Destaque, Notícias › 06/04/2018

2º Domingo da Páscoa

Em meio à crise e titubeios, a força do Ressuscitado

Frei Gustavo Medella

“Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que os pobres não têm comida, me chamam de comunista”. A frase, atribuída a Dom Helder Câmara, bispo brasileiro já falecido e com processo de beatificação em andamento, apresenta duas dimensões da prática cristã que vêm da origem das primeiras comunidades dos discípulos de Cristo: o socorro imediato das necessidades urgentes daqueles sofrem com a falta do mínimo necessário à vida e a busca de uma organização social que propicie um ambiente de partilha e respeito incondicional à vida de todos. Este ideal vem expresso na descrição que o livro dos Atos dos Apóstolos ao se referir às comunidades do cristianismo primitivo: “Entre eles ninguém passava necessidade, pois aqueles que possuíam terras ou casas vendiam-nas, levavam o dinheiro, e o colocavam aos pés dos apóstolos. Depois, era distribuído conforme a necessidade de cada um” (At 4,34-35).

Segue breve reflexão sobre cada uma destas práticas:

1) Socorrer as necessidades imediatas

Esta instrução está perfeitamente conforme os ensinamentos e a prática de Jesus. Encontra respaldo em diversos trechos do Evangelho, entre eles Mt 25,35-45, que narra a acolhida amorosa no Reino da Eternidade àqueles que em vida socorreram o próprio Cristo na figura do faminto, do prisioneiro, do doente, do sem-teto etc. Também desta máxima nascem as obras de misericórdia, atos de amor que vêm em auxílio da vida quando esta se vê ameaçada a partir das carências mais básicas. Historicamente, a Igreja Católica tem se debruçado com muito afinco e seriedade sobres estas exigências em todas as partes do planeta. Também se percebe o empenho sincero e esforçado de irmãos de outras denominações religiosas cristãs e não cristãs, além de muitos outros grupos de pessoas de boa vontade. O empenho nesta direção costuma ser muito aceito, elogiado e apoiado. Quem tem muito dinheiro e poder costuma apostar nestas iniciativas, talvez como um possível esforço apaziguador da consciência. No entanto, sem o combate às causas profundas das desigualdades e injustiças, tais esforços, ainda que nobres e consoantes ao ideal evangélico, apresentam-se como soluções paliativas.

2) Promover mudanças na sociedade

Quando adentrava nesta seara, Dom Helder passava a ser rotulado como comunista. A transformação social de um sistema, pautado no lucro e na concentração de renda e recursos que produz números astronômicos de pobreza e miséria, representa um desafio bem menos simpático do que o primeiro. Implica na ruptura de privilégios, no cultivo de um espírito bem menos egoísta e disposto à partilha, no treinamento constante em abrir mão de luxos e requintes para uma vida mais modesta, mas mesmo assim muito digna, a ser espalhada para o maior número possível de pessoas, com a meta de se alcançar a todas. Trabalhar nesta direção incomoda e gera injustiças, perseguições e até a morte. Trata-se de uma entrega incondicional ao mesmo projeto de vida a que Jesus entregou a sua vida. Também este é compromisso irrenunciável do cristão.

Que a força do ressuscitado, aquele que traz em si as feridas da cruz e da injustiça mostrando que toda dor pode ser ressignificada no amor e na entrega, seja a força daqueles que pretendem ser os seguidores de hoje do Filho de Deus. Mesmo que venham as crises e titubeios, como vieram a Tomé, os cristãos sigam em frente, com força e coragem na vivência da proposta do Reino.

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Jesus ressuscitado está vivo na comunidade

1ª Leitura: At 4,32-35
2ª Leitura: 1Jo 5,1-6
Evangelho: Jo 20, 19-31

* 19 Era o primeiro dia da semana. Ao anoitecer desse dia, estando fechadas as portas do lugar onde se achavam os discípulos por medo das autoridades dos judeus, Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: «A paz esteja com vocês.» 20 Dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos ficaram contentes por ver o Senhor.

