Destaque, Notícias › 20/04/2017

2º DOMINGO DA PÁSCOA

A coragem de colocar-se em comum

Frei Gustavo Medella

Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e colocavam tudo em comum (At 2,44). Do versículo proclamado na 1ª Leitura deste 2º Domingo da Páscoa, destacaria a palavra “tudo”. Certamente nela se fundamenta o vigor da Comunidade Primitiva. Os que aderiam a Cristo entendiam definitivamente que tal escolha os levaria a uma doação plena e total pela causa do Reino. Doação, inclusive, de si mesmos.

Doar-se por inteiro ao projeto de Deus exige coragem e determinação. É uma escolha fundamental que deve estar na base de todas as outras escolhas. Fechado no mundo do próprio medo, sufocado pelas próprias necessidades e angústias, tentando resolver tudo sozinho, dificilmente alguém conseguirá alcançar esta proposta de entrega total. É preciso sentir-se amparado pela Graça de Deus e pela comunidade para que se possa dar passos nesta direção.

Mesmo que pareça contraditório, justamente quando há relutância a esta entrega total é que aparecem as frustrações. Seja no casamento, na vida religiosa ou até mesmo na vida profissional, deixar-se impregnar por desconfianças e reservas quase sempre leva a um grande descontentamento, seja consigo mesmo ou com os outros.

No Evangelho, Tomé teve a oportunidade de descobrir em tempo que confiar demais em si mesmo em detrimento da fé em Deus e na comunidade seria um caminho que o levaria a muitos enganos. Sendo assim, neste 2º Domingo da Páscoa mais uma vez Jesus convida seus seguidores a uma entrega generosa e total a serviço da paz, da justiça, da esperança, da vida, do Reino.

Jesus ressuscitado está vivo na comunidade

1ª Leitura: At 2,42-47
Sl: 117
2ª Leitura: 1Pd 1,3-9
Evangelho: Jo 20,19-31

-* 19 Era o primeiro dia da semana. Ao anoitecer desse dia, estando fechadas as portas do lugar onde se achavam os discípulos por medo das autoridades dos judeus, Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: «A paz esteja com vocês.» 20 Dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos ficaram contentes por ver o Senhor.

21 Jesus disse de novo para eles: «A paz esteja com vocês. Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês.» 22 Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles, dizendo: «Recebam o Espírito Santo. 23 Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados.»

A comunidade é testemunha de Jesus ressuscitado -* 24 Tomé, chamado Gêmeo, que era um dos Doze, não estava com eles quando Jesus veio. 25 Os outros discípulos disseram para ele: «Nós vimos o Senhor.» Tomé disse: «Se eu não vir a marca dos pregos nas mãos de Jesus, se eu não colocar o meu dedo na marca dos pregos, e se eu não colocar a minha mão no lado dele, eu não acreditarei.»

26 Uma semana depois, os discípulos estavam reunidos de novo. Dessa vez, Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: «A paz esteja com vocês.» 27 Depois disse a Tomé: «Estenda aqui o seu dedo e veja as minhas mãos. Estenda a sua mão e toque o meu lado. Não seja incrédulo, mas tenha fé.» 28 Tomé respondeu a Jesus: «Meu Senhor e meu Deus!» 29 Jesus disse: «Você acreditou porque viu? Felizes os que acreditaram sem ter visto.»

Para que João escreveu este evangelho? -* 30 Jesus realizou diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. 31 Estes sinais foram escritos para que vocês acreditem que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, vocês tenham a vida em seu nome.


