que me vem o meu socorro, do Senhor, que fez o céu e fez a terra.

— Eu levanto os meus olhos para os montes:/ de onde pode vir o meu socorro?/ “Do Senhor é que me vem o meu socorro,/ do Senhor que fez o céu e fez a terra!”

— Ele não deixa tropeçarem os meus pés,/ e não dorme quem te guarda e te vigia./ Oh! Não! Ele não dorme nem cochila,/ aquele que é o guarda de Israel!

— O Senhor é o teu guarda, o teu vigia,/ é uma sombra protetora à tua direita./ Não vai ferir-te o sol durante o dia,/ nem a lua através de toda a noite.

— O Senhor te guardará de todo o mal,/ ele mesmo vai cuidar da tua vida!/ Deus te guarda na partida e na chegada./ Ele te guarda desde agora e para sempre!


Segunda Leitura: 2Tm 3,14-4,2

Caríssimo: 14 Permanece firme naquilo que aprendeste e aceitaste como verdade; tu sabes de quem o aprendeste. 15 Desde a infância conheces as Sagradas Escrituras: elas têm o poder de te comunicar a sabedoria que conduz à salvação pela fé em Cristo Jesus. 16 Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, para argumentar, para corrigir e para educar na justiça, 17 a fim de que o homem de Deus seja perfeito e qualificado para toda boa obra.

4,1Diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de vir a julgar os vivos e os mortos, e em virtude da sua manifestação gloriosa e do seu Reino, eu te peço com insistência: 2proclama a palavra, insiste oportuna ou importunamente, argumenta, repreende, aconselha, com toda a paciência e doutrina.


Juiz iníquo e a viúva

Evangelho: Lc 18, 1-8

* 1 Jesus contou aos discípulos uma parábola, para mostrar-lhes a necessidade de rezar sempre, sem nunca desistir. Ele dizia: 2 «Numa cidade havia um juiz que não temia a Deus, e não respeitava homem algum. 3 Na mesma cidade havia uma viúva, que ia à procura do juiz, pedindo: ‘Faça-me justiça contra o meu adversário!’ 4 Durante muito tempo, o juiz se recusou. Por fim ele pensou: ‘Eu não temo a Deus, e não respeito homem algum; 5 mas essa viúva já está me aborrecendo. Vou fazer-lhe justiça, para que ela não fique me incomodando’.» 6 E o Senhor acrescentou: «Escutem o que está dizendo esse juiz injusto. 7 E Deus não faria justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por ele? Será que vai fazê-los esperar? 8 Eu lhes declaro que Deus fará justiça para eles, e bem depressa. Mas, o Filho do Homem, quando vier, será que vai encontrar a fé sobre a terra?»

* 18,1-8: Insistência e perseverança só existem naqueles que estão insatisfeitos com a situação presente e, por isso, não desanimam; do contrário, jamais conseguiriam alguma coisa. Deus atende àqueles que, através da oração, testemunham o desejo e a esperança de que se faça justiça.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Permanecer firmes na fé

Frei Clarêncio Neotti

Percebe-se, então, que os redatores dos Evangelhos e das Cartas apostólicas acentuam alguns ensinamentos de Jesus sobre a paciência. A paciência histórica. A espera confiante. A parábola do grão de mostarda (Lc 13,19), que cresce lentamente, é símbolo da comunidade que não pode ter a pressa do fim. Jesus ensinou que viria o fim, mas não determinou o tempo (Mc 13,32). Como dissera que o fim viria “de repente” (Mc 13,35), quando menos se esperasse, transformaram o “de repente” em “logo”. Por isso os Evangelhos – escritos nesse tempo – acentuam a espera, a demora, a vigilância, a persistência, a oração incessante. A parusia (últimos tempos) virá. Os que estiverem acordados verão (cf. a parábola das 10 moças em Mt 25,1-13: os que deixarem apagar as lâmpadas, isto é, os que deixarem de crer; os desanimados e desesperados, não acompanharão o Cristo na festa gloriosa).

Esse tempo de espera é tempo de frutificar os talentos (Lc 19,12-20), de socorrer os irmãos, de praticar o bem e, sobretudo, é tempo de conversão. Pedro foi claro: o Senhor está retardando o fim, para que todos se arrependam e se convertam (2Pd 3,9). E Paulo escrevia aos Colossenses: “É necessário que permaneçais fundados e firmes na fé, inabaláveis na esperança” (Cl 1,23).

