Destaque, Notícias › 15/01/2019

2º Domingo do Tempo Comum

Só estará bom quando estiver para todo mundo

Frei Gustavo Medella

“Fui no pagode acabou a comida, acabou a bebida, acabou a canja. Sobrou pra mim, o bagaço da laranja” (Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz).

Este é o refrão da música “Bagaço da Laranja”, quase uma cantiga de roda em ritmo de pagode, com letra marcada pelo bom humor e pela poesia. Aborda o fato social de uma reunião festiva que tem a comida e a bebida como fortes fatores de
agregação. Acabou a comida, acabou a bebida, pode consequentemente acabar o pagode, acabar a festa. No episódio das Bodas de Caná, narrado por São João (Jo 2,1-11), a reunião festiva era por conta de um casamento e, se da comida nada se
comentou, a falta de vinho começava a colocar a festa em risco. Interessante a expressão utilizada pelo Evangelista quando diz: “A mãe de Jesus estava presente”. Maria não era uma convidada qualquer que ali estava apenas para usufruir
dos quitutes festivos, numa postura apenas de consumir e pensar no próprio bem-estar. Fazer-se presente significa ter uma atenção com o todo, perceber o movimento de maneira ampla e comprometer-se em fazer a sua parte para que festa
aconteça. Esta presença lhe dá a possibilidade de perceber a falta de vinho e de intervir junto a Jesus, de forma discreta mas contundente: “Eles não têm mais vinho (…) Fazei o que ele vos disser”.

Na Primeira Carta aos Coríntios (1Cor 12,4-11), São Paulo recorda que os dons do Espírito são distribuídos por Deus de forma gratuita e abundante em vista do bem comum. Maria encarna este compromisso e se faz presença atenta e preocupada com o bem de todos e não apenas com o seu. Certamente pensa consigo: “Só estará bom para mim quando estiver bom para todo mundo”! Oxalá o compromisso de Maria com o bem comum possa ser regra para cada um daqueles que se dizem cristãos, a começar por mim mesmo. “Senhor, a exemplo de Maria, peço-vos a coragem e a ousadia de estar cada vez mais comprometido com o bem comum”. Amém.


Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura (Is 62,1-5)

1Por amor de Sião não me calarei, por amor de Jerusalém não descansarei, enquanto não surgir nela, como um luzeiro, a justiça e não se acender nela, como uma tocha, a salvação.

2As nações verão a tua justiça, todos os reis verão a tua glória; serás chamada com um nome novo, que a boca do Senhor há de designar. 3E serás uma coroa de glória na mão do Senhor, um diadema real nas mãos de teu Deus.

4Não mais te chamarão Abandonada, e tua terra não mais será chamada Deserta; teu nome será Minha Predileta e tua terra será a Bem-Casada, pois o Senhor agradou-se de ti e tua terra será desposada.

5Assim como o jovem desposa a donzela, assim teus filhos te desposam; e como a noiva é a alegria do noivo, assim também tu és a alegria de teu Deus.

Responsório (Sl 95)

— Cantai ao Senhor Deus um canto novo, manifestai os seus prodígios entre os povos!

— Cantai ao Senhor Deus um canto novo, manifestai os seus prodígios entre os povos!

— Cantai ao Senhor Deus um canto novo,/ cantai ao Senhor Deus, ó terra inteira!/ Cantai e bendizei seu santo nome!

— Dia após dia anunciai sua salvação,/ manifestai a sua glória entre as nações,/ e entre os povos do universo seus prodígios!

— Ó família das nações, dai ao Senhor,/ ó nações, dai ao Senhor poder e glória,/ dai-lhe a glória que é devida ao seu nome!/ Oferecei um sacrifício nos seus átrios.

— Adorai-o no esplendor da santidade,/ terra inteira, estremecei diante dele! / Publicai entre as nações: “Reina o Senhor!”/ pois os povos ele julga com justiça.

Segunda Leitura (1Cor 12,4-11)

Irmãos: 4Há diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito.

5Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor.

6Há diferentes atividades, mas um mesmo Deus que realiza todas as coisas em todos.

7A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum.