21 Jesus disse de novo para eles: «A paz esteja com vocês. Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês.» 22 Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles, dizendo: «Recebam o Espírito Santo. 23 Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados.»

A comunidade é testemunha de Jesus ressuscitado – * 24 Tomé, chamado Gêmeo, que era um dos Doze, não estava com eles quando Jesus veio. 25 Os outros discípulos disseram para ele: «Nós vimos o Senhor.» Tomé disse: «Se eu não vir a marca dos pregos nas mãos de Jesus, se eu não colocar o meu dedo na marca dos pregos, e se eu não colocar a minha mão no lado dele, eu não acreditarei.»

26 Uma semana depois, os discípulos estavam reunidos de novo. Dessa vez, Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: «A paz esteja com vocês.» 27 Depois disse a Tomé: «Estenda aqui o seu dedo e veja as minhas mãos. Estenda a sua mão e toque o meu lado. Não seja incrédulo, mas tenha fé.» 28 Tomé respondeu a Jesus: «Meu Senhor e meu Deus!» 29 Jesus disse: «Você acreditou porque viu? Felizes os que acreditaram sem ter visto.»

Para que João escreveu este evangelho? – * 30 Jesus realizou diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. 31 Estes sinais foram escritos para que vocês acreditem que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, vocês tenham a vida em seu nome.


* 19-23: O medo impede o anúncio e o testemunho. Jesus liberta do medo, mostrando que o amor doado até à morte é sinal de vitória e alegria. Depois, convoca seus seguidores para a missão no meio do mundo, infunde neles o Espírito da vida nova e mostra-lhes o objetivo da missão: continuar a atividade dele, provocando o julgamento. De fato, a aceitação ou recusa do amor de Deus, trazido por Jesus, é o critério de discernimento que leva o homem a tomar consciência da sentença que cada um atrai para si próprio: sentença de libertação ou de condenação.

* 24-29: Tomé simboliza aqueles que não acreditam no testemunho da comunidade e exigem uma experiência particular para acreditar. Jesus, porém, se revela a Tomé dentro da comunidade. Todas as gerações do futuro acreditarão em Jesus vivo e ressuscitado através do testemunho da comunidade cristã.

* 30-31: O autor conclui o relato da vida de Jesus, chamando a atenção para o conteúdo e a finalidade do seu evangelho, que contém apenas alguns dos muitos sinais realizados por Jesus. E estes aqui foram narrados para despertar o compromisso da fé que leva a experimentar a vida trazida por Jesus.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

2º Domingo da Páscoa, ano B

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Ó Deus de eterna misericórdia, que reacendeis a fé do vosso povo na renovação da festa pascal, aumentai a graça que nos destes. E fazei que compreendamos melhor o batismo que nos lavou, o espírito que nos deu nova vida, e o sangue que nos redimiu”.

1. Primeira leitura: At 2,32-35

Um só coração e uma só alma.

Nos Atos dos Apóstolos, Lucas dirige-se de modo especial aos cristãos de origem pagã, que viviam fora da Palestina, depois do ano 80. Jerusalém já tinha sido destruída no ano 70, mas para Lucas a comunidade que ali vivia depois de Pentecostes continuava sendo um modelo para os cristãos da 2ª geração. Era uma comunidade movida pela fé no Cristo ressuscitado e animada pelo Espírito Santo, sobre ela derramado. Viviam em comunhão fraterna, eram ouvintes assíduos no ensinamento dos apóstolos, nas “reuniões em comum, no partir do pão e nas orações” e na partilha dos bens com os mais pobres, esperando que Cristo voltasse logo (At 2,42.44-45). Para viver esta partilha de bens com os necessitados, havia os que vendiam até suas propriedades e depositavam o valor aos pés dos apóstolos. Luca cita o exemplo de Barnabé, que será o futuro companheiro de Paulo nas viagens missionárias. Chega a exagerar, dizendo que “não havia necessitados entre eles”. Sabemos, porém, que havia muitos pobres em Jerusalém; para socorrê-los foram então escolhidos sete diáconos, para melhor atender os cristãos de língua grega (6,1-7). Mais tarde, por ocasião de uma grande seca, a comunidade de Antioquia enviou auxílio à de Jerusalém (11,27-30) e Paulo fez coletas para socorrer os pobres da Igreja-mãe (2Cor 8–9). Lucas quer dizer com isso que os primeiros cristãos colocavam o amor fraterno em primeiro lugar e não os bens deste mundo. Por isso os apresenta como modelo. Quem se coloca no “caminho” da vida cristã transforma a sua vida para viver, em comunidade, a vida fraterna e o Reino de Deus sonhado por Jesus.

