Destaque, Notícias › 26/10/2018

30º Domingo do Tempo Comum

Deus se cerca de nossas fraquezas

Frei Gustavo Medella

Um sacerdote compassivo porque cercado de fraquezas. Reconhecer e enxergar os próprios pontos fracos é atitude que aproxima o ser humano de Deus e o qualifica para a tolerância, o respeito, a empatia e a compaixão. Ao contrário, fechar-se no orgulho e na cegueira da própria vaidade leva a pessoa a uma postura de ódio, egoísmo e desprezo pelo outro. Jesus Cristo, embora sem pecado, desejou estar cercado de fraquezas – as nossas – e tornou-se modelo de compaixão.

Saber identificar-se com a dor do outro como se fosse sua, sempre procurar um meio criativo de servir, de colocar-se à disposição de quem precisa. O cego mendigo, também cercado de fraquezas – as suas e as do que o desprezam – enxerga Jesus com os olhos do coração e n’Ele encontra a luz da acolhida, da fraternidade e da inclusão.

Recebe a graça que tanto buscava. Passa a enxergar. Adquire autonomia e, na liberdade de sua escolha, decide seguir Aquele que lhe restituirá a vista. Siga em paz, Bartimeu! Obrigado pelo exemplo de perseverança que você nos deixou. Ajude-nos a vencer nossas cegueiras e a nos decidirmos com firmeza pelo seguimento de Cristo.

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Leituras deste 30º Domingo do TC

Primeira Leitura (Jr 31,7-9)

Leitura do Livro do Profeta Jeremias

7Isto diz o Senhor: “Exultai de alegria por Jacó, aclamai a primeira das nações; tocai, cantai e dizei: ‘Salva, Senhor, teu povo, o resto de Israel’.

8Eis que eu os trarei do país do Norte e os reunirei desde as extremidades da terra; entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes: são uma grande multidão os que retornam.

9Eles chegarão entre lágrimas e eu os receberei entre preces; eu os conduzirei por torrentes d’água, por um caminho reto onde não tropeçarão, pois tornei-me um pai para Israel, e Efraim é o meu primogênito”.

Responsório (Sl 125)

— Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria!
— Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria!
— Quando o Senhor reconduziu nossos cativos,/ parecíamos sonhar;/ encheu-se de sorriso nossa boca,/ nossos lábios, de canções.
— Entre os gentios se dizia: “Maravilhas/ fez com eles o Senhor!”/ Sim, maravilhas fez conosco o Senhor,/ exultemos de alegria!
— Mudai a nossa sorte, ó Senhor,/ como torrentes no deserto./ Os que lançam as sementes entre lágrimas,/ ceifarão com alegria.
— Chorando de tristeza sairão,/ espalhando suas sementes;/ cantando de alegria voltarão,/ carregando os seus feixes!


Segunda Leitura (Hb 5,1-6)

Leitura da Carta aos Hebreus:

1Todo sumo-sacerdote é tirado do meio dos homens e instituído em favor dos homens nas coisas que se referem a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados.

2Sabe ter compaixão dos que estão na ignorância e no erro, porque ele mesmo está cercado de fraqueza. 3Por isso, deve oferecer sacrifícios tanto pelos pecados do povo, quanto pelos seus próprios.

4Ninguém deve atribuir-se esta honra, senão o que foi chamado por Deus, como Aarão.

5Deste modo, também Cristo não se atribuiu a si mesmo a honra de ser sumo-sacerdote, mas foi aquele que lhe disse: “Tu és o meu Filho, eu hoje te gerei”. 6Como diz em outra passagem: “Tu és sacerdote para sempre, na ordem de Melquisedec”.