8A um é dada pelo Espírito a palavra da sabedoria. A outro, a palavra da ciência segundo o mesmo Espírito. 9A outro, a fé no mesmo Espírito. A outro, o dom de curas no mesmo Espírito. 10A outro, o poder de fazer milagres. A outro,
profecia. A outro, discernimento de espíritos. A outro, falar línguas estranhas. A outro, interpretação de línguas.

11Todas estas coisas as realiza um e o mesmo Espírito, que distribui a cada um conforme quer.

Evangelho: Jo 2,1-11

Vida nova para os homens

* 1 No terceiro dia, houve uma festa de casamento em Caná da Galileia, e a mãe de Jesus estava aí. 2 Jesus também tinha sido convidado para essa festa de casamento, junto com seus discípulos.

3 Faltou vinho e a mãe de Jesus lhe disse: «Eles não têm mais vinho!» 4 Jesus respondeu: «Mulher, que existe entre nós? Minha hora ainda não chegou.» 5 A mãe de Jesus disse aos que estavam servindo: «Façam o que ele mandar.»

6 Havia aí seis potes de pedra de uns cem litros cada um, que serviam para os ritos de purificação dos judeus. 7 Jesus disse aos que serviam: «Encham de água esses potes.» Eles encheram os potes até a boca. 8 Depois Jesus disse: «Agora
tirem e levem ao mestre-sala.» Então levaram ao mestre-sala.

9 Este provou a água transformada em vinho, sem saber de onde vinha. Os que serviam estavam sabendo, pois foram eles que tiraram a água. Então o mestre-sala chamou o noivo 10 e disse: «Todos servem primeiro o vinho bom e, quando os
convidados estão bêbados, servem o pior. Você, porém, guardou o vinho bom até agora.»

11 Foi assim, em Caná da Galileia, que Jesus começou seus sinais. Ele manifestou a sua glória, e seus discípulos acreditaram nele. 12 Depois disso, Jesus desceu para Cafarnaum com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos. E aí ficaram
apenas alguns dias.


* 2,1-12: Segundo João, a primeira semana de Jesus termina com a festa de casamento em Caná. João relata este episódio por causa do seu aspecto simbólico: o casamento é o símbolo da união de Deus com a humanidade, realizada de maneira definitiva na pessoa de Jesus, Deus-e-Homem. Sem Jesus, a humanidade vive uma festa de casamento sem vinho. Maria, aliviando a situação constrangedora, simboliza a comunidade que nasce da fé em Jesus, e as últimas palavras que ela diz neste evangelho são um convite: «Façam o que Jesus mandar.» Jesus diz que a sua hora ainda não chegou, pois só acontecerá na sua morte e ressurreição, quando ele nos reconcilia com Deus.
Jesus utilizou a água que os judeus usavam para as purificações. Os judeus estavam cegos pela preocupação de não se mancharem, e sua religião multiplicava os ritos de purificação. Mas Jesus transformou a água em vinho! É que a religião verdadeira não se baseia no medo do pecado. O importante é receber de Jesus o Espírito. Este, como vinho generoso, faz a gente romper com as normas que aprisionam e com a mesquinhez da nossa própria sabedoria.
O episódio de Caná é uma espécie de resumo daquilo que vai acontecer através de toda a atividade de Jesus: com sua palavra e ação, Jesus transforma as relações dos homens com Deus e dos homens entre si.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Comentário de Frei Ludovico Garmus

Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, que governais o céu e a terra, escutai com bondade as preces do vosso povo e daiao nosso tempo a vossa paz”.