Também a parábola de hoje reflete sobre o ensinamento da paciência, junto com o ensinamento da oração persistente. A oração continuada, confiante e humilde é a melhor forma de esperar a segunda vinda, a vinda gloriosa do Cristo Senhor; que certamente acontecerá (2Pd 3,10). A oração perseverante é expressão de fé viva e certeza de que Deus não falha, ainda que tarde (2Pd 3,9).


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.


O tema da Oração

Frei Almir Guimarães

Deixa que a respiração profunda de teu ser aconteça. Só isso.
Não interrogues nem busque.
Deixa que seja Deus a procurar-te.
Não caminhes. Deus vem ao teu encontro.
Não procures contemplar.
Permite antes que Deus te contemple.
Não rezes. Deixa que, em silêncio, ele reze o que tu és.

José  Tolentino Mendonça – Um Deus que dança – Paulinas, p. 21

Mais um vez as leituras  bíblicas nos colocam diante do tema da oração. Em português, oração vem de os, oris, que quer dizer boca.  Etimologicamente, oração seriam palavras  produzidas por nossos lábios e dirigidas a Deus.  Não podemos resumir o mistério da oração a um recitar de fórmulas. Sempre será necessário que elas partam fundo de nosso ser. Conhecemos também a palavra prece (pedir). Em outras línguas prière, preghiera, beten, pray.  Sim, mas cuidado para não transformar a oração num peditório ilusório. O Altíssimo não é um depósito de onde tiramos o que nos falta.  A oração é gratuidade.  Necessidade e alegria de estar com  Ele, o Inominável e, ao mesmo  tempo, o Pai que  nos envolve. Mistério de comunhão.

A oração é a tentativa de fazer com que meu ser mais profundo (nosso ser mais profundo) ande à cata de um Mistério que nos envolve e que chamamos de Deus, de Altíssimo, de Amado, de Belo e, no dizer de São Francisco de Assis, “Meu Deus e meu Tudo.  A oração é o extasiar-se de graça diante do Senhor. Pode ser no meio de uma grande assembleia, como no silêncio do quarto. Trata-se de um estar nos achegando a ele de tal forma que ele seja nosso  Amigo de todos os dias.  Tolentino e os que refletem  sobre o tema dizem que é Deus que nos procura.  Ele é que anda atrás de nós.

Oração, orar, rezar?  Não podemos forçar.  Há o desejo.  Sem desejo não se busca o Senhor.  Há essa convicção de que viemos dele, do Mistério, e que nosso coração tende para ele.  Agostinho de Hipona: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro e eu fora, E aí te procurava e lançava-me nada belo ante a beleza que tu criaste.  Estavas comigo e eu não contigo. Seguravam-se longe de ti as coisas  que não existiriam, se não existissem em ti.  Chamaste, clamaste e rompeste minha surdez, brilhaste, resplandeceste e afugentaste minha cegueira.  Exalaste perfume e respirei. Agora anelo por ti. Provei-te e tenho fome e sede. Tocaste-me e ardi por tua paz”.

O coração é o lugar mais íntimo de cada pessoa. É lá que começa e se  desenvolve a oração.  O coração é a raiz de nosso ser, a sede da liberdade.  Não se reza com a inteligência, nem com a memória nem com a sensibilidade. Reza-se com o coração. Reza aquele que desperta o coração quando esse parece adormecido.  Muitas vezes vivemos na periferia de nosso ser. Rezar com o coração é rezar com o melhor que nós temos.

A oração é o grito de um pobre dizendo ou sentindo que precisa da força, do olhar dele.  É um lançar-se no Mistério.  É a decisão de estar com ele na nudez de nossa vida, de graça, com reconhecimento, com o desejo de caminhar sempre num movimento de entrega irrestrita, de um “companheirismo” um tanto desigual, na realidade uma amorosa proximidade.  Caminhar carinhosamente com o Senhor.