O verdadeiro discípulo

Evangelho: Mc 10, 46-52

* 46 Chegaram a Jericó. Jesus saiu de Jericó, junto com seus discípulos e uma grande multidão. Na beira do caminho havia um cego que se chamava Bartimeu, o filho de Timeu; estava sentado, pedindo esmolas. 47 Quando ouviu dizer que era Jesus Nazareno que estava passando, o cego começou a gritar: «Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!» 48 Muitos o repreenderam e mandaram que ficasse quieto. Mas ele gritava mais ainda: «Filho de Davi, tem piedade de mim!» 49 Então Jesus parou e disse: «Chamem o cego.» Eles chamaram o cego e disseram: «Coragem, levante-se, porque Jesus está chamando você.» 50 O cego largou o manto, deu um pulo e foi até Jesus. 51 Então Jesus lhe perguntou: «O que você quer que eu faça por você?» O cego respondeu: «Mestre, eu quero ver de novo.» 52 Jesus disse: «Pode ir, a sua fé curou você.» No mesmo instante o cego começou a ver de novo e seguia Jesus pelo caminho.


* 46-52: O último milagre de Jesus é uma cura significativa. Ele não abre apenas os olhos do cego, mas também o coração. E o cego curado reconhece Jesus como o Messias (filho de Davi). E, com mais coragem do que Pedro (8,32) e do que o homem rico (10,22), segue a Jesus no caminho para a morte. Desse modo, Bartimeu torna-se o modelo do verdadeiro discípulo.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


30º Domingo do Tempo Comum, ano B

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade e dai-nos amar o que ordenais para conseguirmos o que prometeis”.

1. Primeira leitura: Jr 31,7-9

Os cegos e aleijados, suplicantes, eu os receberei.

O profeta Jeremias era de Anatot, um vilarejo da tribo de Benjamim, a 7km de Jerusalém, pertencente ao antigo reino de Israel. Quando sua capital foi destruída pelos assírios, muitos israelitas se refugiaram no reino de Judá. Jeremias foi chamado a ser profeta cem anos depois, durante o reinado de Josias. Neste tempo Judá se tornou um reino independente e reconquistou grande parte do território até então dominado pelo decadente Império Assírio. À luz desses acontecimentos, em nome de Deus, Jeremias conclama os ouvintes a cantarem um cântico de suplicante alegria: “Salva, Senhor, teu povo, o resto de Israel”. Mas é um resto que põe sua esperança no socorro divino: Entre eles, por um lado, há cegos e aleijados que representam um povo abatido, salvo por Deus; por outro lado, mulheres grávidas e as que já deram à luz, portanto, promessas de uma vida nova. É uma verdadeira multidão, chorando de alegria no retorno à sua terra. Ali os espera Deus, pai amoroso de Israel, para abraçá-los como a um filho primogênito.

A liturgia de hoje nos apresenta Cristo como o verdadeiro restaurador de Israel, aquele que traz a salvação para todos. A cura do cego de Jericó revela o amor de Deus para com todos, especialmente os mais pobres e desprotegidos. Bartimeu representa os “cegos e aleijados” de Jeremias, os pobres ameaçados em sua vida. (Evangelho).

Salmo responsorial: Sl 125

Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria.

2. Segunda leitura: Hb 5,1-6

Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec.

Domingo passado a Carta aos Hebreus falava do sacerdócio de Jesus como superior ao do sumo-sacerdote judaico. Cristo é o sumo-sacerdote, o sumo pontífice por excelência porque faz a ponte entre Deus e a humanidade. O texto de hoje continua o pensamento. Como sumo-sacerdote, Jesus tem compaixão de seu povo e se oferece em sacrifício por todos. Foi o próprio Deus que o escolheu como sumo-sacerdote ao dizer: “Tu és meu Filho, eu hoje te gerei”. O Filho de Deus assume a nossa humanidade pela encarnação. Fez-se solidário com toda a humanidade em tudo, menos no pecado, por isso é capaz de compadecer-se de nossas fraquezas. Em Jesus de Nazaré é o próprio Filho de Deus que se vem até nós, para nos aproximar do Pai e conceder-nos a graça de sua misericórdia.

Aclamação ao Evangelho

Jesus Cristo, Salvador, destruiu o mal e a morte;
fez brilhar, pelo Evangelho, a luz e a vida imperecíveis.

3. Evangelho: Mc 10,46-52

Mestre, que eu veja!