* 19-23: O medo impede o anúncio e o testemunho. Jesus liberta do medo, mostrando que o amor doado até à morte é sinal de vitória e alegria. Depois, convoca seus seguidores para a missão no meio do mundo, infunde neles o Espírito da vida nova e mostra-lhes o objetivo da missão: continuar a atividade dele, provocando o julgamento. De fato, a aceitação ou recusa do amor de Deus, trazido por Jesus, é o critério de discernimento que leva o homem a tomar consciência da sentença que cada um atrai para si próprio: sentença de libertação ou de condenação.* 24-29: Tomé simboliza aqueles que não acreditam no testemunho da comunidade e exigem uma experiência particular para acreditar. Jesus, porém, se revela a Tomé dentro da comunidade. Todas as gerações do futuro acreditarão em Jesus vivo e ressuscitado através do testemunho da comunidade cristã.
* 30-31: O autor conclui o relato da vida de Jesus, chamando a atenção para o conteúdo e a finalidade do seu evangelho, que contém apenas alguns dos muitos sinais realizados por Jesus. E estes aqui foram narrados para despertar o compromisso da fé que leva a experimentar a vida trazida por Jesus.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

2º Domingo depois da Páscoa

Frei Ludovico Garmus

Oração: “Ó Deus de eterna misericórdia, que reacendeis a fé do vosso povo na renovação da festa pascal, aumentai a graça que nos destes. E fazei que compreendamos melhor o batismo que nos lavou, e o sangue que nos redimiu”.

1. Primeira leitura: At 2,42-47

Todos os que abraçavam a fé viviam unidos
e colocavam tudo em comum.

Lucas dá uma imagem idealizada da comunidade cristã de Jerusalém (At 2,42-47), imagem que se completa em At 4,32-36 e 5,12-16. Lucas apresenta esta imagem como uma resposta viva à pregação de Pedro após a vinda do Espírito Santo (At 2,1-41). A primeira comunidade surge sob o impacto do Espírito Santo, derramado pelo Ressuscitado. O segredo desta comunidade está resumido no v. 42: “Eles frequentavam com perseverança a doutrina dos apóstolos, as reuniões em comum, o partir do pão e as orações”. Os elementos constitutivos da comunidade são: o anúncio da Palavra que propõe e salvação, e tem como resposta o serviço (diaconia), a comunhão (partilha, koinonia) e o louvor de Deus. A partilha de bens na comunidade é um reflexo da ordem de Jesus na última ceia: “Fazei isto em memória de mim”. Celebrar a Eucaristia não é apenas fazer a memória da última ceia, da paixão, morte e ressurreição do Senhor. É também fazer a memória da vida de Jesus, marcada pela divisão do pão (duas “multiplicações”); é a memória do Cristo ressuscitado que se deu a conhecer aos discípulos de Emaús ao partilhar com eles o pão.

Salmo responsorial: Sl 117

Dai graças ao Senhor, porque ele é bom;
eterna é a sua misericórdia.

2. Segunda leitura: 1Pd 1,3-9

Pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos,
Ele nos fez nascer de novo para uma esperança viva.

Esta carta quer confortar os cristãos da segunda geração, de origem pagã, ameaçados pela perseguição. O texto começa com um hino batismal, no qual se louva a Deus Pai pela obra da salvação. A misericórdia de Deus se manifesta pela fé no Cristo Ressuscitado. Pelo batismo Cristo nos faz nascer de novo para “uma esperança viva” na salvação que está reservada nos céus para nós, quando Ele manifestar a sua glória de Ressuscitado nos “últimos tempos”. A fé e a esperança se tornam vivas e verdadeiras quando passam pelo fogo das provações e nos preparam para participar na manifestação gloriosa de Jesus Cristo. Com tais palavras a carta visa confirmar a fé e o amor dos cristãos (como nós) que não conheceram Jesus de Nazaré: “Sem o terdes visto, vós o amais. Sem o verdes agora, acreditais nele”. Para os cristãos da Carta de Pedro, e também a nós, se dirigem as palavras que Jesus diz a Tomé incrédulo: “Acreditaste, porque me viste? Felizes os creram sem terem visto” (Evangelho).

Aclamação ao Evangelho

Aleluia, Aleluia, Aleluia.
Acreditaste, Tomé, porque me viste.
Felizes os que creram sem ter visto!

3. Evangelho: Jo 20,19-31

Oito dias depois, Jesus entrou.