Estar com… por isso a oração exige silêncio.  Silêncio externo, mas sobretudo aquietação das coisas loucas e agitadas dentro de nós. Silêncio de nossos desejos atropelados para ouvir aquilo que nos dá alento para viver.  Procurar espaços de calma, como o quarto, um canto de jardim, sentar-se à luz tênue de uma capela.  Silêncio de muitos loucos desejos, de tantos pequenos projetos.  “Aqui estou, Senhor, estou contigo.  Preciso entender a linguagem de tua presença”.

Caminhar na presença do Senhor com os ouvidos do coração bem abertos, a partir do silêncio de nós mesmos.  Anselm Grün, falando  da vida dos monges  assim se exprime:  “Os monges não se calam por causa de um princípio  abstrato,  nem para se colocarem artificialmente em um certo  estado de ânimo,  nem ainda para demonstrar a si próprio uma  realização ascética.  Eles se calam porque experimentam a Deus e não querem, falando, destruir esta experiência” (As exigências do silêncio,  Vozes p. 71). 

Pode ser que manifestemos uma espécie de convicção de que rezamos para obter bens e coisas.  Estamos muito acostumados ao sucesso, êxito,  produção.  Ora, a oração pertence a mundo do inútil, do gratuito. “De alguma maneira é certo que a oração é “algo inútil”, e não serve para conseguir tantas coisas atrás das coisas das quais andamos a cada dia.  Como é inútil o prazer da amizade, a ternura dos esposos, a paixão dos jovens, o sorriso dos filhos, o desabafo  com uma pessoa de confiança, o descanso na intimidade do lar, o desfrute de uma  festa, a paz do entardecer…  Como medir a “eficácia” de tudo isto que, no entanto,  constitui o alento que sustenta o nosso viver? Seria um equívoco pensar que a nossa oração só é eficaz quando conseguimos o que pedimos a Deus.  A oração  cristã é “eficaz”  porque nos faz viver com fé e confiança no Pai e em atitude solidária com os irmãos.”  (Pagola, Lucas, p.  297).


Texto  para meditação

A  oração cristã não é uma viagem ao fundo de si mesmo.  Não é  um movimento introspectivo.  Não é uma diagnose de nossos pensamentos e moções externas ou íntimas.  A oração cristã é ser e estar diante de Deus, colocar-se por inteiro e continuamente diante sua presença  com uma atenção vigilante àquele que nos convida a um diálogo sem cesuras. Não é oferecer a Deus alguns pensamentos mas entregar-lhe todos os pensamentos, tudo o que somos e experimentamos.  A oração é uma conversão  de atitude, porque a verdadeira oração cristã de centra-nos de nós mesmos  –  das nossas preocupações e afanos,  de nossos desejos egóticos e pouco purificados.  – e orienta-nos para Deus, de modo que tudo o que passamos a desejar é a vontade de Deus, o dom de seu olhar, que, como dizia  Santo Agostinho,  “      é mais íntimo a nós do que nós mesmos”.

José  Tolentino Mendonça
O tesouro escondido,  Paulinas,  p. 72


Oração

Tu nos dás teu amor,
ensina-nos a amar-te com todo o coração.
Teu amor é fonte de vida,
ensina-nos a amar-te com toda a alma.
Teu amor é fonte de luz,
ensina-nos a amar-te com toda a mente.
Teu amor é nossa fortaleza,
ensina-nos a amar com todas as forças.


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.


Não desanimar

José Antonio Pagola

Uma das experiências mais desalentadoras para o crente é comprovar, sempre de novo, que Deus não ouve nossas súplicas. Deus não parece comover-se com nosso sofrimento. Não é de estranhar que esta sensação de indiferença e abandono por parte de Deus leve mais de um ao desengano, à irritação ou à incredulidade.

Oramos a Deus e Ele não nos respondeu. Clamamos a Ele e Ele permaneceu mudo. Rezamos e não nos serviu para nada. Ninguém veio secar nossas lágrimas e aliviar nossa dor. Como iremos crer que Ele é o Deus da justiça e o Pai das misericórdias? Como iremos crer que Ele existe e cuida de nós?

Desde o começo do mundo há sofrimentos que aguardam uma resposta. Por que morrem milhões de crianças sem conhecer a alegria? Por que ficam desatendidos os gritos dos inocentes mortos injustamente? Por que não acorre ninguém em defesa de tantas mulheres humilhadas? Por que há no mundo tanta estupidez, brutalidade e indignidade?