Há mais de dois meses estamos ouvindo trechos do evangelho de Marcos. Eles fazem parte dos ensinamentos de Jesus aos discípulos e ao povo, durante a viagem da Galileia para Jerusalém. Esta viagem começa após a cura, em dois tempos, do cego de Betsaida (Mc 8,21-26) e termina após a cura de outro cego, em Jericó. No início da viagem Jesus havia perguntado quem o povo e os discípulos diziam que ele era. Pedro confessou que Jesus é o Cristo, isto é, o Ungido do Senhor, que todos esperavam. A partir daí Jesus começa a ensinar, sobretudo, aos discípulos. O ponto fundamental do ensinamento era que o Filho do Homem (Jesus) seria entregue aos sumos sacerdotes e condenado à morte. Pedro contestou a Jesus por pensar assim, mas foi severamente repreendido pelo Mestre (Mc 8,31-33). Jesus ensina também que seus discípulos deveriam seguir seu exemplo, abraçar a própria cruz e estar dispostos a perder sua vida por amor a Cristo e pelo Evangelho. O anúncio da paixão repetiu-se mais duas vezes, sempre seguido por um ensinamento aos discípulos e ao povo. Mas enquanto Jesus falava do Reino de Deus como um serviço de amor, eles buscavam o poder e discutiam entre si quem deles seria o maior no reino, em Jerusalém. Estavam surdos à mensagem de Jesus e precisavam ser curados de sua cegueira.

O Evangelho de hoje mostra Jesus saindo de Jericó para a última etapa da viagem a Jerusalém, acompanhado pelos “discípulos e uma grande multidão”. Os discípulos planejavam aclamar Jesus como rei, o Messias filho de Davi. Mas havia um cego que pedia esmolas à beira da estrada. Ouvindo que era Jesus que passava, ele começou a gritar com insistência: ”Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim”! As pessoas ao seu redor mandaram que se calasse. Para eles, o plano de aclamar Jesus como rei era mais urgente. Não podia ser interrompido por um pedinte cego. Jesus, porém, escutou os gritos do cego, parou e mandou chamá-lo. Só então o povo se solidariza com Bartimeu e diz: “Coragem, levanta-te, Jesus te chama”! E o cego larga o manto de pedinte e de um salto chega até Jesus. Para testar a fé do cego Jesus lhe pergunta: “O que queres que eu te faça”? O cego responde: “Mestre, que eu veja”! Como em outros milagres, Jesus lhe diz: “Vai, a tua fé te curou”. Ao ser curado, Bartimeu experimentou a misericórdia de Deus. Sentiu que Jesus o chamava como seu discípulo e pôs-se a segui-lo pelo caminho. Jesus curou sua cegueira física e abriu-lhe os olhos da fé. Os discípulos, no entanto, continuavam cegos, apesar de todos os ensinamentos recebidos entre as duas curas de cegos. Pedro confessou que Jesus era o Cristo, mas, como outros apóstolos, continuava cego ao seu projeto de Messias, Servo Sofredor. O cego clamou a Jesus, filho de Davi, e viu nele o Messias Salvador misericordioso, capaz de compadecer-se dos sofredores.

Na primeira parte da Missa Jesus nos alimentou com os fartos alimentos de seus ensinamentos. Agora, na Mesa da Eucaristia, Cristo quer nos alimenta com seu amor. Peçamos-lhe que cure nossa cegueira e abra os olhos de nossa fé, para podermos segui-lo sempre como discípulos.

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Cegueira física, cegueira espiritual

Frei Clarêncio Neotti

Não foi a única vez que jesus curou um cego (Mc 8,22-26; Lc 7,21; Jo 9). Quando ele apresentou as características do Reino messiânico (Lc 4,18; 7,22; Mt 11,5), citando Isaías (35,5), falou dos cegos que passariam a ver. A cegueira era frequente na Palestina. Talvez por causa do clima tórrido. Havia muitas doenças de olhos e nenhuma esperança de cura. Os cegos tornavam-se mendigos à beira da estrada, símbolo do desespero e da necessidade.

Muitas vezes a Bíblia fala também da cegueira espiritual, causada pelo pecado (Jo 12,40), pelo ódio (Jo 2,11), pela indiferença (Ap 3,17), pela ignorância (Rm 2,19), pelo orgulho (Mt 15,14).