Os evangelhos lidos nos domingos após a Páscoa apresentam as narrativas das aparições de Jesus ressuscitado. No evangelho de hoje João nos conta duas aparições: uma na tarde do primeiro dia da semana e outra, oito dias depois. Na primeira, Jesus se manifesta “discípulos” reunidos no cenáculo. Acontece após a visita de Maria Madalena ao túmulo, da corrida de Pedro e João ao túmulo vazio e da aparição de Jesus a Maria Madalena. No final da primeira aparição é conferido o dom do Espírito (v. 21-23); mas o Espírito é conferido para a missão: “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio” (v. 21). Tomé, que não estava presente na primeira “reunião”, não acredita no testemunho dos apóstolos (v. 24-25). A segunda aparição acontece aos onze apóstolos, e entre eles estava Tomé. O incrédulo Tomé é repreendido: “Põe aqui o dedo e olha minhas mãos, estende a mão e põe no meu lado, e não sejas incrédulo, mas homem de fé”. Tomé devia tocar o lado traspassado de Jesus, deixar-se tocar pelo amor total daquele que deu sua vida por nós. A incredulidade de Tomé traz uma lição para todos nós: “Porque me viste, acreditaste. Felizes os que não viram e creram”.

O evangelho está relacionado com a 1ª leitura pelo tema da “reunião”, o lugar onde se vive, celebra-se e se cultiva a fé comum no Cristo Ressuscitado. Está também relacionado com a 2ª leitura: “Sem o terdes visto, vós o amais. Sem o ver ainda, nele acreditais. Isto será para vós fonte de alegria inefável e gloriosa” (1Pd 1,8). – A fé em Cristo ressuscitado se reaviva quando nos reunimos no Dia do Senhor (Domingo) para participar da oração em comum, nos alimentamos da mesa da Palavra e da mesa da Eucaristia.

Bendito Tomé

Frei Almir Guimarães

Hoje estamos sendo convidados a ir ao encontro  dos apóstolos que estão reunidos em Jerusalém, no Cenáculo. O evangelho fala de uma tarde, no primeiro dia da semana e de outra tarde, oito dias depois. Esses dias serão marcados por manifestações do Senhor Ressuscitado. Podemos bem imaginar que esses pescadores, apesar de tantos sinais de Jesus, estivessem amedrontados. Afinal, seu Mestre tinha morrido! Ei-lo agora passando pelas portas fechadas, isto é, sendo ele e ao mesmo tempo sendo diferente. Os apóstolos se dão conta  que ele está vivo. Há  alegria no ar. O Ressuscitado sopra sobre eles e lhes dá a paz. A paz, a verdadeira paz, nasce do perdão dos pecados. O sopro é do Espírito.

Jesus não precisa forçar as portas. Ele está presente lá onde quer se fazer presente. Está no meio dos seus.

Nesse contexto é que se insere o episódio de Tomé. Ele queria ver para crer, tocar as chagas.  Tomé acontece em nossas vidas  quando aceitamos a palavra dos  discípulos.  Eles haviam afirmado que tinham visto o Senhor.  Quer dizer, visto uma manifestação expressamente desejada pelo  Ressuscitado.   Somos  Tomé, depois da dúvida, quando resolvemos  acreditar na palavra dos discípulos ou apóstolos, de ontem e de hoje, quando fazemos nosso o mais belo de todos o gritos de fé:  “Meu  Senhor e meu  Deus”.

O que se guarda da visita de Jesus ao Cenáculo na noite da ressurreição e oito dias depois? A paz, a fé, a vida, em outras palavras, a felicidade.

Tomás Halík, eclesiástico tcheco, escreveu um livro com o sugestivo título  de “Toque as feridas”. O autor “revira” o texto de  Tomé de cabeça para baixo. A leitura da página que agora transcrevemos poderá servir de meditação  a respeito do episódio em exame:

“Tomé foi um homem disposto a seguir o seu Mestre até o amargo fim. Lembremo-nos de sua reação às palavras de Jesus quando chegou a hora de ir até Lázaro: “Vamos nós também para morrermos com ele”. Ele levou a cruz a sério – e talvez a notícia da Ressurreição tenha lhe parecido um final feliz  fácil demais para  a Paixão de Cristo. Talvez tenha sido este o motivo pelo qual ele se recusou a compartilhar  a alegria  dos outros apóstolos e, por isso, tenha exigido ver as feridas de Jesus. Ele queria ver se a Ressurreição não  esvaziava a cruz. Tão somente então ele poderia dizer o seu  Eu creio.  Talvez  o “Tomé incrédulo”  tenha compreendido  o sentido da Páscoa  de forma mais profunda que os outros.