Salmo responsorial

Dai graças ao Senhor, porque ele é bom;
eterna é a sua misericórdia.

2. Segunda leitura: 1Jo 5,1-6

Todo aquele que nasceu de Deus vence o mundo.

O cristão é convidado a viver a comunhão de amor com Deus e com os irmãos. O critério para sabermos se estamos em comunhão com Deus é o amor vivido com os irmãos (4,19-21). No texto que ouvimos, o autor da Carta nos diz que o amor que vivemos com Deus e com os irmãos é um dom do próprio Deus. Amamos a Deus porque, pelo batismo, nascemos de Deus. Este amor nasce da fé em Jesus, o Messias e Filho de Deus (cf. Jo 20,30-31). A fé nos torna filhos de Deus e nos leva a observar os seus mandamentos, especialmente, o mandamento do amor (cf. Jo 13,14-15.34-35).

Aclamação ao Evangelho

Aleluia, Aleluia, Aleluia!
Acreditaste, Tomé, porque me viste.
Felizes os que creram sem ter visto.

3. Evangelho: Jo 20,19-31

Oito dias depois, Jesus entrou.

O Evangelho que acabamos de ouvir fala de duas aparições do Ressuscitado, no “primeiro dia da semana”. Foi a partir deste dia que começou a fé em Cristo ressuscitado. Desde então, a vida pública de Jesus, seus ensinamentos aos discípulos e os “sinais” em favor dos doentes, pobres e pecadores ganharam um sentido. As manifestações do Ressuscitado acontecem quando os discípulos estão reunidos. Por isso, este dia passou a ser chamado “dia do Senhor”, dies Domini, ou Domingo, dia preferido para as reuniões em que se celebra a Eucaristia e se comemora a ressurreição do Senhor Jesus (cf. At 20,7-12; 1Cor 16,2; Ap 1,10). A presença de Jesus ressuscitado “invade” a reunião dos discípulos ainda com medo dos judeus, e lhes comunica a paz. Agora Jesus se reconcilia com os discípulos que o abandonaram, perdoando-lhes a infidelidade. A paz comunicada por Jesus é fruto do perdão divino, que reconcilia a pessoa consigo mesma, com o próximo e com Deus. Concede-lhes o poder de perdoar na comunidade em nome de Jesus. Jesus não restringe este poder aos dirigentes da Igreja. Concede-o a cada cristão: “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendido…” Um dos dons principais que Deus nos concede é o perdão de nossos pecados. A comunidade pós-pascal é uma comunidade reconciliada com Deus e com os irmãos. É uma comunidade onde reina o amor e a paz, fruto da fé no Ressuscitado a ser comunicada aos outros. Por isso Jesus os envia em missão: “Recebei o Espírito Santo” (…). “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados…” – Tomé, porém, não estava presente na primeira manifestação do Ressuscitado e permanecia incrédulo aos que lhe diziam: “Vimos o Senhor!” Só acreditarei, dizia Tomé, se puder tocar as chagas de suas mãos, dos pés e do lado. Oito dias depois, de novo, Jesus se põe no meio dos discípulos reunidos, comunica-lhes a paz, e convida Tomé tocar suas chagas. Tomé reconhece a Jesus e o adora: “Meu Senhor e meu Deus!” Jesus o repreende: “Acreditaste porque me viste?” Assim, Tomé começou a fazer parte das testemunhas privilegiadas da ressurreição do Senhor; são testemunhas porque puderam ver e tocar o Ressuscitado, e comer com ele.

