Destaque, Notícias › 20/10/2017

29º Domingo do Tempo Comum

O compromisso de livrar Jesus das armadilhas

Frei Gustavo Medella

“Os fariseus fizeram um plano para apanhar Jesus em alguma palavra” (Mt 22,15). A ideia era utilizar, em benefício próprio, a partir de uma pergunta ambígua baseada em questão polêmica, as palavras que Jesus pronunciasse. Ninguém ali estava interessado em aprender algo novo, em ampliar o horizonte da reflexão, em dialogar. A proposta era a “instrumentalização” da Palavra de Deus, a “domesticação” do Evangelho.

A justa aplicação dos tributos, a promoção do bem comum, a prática da solidariedade e a postura profética de se exigir justiça e honestidade não eram temas que interessassem aos fariseus. Em sua prática religiosa, que favorecia a alienação e a desumanidade, eles estavam “muito bem, obrigado”.  E aquele “Zé Ninguém” de Nazaré começava a atrapalhar o seu sossego.

Interessante notar o quanto ainda se faz presente em nosso tempo esta prática viciosa. Em nome da fidelidade a Cristo e à sua Palavra são apresentadas agendas de discussão incapazes de traduzir para os dias de hoje as interpelações centrais de Jesus. E o que é pior, para além de reivindicações estéreis e periféricas, com frequência, grupos de interesse enchem a boca para evocar a Escritura em defesa de posicionamentos frontalmente contrários à prática do Evangelho, como o preconceito, a exclusão, o desrespeito à liberdade, o incentivo à violência, a prática litúrgica desconectada da vida.

Só para exemplificar os efeitos funestos deste divórcio entre o que Jesus viveu e ensinou é aquilo que se pode viver ensinar em nome dele, pensemos no parlamento brasileiro. São diversos os desmandos e descalabros legitimados numa casa de leis que se desconectou, quase que em sua totalidade, dos reais anseios da população. E o pior, tudo isso “abençoado” por uma “bancada evangélica”, que de Evangelho não entende nada, e se faz “parceira” de poderosas aliadas como a “bancada da bala”, a “bancada ruralista” e a “bancada do golpe”. Mistura perigosa. Já passou da hora de darmos a “César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, de tirarmos Jesus das armadilhas que desejam armar para Ele.

CONFIRA A REFLEXÃO EM VÍDEO:


O povo pertence a Deus

Primeira leitura: Is 45, 1.4-6
Sl 95
Segunda leitura: 1Ts 1,1-5b
Evangelho: Mt 22,15-21

-* 15 Então os fariseus se retiraram, e fizeram um plano para apanhar Jesus em alguma palavra. 16 Mandaram os seus discípulos, junto com alguns partidários de Herodes, para dizerem a Jesus: «Mestre, sabemos que tu és verdadeiro, e que ensinas de fato o caminho de Deus. Tu não dás preferência a ninguém, porque não levas em conta as aparências. 17 Dize-nos, então, o que pensas: É lícito ou não é pagar imposto a César?» 18 Jesus percebeu a maldade deles, e disse: «Hipócritas! Por que vocês me tentam? 19 Mostrem-me a moeda do imposto.» Levaram então a ele a moeda. 20 E Jesus perguntou: «De quem é a figura e inscrição nesta moeda?» 21 Eles responderam: «É de César». Então Jesus disse: «Pois deem a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.»


* 15-22: Cf. nota em Mc 12,13-17. O novo povo de Deus pertence unicamente a Deus, e só Deus pode exigir do homem adoração. [* 13-17: O imposto era o sinal da dominação romana; os fariseus a rejeitavam, mas os partidários de Herodes a aceitavam. Se Jesus responde «sim», os fariseus o desacreditarão diante do povo; se ele diz «não», os partidários de Herodes poderão acusá-lo de subversão. Mas Jesus não discute a questão do imposto. Ele se preocupa é com o povo: a moeda é «de César», mas o povo é «de Deus». O imposto só é justo quando reverte em benefício do bem comum. Jesus condena a transformação do povo em mercadoria que enriquece e fortalece tanto a dominação interna como a estrangeira.]

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


29º Domingo do Tempo Comum, ano A

 Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, dai-nos a graça de estar sempre ao vosso dispor, e vos servir de todo o coração”.

  1. Primeira leitura: Is 45,1.3-6 

Tomei Ciro pela mão direita,

para que submeta os povos ao seu domínio.

