Destaque, Notícias › 12/01/2018

2º Domingo do Tempo Comum

Todo dia é dia, toda hora é hora…

Frei Gustavo Medella

O Senhor vive chamando…  Esta é a constatação que perpassa os textos bíblicos da Liturgia deste 2º Domingo do Tempo Comum. Na leitura do Livro de Samuel (1Sm 3,3b-10.19), o chamado é de viva voz, atinge a audição e vem na madrugada, quando o menino Samuel se encontra no estado entre vigília e sono. Meio entorpecido, por duas vezes atribui o chamamento a Eli. Este, mais experiente na caminhada de fé, orienta Samuel a abrir ainda mais os ouvidos para perceber que quem o chama é o próprio Deus. O texto também nos reforça a convicção de que o Senhor é insistente em seu chamado e nos dá a consciência de que, entorpecidos pelas preocupações do dia a dia, pela falta de fé e também condicionados pelo medo ou pelo egoísmo, nem sempre conseguimos discernir com clareza como e para que somos chamados. O episódio ilustra que, para bem ouvirmos o apelo do Senhor em sua essência, podemos –  e devemos – contar com a ajuda e o discernimento uns dos outros.

A bela oração do Salmo (Sl 39(40)) apresenta a boa disposição de quem aprende na vida a atender o convite de Deus: “Eis que venho fazer, com prazer, a vossa vontade, Senhor”. O prazer, força que mobiliza, e às vezes escraviza o ser humano, quando direcionado à fidelidade ao projeto divino, é fonte de alegria e realização.

No Evangelho (Jo 1,35-42), o apelo de Jesus é ao olhar: “Vinde e vede”. O convite do “Cordeiro”, lançado aos dois discípulos de João, mobilizou-os decisivamente. No entardecer da vida, diferentemente de Samuel (chamado de madrugada, quando ainda menino), estes dois homens que aderem ao projeto de Cristo vêm nos mostrar que, qualquer que seja o horário do dia (no caso deles, às quatro da tarde), ou a fase da vida (eles já eram adultos), o Senhor nos chama a permanecer com Ele e pacientemente espera de nós uma resposta de adesão.

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As testemunhas apontam o Salvador

1ª Leitura: 1 Sm 3-3b-10.19
2ª Leitura: 1Cor 6,13c-15ª.17-20
Evangelho: Jo 1,35-42

* 35 No dia seguinte, João aí estava de novo, com dois discípulos. 36 Vendo Jesus que ia passando, apontou: «Eis aí o Cordeiro de Deus.» 37 Ouvindo essas palavras, os dois discípulos seguiram a Jesus. 38 Jesus virou-se para trás, e vendo que o seguiam, perguntou: «O que é que vocês estão procurando?» Eles disseram: «Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?» 39 Jesus respondeu: «Venham, e vocês verão.» Então eles foram e viram onde Jesus morava. E começaram a viver com ele naquele mesmo dia. Eram mais ou menos quatro horas da tarde.

40 André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram as palavras de João e seguiram a Jesus. 41 Ele encontrou primeiro o seu próprio irmão Simão, e lhe disse: «Nós encontramos o Messias (que quer dizer Cristo).» 42 Então André apresentou Simão a Jesus. Jesus olhou bem para Simão e disse: «Você é Simão, o filho de João. Você vai se chamar Cefas (que quer dizer Pedra).»


* 35-51: João descreve os sete dias da nova criação. No primeiro dia, João Batista afirma: «No meio de vocês existe alguém que vocês não conhecem.» Nos dias seguintes vemos como João Batista, João, André, Simão, Filipe e Natanael descobrem a Jesus. É sempre uma testemunha que aponta Jesus para outra. O último dia será o casamento em Caná, onde Jesus manifestará a sua glória.

«O que vocês estão procurando?» São estas as primeiras palavras de Jesus neste evangelho. Essa pergunta, ele a faz a todos os homens. Nós queremos saber quem é Jesus, e ele nos pergunta sobre o que buscamos na vida.