Mas João, no final do 1º século, escreve para cristãos que não conheceram a Jesus histórico, nem ouviram as testemunhas privilegiadas da ressurreição, que já tinham morrido. Mesmo assim creram. A estes cristãos, e a nós, Jesus diz: “Bem aventurados os que creram sem terem visto”. Felizes somos também nós, que cremos em Cristo Ressuscitado, sem tê-lo visto.

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Ele está no meio de nós…

Frei Almir Guimarães

Estamos começando a viver um dos períodos mais belos e mais densos de nossa vida em Igreja. Trata-se do tempo pascal. Durante algumas semanas meditamos detalhadamente sobre o mistério pascal, a festa da passagem, festa de Cristo e festa nossa. Não somos admiradores exteriores de Cristo. Não fazemos alusão, em nossas falas, a um personagem do passado. Ele, ele vive. Ressoam dentro de nós versículos das carta de Paulo aos Colossenses: “Se ressuscitaste com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto… vós morrestes e vossa vida está escondida com Cristo em Deus”. Trata-se, pois, de nossa passagem, sempre no universo da fé.

Os apóstolos estavam reunidos numa sala a portas fechadas. Experimentavam medo, receavam zombarias. O Mestre deles havia morrido. Medo, pavor. Estavam trancados. Jesus chega e passa pelas portas fechadas, pelas paredes do medo. Mostra-lhes as chagas luminosas. Era o mesmo de antes com as feridas, mas agora chagas brilhantes. E com sua misteriosa presença traz a paz aos corações. O grande presente da Pascoa é a paz e o perdão das loucuras dos corações dos homens. Ressoa dentro de nosso coração um hino de gratidão ao Ressuscitado que nos dá aqui e agora o perdão.

Os homens não querem a paz. Ou será que nós, discípulos do Ressuscitado, não sabemos ser embaixadores da paz? Há tanta guerra… tanto ódio… tanta violência… tanta loucura. As guerras de ontem e de hoje, os ataques terroristas, as chacinas, esse total desrespeito pela vida… Parece que não houve Páscoa. As trevas da sexta-feira ainda imperam…

Não podemos desanimar. A luz tênue da esperança precisa brilhar. Coragem. Deixar as portas destrancadas e ir pelo mundo. Uma porta se abre para a esperança: depois da Ressurreição, os discípulos adquiriram o vício da comunidade, do encontro. Os Atos dos Apóstolos dizem que a multidão era um só coração e uma só alma. O autor dos Atos traça um quadro idílico? Ninguém considerava próprias suas coisas, mas tudo era de todos. Ninguém passava necessidade. Havia a partilha. Em outro lugar se diz que os primeiros discípulos eram unânimes na oração e no partir do pão… Comunidades de pessoas novas. Não apenas ajuntamento de criaturas de um determinado grupo religioso. Pequenas células, abrigos do Ressuscitado. Pessoas que abrem os olhos aos cegos, que ajudam os que tropeçam, de abrem os ouvidos aos surdos simplesmente pelo seu jeito de viver… Comunidades, terras de encontro, de apoio, de ajuda mútua, de alimentação do homem novo, de desejo de fazer com que um fogo possa arder na terra.

Ou ele não está no meio de nós?