Naturalmente é Deus o acusado. E Deus cala. Cala por séculos e milênios. Podem continuar as acusações e os protestos. Deus não abandona seu silêncio. Dele só nos chegam as palavras de Jesus: “Não temas. Apenas tem fé”. Estas palavras são muitas vezes o único apoio do crente e podem produzir nele uma confiança última em Deus, embora quase não vejamos vestígios de sua sabedoria, de sua justiça ou de sua bondade no mundo

Já entendi alguma vez quem é Deus e quem somos nós? Como pretendo julgar a Deus, se não posso abarcá-Lo nem compreendê-Lo? Como quero ter a última palavra, se não sei onde termina a vida nem conheço a salvação última de Deus? O que significam, definitivamente, estes sofrimentos dos quais peço a Deus que me livre? Onde está o verdadeiro mal e onde a verdadeira vida?

Jesus morreu experimentando o abandono de Deus, mas confiando sua vida ao Pai. Nunca devemos esquecer seus dois gritos: “Meu Deus, por que me abandonaste?” e “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”. Nesta atitude de Jesus está recolhido o núcleo da súplica cristã: a angústia de quem busca proteção e a fé indestrutível de quem confia na salvação última de Deus. A partir desta mesma atitude ora o seguidor de Jesus: “sem desanimar”.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.


A Sagrada Escritura

Pe. Johan Konings

Antigamente os protestantes se distinguiam dos católicos porque “liam a Bíblia”, como se dizia. De uns tempos para cá, isso mudou. A Bíblia faz parte também do lar católico e, espera-se, não só para ficar exposta sobre um belo suporte de madeira entalhada… O Concílio Vaticano II nos exorta a ler a Sagrada Escritura, usando as mesmas palavras de Paulo na 2ª Leitura de hoje: a Escritura “comunica a sabedoria que conduz à salvação”, “é inspirada por Deus e pode servir para denunciar, corrigir, orientar”.

Ora, essa recomendação de Paulo e do Concílio deve ser interpretada como convém. Não significa que cada palavrinha isolada da Sagrada Escritura seja um dogma. A Escritura é um conjunto de diversos livros e textos que devem ser interpretados à luz daquilo que é mais central e decisivo, a saber, exemplo de vida e o ensinamento de Jesus.

O centro e o ponto de referência de toda a Sagrada Escritura são os quatro evangelhos. Em segundo lugar vêm os outros escritos do Novo Testamento (as Cartas e os Atos dos Apóstolos), que nos mostram a fé e a vida que os discípulos de Jesus quiseram transmitir. A partir daí podemos compreender como a Bíblia toda deve ser interpretada, para ser “sabedoria que conduz à salvação”, tanto o Novo Testamento como o Antigo (ou Primeiro), que nos mostra o caminho de vida que Jesus, como verdadeiro “filho de Israel”, levou à perfeição.

A recomendação de Paulo significa que a nossa fé deve ser entendida à Luz das Escrituras. Jesus usou as palavras do Antigo Testamento para rezar e para anunciar a boa-nova do Reino. Sem conhecer o Antigo Testamento, não entendemos a mensagem de Jesus conservada no Novo. Jesus é a chave de leitura da Bíblia. Isso é muito importante para não fazermos de qualquer frase do Antigo Testamento um dogma definitivo! A lei do sábado, por exemplo, deve ser interpretada como esse profundo senso da humanidade que tem Jesus. As ideias de vingança, no Antigo Testamento, à luz de Jesus aparecem como atitudes provisórias e a serem superadas. Todos os trechos da Bíblia, por exemplo, as parábolas de Jesus, devem ser entendidos dentro do seu contexto e conforme seu gênero e intenção. Não devem ser tomados cegamente ao pé da letra. Muitas vezes apresentam imagens que querem exemplificar um só aspecto, mas não devem ser imitados em tudo (cf. o administrador esperto, no 25º dom. T.C).

Também importa ler a Sagrada Escritura no horizonte do momento presente, interpretá-la à luz daquilo que estamos vivendo hoje. Sem explicação e interpretação, a Bíblia é como faca em mão de crianças, ou como remédio vendido sem a bula: pode até matar! Ora, a interpretação se deve relacionar com a vida do povo. Por isso, o próprio povo deve ser o sujeito desta interpretação, mediante círculos bíblicos e outros meios adequados.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

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