  1. Primeira leitura: Is 62,1-5
    A noiva é a alegria do noivo.

O texto que hoje ouvimos pertence à 3ª parte do livro do Profeta Isaías. O povo que estava no exílio (Is 40–55) havia retornado à sua terra, onde encontrou uma realidade dura e desanimadora. O profeta anônimo, em Is 56–66, procura reanimar-lhe a fé e a esperança do povo em Deus que nunca abandona seu povo. Os exilados esperavam encontrar uma terra disponível, fácil de ser reconquistada. Mas as terras dos antigos proprietários estavam ocupadas pela população mais pobre, que permanecera no país dominado pelos babilônios. Em consequência, surgiram muitos conflitos de ordem social, econômica e religiosa. Jerusalém, símbolo da união do povo, precisava ser reconstruída e seu culto, restaurado. Era urgente reunificar o povo. Para tanto, o profeta lança os alicerces da restauração. Reanima a fé no único Deus, a esperança na sua salvação e no seu amor fiel – “Por amor de Sião não me calarei… não descansarei, enquanto não surgir nela… a justiça e… a salvação”. A salvação passa pela prática justiça na sociedade humana. Deus é justo enquanto salva o pecador arrependido e pune quem não pratica a justiça. Isaías condenava as injustiças praticadas contra os pobres, especialmente, o órfão e a viúva (1,26-17). Sonhava com uma Jerusalém restaurada, que seria chamada “cidade da justiça, cidade fiel” (1,26-28). O profeta anônimo de nosso texto recorre à imagem de Deus como esposo de Israel (Jerusalém e seu povo), muito utilizada pelos profetas (cf. Os 2; Jr 2,2; Ez 16). De fato, os que ficaram na terra queixavam-se por Deus ter deixado Jerusalém abandonada, como viúva sem filhos (Lm 1,1). Os exilados, por sua vez, tinham sentimentos parecidos: “O Senhor me abandonou, meu Deus me esqueceu” (Is 49,14). O profeta anuncia que, agora, Deus vai retomar sua esposa Jerusalém junto com seus filhos: “Como a noiva é a alegria do noivo, assim também tu és a alegria de teu Deus”. – O vínculo principal que nos une a Deus e aos irmãos é o amor fiel, simbolizado pelo amor entre homem e mulher, e acompanhado pela prática da justiça.

Salmo responsorial: Sl 95

Cantai ao Senhor Deus um canto novo,

manifestai os seus prodígios entre os povos!

  1. Segunda leitura: 1Cor 12,4-11 

Estas coisas as realiza um e o mesmo Espírito,

que distribui a cada um conforme o seu querer.

Paulo escreve longamente aos cristãos recém-convertidos (1Cor 12–14), para explicar o valor e os limites destes dons do Espírito. Eles são uma decorrência do batismo de Jesus, superior ao de João Batista (cf. At 19,1-7). O Batista dizia que Jesus haveria de batizar “no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3,16). Aos que consideravam o próprio dom mais importante que o dos outros, Paulo explica: a) Os diferentes dons/carismas provêm do mesmo Espírito; b) são manifestações do Espírito, que devem resultar em serviços (ministérios) e atividades, em vista do bem comum; c) o Espírito distribui os seus dons “a cada um conforme quer”. Poderíamos dizer que o Noivo Jesus (1ª leitura e Evangelho) nos concede os dons do Espírito, não como diademas para embelezamento pessoal, mas como um avental, para melhor lavar os pés dos irmãos (cf. Jo 13).

Aclamação ao Evangelho: 2Ts 2,14 

O Senhor Deus nos chamou, por meio do Evangelho,

a fim de alcançarmos a glória de Cristo.

  1. Evangelho: Jo 2,1-11

Jesus realizou este início dos sinais em Caná da Galileia.