Os homens que encontraram Jesus começaram a conviver com ele. E no decorrer do tempo vão descobrindo que ele é o Mestre, o Messias, o Filho de Deus. O mesmo acontece conosco: enquanto caminhamos com Cristo, vamos progredindo no conhecimento a respeito dele.

João Batista era apenas testemunha de Jesus, a quem tudo se deve dirigir. João sabia disso; por isso convida seus próprios discípulos para que se dirijam a Jesus. E os dois primeiros vão buscar outros. É desse mesmo modo que nós encontramos a Jesus: porque outra pessoa nos falou dele ou nos comprometeu numa tarefa apostólica.

Jesus sempre reconhece aqueles que o Pai coloca em seu caminho. Ele reconhece Natanael debaixo da figueira e também Simão, escolhido para ser a primeira Pedra da Igreja.

Vereis o céu aberto: No sonho de Jacó, os anjos subiam e desciam por uma escada que ligava a terra ao céu (leia Gn 28,10-22). Doravante é Jesus, o Filho do Homem, a nova ligação entre Deus e os homens.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


2º Domingo do Tempo Comum, ano B

Frei Ludovico Garmus, OFM

Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, que governais o céu e a terra, escutai com bondade as preces do vosso povo e dai ao nosso tempo a vossa paz”.

1. Primeira leitura: 1Sm 3,3b-10.19

Fala, Senhor, que teu servo escuta!

Domingo passado celebramos a festa do Batismo do Senhor. Depois de batizado por João Batista, o Espírito Santo desceu sobre Jesus, pairando em forma de uma pomba. Então, uma voz do céu se fez ouvir: “Tu és o meu Filho amado, de ti eu me agrado”. Em seguida, Jesus inicia a sua missão, guiado pelo Espírito do Senhor. A leitura de hoje nos fala da vocação/missão do profeta Samuel. Seus pais, Elcana e Ana, eram estéreis. Por ocasião de uma visita ao santuário de Javé em Silo, Ana se prostra diante do Senhor e suplica entre lágrimas e faz uma promessa: Se me deres um filho homem “eu o entregarei ao Senhor por toda a vida”. Depois de desmamado Samuel foi entregue aos cuidados do sacerdote Eli, para servir ao Senhor como um futuro sacerdote (1Sm 1,1-28). A primeira leitura de hoje nos fala da vocação de Samuel para ser profeta. Samuel morava com o sacerdote Eli como uma espécie de aprendiz ou “coroinha” do sacerdote. Numa das noites, enquanto dormia perto da arca da aliança, lugar onde Deus se encontrava com seu povo (cf. Ex 29,42-43), Samuel é despertado três vezes por uma voz misteriosa: “Samuel, Samuel! O menino ia até o sacerdote Eli, e dizia: Tu me chamaste, aqui estou!”. Mas Samuel não o tinha chamado e mandava Samuel dormir. Na terceira vez, entendendo que era o Senhor que chamava o menino, Eli disse: “Volta a deitar-te e, se alguém te chamar, responderás: ‘Fala, Senhor, que teu servo escuta!’” Foi o que Samuel fez. O Texto conclui: “Samuel crescia, e o Senhor estava com ele. E não deixava cair por terra nenhuma de suas palavras”. Na resposta de Samuel ele mesmo se define: é um servo que escuta a Deus e escuta os sofrimentos e angústias do povo de Israel. Por isso, “não deixava cair por terra nenhuma de suas palavras”.

Deus tem um plano a respeito de cada um de nós. Descobrir a própria vocação é descobrir o plano divino a nosso respeito. Por isso, precisamos estar sempre atentos à voz de Deus; fazer silêncio poder ouvi-lo falar.

Salmo responsorial: Sl 39

Eu disse: “Eis que venho, Senhor!”
Com prazer faço a vossa vontade.

2. Segunda leitura: 1Cor 6,13c-15a.17-20

Vossos corpos são membros de Cristo.