Os babilônios tinham levado os judeus para o exílio. Para o povo de Deus tratava-se de uma punição divina por causa dos pecados e infidelidades. Terminado o domínio babilônico, surgiu um novo império, o dos persas. Ciro, o novo rei dos persas, é saudado pelo profeta como o ungido do Senhor, como os reis de Israel. É alguém especialmente escolhido por Javé, apesar de ser pagão, foi chamado para agir em seu nome e permitir o retorno do povo de Deus para a Terra Prometida. A missão de Ciro é submeter os povos a seu domínio, dobrar o orgulho dos reis e abrir um caminho não só para os persas, mas para o Senhor, o Deus de Israel (Is 40,3-5). Os babilônios foram um instrumento de punição nas mãos de Deus para punir o povo infiel; agora, é Ciro o instrumento nas mãos de Deus usa para cumprir os seus planos. Para o profeta, o Deus de Israel é o único e verdadeiro Deus que conduz a história política universal: “Eu sou o Senhor, e fora de mim não existe outro”. –Você acredita que Deus conduz a história conturbada do povo brasileiro, e do mundo inteiro, para o bem e a salvação de todas as pessoas de boa vontade? Confia nele? A sabedoria do povo contém e a fé e a esperança em Deus que está conosco: “Eu dirijo, mas é Deus que me guia!”

Salmo responsorial: Sl 95 (96)

Ó família das nações, dai ao Senhor poder e glória!

  1. Segunda leitura: 1Ts 1,1-5b

Recordamo-nos sem cessar da vossa fé,
da caridade e da esperança.

A leitura que ouvimos é o início da mais antiga carta de Paulo (pelo ano 51 dC), escrita à comunidade de Tessalônica. De fato, Paulo não permaneceu em Tessalônica mais do que três meses. Como de costume, Paulo ao chegar numa cidade, primeiro procurava a sinagoga judaica local. Ali durante três sábados anunciou Jesus de Nazaré, crucificado e ressuscitado ao terceiro dia, como o Messias esperado pelos judeus (At 17,1-15). Vendo que Paulo fazia muitos adeptos, alguns judeus provocaram um tumulto e Paulo teve que sair às pressas da cidade. Por isso comunicou-se logo com a nova comunidade por meio de cartas. Na saudação percebemos que Paulo trabalhava na evangelização em equipe, com Silvano e Timóteo. Lembra as virtudes cardeais que animam a comunidade: fé, caridade e esperança, que os unem a Cristo. Os tessalonicenses, em parte de origem pagã, são os escolhidos em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo. Reconhece que mais do que pelas suas palavras a comunidade cresce pela ação do Espírito Santo. Paulo e seus companheiros são instrumentos da ação da graça divina. Eles anunciam o Evangelho por palavras, mas quem forma e reúne a comunidade é a força do Espírito Santo.

Aclamação ao Evangelho

Como astros no mundo vós resplandeceis,
mensagem de vida ao mundo anunciando,
da vida a Palavra, com fé, proclameis,
quais astros luzentes no mundo brilheis.

  1. Evangelho: Mt 22,15.21

Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

A pergunta feita a Jesus pelos discípulos dos fariseus, na presença dos herodianos, era uma armadilha de caráter político. Para captar a simpatia de Jesus eles fazem um elogio: Jesus é verdadeiro, ensina o caminho de Deus e não julga pelas aparências: “É lícito ou não pagar imposto a César?” Se Jesus respondesse “sim”, estaria do lado dos herodianos, que apoiavam os romanos. Neste caso, perderia a simpatia do povo que não gostava de pagar imposto aos dominadores pagãos. Mas, se respondesse “não”, poderia ser acusado de subversivo. Foi esta a acusação feita contra Jesus diante de Pilatos: “Encontramos este homem subvertendo a nação. Proíbe pagar impostos a César…” (Lc 23,2). Ao fazer seus adversários ver a imagem e a inscrição na moeda, Jesus os obriga a reconhecer que César era quem mandava no país. Uma vez que aceitavam usar sua moeda, deveriam também aceitar as regras do jogo político: “Dai a César o que é de César…” Mas, ao acrescentar “Dai a Deus o que é de Deus”, Jesus está sugerindo que, todos, fomos criados à imagem e semelhança de Deus. A Ele devemos o tributo do louvor e da adoração. Pelos gestos e pela mensagem de Jesus seus adversários deviam reconhecer a presença de Deus e vinda de seu Reino, que Jesus anunciava. No contexto de uma pergunta de caráter político Jesus dá uma resposta que abrange a vida política e religiosa, que serve de orientação para nossa vida cristã.

Jesus nos ensina a sermos coerentes nas coisas políticas, pagando também os devidos impostos. Mas não podemos esquecer as exigências de Deus. Deus não cobra de nós impostos. Pede, sim, o nosso coração: “Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração e a teu próximo como a ti mesmo”. Jesus nos propõe a partilha com os pobres. Isso não significa que “o padre deve ficar na sacristia”, nem que o leigo cristão fique escondido na igreja. Por isso: “Dai a Deus o que é de Deus”, e “Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça”.

Frei Ludovico Garmus, ofm


A vida só é para Deus

José Antonio Pagola

A exegese moderna não dá lugar a dúvidas. O principal para Jesus é a vida, não a religião. Basta analisar a trajetória de sua atividade. Sempre o vemos preocupado por suscitar e desenvolver, no meio daquela sociedade, uma vida mais sadia e mais digna.