O profeta Isaías compara o povo pecador e injusto a um bando de cegos: “Aguardamos ansiosamente a luz, e só temos trevas; ansiamos pelo romper do dia, e só andamos na escuridão; como cegos apalpamos a parede, andamos tateando como se não tivéssemos olhos; tropeçamos em pleno meio-dia e vivemos como mortos em cemitérios” (Is 59,9-10). A esse povo cego, Jesus veio abrir os olhos e manifestar-se como “luz do mundo” (10 8,12): “Eu vim como luz do mundo, para que todo aquele que crê em mim não fique nas trevas” (Jo 12,46). Para isso Jesus pôs algumas condições.

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Mestre, eu quero ver!

Frei Almir Guimarães

Eis que eu os trarei do país do Norte e os reunirei desde as extremidades da terra; entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e parturientes; são uma grande multidão os que retornam (Jr 31, 8).

Um cego, um pobre ser, pés no chão, beirada da roupa enlameada,  cabelos desgrenhados, jogado, estressado.    Bartimeu  ouvira falar da fama de Jesus e agora escuta dizer que  esse personagem vai  passar. Grita: “Filho de Davi, tem compaixão de mim!”.  Estamos  no tema dificuldade de enxergar, da cegueira.  Cegueira  dos olhos do rosto ou da visão interior, da fé?  A  cura do cego de  Jericó é um convite a que todos  mudemos nossa vida, enxerguemos melhor o  caminho da vida.

“O que queres que eu te faça?  Respondeu o cego: Mestre, eu quero ver!

Muita gente em cena. O cego  toma a dianteira.  Quer a atenção de Jesus.  Não perde tempo. Grita. Os circunstantes  pedem que ele se cale, que não incomode.  “Filho de Davi, tem compaixão de mim”. “O cego não sabe recitar orações feitas pelos outros.  Só sabe gritar e pedir compaixão, porque se sente mal. Este grito humilde e sincero, repetido do fundo do coração, pode ser o começo de uma vida nova.  Jesus não passará ao largo” (Pagola, Marcos, p. 218).

Jesus insiste que todos parem.  Se há o grito de alguém exprimindo sofrimento é preciso parar, dar atenção, não deixar que a rotina torne insossa nossa vida. Prestar atenção na vida.

O evangelista Marcos, ao relatar-nos a cura de Bartimeu, descreve-a com três traços que caracterizam bem o “homem acabado”. Bartimeu é um homem “cego”, ao qual falta luz e orientação.  Está “sentado”, incapaz de dar mais paços.  Encontra-se à beira do caminho, desencaminhado, sem trajetória de vida” ( Pagola, Marcos, p.222).

A vida é uma viagem, um caminhar com outros, na tentativa de tirar de nosso interior o melhor que temos lá escondido, enterrado, ainda desconhecido.  Somos maravilha e fragilidade. Alcançamos as estrelas e chafurdamo-nos na lama.  Somos quase santos de um lado, e de outro,  compactuamos com o mal.  Precisamos enxergar  claro o caminho.

Caminho, caminhar, andar, percorrer sendas e estradas.  O cristianismo, em seus primórdios, foi definido como caminho.  Os cristãos fazem do jeito de viver de Jesus o caminho de suas vidas.  Importante ver o caminho.

O que é ser homem? Ser mulher?  Por que essa atração? Para onde nos leva?  Os que enxergam sabem que homem e mulher são feitos para um companheirismo delicado, sempre revisto, refeito,  reorientado. A maturidade humana e a fé fazem que se enxergue o casamento como lugar de realização, vivência de um amor que liberta,  ponto nascedouro da vida de outros filhos de Deus  O cego pensa num contrato.  Não vê o homem e mulher para além de suas aparências.

Essas mãos, esses pés, essa inteligência… para que?  Para seguir as leis do mercado e do consumo?  Para agir mecanicamente?  Ou talvez o trabalho possa ser clareado com uma luz e  nos possa fazer compreender que  nos realiza quando colocamos  nele amor, espírito de serviço,  vontade de fazê-lo e realiz­á-lo da melhor maneira para que os outros sejam felizes: guiar um ônibus com eficiência e cortesia, cobrir os buracos da calçada para ninguém venha a se machucar,  inventar uma nova droga que possa prevenir o câncer.  Caminhar com as mãos, os pés, a inteligência ao clarão de uma luz nova.