Corinto era uma cidade grega localizada num istmo a noroeste do Peloponeso. Sua fundação remonta ao séc. VII aC. Foi destruída em 146 aC pelos romanos e reconstruída, também por eles, em 44 aC. Dispunha de dois portos, um no lado oriental voltado para Atenas, no Mar Egeu; outro do lado ocidental, no Mar Adriático, voltado para a Itália. Era uma cidade cosmopolita, famosa pela prática da prostituição, no templo de Afrodite. Os diferentes povos ali presentes possuíam seus santuários e os judeus tinham uma sinagoga. Paulo fundou a comunidade de Corinto e conhecia as tentações a que eram submetidos os pagãos recém convertidos a Cristo. Na exortação que hoje lemos, o apóstolo está preocupado em afastar os cristãos da prostituição. Fala a respeito de dois corpos: a Igreja/comunidade que forma um só corpo em Cristo e o corpo de cada fiel, membro deste corpo. A palavra corpo ocorre sete vezes nesta exortação. Resumindo: 1. O corpo do cristão é membro do corpo de Cristo e quem se une com uma prostituta ofende o seu corpo e o de Cristo; 2. O corpo é para a ressurreição; 3. O corpo é santuário do Espírito Santo; 4. Recebemos de Deus nosso corpo e com ele devemos glorificá-lo. Em outras palavras, o ser humano é mais do que simplesmente um corpo. É morada do Espírito Santo, destinado a glorificar a Deus nesta vida e a participar da glória de Cristo pela ressurreição. Por isso Paulo diz: “Fostes comprados, e por preço muito alto (a morte de Cristo). Então glorificai a Deus com o vosso corpo”.

Aclamação ao Evangelho

Encontramos o Messias, Jesus Cristo,
de graça e verdade ele é pleno;
de sua imensa riqueza,
graças sem fim recebemos.

3. Evangelho: Jo 1,35-42

Foram ver onde Jesus morava
e permaneceram com ele.

A primeira leitura nos fala da vocação de Samuel para ser profeta. A segunda leitura nos fala como o cristão chamado a viver em comunhão com o corpo de Cristo deve viver esta vocação em seu próprio corpo. O Evangelho nos fala da vocação dos primeiros discípulos de Jesus, na perspectiva do evangelista João. João Batista dizia: Eu não sou o messias; sou apenas a voz que clama no deserto “endireitai o caminho do Senhor”. João tinha discípulos que o seguiam, porque pensavam que ele era o Messias esperado. No outro dia, depois de ter batizado Jesus, João estava com dois de seus discípulos. Vendo Jesus passar, João disse-lhes: “Eis o cordeiro de Deus”. E os dois seguiram a Jesus. Jesus percebeu que o seguiam e lhes perguntou: “O que estais procurando?” Eles responderam: “Mestre, onde moras?” E Jesus respondeu: “Vinde ver”. E os dois discípulos ficaram com Jesus aquele fim de tarde. André era um dos discípulos e logo foi contar a seu irmão Simão Pedro e o apresentou a Jesus. Eis o processo de uma vocação: procurar o messias; ver a Jesus, ouvir o anúncio de João, ouvir a pergunta de quem está sendo procurado, aceitar seu convite e permanecer com Jesus para conhecê-lo melhor. Depois de conhecer a pessoa que se procura, convidar outros a conhecê-la como fez André. Era assim que os cristãos agiam uns 60 anos depois da morte e ressurreição de Jesus. – Conhecemos a missão para a qual Deus nos chama? O que podemos fazer para tornar Jesus mais conhecido e fazer novos discípulos?

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Mais que profeta, ele é o Messias, o Cristo

Frei Clarêncio Neotti

O primeiro domingo do Tempo Comum foi ocupado com a festa do Batismo do Senhor. Neste segundo domingo, lemos sempre trechos do Evangelho de João, que tem características diferentes dos outros três Evangelhos (que, por sua vez, têm uma visão do mundo e da missão de Jesus muito parecida, tanto que podem ser dispostos em três colunas e vistos em conjunto; daí se chamarem sinóticos, uma palavra grega que significa ‘visão em conjunto’).