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Retrato da nova Família de Deus

Frei Clarêncio Neotti

Muitos querem ver no Evangelho de hoje a instituição do Sacramento da Reconciliação (Confissão). Penso que temos aqui mais que um só sacramento. Jesus reparte seu poder divino de perdoar e de santificar, sabendo que a criatura humana, pecadora de nascença, precisaria de instrumentos para sair do pecado, para morrer continuamente ao pecado e ressuscitar para a graça já na vida presente. Caso contrário, frustrar-se-iam os frutos de sua ressurreição. Veja-se como uma coisa chama outra: presença de Jesus, garantia do Espírito Santo, misericórdia divina no perdão dos pecados, santificação das criaturas, superação do medo e da incredulidade, ambiente de paz e alegria, profissão de fé, comunidade reunida. Retrato da nova família de Deus.

A liturgia pascal acentua bastante a vida nova que brota da ressurreição de Jesus. Paulo fala em “caminhar numa nova vida” (Rm 6,4). Poderíamos dizer que devemos passar da velhice para a infância. Não de idade temporal, mas de pureza de consciência. O próprio Jesus nos ensina que “se não nos tornamos como crianças, não entraremos em seu Reino” (Mt 18,3). Pedro, falando do novo povo de Deus, exorta-nos a sermos “como crianças recém-nascidas, desejando o genuíno leite do Espírito” (lPd 2/2). Fazer-se criança é o sentido do renascer de que falava Jesus a Nicodemos (10 3/1-7). O Espírito Santo que Jesus hoje sopra sobre a comunidade reunida é graça e força para sairmos da ira para a mansidão, do ódio para a bondade, da discórdia para unidade, da ganância para a solidariedade, da libertinagem para a continência (GL 5/19-24). O Espírito Santo nos restitui sempre de novo a alegria do amor e da unidade fraterna, sem os quais, não sobrevive a comunidade.

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Percurso para a fé

José Antonio Pagola

Estando Tomé ausente, os discípulos de Jesus tiveram uma experiência inaudita. Quando veem Tomé chegar, imediatamente lhe comunicam cheios de alegria o que aconteceu: “Vimos o Senhor!” Tomé os ouve com ceticismo. Por que acreditaria em algo tão absurdo? Como podem dizer que viram Jesus cheio de vida, se Ele morreu crucificado? Em todo caso, será outro.

Os discípulos lhe dizem que Jesus lhes mostrou suas chagas das mãos e do lado. Tomé não pode aceitar o testemunho de ninguém. Precisa comprová-lo pessoalmente: “Se eu não vir em suas mãos o sinal dos cravos … e não meter a mão na chaga do lado, não acreditarei”. Só vai crer em sua própria experiência.

Este discípulo que resiste a crer de maneira ingênua vai ensinar-nos a nós que jamais vimos o rosto de Jesus, nem ouvimos suas palavras, nem sentimos seus abraços – o percurso que devemos fazer para chegar à fé em Cristo ressuscitado.

Oito dias depois, Jesus se apresenta de novo. Imediatamente dirige-se a Tomé. Não critica sua posição. Suas dúvidas não têm para Ele nada de ilegítimo ou escandaloso. Sua resistência a crer revela sua honestidade. Jesus o entende e vem a seu encontro mostrando-lhe suas feridas.

Jesus se oferece para satisfazer suas exigências: “Aqui tens minhas mãos, põe teu dedo. Mete a tua mão no meu lado”. Essas feridas, mais do que “provas” para verificar algo, não são “sinais” de seu amor entregue até a morte? Por isso Jesus o convida a aprofundar-se além de suas dúvidas: “Não sejas incrédulo, mas crente”. Tomé renuncia a fazer a comprovação. Já não sente necessidade de provas. Só experimenta a presença do Mestre que o ama, o atrai e o convida a confiar. Tomé, o discípulo que fez um percurso mais longo e trabalhoso que ninguém até encontrar-se com Jesus, chega mais longe que ninguém na profundidade de sua fé: “Meu Senhor e meu Deus!” Ninguém fez uma confissão como esta a Jesus.