O evangelista João, após o prólogo (1,1-18), fala do batismo de João Batista, do testemunho que ele dá sobre Jesus e da vocação dos primeiros discípulos de Jesus (1,19-51). O Batista apresenta Jesus a seus discípulos: “Ele é o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. E acrescenta: ”Eu vi o Espírito Santo descer do céu em forma de pomba e permanecer sobre ele” (1,29.32). Mais tarde, sabendo que Jesus também batizava, João apresenta-o como o Cristo, o noivo que o povo de Deus esperava, e comenta: “Quem tem a noiva é o noivo. O amigo do noivo está presente e o ouve, muito se alegra com a voz do noivo. Pois é assim que minha alegria ficou completa” (3,29). No evangelho de hoje, o “noivo”, anunciado por João Batista, entra em cena no contexto de uma festa de casamento. Entre os convidados da festa estavam “a Mãe de Jesus”, Jesus e seus discípulos. Jesus participa com Maria e os discípulos da alegria do jovem casal, que celebra sua união de vida e amor. Os jovens festejam a fundação de sua nova família. No contexto desta alegre festa, Jesus celebra também o início de sua nova família. Ele é o noivo que vem ao encontro de sua noiva, o povo de Israel (cf. 1ª leitura). Desta nova família já fazem parte sua Mãe e os discípulos que “creram nele” (2,11; cf. 1,35-51). Maria avisa a Jesus que o vinho estava acabando, o que poderia comprometer a festa. A festa não podia acabar. O banquete e a abundância de vinho caracterizam os tempos escatológicos da vinda do Messias (Is 25,6-8; Am 9,11-15). Jesus parece esquivar-se diante da observação de Maria sobre o vinho: “Ainda não chegou a minha hora”. A “hora” de Jesus é sua exaltação, pela morte na cruz e sua gloriosa ressurreição, tratada em Jo 13–20. Maria, porém, apressa esta “hora” sugerindo o primeiro “sinal” de Jesus: “Fazei o que ele vos disser”. Os sinais/milagres são tratados em Jo 2–12 e preparam a “hora” de Jesus. As seis talhas que Jesus manda encher de água lembram os ritos de purificação dos judeus. Assim, a água transformada em vinho marca a superioridade de Jesus e de sua mensagem frente à Lei de Moisés. A presença do Messias caracteriza-se pela alegria de uma vida nova, como a do casal de noivos na festa de seu casamento. Jesus é o Messias, o Noivo que se une à sua noiva, Israel, doando-lhe o seu corpo e derramando seu sangue (vinho) na cruz, até a última gota (Jo 19,33-34). – É o que vamos celebrar agora na continuação da Missa. Na Eucaristia nos unimos a Jesus que deu sua vida por nós. Vamos pedir-lhe que nos conceda o dom de servi-lo (avental) em nossos irmãos.


Houve bodas em Caná da Galileia

Frei Almir Guimarães

Jesus distribui o “bom vinho” da felicidade prometida para os últimos tempos. Nunca é tarde para aprender a viver com mais profundidade. Aquele Jesus que iluminou com sua presença as bodas de Caná pode ensinar aos esposos cristãos a beber um “vinho ainda melhor” (José Antonio Pagola)

>> Caná da Galileia, uma minúscula aldeia da montanha situada a quinze quilômetros de Nazaré. O quarto evangelista descreve elementos e pormenores de uma festa de casamento. A cena tem um caráter claramente simbólico. Não se sabe o nome do esposo e da esposa. A figura central é Jesus. A história nos ensina que nas cidadezinhas do campo a festa de casamento tinha muita importância e durava alguns dias. Comida, bebida, festa, danças. Certamente muito vinho. A mãe de Jesus, de repente, se dá com que não havia mais vinho. Como é que os convidados poderiam continuar a cantar e dançar sem essa bebida que alegra o coração do homem. Jesus aceitará de colocar ali o “primeiro sinal” que aponta para o Reino que ele vem instaurar conosco e para o bem da humanidade.

>> O tema da novidade e da alegria perpassa a narração. Com a falta de vinho falta alegria naquela festa e na festa do mundo. Ao transformar a água em vinho Jesus traz alegria. Havia na casa jarrões de barro com água para os ritos purificatórios dos judeus. Aquela água é transformada em vinho. O antigo fica novo. Jesus é a novidade. Encerrou-se um modo de estar com Deus e de adotar comportamentos legais. Os que quiserem viver a festa da vida serão aqueles que haverão de sorver do vinho novo que é Jesus.

>> Bodas, festa, intimidade dos esposos, amor esponsal. Fundamental que nossos relacionamentos com o Senhor se revistam de respeito, mas também de carinho e de intimidade. A primeira leitura da liturgia desse domingo, tirada de Isaías, coloca nos lábios de Deus palavras de imensa ternura: “Não mais te chamarão de Abandonada, e a tua terra não mais será chamada Deserta; teu nome será minha Predileta e tua terra será a Bem-Casada, pois o Senhor agradou-se de ti e a tua terra será desposada. Assim como o jovem desposa a donzela, assim teus filhos te desposam; e como a noiva é a alegria do noivo, assim tu também é a alegria de teu Deus”. Linguajar amoroso. Não deveríamos todos alimentar e nutrir com o Senhor um relacionamento esponsal.