Às vezes, João é chamado de ‘evangelista existencial’, porque procura peneirar os problemas básicos da existência humana para iluminá-los com a luz de Jesus Cristo. Uma luz que pode iluminar (= salvar) todo homem que vem a este mundo (Jo 1,9), porque Jesus é o Messias, o Filho de Deus, o Mestre definitivo. A criatura humana é colocada entre o crer e o não crer, entre a luz e a treva, entre o bem e o mal, entre o sim e o não, entre a graça e a desgraça. E nosso maior passo possível é escolher entre a bênção e a maldição. Não há meio termo (Jo 3,36).

Os três evangelhos lidos no segundo domingo do tempo comum, nos anos A, B, C, fazem parte do quadro que os exegetas chamam de ‘semana inaugural’ do Evangelho de João. Depois do solene prólogo (lido na terceira Missa do Natal), os inícios do ministério de Jesus são marcados por indicação de tempo (‘no dia seguinte’, como se vê nos versículos 29, 35, 42; ‘três dias depois’ em 2,1). Assim, do batismo ao primeiro grande milagre, as bodas de Caná, passam-se seis dias. Esse número não é ocasional. Pode Jesus ter realizado aqueles sinais em várias semanas. Ao Evangelista não interessa a exatidão do tempo: interessa o símbolo. Reduz a seis dias, lembrando os seis dias da criação do mundo (Gn 1), porque Jesus renova o mundo. Com Jesus acontece uma recriação do mundo, que se completa e confirma com a descida do Espírito Santo (Jo 20,22). O episódio do evangelho de hoje acontece, então, no terceiro dia.

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Mestre, onde moras?

Um Mestre que chama

Frei Almir Guimarães

Terminados os dias da quadra do Natal começamos a viver o tempo comum na vida da Igreja. Aprofundaremos nossa fé cristã. Desejamos sinceramente ouvir o Mestre e ver como ele vive. Sentimos nitidamente que o Mistério de Deus nos convoca. Vocação, chamamento, convocação. Estamos vivendo na Igreja o tempo dos discípulos que se dispõem a sair, a serem Igreja em saída, gente que refaz de alguma forma em suas vidas a vida do Mestre, membros de uma Igreja extasiada pelo Mestre e cheia de bondade e compaixão, uma Igreja samaritana.

O episódio do pequeno Samuel no templo sempre nos toca. O Senhor havia chamado Samuel. O menino corre para saber se o apelo vinha de Eli. O Senhor se aproxima do menino uma última vez e Samuel responde: “Fala que teu servo escuta”. O texto afirma que Samuel crescia e não deixava cair por terra nenhuma das palavras do Senhor. Vocação. Seguimento. Escutar. Ter dispositivos interiores para captar o som da voz de Deus.

João, o Batista, tem discípulos a seu lado. São dois. Aponta-lhes Jesus, o Cordeiro que tira o pecado do mundo. Os dois discípulos começam a andar atrás dos passos de Jesus. Tempo de aquietação interior, tempo de discernimento, tempo de iluminação, tempo de busca?

Podemos encontrar neste trecho de João as coordenadas essenciais do seguimento. O que é decisivo para ser cristão?

É preciso, em primeiro lugar, buscar, não se acomodar, não se acostumar com as coisas da fé, não ir vivendo, empurrando a vida para frente. O importante não é buscar alguma coisa, mas buscar alguém.

Se um dia percebemos que a pessoa de Jesus nos toca é o momento de deixar-nos fascinar por ele. É preciso esquecer dúvidas e dogmas, esquemas e convicções teóricas. Quando isso acontece a pessoa tem a graça de compreender que havia vivido uma fé sem brilho, seca, árida.

Jesus pede que os discípulos o sigam. Que venham e vejam a maneira como ele vive. Trata-se de conviver com o Mestre.

Chamado, vocação, apelo. O ser humano vem do projeto de Deus. Seu corpo, seu espírito, suas potencialidades, suas possibilidades. Ser humano, ser gente: solidário, reto, atento aos outros, respeitar o outro, ser leal com os outros.

Vocação cristã. Sentimos que Jesus quer nos dar alegria de segui-lo. Estar perto dele. Fazer com que morra em nós o velho homem. Vocação evangélica: recolher os jogados à beira da estrada, ter um espírito livre de pequenas preocupações porque o Senhor que cuida dos lírios e dos pássaros haverá de cuidar de nós, construir a casa da vida sobre bases sólidas, lavando os pés dos outros, começando sempre de novo, como servos que não fazem mais do que sua obrigação.