Não devemos assustar-nos ao sentir que brotam em nós dúvidas e interrogações. As dúvidas vividas de maneira sadia nos resgatam de uma fé superficial que se contenta com repetir fórmulas, sem crescer em confiança e amor. As dúvidas nos estimulam a ir até o final em nossa confiança no Mistério de Deus encarnado em Jesus.

A fé cristã cresce em nós quando nos sentimos amados e atraídos por esse Deus cujo rosto podemos vislumbrar no relato que os evangelhos nos fazem de Jesus. Então, seu convite a confiar tem em nós mais força do que nossas próprias dúvidas. “Felizes os que não viram e creram”.

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A comunidade que nasceu da Páscoa

Pe. Johan Konings

Este domingo pascal acentua o dom do Espírito pelo Cristo Ressuscitado. O evangelho narra com Jesus, na própria tarde da Páscoa, apareceu aos discípulos no cenáculo, dando-lhes o Espírito Santo; e como, no domingo seguinte, Jesus mostrou seu lado aberto a Tomé, testemunha da primeira hora, mas proclamando felizes, doravante, os que acreditarem sem ter visto (v. 29)

Queremos deter-nos no tema do dom do Espírito e a vida da comunidade. O dom do Espírito serve em primeiro lugar para perdoar o pecado (v. 22-23). Pois os discípulos continuam a obra que Jesus iniciou: na primeira apresentação por João Batista, Jesus fora chamado “o cordeiro que tira o pecado do mundo” (Jô 1,29). A reconciliação com Deus e entre os irmãos é condição necessária para que seja possível a comunidade que Jesus deseja.

Na 1ª leitura vemos como essa comunidade funciona. Continuando a reunir-se, depois da morte e ressurreição de Jesus, e animada por seu Espírito, procurava viver em unidade perfeita: um só coração e uma só alma. Colocavam seus bens em comum, ninguém considerava seu o que possuía, e assim não havia carência no meio deles. Comunhão dos bens materiais mas também dos bens intelectuais, afetivos, espirituais. O que chamamos de “fraternidade”era realidade entre eles. Não era uma mera agremiação piedosa. Era uma união de vida.

Comunidade cristã é união de vida dos que seguem aquele que deu a vida por nós, Jesus Cristo. Ele nada guardou para si. Nós também, não devemos guardar para nós nada dos bens que nos foram dados – tanto materiais como intelectuais, morais etc. Somos administradores, não proprietários, e isso é uma razão a mais para sermos muito responsáveis naquilo que fazemos: não nos pertence. Pertence a Deus e é destinado aos nossos irmãos e irmãs. Assim como Cristo deu sua própria vida em sinal do amor de Deus, assim também nós devemos dar a vida pelos irmãos (1Jo 3,16). Dar a vida, vivendo ou morrendo…morrendo de uma morte que em Cristo se transforma em vida.

Essa vida de comunhão, é obra do Espírito de Cristo, que é o sopro de Deus que ressuscitou Jesus dentre os mortos. Podemos também dizer que o Espírito de Deus faz ressuscitar em nós a vida que Jesus viveu. Foi isso que experimentaram os primeiros cristãos, e é isso que a Igreja sempre terá de vivenciar. Não o egoísmo de uma instituiçã fechada sobre si mesma e de cristãos só de nome, mas uma comunhão de irmãos e irmãs, que contagia o mundo. Essa é a nossa fé, que vence o mundo (2ª leitura). A vida de Jesus ressuscita em nós. Paulo diz: “Não sou eu quem vivo, mas Cristo que vive em mim”(Gl 2,20). João escreve seu evangelho para que estejamos firmes na fé em Jesus e nessa fé tenhamos a vida. Mas não se trata de uma vida qualquer. Trata-se da vida que Jesus nos mostrou. Por isso João descreveu os gestos de Jesus, seus sinais que falavam de Deus (Jo 20, 30-31). Seja nossa vida, nossa comunidade, tal sinal: Nisto todos conhecerão que sois discípulos meus: que vos ameis uns aos outros”(Jo 13,35).

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