>> Nota-se no texto de João uma intervenção de Maria. A mulher é sempre mais atenta aos detalhes de uma recepção. Ela vai dizer ao Filho que o vinho tinha acabado. João, é claro, insinua que se trata do vinho da felicidade dos filhos de Deus com o Pai. Essa água transformada em vinho lembra o momento da chegada da hora de Jesus. Quando ele derramar seu sangue rubro como o vinho poderá acontecer a felicidade para o buscarem com coração sequioso e humilde. Retemos em nosso ouvidos uma palavra de Maria na ocasião: “Fazei o que ele vos disser”. Não é esta a missão da Mãe do Senhor e nossa Mãe a nos repetir: “Façam tudo o que meu filho mandar”?

>> A leitura do episódio das Bodas de Caná nos leva a pensar nos casamentos de hoje e de todos os tempos. A cada momento entram por nossos olhos cenas conjugais. Desde pequenos estivemos presenciando o amor de nosso pais. Delicadezas, serviços prestados, mãos dadas e corações unidos. Os verdadeiros casais se unem pelos laços do bem querer. Num determinado homem e mulher se escolhem com discernimento e livremente. Fazem-no com um desejo e empenho do para sempre. Um bem-querer irresistível deles toma conta e se entregam mutuamente para a aventura (ou ventura) da conjugalidade e da paternidade. Alguns se unem de qualquer forma e não conseguem viver um grande amor. Ficam nos prolegômenos. Outros, mesmo sem viverem uma fé religiosa, se unem na solidez do dom mútuo. O mundo precisa de homens e mulheres que saibam o que estão fazendo quando se casam.

>> Os cristãos começam sua vida a dois com a celebração do sacramento do matrimônio. O amor conjugal cristão pretende ser uma “propaganda” do amor de Deus pela humanidade. Pagola coloca na boca dos noivos as razões e o sentido do sacramento: “É isto que os noivos querem dizer: ‘Nós nos amamos com tal verdade e fidelidade, com tanta ternura e entrega, de maneira tão total, que nos atrevemos a apresentarmos nosso amor como ‘sacramento’, isto é, sinal do amor que Deus nos tem. Daí em diante, quando virdes como nos amamos podeis intuir, ainda que seja de maneira deficiente e imperfeita como Deus vos ama” ( Pagola, João, p.55).

>> Esposo e esposa, dois buscadores das estrelas, dois ardorosos discípulos do Senhor. O amor íntimo que eles celebram e desfrutam, os gestos de carinho e de ternura que trocam entre si, a fidelidade que vivem dia a dia, tudo tem para eles um caráter sacramental, de símbolo, de sinal. Eles experimenta a proximidade de Deus em suas vidas e são “propaganda viva” do amor de Deus.

Texto para reflexão

O matrimônio é um sinal precioso quando um homem e uma mulher celebram o sacramento do matrimônio, Deus, por assim dizer “espelha-Se” neles, imprime neles as características e o caráter indelével de seu amor. O matrimônio é o ícone do amor de Deus por nós. Com efeito, também Deus é comunhão: as três pessoas – Pai, Filho e Espírito Santo – vivem desde sempre e para sempre em unidade perfeita. É precisamente nisto que consiste o mistério do matrimônio: dos dois esposos Deus faz uma só existência. Isto tem consequências muito concretas na vida do dia a dia, porque em virtude do sacramento, os esposos são investidos de uma autêntica missão, para que possam tornar visível, a partir das realidades simples e ordinárias, o amor com que Cristo ama a Igreja, continuando a dar a vida por ela.

Papa Francisco, Amoris Laetitia, n. 121


Vinho bom

José Antonio Pagola

Jesus sempre foi conhecido como o fundador do cristianismo. Hoje, porém, começa a surgir outra atitude: Jesus é de todos, não só dos cristãos. Sua vida e sua mensagem são patrimônio da humanidade.

