Destaque, Notícias › 08/12/2017

2º Domingo do Advento

João? Que João?

Frei Gustavo Medella

No interior, é muito comum que as pessoas sejam identificadas a partir do ofício que realizam, a “Dona Maria Costureira”, o “José Marceneiro”, o “Carlos do Açougue”. A atividade cola-se à identidade. O “fazer” está intimamente ligado ao “ser” com laços tão profundos que não se podem mais separar. “- Carlos, que Carlos? Não conheço! – O Carlos do Açougue. – Ah sim! Conheço muito! Foi criado comigo aqui na rua”, se diz.

E assim ocorre com o primo de Jesus, o filho de Isabel, o João. “- João, que João? – O Batista! – Ah, sim, conheço! Aquele que vem preparar os caminhos do Senhor”. O menino concebido por graça de Deus no seio da idosa Isabel reveste-se da missão que Deus lhe confia. João Batista prepara um caminho de mudança e conversão interior. Vive com o mínimo necessário e mostra-se consciente de sua tarefa. Também sabe bem qual é o seu lugar no Projeto da Salvação. Não anuncia a si mesmo, mas Àquele que vem para batizar a humanidade com o Espírito Santo.

Grande e importante virtude manifesta pelo Batista: a capacidade de sair de si para se empenhar num projeto que ultrapassa seus próprios horizontes. João é modelo de vida cristã, de modo especial neste Tempo de Advento. Apresenta à comunidade cristã um modus operandi que certamente qualifica a atuação individual e comunitária daqueles que um dia foram mergulhados em Cristo pelo Sacramento do Batismo.

João Batista ensina a Igreja a ser fiel aos planos de Deus expressos em Jesus Cristo. A exemplo de João Batista, o Papa Francisco bem compreendeu esta dinâmica de estar a serviço do Reino e por isso insiste que a Igreja saia sempre de si para ir ao encontro do mundo, que se coloque a serviço da humanidade, que seja hospital de campanha, casa de portas abertas para acolher a todos, que vá em direção às periferias existenciais ao encontro daqueles que sofrem.

CONFIRA A REFLEXÃO EM VÍDEO:


O anúncio da chegada do Messias

Primeira leitura: Is 40, 1-5.9-11
Sl: 85
Segunda leitura: 2Pd 3, 8-14
Evangelho: Mc 1, 1-8

1* Começo da Boa Notícia de Jesus, o Messias, o Filho de Deus. – 2* Está escrito no livro do profeta Isaías: «Eis que eu envio o meu mensageiro na tua frente, para preparar o teu caminho. 3 Esta é a voz daquele que grita no deserto: Preparem o caminho do Senhor, endireitem suas estradas!» 4 E foi assim que João Batista apareceu no deserto, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados. 5 Toda a região da Judéia e todos os moradores de Jerusalém iam ao encontro de João. Confessavam os seus pecados, e João os batizava no rio Jordão. 6 João se vestia com uma pele de camelo, usava um cinto de couro e comia gafanhotos e mel silvestre. 7 E pregava: «Depois de mim, vai chegar alguém mais forte do que eu. E eu não sou digno sequer de me abaixar para desamarrar as suas sandálias. 8 Eu batizei vocês com água, mas ele batizará vocês com o Espírito Santo.»


* 1,1: Todo o Evangelho de Marcos é o começo da Boa Notícia que Deus dirige aos homens. Ela continua, em todos os tempos e lugares através daqueles que seguem a Jesus.
* 2-8: A pregação de João Batista é grande advertência. Ele anuncia a vinda do Messias, que vai provocar uma grande transformação. É preciso estar preparado, purificando-se e mudando o modo de ver a vida e de vivê-la.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


2º Domingo do Advento, ano B

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Ó Deus todo-poderoso e cheio de misericórdia, nós vos pedimos que nenhuma atividade terrena nos impeça de correr ao encontro do vosso Filho, mas, instruídos pela vossa sabedoria participemos da plenitude de sua vida”.

1. Primeira leitura: Is 40,1-5.8-9

Preparai o caminho do Senhor.

