Destaque, Notícias › 27/10/2013

30° domingo do Tempo Comum

fariseu_publicano3Acompanhe abaixo a reflexão do Pe. Emmanuel Araújo, SJ, sobre o 30° domingo do Tempo Comum.

“Só o humilde pode rezar de verdade”

Diante dessa parábola, fui surpreendido pela pergunta: Quem é o fariseu e quem é o publicano, no meu coração? Certamente cada um de nós tem um pouco de cada… A parábola é fascinante e, a princípio, causa estranheza: um homem justo e piedoso é condenado e um desprezado pecador público é acolhido e justificado!No tempo de Jesus, os piedosos rezavam três vezes ao dia (9, 12 e 15h), e acreditavam que a oração era mais eficaz, se feita no Templo. E aí estão, entre tantos outros, esses dois homens: um fariseu e um publicano.O Fariseu é o exemplo da pessoa justa, que observa a Lei em todos os seus detalhes e vive todos os preceitos à risca. Seria o modelo do orante perfeito, pois pode se apresentar diante de Deus sem receio, consciente de que não o desagrada em nada. Ele também pode se apresentar assim diante dos outros, que devem viver do seu modo, e se separa dos que não o fazem: fora de sua maneira de interpretar e viver a Lei, não existe salvação.A questão é: ele cumpre os preceitos e dá o dízimo ao tesouro do Templo, e, assim, está bem consigo e acha que está bem com Deus. Mas é uma maneira bem infeliz de achar que está bem com Deus, que, na verdade, não o deixa bem nem consigo mesmo.

Diante desse homem, perguntamos: Onde estão a vida e o amor? Ele considera que cumprir a Lei o aproxima de Deus, e afasta-se daqueles que agem diferente dele para honrar a Deus. Mas Deus ensina que quem se aproxima dele é quem vibra pela justiça, pelo amor, pela vida, como ele e Jesus o fazem. Ou seja, quem não toca o irmão, não toca a Deus (Mt 25, 31-46).

Assim, o Fariseu confunde virtude com o fato de polir sua imagem e gozar de boa reputação. E, por isso, afasta de si o outro, porque sua boa reputação não lhe permite misturar-se com pessoas não tão perfeitas quanto ele: “Eu não sou como esse publicano…”

Na primeira leitura, o que é dito sobre Deus, que não faz acepção de pessoas e que faz justiça aos pequenos, está em oposição à maneira como os poderosos e autossuficientes querem justificar-se diante dele, com sacrifícios vazios. Deus não se deixa manipular: não é pelos sacrifícios oferecidos nem pelas leis cumpridas que ele nos acolhe; é simplesmente porque ele é puro amor, gratuidade e misericórdia e, a ele, agrada e alegra acolher corações simples, humildes e arrependidos, pessoas capazes de tocar a carne dos outros com amor, e que também se deixam tocar.

A oração do Fariseu não é verdadeira, porque ele ora para si mesmo: “obrigado porque eu faço… porque eu sou… porque eu não sou…”. Ele se basta; não toca o outro e nem se deixa tocar pelo outro e, por isso, não toca a Deus e não se deixa tocar por Deus.

A verdadeira oração é oferecida a Deus e somente a Deus, em um despojamento total de si, da parte do orante. O verdadeiro orante é quem se reconhece pobre diante de Deus, e lhe estende as mãos, vazias, para receber tudo dele. Ele está convencido de que tudo é graça, de que ele nada pode, e de que Deus é a fonte de todos os dons. A única coisa que ele oferece a Deus é o seu nada, a sua pobreza e, totalmente despojado, acolhe o que Deus lhe der, mesmo que essa dádiva seja o silêncio total de Deus.

Esse é o publicano: um cobrador de impostos, que ajudava o Império Romano a oprimir o povo e se enriquecia com esta prática. Os cobradores de impostos eram desprezados, considerados pecadores e impuros. Mas esse homem foi a Deus e se reconheceu em sua pequenez, confiando-se todo a ele: “Deus, sê bondoso comigo, que sou o pecador”.

Dizia um autor: “o Senhor não nos perguntará nunca o quanto exitosos fomos em superar um vício, um pecado ou imperfeição particular… êxito e fracasso são acidentais. A alegria do cristão não está nunca fundamentada em seu êxito religioso pessoal, mas na certeza de que seu Redentor vive” (Adrian van Kan, Religion and personality).

O caminho do Evangelho é o caminho de descida (Fil 2, 5-11). É descer até as profundezas da humildade, reconhecendo a própria fraqueza e pedindo a Deus a Graça da Santificação: “a minha graça te basta; o meu poder manifesta-se plenamente na fraqueza, … pois quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12, 9-10).

A força da oração que santifica se dá na medida em que nos esvaziamos e damos espaço para o Espírito agir e nos santificar: “O Publicano, mantendo-se à distância, nem mesmo queria levantar os olhos para o céu, mas batia no peito dizendo: “Meu Deus, tem compaixão de mim que sou pecador!” Eu vos declaro, que este desceu para casa justificado, mas o outro não, porque todo homem que se eleva será rebaixado, mas quem se rebaixa será elevado”.

Assim: O orgulhoso não pode rezar, porque só se chega a Deus prostrado e com reverência (Indiana Jones e a última cruzada: “Só o homem penitente passará…” – “O homem penitente se ajoelha”…)

Quem despreza o outro pode rezar, porque só se toca Deus, tocando o irmão (Mt 25, 31-46). Só toca a Deus quem se ajoelha junto com outro, nunca de cima.

Só reza quem se despoja totalmente de si, coloca sua segurança em Deus e se deixa tocar por ele. Só o humilde reza de verdade.Enfim, fica a pergunta: Quem é o fariseu e quem é o publicano, no meu coração?

Fonte: Pe. Emmanuel Araújo, sj

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