Vocação missionária. Não existimos para nós mesmos. Alguém sussurra aos nossos ouvidos que somos sal da terra, fermento na massa e luz nas trevas. Tudo isso simplesmente com nossa vida de seguimento. Não queremos viver no fechamento.

Vocação para o casamento e para a vida familiar. Criar uma comunidade de vida e de amor. Juntar duas histórias, de um homem e de uma mulher e formar a Igreja do lar, sem carolice e devocionalismos vazios, mas histórias marcadas pelo Evangelho da doação, da mútua ajuda, do perdão, da oração. Vocação dos esposos que são pais e aos quais Deus confia a vida daqueles que nascem do mistério da vida.

Três pensamentos de José Antonio Pagola:

Quem se põe a caminho seguindo a Jesus começa a recuperar a alegria e a sensibilidade para com os que sofrem. Começa a viver com mais verdade e generosidade, com mais sentido e esperança. Quando a pessoa se encontra com Jesus tem a sensação de que começa a viver a vida a partir de sua raiz, pois começa a viver a partir de um Deus bom, mais humano, mais amigo e salvador que todas as nossas teorias. Tudo começa a ser diferente.

Jesus diz aos que o buscam: “Vinde e vede”. Fazei vos mesmo a experiência. Não busqueis informação de fora. Vinde viver comigo e havereis de descobrir como eu vivo, a partir de onde oriento minha vida, a quem me dedico e por que vivo assim.

É urgente que nós cristãos nos reunamos em pequenos grupos para aprender a viver ao modo de Jesus, escutando junto o Evangelho. Ele é mais atraente e digno de fé que todos nós. Pode gerar novos seguidores, pois ensina a viver de maneira diferente e interessante.

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A experiência do crente

José Antonio Pagola

Um grande número de pessoas está abandonando hoje a fé antes de tê-la conhecido a partir do interior. Falam às vezes de Deus, mas é fácil observar que não tiveram a experiência de encontrar-se com Ele no fundo de seu coração. Têm algumas ideias gerais sobre o credo dos cristãos. Ouviram falar de um Deus que proíbe certas coisas e que promete a vida eterna aos que lhe obedecem, mas não sabem muito mais.

É normal que essa ideia que as pessoas têm da fé não lhes seja atrativa. Não são capazes de ver o que poderiam ganhar crendo, nem o que poderia trazer-lhes o Evangelho, a não ser toda uma lista de obrigações, além dessa promessa tão longínqua e difícil de crer que é “a vida eterna”.

Não suspeitam que a fé do verdadeiro crente se alimenta de uma experiência que não se pode conhecer de fora. Como todo mundo, também os crentes sabem o que é o sofrimento e a desgraça. Sua fé não os dispensa dos problemas e dificuldades de cada dia. Mas, na medida em que a vivem a fundo, sua fé lhes traz uma luz, um estímulo e um horizonte novos.

Em primeiro lugar, o crente acolhe a vida dia a dia como dom de Deus. A vida não é puro azar; também não é um luta solitária diante das adversidades. No próprio âmago da vida existe Alguém que cuida de nós. Ninguém é esquecido. Somos seres aceitos e amados. Assim diz o místico alemão Mestre Eckhart: “Se desses graças a Deus por todas as alegrias que Ele te dá, não te restaria tempo para lamentar-te”.

O crente conhece também a alegria de saber-se perdoado. No meio de seus erros e mediocridade, pode viver a experiência da imensa compreensão de Deus. O crente não se sente melhor que os outros. Conhece o pecado e a fragilidade. Sua sorte é poder sentir-se renovado interiormente para começar sempre de novo uma vida mais humana.

O crente também conta com uma nova luz diante do mal. Não se vê libertado do sofrimento, mas sim da pena de sofrer em vão. Sua fé não é uma droga nem um tranquilizante diante das desgraças, mas a comunhão com o Crucificado lhe permite viver o sofrimento sem autodestruir-se nem cair no desespero.