A incredulidade de Tomé foi mais útil à nossa fé do que a fé dos discípulos crentes, escreveu  o Papa  Gregório Magno  em sua homilia  sobre este texto do Evangelho.

Jesus se aproxima de Tomé e lhe mostra suas feridas. “Veja, o sofrimento  – não importa qual  – não foi simplesmente apagado e esquecido!”  As feridas permanecem.  Mas aquele que “suportou as doenças de todos nós”,  atravessou também  a porta do inferno e da morte, e ele continua   (incompreensivelmente)  aqui entre nós.  Com isso, ele nos mostrou: “O amor tudo suporta”,  “águas torrenciais  não conseguirão apagar o amor, nem os rios  poderão afoga-lo”, “porque o amor é forte como a morte”, até mais forte do que ela.  À luz desse evento, o amor se apresenta como  valor que não podemos relegar  ao domínio do sentimentalismo: o amor uma força  –  a única força capaz de sobreviver á morte e de abrir as portas com suas mãos traspassadas.

A ressurreição não é, portanto, um “final feliz”, mas um convite e um incentivo. Não podemos, nem devemos capitular  diante do fogo do sofrimento, mesmo quando não o consigamos  apagar agora. Quando confrontados com o mal, não podemos ceder-lhe  a última palavra. Não devemos ter medo de “acreditar no amor”, nem mesmo quando, segundo todo os critérios do mundo, ele estiver perdendo. Tenhamos a coragem de responder a “sabedoria do mundo”  com a loucura da cruz.

Talvez  Jesus – ao ressuscitar a fé de Tomé   pelo toque das feridas – quis lhe dizer a mesma coisa que  me revelou a mim no orfanato   em Madras:  lá, onde você toca o sofrimento humano  –  e talvez apenas lá – você reconhece que  Eu estou vivo, que  “Eu sou”. Você me encontra em todos os lugares em que as pessoas sofrem. Não esquiva-se de mim em nenhum desses encontros. Não tenha medo!  Não seja incrédulo. Creia!” (p.18-19).

Não sejas incrédulo, mas crente

José Antonio Pagola

A figura de Tomé, como discípulo que resiste a crer, foi muito popular entre os cristãos. No entanto, o relato evangélico diz muito mais deste discípulo cético. Jesus ressuscitado se dirige a Ele com palavras que têm muito de coação, mas também de convite amoroso: “Não sejas incrédulo, mas crente”. Tomé, que leva uma semana resistindo a crer, responde a Jesus com a confissão de fé mais solene que podemos ler nos evangelhos: “Meu Senhor e meu Deus”.

O que teria experimentado Tomé ao encontrar-se com Jesus ressuscitado? O que transformou este discípulo, até então duvidoso e vacilante? Que percurso interior o levou do ceticismo à confiança? O surpreendente é que, segundo o relato, Tomé até renuncia a verificar a verdade da ressurreição tocando as feridas de Jesus. O que o abre à fé é o próprio Jesus com seu convite.

Ao longo desses anos, mudamos muito por dentro. Tornamo-nos mais céticos, mas também mais frágeis. Ficamos mais críticos, mas também mais inseguros. Cabe a cada um de nós decidir como quer viver e como quer morrer. Cada um tem que responder a esse convite que, cedo ou tarde, de forma inesperada ou como fruto de um processo interior, pode chegar-nos de Jesus: “Não sejas incrédulo, mas crente”.