Esse negativo da vida, essa doença que limita,  esses insucessos na condução da vida… tudo o que nos desagrada.  É possível enxergar alguma luz no percurso desses caminhos?  A fé talvez nos peça que compreendamos que o grão morre para dar fruto… que a vida se esconde na morte…Quem puder compreender que compreenda.

Nós, homens e cristãos desse inicio do século XXI, não estamos enxergando claramente nosso caminho.   Precisamos que o Senhor nos mostre caminhos.  Respiramos rotina, indiferença,  ritos religiosos mais ou menos mecânicos,  violência…não sabemos o que vamos dizer aos jovens,  nossos casamentos não irradiam uma profunda felicidade, vivemos tédio e entretemo-nos as  novas técnicas eletrônicas vendo a banda passar…

“Os valores que  Jesus propõe como capazes de  levar o ser humano ao máximo desenvolvimento não deixam de ser, à primeira vista, desconcertantes: perdão frente à violência, partilhar em vez de acumular,  cooperar em vez de competir, ser austeros e não consumistas, amar sem esperar retorno, dar a vida em vez de girarmos bobamente em torno de nós mesmos”  (Pedro José Gómez Serrano).  Mal futuro nos espera  se os valores da partilha, da compaixão e da ternura  não forem capazes de  complementar os valores da competência, acumulação e da eficiência.

Precisamos ver claro.  Precisamos de luz.  Precisamos nos abrir ao Espírito que veio ao mundo em formas de línguas de fogo, portanto de luz.

Quando Jesus chamou de volta o cego este jogou o manto para longe, despiu-se das coisas velhas, deu um salto, ressurgiu das cinzas…

Senhor que eu possa ver!

Oração

Jesus,
vivo duvidando e tu me dizes: confia.
Tenho medo e me dizes: ânimo.
Prefiro estar só e me dizes: segue-me.
Faço meus planos e me dizes: deixa-os.
Agarro-me às minhas coisas e me dizes: desprende-te.
Quero viver e me dizes: dá tua vida.
Quero ser bom e me dizes: não basta.
Quero mandar e me dizes: põe-te a servir.
Desejo compreender e me dizes: crê.
Busco clareza e me falas em parábolas.
Quero poesia e me falas da realidade.
Desejo tranquilidade e me deixas inquieto.
Quero violência e me falas de paz.
Busco tranquilidade e vens trazer fogo à terra.
Quero ser grande e me dizes:  sê como uma criança.
Quero esconder-me e me dizes: sê luz.
Quero ser visto e me dizes: reza no oculto.
Não te entendo Jesus.
Tu me desconcertas e me atrais.
Só tu tens palavras de vida eterna.

(Autor anônimo, transcrito em  Grupos de Jesus, p. 191-192)

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Um grito incômodo

José Antonio Pagola

Jesus sai de Jericó a caminho de Jerusalém. Vai acompanhado de seus discípulos e mais pessoas. De repente ouvem-se uns gritos. É um mendigo cego que, da beira do caminho, se dirige a Jesus: “Filho de Davi, tem compaixão de mim!”

Sua cegueira o impede de desfrutar a vida como os demais. Ele nunca poderá peregrinar a Jerusalém. Além disso, lhe fechariam as portas do templo: os cegos não podiam entrar no recinto sagrado. Excluído da vida, marginalizado pelas pessoas, esquecido pelos representantes de Deus, só lhe resta pedir compaixão a Jesus.

Os discípulos e seguidores se irritam. Aqueles gritos interrompem sua marcha tranquila para Jerusalém. Eles não conseguem escutar em paz as palavras de Jesus. Aquele pobre incomoda. É preciso calar seus gritos: Por isso “muitos o repreendiam para que se calasse”.

A reação de Jesus é muito diferente. Ele não pode continuar seu caminho ignorando o sofrimento daquele homem. Ele “para”, faz todo o grupo parar e lhes pede que chamem o cego. Seus seguidores não podem seguir seus passos sem escutar os chamados dos que sofrem.