Ninguém no Ocidente teve um poder tão grande sobre os corações. Ninguém expressou melhor do que Ele as inquietações e interrogações do ser humano. Ninguém despertou tanta esperança. Ninguém comunicou uma experiência tão salutar de Deus, sem projetar sobre Ele ambições, medos e fantasmas. Ninguém aproximou-se da dor humana de maneira tão profunda e entranhável. Ninguém abriu uma esperança tão firme diante do mistério da morte e da finitude humana.

Dois mil anos nos separam de Jesus, mas sua pessoa e sua mensagem continuam atraindo muitas pessoas. É verdade que Ele interessa pouco em alguns ambientes, mas também é certo que a passagem do tempo não apagou sua força sedutora nem amorteceu o eco de sua palavra.

Hoje, quando as ideologias e religiões experimentam uma crise profunda, a figura de Jesus escapa de toda doutrina e transcende toda religião, para convidar diretamente os homens e mulheres de hoje para uma vida mais digna, feliz e
esperançosa.

Os primeiros cristãos experimentaram Jesus como fonte de vida nova. Dele recebiam um sopro diferente para viver. Sem Ele tudo se tornava de novo seco, estéril e apagado para eles. O evangelista João redige o episódio do casamento em Caná
para apresentar simbolicamente Jesus como portador de um “vinho bom”, capaz de reavivar o espírito.

Jesus pode ser hoje fermento de nova humanidade. Sua vida, sua mensagem e sua pessoa convidam a inventar novas formas de vida proveitosa. Ele pode inspirar caminhos mais humanos numa sociedade que busca o bem-estar afogando o espírito e matando a compaixão. Ele pode despertar o gosto por uma vida mais humana em pessoas vazias de interioridade, pobres de amor e necessitadas de esperança.


Nosso casamento com Deus

Pe. Johan Konings

Entre Deus e o povo do Antigo Testamento, Israel, existia um pacto, uma aliança, como se fosse um casamento. Mas Israel foi infiel: por causa de presumidas vantagens materiais, correu atrás dos deuses dos povos pagãos. Isso se chama prostituição. O resultado foi que Israel caiu nas mãos desses estrangeiros. Foi levado ao cativeiro, na Babilônia: era o seu castigo. Mas agora, o profeta anuncia, em nome de Deus, a salvação. Deus vai acolher de novo sua esposa infiel, proclama a 1ª leitura.

No evangelho, Jesus, introduzido por sua mãe, torna-se presente numa festa de casamento. Na Palestina, quem oferecia a festa de casamento era o próprio noivo; mandava e desmandava. Mas, no fim da festa, sem que os convidados e nem mesmo o noivo se deem conta, Jesus toma o comando e faz servir, milagrosamente, o “vinho melhor”. É ele o verdadeiro esposo do fim dos tempos, oferecendo a abundância do vinho da alegria a quantos comparecem à sua festa (cf. Jl 14,18; Am 9,13).

Nós sentimos dificuldade em conceber a vida cristã como um casamento. Talvez porque hoje é difícil conceber um casamento de verdade … Casamento é questão de fé e de compromisso. A alegria da união amorosa para sempre não é fruto apenas de sentimentos espontâneos. Devemos crer que nossa fidelidade a Deus e Jesus Cristo é duradoura aliança de amor, que nos proporciona felicidade mais profunda do que o mais perfeito matrimônio. E para isso precisamos nos deixar amar, gostar de que Deus goste de nós. Então faremos tudo para sermos amáveis para Deus e para os seus filhos. E isso não só individualmente, mas antes de tudo como povo, como comunidade.

Será que fazemos o necessário para que a comunidade dos fiéis seja uma noiva radiante para Cristo? Quando vivermos realmente o que Cristo nos ensina, não há dúvida que a fé e comunidade cristã serão uma alegria, um preparar-se para corresponder sempre melhor a amor que Cristo nos testemunhou. Na dedicação aos nossos irmãos encarnamos o nosso amor e afeição a Cristo, que é fiel para sempre.

WP Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com