Pensemos em sua atuação no mundo dos enfermos: Jesus se aproxima dos que vivem sua vida de maneira diminuída, ameaçada ou insegura, para despertar neles uma vida mais plena. Pensemos em sua aproximação aos pecadores: Jesus lhes oferece o perdão que os faça viver uma vida mais digna, resgatada da humilhação e do desprezo. Pensemos também nos endemoninhados, incapazes de ser donos de sua vida: Jesus os liberta de uma vida alienada e desconcertada pelo mal.

Como foi sublinhado por Jon Sobrino, pobres são aqueles para os quais a vida é uma carga pesada, pois não podem viver com um mínimo de dignidade. Esta pobreza é o que há de mais contrário ao plano original do Criador da vida. Onde um ser humano não pode viver com dignidade, ali a criação de Deus aparece como viciada e anulada.

Por isso, Jesus se preocupa tanto com a vida concreta dos camponeses da Galileia. O que aquela gente precisa em primeiro lugar é viver, e viver com dignidade. Não é a meta final, mas é, neste momento, o mais urgente. Jesus os convida a confiar na salvação última do Pai, mas o faz salvando as pessoas da enfermidade e aliviando males e sofrimentos. Anuncia-lhes a felicidade definitiva no seio de Deus, mas o faz introduzindo dignidade, paz e felicidade neste mundo.

Às vezes, nós, cristãos, expomos a fé com uma tal confusão de conceitos e palavras que, na hora da verdade, poucos entendem o que é exatamente o Reino de Deus de que fala Jesus. Mas as coisas não são tão complicadas. O que Deus quer é unicamente isto: uma vida mais humana para todos e, desde agora, uma vida que chegue à sua plenitude na vida eterna. Por isso nunca se deve dar a nenhum César o que é de Deus: a vida e a dignidade de seus filhos.

Trecho do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes.


O Reino de Deus e a Política

Pe. Johan Konings

“Devolvei a César o que é de César, e a Deus, o que é de Deus”. Esta frase do evangelho (Mt 22,15-21) será uma declaração política? De fato, tem peso político, mas talvez de outro modo do que se pensa. Qual é o fato? Os judeus pagavam dízimo ao templo, com prazer, pois era “para Deus”. Mas além disso, a potência estrangeira que ocupava o país, o Império Romano, cobrava dos judeus um imposto pessoal, em troca de um estatuto protegido no seio do Império. Em vista disso, os especialistas da Lei judaica perguntam a opinião de Jesus, querendo obrigá-lo a escolher entre os judeus e César, o imperador romano. Pensavam que sua pergunta fosse “queimar” Jesus de um ou de outro lado. Jesus deu a resposta que conhecemos. É como se dissesse: “Se vocês negociam com César em troca desse imposto, paguem-no, já que vocês aceitam o estatuto especial que ele lhes dá em compensação. Mas não esqueçam que também a Deus estão devendo, e não pouca coisa, já que lhes deu tudo!”

Deus não recusa a mediação política para o seu projeto. Serve-se até de um rei estrangeiro para libertar Israel do exílio, e ainda o chama de “meu ungido” (o rei persa, Ciro, na 1ª leitura, Is 45, 1.4-6). Mas esse rei é um “servo” de Deus: ele tem quem está acima dele. Deus confia aos seres humanos as responsabilidades humanas. As questões políticas devem ser tratadas em nível político, isto é, com vistas ao “bem comum” do povo. Um governo é bom se governa, o melhor que pode, para todos. Então, ele é bom para Deus também. Senão, que o povo se livre desse governo… Mas existe também o nível de Deus, que é o “fim último”, o nível da vocação humana a ser filho de Deus e a realizar semelhança com Deus (cf. Gn 1,26). A política, aos olhos dos fiéis, sempre será uma mediação para chegar a esse projeto de Deus, embora ela tenha suas regras específicas. Sem Deus, um governante poderia proclamar que o “bem comum” está sendo atendido quando os “inadaptados” são eliminados da sociedade. Quem , porém, quer “dar a Deus o que é de Deus” nunca poderá dizer isso.

“A Igreja não deve fazer política!”. Se essa frase significa que a hierarquia da Igreja não deve se colocar no lugar da administração civil, está certa. Mas não pode significar que os cristãos não devem, como qualquer cidadão, assumir sua responsabilidade política. Cristo ensinou a realizar a fraternidade humana. Ora, esta se encarna num projeto político, numa determinada maneira de entender o bem comum. Por isso, os cristãos, como cidadãos inspirados por Cristo, mexem com reforma agrária, levam os politicamente marginalizados a se organizarem, propõem alternativas para a política econômica etc. Tudo isso é retribuir a Deus o que é de Deus, a saber, os dons que Deus deu a todos… mesmo quando para isso é preciso tirar de César o que não é dele.

Enquanto, pois, se exerce a responsabilidade civil, deve-se pensar em dar a Deus o tributo devido, que é: reconhecê-lo como aquele que indica a norma última, o amor a Deus e ao próximo (ensinado por Jesus logo depois, em Mt 23,34-40).

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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