A razão é simples. Jesus o diz de mil maneiras, em parábolas, exortações e ditos avulsos: o centro do olhar e do coração de Deus são os que sofrem. Por isso ele os acolhe e dedica-se a eles de maneira preferencial. Sua vida é, antes de mais nada, para os maltratados pela vida ou pelas injustiças: os condenados a viver sem esperança.

Os gritos dos que vivem mal nos incomodam. Pode irritar-nos encontrá-los continuamente nas páginas do evangelho. Mas não nos é permitido “mutilar” sua mensagem. Não existe Igreja de Jesus sem ouvir os que sofrem.

Eles estão em nosso caminho. Podemos encontrá-los a qualquer momento. Muito perto de nós ou mais longe. Eles pedem ajuda e compaixão. A única postura cristã é a de Jesus diante do cego: “O que queres que eu te faça?” Esta deveria ser a atitude da Igreja diante do mundo dos que sofrem: O que queres que eu te faça?

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Será que finalmente enxergamos?

Pe. Johan Konings

Nos domingos anteriores acompanhamos Jesus e os apóstolos na caminhada rumo a Jerusalém, que foi, como vimos, uma grande instrução sobre seguir Jesus e assumir a cruz. E vimos também que essa instrução encontrou cabeças duras, impenetráveis … Mc emoldurou toda a secção 8,27-10,45 (da proclamação messiânica de Jesus por Pedro até o 3° anúncio da paixão e a correspondente lição) entre dois milagres simbólicos, duas curas de cego. Na primeira, Mc 8,22-26, o trabalho era duro: Jesus teve de repetir seu gesto de cura. Já depois da instrução do caminho, em Mc 10,46-52, a cura se dá com maior facilidade, e o homem curado é admitido na companhia de Jesus para segui-lo até Jerusalém (pois o fato ocorreu em Jericó, início da última etapa da viagem). Mc registra até o nome do cego, Bartimeu, provavelmente conhecido entre os primeiros cristãos.

Mesmo no fim do caminho, os apóstolos não compreenderam, mas um cego chegou a ver com clareza, para seguir Jesus pelo caminho. Compreender Jesus não é uma questão de status na Igreja (aqueles apóstolos que queriam ocupar os primeiros lugares, cf. domingo passado), mas de deixar-se transformar por Jesus. Aliás, no ponto final da caminhada de Jesus, no Gólgota, os apóstolos vão primar pela ausência; só vamos encontrar aí as mulheres que acompanharam Jesus pelo caminho. Portanto, o seguimento radical de Jesus pelo caminho até a cruz não é privilégio do clero …

Que os cegos veem e os coxos saltam e caminham é um sinal do tempo messiânico. A 1ª leitura de hoje o anuncia pela boca do profeta Jeremias. Este imaginou o tempo da salvação como a volta dos israelitas deportados para Jerusalém, com inclusão de cegos e coxos. Assim, o cego de Jericó, que aclama Jesus como “filho de Davi” (= Messias), vai participar da entrada de Jesus em Jerusalém e juntar sua voz à da multidão, que vai saudar Jesus com essa mesma saudação messiânica (Mc 11, 9-10). No dia do Messias, este e os cegos entram juntos na cidade de Deus …

Será que nós nos deixamos abrir os olhos para seguir o Messias na etapa decisiva de sua caminhada? Para isso, precisamos saber que somos cegos: não temos, por nós mesmos, a capacidade de seguir Jesus no seu caminho messiânico, caminho de amor e justiça radicais. Muitas vezes somos tão obcecados pelas miragens do progresso e do consumo que nem suspeitamos de nossa cegueira. Mas o cego de Jericó invoca Cristo, é por ele curado e segue-o no caminho que outros, em condições bem melhores, não quiseram seguir (por exemplo, o homem rico … ). Imagem de nossa sociedade, de nossa cristandade. O povo dos pobres, submerso nas trevas da opressão econômica e da dominação cultural, que lhes impede ter uma visão do que está acontecendo, encontra em Jesus quem lhe abre os olhos, de modo que possa segui-lo, desimpedido e participando com ele, até a cruz que liberta os irmãos e irmãs.

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