Com a leitura que hoje ouvimos começa o chamado “Livro da Consolação”, isto é a segunda parte do Profeta Isaías (Is 40–55). Um discípulo de Isaías fala agora em Babilônia, pelo final do exílio (587–538 aC). Os profetas anteriores (Am, Os, Is, Jr e Ez) denunciavam o pecado e anunciavam o castigo. Agora a palavra de ordem é: “consolai o meu povo… porque recebeu… em dobro por todos os seus pecados. A palavra é dirigida aos que estavam no exílio e para Jerusalém. Deus parecia ter esquecido Jerusalém no meio das ruínas: “Mas Sião reclama: ‘O Senhor me abandonou, meu Deus me esqueceu” (Is 49,14). Neste contexto, em Babilônia, uma voz profética se levanta e grita aos exilados: “Preparai no deserto o caminho do Senhor”, um caminho reto e plano para que Deus possa reconduzir seu povo a Jerusalém. “Ele vem com poder”, não com o poder de um general à frente de seu exército, mas com o domínio de um pastor sobre seu rebanho. Ele reunirá as ovelhas dispersas por culpa de maus pastores (cf. Ez 34,1-24). O Senhor como um pastor cuidará com carinho maternal de suas ovelhas; levará ao colo os cordeirinhos, conduzindo mansamente as ovelhas mães, promessas de vida. O profeta deve anunciar a boa-nova também em Sião. Jerusalém deve estar preparada para receber festivamente as ovelhas conduzidas pelo próprio Deus-Pastor: “Eis o vosso Deus”. O Deus-Pastor é boa-nova, o evangelho que esperamos. No Advento esperamos com alegria o nascimento do Filho de Deus. Como estamos nos preparando? Que montes ou colinas devemos rebaixar e que vales precisamos nivelar?

Salmo responsorial: Sl 84

Mostrai-nos, ó Senhor, vossa bondade,
e a vossa salvação nos concedei!

2. Segunda leitura: 2Pd 3,8-14

O que nós esperamos,
são novos céus e uma nova terra.

Pedro, na sua carta, adverte os cristãos de seu tempo, e a nós, sobre o foco principal em nossa vida, que é o encontro com o Senhor que vem. O tema é, portanto, a 2ª vinda do Senhor. Ela ainda não aconteceu porque o Senhor é paciente e está dando um tempo para a nossa conversão. Lembremos que, no domingo passado, na parábola do patrão que se ausentou sem marcar a data do retorno, deu tarefas a cada empregado e mandou o porteiro vigiar. A palavra “vigiar” é agora trocada pelas palavras “converter-se”, “esperar” com ansiedade, “para que ele nos encontre numa vida pura, sem mancha e em paz”. Esse é o caminho que devemos preparar entre a primeira e a segunda vinda do Senhor.

Aclamação ao Evangelho

Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas.
Toda a carne há de ver a salvação de nosso Deus.

3. Evangelho: Mc 1,1-8

Endireitai as estradas do Senhor.

A temática do evangelho deste domingo está voltada para a primeira vinda do Senhor, mais precisamente, para a atividade de João Batista. “Endireitai as estradas do Senhor” é o lema do profeta Isaías, em Babilônia, que agora João retoma. Não se trata de endireitar uma estrada física, mas de entrar no caminho sinalizado pelo ”batismo de conversão para o perdão dos pecados”, para que “nada nos impeça de correr ao encontro do Filho de Deus” (oração). Aquele pastor prometido pelo Profeta está próximo: “Depois de mim virá alguém mais forte do que eu… Ele vos batizará com o Espírito Santo”; ele é o pastor que reúne seu rebanho, carrega os cordeirinhos em seus braços e tange as ovelhas (1ª leitura). O caminho para correr ao encontro do Salvador que vem, é o caminho da conversão e do perdão dos pecados. Então, sim, Ele nos mostrará a sua bondade e nos concederá a sua salvação (Salmo responsorial).


Preparando os caminhos do Senhor

Frei Almir Guimarães

Um dos nossos companheiros de caminhada no tempo do Advento é João Batista, o filho da velhice de Isabel e Zacarias. Frequentador do deserto e homem revestido de retidão, pregava um batismo de conversão, de transformação da pessoa e da sociedade. Os relatos evangélicos dizem que as pessoas chegavam, ouviam-no com o coração e pediam o batismo de conversão no rio Jordão. O rito do banho apontava para um desejo de mudança de vida.