Sempre me comoveu essa postura nobre do grande cientista ateu Jean Rostand. “Vós tendes a sorte de crer”, gostava ele de repetir a seus amigos cristãos. E acrescentava: “De uma coisa estou certo, é de que eu gostaria que Deus existisse”. Como é diferente hoje a postura dos que, mesmo ainda tendo fé em seu coração, descuidam dela até perdê-la de todo.

A cena evangélica nos apresenta uns discípulos interessados em conhecer melhor o mundo de Jesus. O Mestre lhes pergunta: “O que buscais?” e eles respondem: “Mestre, onde vives?” A resposta de Jesus é todo um programa: “Vinde e vede’: Não há receitas mágicas para reavivar a fé. O caminho é buscar, entrar em contato com Jesus e conhecer uma maneira nova de viver.

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Escutar Deus e seguir Jesus

Pe. Johan Konings

Depois da festa do Batismo do Senhor, que no Brasil substitui o 1º domingo do tempo comum, a liturgia dominical continua logo com o 2º. Mesmo sem querer, essa continuação é muito adequada: Jesus, logo depois de ser batizado por João Batista e tentado no deserto, chamou os primeiros discípulos. Segundo Jo, do qual se extrai o evangelho de hoje, foi dentre os discípulos do Batista que surgiram os primeiros seguidores de Jesus. O próprio Batista incentivou dois de seus discípulos a seguir Jesus, “o Cordeiro que tira o pecado do mundo”. Enquanto se põem a segui-lo, procurando seu paradeiro, Jesus mesmo lhes dirige a palavra: “Que procurais?” – “Mestre, onde moras”, respondeu. E Jesus convida: “Vinde e vede”. Descobrir o Mestre e poder ficar com ele tanto os empolga que um dos dois, André, logo vai chamar seu irmão Pedro para entrar nessa companhia também. E no dia seguinte, Filipe (o outro dos dois?) chama Nataniel a integrar o grupo.

A 1ª leitura aproxima disso o que ocorreu, mil anos antes, ao jovem Samuel, “coroinha” do sacerdote Eli no templo de Silo. Deus o estava chamando, mas ele pensava que fosse o sacerdote. Só na terceira vez, o sacerdote lhe ensinou que quem chamava era Deus mesmo. Então respondeu: “Fala, Senhor, teu servo escuta”.

“Vocação” e um diálogo entre Deus e a gente – geralmente por meio de algum intermediário humano. A pessoa não decide por si mesma como vai servir a Deus. Tem de ouvir, escutar, meditar. Que vocação? Para que serviço Deus ou Jesus nos chamam? Logo se pensa em vocação específica para padre ou para a vida religiosa. Mas antes disso existe a vocação cristã geral, a vocação para os diversos caminhos da vida, conduzida pelo Espírito de Deus, e da qual o Cristo é o portador e dispensador. Essa vocação cristã se realiza no casamento, na vida profissional, na política, na cultura etc. Seja qual for o caminho, importa ver se nele seguimos o chamado de Deus e não algum projeto concebido em função de nossos interesses próprios, às vezes contrários aos de Deus.

O convite de Deus pode ser muito discreto. Talvez esteja escondido em algum fato da vida, na palavra de um amigo… ou de um inimigo! Ou simplesmente nos talentos que Deus nos deu. De nossa parte, haja disposição positiva. Importa estar atento. Os discípulos estavam à procura. Quem não procura pode não perceber o discreto chamamento de Deus. A disponibilidade para a vocação mostra-se na atenção e na concentração. Numa vida dispersiva, a vocação não se percebe. E importa também expressar nossa disponibilidade na oração.: “Senhor, onde moras? Fala, Senhor, teu servo escuta”. Sem a vocação não tem vez.

Finalmente, para que a vocação seja “cristã”, é preciso que Cristo esteja no meio. Há os que confundem vocação com dar satisfação aos pais ou alcançar um posto na poderosa e supostamente segura instituição que é a Igreja. Isso não é vocação de Cristo. Para saber se é realmente Cristo que está chamando, precisamos de muito discernimento, para saber distinguir sua voz nas pessoas e nos fatos através dos quais ele fala.

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