Talvez tenhamos que despertar mais nosso desejo de verdade. Desenvolver essa sensibilidade interior que todos temos para perceber, além do visível e do tangível, a presença do Mistério que sustenta nossa vida. Não mais é possível viver como pessoas que sabem tudo. Não é verdade. Todos – crentes ou não, ateus e agnósticos – caminhamos pela vida envoltos em trevas. Como diz Paulo de Tarso, “buscamos Deus “às apalpadelas”.

Por que não defrontar-nos com o mistério da vida e da morte confiando no amor como última Realidade de tudo? Este é o convite decisivo de Jesus. Mais de um crente sente hoje que sua fé se converteu em algo cada vez mais irreal e menos fundamentado. Talvez agora, quando não podemos mais apoiar nossa fé em falsas seguranças, aprendamos a buscar a Deus com um coração mais humilde e sincero.

Não devemos esquecer que uma pessoa que deseja sinceramente crer, para Deus já é crente. Muitas vezes não é possível fazer muito mais. E Deus, que compreende nossa impotência e debilidade, tem seus caminhos para encontrar-se com cada um de nós para oferecer-nos sua salvação.

Trecho do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes

Nossa fé “apostólica”

Pe. Johan Konings

Todo mundo gosta de ter provas palpáveis para acreditar. Mas, para que ainda acreditar, quando se tem provas palpáveis? E que certeza dão as pretensas provas? Nossa fé não vem de provas imediatas, mas da fé das “testemunhas designadas por Deus”(At 10,41), principalmente os apóstolos. Acreditamos naquilo em que eles acreditaram. Os apóstolos foram as testemunhas da ressurreição de Jesus. Eles puderam ver o Ressuscitado e por isso acreditaram. Caso típico é Tomé (evangelho). Ele foi até convidado por Jesus a tocar nas chagas das mãos e do lado. O evangelho não confirma que ele tocou mesmo, mas sim, que ele creu: “Meu Senhor e meu Deus”.

Nós não temos este privilégio. Nós seremos felizes se crermos sem ter visto, como diz o fim dessa história (Jô 20,29)! Mas, para que isso fosse possível, os apóstolos nos deixaram os evangelhos, testemunho escrito do que eles viram e da fé no Cristo e Filho de Deus que abraçaram (Jô 20,30-31).

O Cristo descrito nos evangelhos é visto com os olhos da fé dos apóstolos. Um incrédulo o veria bem diferente. Nós cremos em Jesus assim como os apóstolos o viram. A participação na fé dos apóstolos nos dá a possibilidade de “amar Cristo sem tê-lo visto” e de “acreditar nele (como Senhor e fonte de nossa glória futura), embora ainda não o vejamos “ (2ª leitura).

Acreditamos também na comunidade que, nessa fé, os apóstolos fundaram. A 1ª leitura descreve-a como comunidade de oração e de vida, recordando Jesus na “fração do pão” e praticando a comunhão de bens, repartindo tudo entre si. Pois para ser fiel a Cristo não basta orar e celebrar; é preciso fazer o que ele fez: repartir a vida com os irmãos.

Nós acreditamos na fé dos apóstolos e da Igreja que eles nos deixaram. Então, nossa fé não é coisa privada. É apostólica e eclesial. Damos crédito à Igreja dos apóstolos. Os primeiros cristãos faziam isso até materialmente: entregavam os seus bens para que ela os transformasse em instrumentos do amor do Cristo. Crer não é somente aceitar verdades. É agir segundo a verdade do ser discípulo e seguidor do Cristo.

É inútil querer verificar e provar nossa fé sem passar pelos apóstolos e pela corrente de transmissão que eles instituíram, a Igreja. É impossível verificar por evidências encontradas ou forjadas fora do ambiente dos evangelhos a ressurreição de Cristo. Ora, o importante não é “verificar” ao modo de Tomé, mas viver o sentido da fé que os apóstolos (inclusive Tomé) tiveram em Jesus e a nós transmitiram.

A fé dos apóstolos exige de nós que creiamos em seu testemunho sobre Jesus morto e ressuscitado, ou seja, que adiramos à mesma fé. E exige também que pratiquemos a vida de comunhão fraterna na comunidade eclesial, que brotou de sua pregação.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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