A missão da Igreja é precisamente a mesma do Batista: tocar o coração das pessoas e da sociedade para que entrem num caminho, num processo de conversão. Para isso existem os cristãos, as paróquias, os serviços pastorais, as casas e mosteiros dos religiosos. Quem opera, de fato, a conversão dos homens e das mulheres é Cristo Jesus, vivo e ressuscitado. O Batista insistia que ninguém se fixasse nele, mas no Cristo que ele anunciava. Nós, cristãos, de modo particular os agentes de pastoral, os pais, os educadores cristãos, nada mais somos do que preparadores dos caminhos do Senhor. O resto é obra da graça e da abertura do coração. Preparadores dos caminhos, mas servos de Deus, embora inúteis.

Onde estão os pontos fracos da epopeia vitoriosa que os homens pensam estar vivendo? Como voltar ao Senhor? Onde a pessoa pode ser atingida? Como podemos preparar os caminhos para que o Senhor chegue às pessoas?

Antes de mais nada será fundamental uma coerência entre o discurso e a vida.  As pessoas acreditam em testemunhas e não em meros repetidores de fórmulas e palavras muitas vezes gastas. Vivemos, mais do que em outros tempos, a época das testemunhas e não dos oradores que se escutam falar.

Tudo indica que uma fresta por onde Deus pode penetrar nas pessoas é a do coração contrito. Será preciso sair de um pedestal de onipotência e reconhecer a falha, a negligência, o culto ao próprio ego. O Senhor não rejeita um coração contrito e humilhado.

“Marcos nos recorda o grito do profeta em pleno deserto: “Preparai o caminho do Senhor, aplainai as suas veredas”. Onde e como abrir caminhos para Deus em nossa vida? Não devemos pensar em vias esplêndidas, amplas e desimpedidas por onde chegue um  Deus espetacular. O teólogo catalão J.M Rovira nos lembrou que Deus se aproxima de nós buscando a fresta que o homem mantém ao verdadeiro, ao bom, ao belo e ao humano. É a esses resquícios de vida que devemos prestar atenção para abrir caminhos para Deus” (Pagola, Marcos, p.22).

Talvez fosse importante dar o testemunho e usar a fala de uma vida menos complicada e mais simples. O cristianismo representa um estilo de vida alternativo. Trata-se de viver os valores “subversivos” do Evangelho: perdão diante da violência, partilhar em vez de acumular, cooperar em vez de competir, buscar ser comedidos e não consumistas, amar sem esperar retorno, dar a vida pelos outros e não andar atrás de píncaros e sucessos apenas para nós.

Há pessoas que vivem uma vida sem graça, fragmentados em mil pedaços, pelo ruído, pela retórica, pelas ambições e pela pressa. Quem sabe poderão reencontrar a Deus se encontrarem um fio condutor que humanize sua vida.

A conversão afeta o mais íntimo de cada pessoa, trata-se de um encontro pessoal com o Deus vivo que “balança” a vida, trata-se de uma alegre submissão à vontade do Senhor, postura de confiança no futuro, resposta a um Deus que fascina e coloca ordem em nosso coração.


Reorientar a vida

José Antonio Pagola

Às vezes se pensa que a diferença entre crentes e não crentes é clara. Uns têm fé e outros não. Simplesmente assim. Nada mais longe da realidade. Hoje é frequente encontrar pessoas que não sabem exatamente se creem ou não creem. Basta escutá-las: “Isto que eu sinto pode ser chamado de fé?”.

Esta situação de ambiguidade pode prolongar-se durante anos. Mas a atitude mais sadia é reagir. A primeira coisa não é “voltar à Igreja” e começar novamente a “cumprir” certas práticas religiosas sem convicção alguma. O importante é a pessoa aclarar a própria postura e decidir como quer orientar sua vida.

Antes de mais nada, é necessário esclarecer onde a pessoa está e saber exatamente do que ela se afastou: Distanciei-me de determinada educação religiosa ou suprimi Deus de minha vida? Abandonei uma “religião” que me entediava ou eliminei de meu coração todo vestígio de comunicação com Deus? Rejeitar o que alguém encontra de incoerente, artificial ou infantil em seu passado pode ser sinal de maturidade. Mas é apenas um passo. Não devemos fugir de outra questão: uma vez rejeitado o religioso, a partir de onde dou um sentido último à minha vida?

Por isso é importante continuar esclarecendo qual é minha atitude básica diante da existência: sei prestar atenção ao “profundo” da vida, ao que não se capta imediatamente com os sentidos, ou só vivo daquilo que “salta aos olhos” e se revela útil para os meus interesses?

Abrir-se ao “profundo” não significa crer em qualquer coisa, ser sensível à parapsicologia, crer nos espíritos ou buscar as energias ocultas do cosmos. A fé cristã não vai por aí. O cristão crê que o mundo inteiro recebe sua existência, seu sentido e cumprimento último de um Deus que é só Amor. Para um cristão, crer é, no fundo, abrir-se confiantemente ao mistério da vida, porque se sabe querido por Deus.

Mas, é preciso sentir algo especial? O que acontece se alguém não vibra como esses crentes que parecem viver algo inatingível? A fé é algo que se vive num nível mais profundo que o nível dos sentimentos. A sensibilidade das pessoas é diferente, e nem todos nós vivemos a fé da mesma forma. O decisivo é buscar Deus como alguém a partir do qual minha vida pode adquirir mais sentido, orientação e esperança.

“Preparai o caminho para o Senhor, aplainai suas veredas”. Este grito do Batista pode ser ouvido também hoje por homens e mulheres que buscam “salvação” de alguma maneira. O importante é “abrir caminhos” em nossa vida. Fazer algum gesto que manifeste nosso desejo de reagir. Deus está perto de quem o busca verdadeiramente.

Trecho do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes.


Deus se volta para nós, voltemos para Ele!

Pe. Johan Konings

A Boa Notícia começa com um grande chamado à conversão (Mc 1,1-15; cf. Mt 3,1-17; Lc 3,1-22). Em que sentido a conversão é “boa notícia”? Conversão, na Bíblia, significa volta (como se faz uma conversão com o carro na estrada). Na 1ª leitura ressoa um magnífico texto do Segundo Isaías. O rei Ciro, depois de conquistar Babilônia, mandou os judeus que aí viviam exilados de volta para Jerusalém (em 538 a.C). O profeta imagina Deus reconduzindo essa gente a Sião. Precede-lhe um mensageiro que proclama: “Preparai no deserto uma estrada” (Is 40,3) – como para a entrada gloriosa (a “parusia”) do Grande Rei. Mas é um rei diferente, cheio de ternura: “Como um pastor, ele conduz seu rebanho; seu braço reúne os cordeiros, ele os carrega no colo, toca com cuidado as ovelhas prenhes”(v. 11). Essa era a boa notícia que Jerusalém, qual mensageira, devia anunciar ao mundo (v.9).

Conversão não é coisa trágica. Deus já voltou seu coração para nós; resta-nos voltar o nosso para ele. Ao proclamar o batismo de conversão (evangelho), João Batista pressentia a proximidade de uma “entrada gloriosa” de Deus. Como símbolo da “volta” usava a água do rio Jordão, que lembrava a travessia do povo de Israel pelo Mar Vermelho e pelo rio Jordão, rumo à terra prometida. Reforçava sua mensagem repetindo o texto de Is 40,3: “Preparai uma estrada…”. Vestia-se com um rude manto feito de pelos de camelo e alimentava-se com a comida do deserto – mel silvestre e gafanhotos -, como o profeta Elias, o grande profeta da conversão, cuja volta se esperava (cf. Ml 3,1.23-24 e Eclo 48,10). Mas João ainda não é aquele que deve vir, apenas prepara a chegada deste, o “mais forte”, que virá “batizar com o Espírito Santo” (cf. a efusão do Espírito de Deus no tempo do Fim: Jl 3,1-2; Ez 36,27 etc).

Devemos sempre viver à espera dessa “entrada gloriosa” de Deus. Jesus veio e inaugurou o reinado de Deus, mas deixou a nós a tarefa de materializa-lo na História. Entretanto, Deus já coroou com a glória a vida dele e a obra que ele realizou: reunir as ovelhas como o pastor descrito por Isaías.

No tempo dos primeiros cristãos, muitos imaginavam que Jesus ia voltar em breve com a glória do céu, para arrematar essa obra iniciada. Depois de alguns decênios, porém, começaram a se cansar e a viver sem a perspectiva da chegada de Deus, caindo nos mesmos abusos que vemos hoje em torno de nós. Por isso foi necessário que a voz da Igreja lembrasse a voz dos profetas: Deus pode tardar, mas não desiste de seu projeto. Mil anos são para ele como um dia (2Pd 3,8), mas seu sonho, “um novo céu, uma nova terra, onde habitará a justiça”, fica de pé (2ª leitura).

Não vivamos como os que não têm esperança. Não desprezemos o fato de Deus estar voltado para nós. Voltemos sempre a ele.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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