Destaque, Notícias › 27/10/2017

30º Domingo do Tempo Comum

Resumir é discernir e desprender-se

Frei Gustavo Medella

Resumir é uma ação que exige discernimento e desprendimento. A primeira exigência remete ao uso da inteligência e do bom senso de perceber, entre muitos pontos e questões, aqueles que merecem ser destacados. É a percepção cirúrgica do que é nuclear e irrenunciável no referido contexto. Este é o exercício de discernir. A segunda habilidade, o desprendimento, é capacidade de se desapegar de tudo aquilo que é periférico, dispensável para a caminhada ou, ainda mais, os pesos inúteis que nos tiram a atenção daquilo que é fundamental.

No resumo que apresenta no Evangelho deste 30º Domingo do Tempo Comum, Jesus coloca na base de seu seguimento no amor a Deus e ao próximo. Alcançar a maturidade para compreender e viver esta fórmula resumida de se encarnar o Evangelho é tarefa que demora uma vida. Alguns compreendem a proposta com maior rapidez, seja pela via da fé, do sofrimento, da tomada de consciência, da índole, da conversão. Outros demandam um processo mais demorado.

Discernimento e desprendimento que precisam ocorrer nos âmbito pessoal e também na vida comunitária. A figura da “Igreja em saída”, tão cara ao Papa Francisco, quer ser a ilustração prática deste compromisso. Depor à beira do caminho todo peso de triunfalismo, da hipocrisia moral, do apego aos bens e às seguranças materiais significa perceber que todas as mediações existentes e instituídas na história (templos, rituais, leis, regras, instâncias hierárquicas) não são um fim em si mesmas, mas devem necessariamente estar a serviço de dar visibilidade, movimento e vida à lei do Amor a Deus e ao próximo.

A história bimilenar da Igreja é pródiga em exemplos das consequências e efeitos que decorrem da fidelidade ou não à base amorosa instituída por Cristo. Quando há um afastamento deste eixo norteador, sobram disputas estéreis, contratestemunhos, rivalidades, exclusões e desumanidade. Ao contrário, quando se consegue a convergência ao essencial, colhem-se belos frutos de serviço, doação, entrega, generosidade, diálogo e partilha. Cientes de que ambos os caminhos estão disponíveis em nossas escolhas diárias, esforcemo-nos sempre em abraçar o caminho que nos faz crescer no amor, a Deus e a nossos irmãos e irmãs.

O centro da vida

1ª Leitura: Ex 22,20-26
Sl 17
2ª Leitura: 1Ts 1,5c-10
Evangelho: Mt 22,34-40

-* 34 Os fariseus ouviram dizer que Jesus tinha feito os saduceus se calarem. Então eles se reuniram em grupo, 35 e um deles perguntou a Jesus para o tentar: 36 «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?» 37 Jesus respondeu: «Ame ao Senhor seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma, e com todo o seu entendimento. 38 Esse é o maior e o primeiro mandamento. 39 O segundo é semelhante a esse: Ame ao seu próximo como a si mesmo. 40 Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos.»


* 34-40: Cf. nota em Mc 12,28-34.[ * 28-34: Jesus resume a essência e o espírito da vida humana num ato único com duas faces inseparáveis: amar a Deus com entrega total de si mesmo, porque o Deus verdadeiro e absoluto é um só e, entregando-se a Deus, o homem desabsolutiza a si mesmo, o próximo e as coisas; amar ao próximo como a si mesmo, isto é, a relação num espírito de fraternidade e não de opressão ou de submissão. O dinamismo da vida é o amor que tece as relações entre os homens, levando todos aos encontros, confrontos e conflitos que geram uma sociedade cada vez mais justa e mais próxima do Reino de Deus.]

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


30º Domingo do Tempo Comum, ano A

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade e dai-nos amar o que ordenais para conseguirmos o que prometeis”.

1. Primeira leitura: Ex 20,20-26

Se fizerdes algum mal à viúva e ao órfão,
minha cólera se inflamará contra vós.

Após a destruição de Samaria (722 a.C.) e a anexação do Reino do Norte pela Assíria, muitos israelitas se refugiaram em Judá, especialmente, em Jerusalém. Quando Samaria foi destruída, os refugiados do reino de Israel tornaram-se “estrangeiros” em Judá, e passaram a receber a mesma proteção que já recebiam as viúvas e os órfãos. Neste contexto surge a lei que os protege. O motivo para este gesto de solidariedade é que também “vós fostes estrangeiros na terra do Egito”. O próprio Deus se apresenta como o defensor da viúva e do órfão. Da mesma forma quem pertence ao povo da Aliança deve agora também proteger “o estrangeiro, o órfão e a viúva” (Dt 14,28-29; 16,11-14; 24,19-21). Motivo: “porque sou misericordioso”. Jesus dirá: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). No Evangelho de hoje Jesus coloca o amor ao próximo como a si mesmo como o segundo maior mandamento.

Salmo responsorial: Sl 17 (18)

Eu vos amo, ó Senhor, sois minha força e salvação.

2. Segunda leitura: 1Ts 1,5c-10

Vós vos convertestes, abandonando os falsos deuses,
para servir a Deus, esperando o seu Filho.

Paulo se alegra com os cristãos de Tessalônica, que acolheram “a Palavra com a alegria do Espírito Santo”. Abandonaram os falsos deuses e se converteram à mensagem do Evangelho, “para servir o Deus vivo e verdadeiro”. Em meio às perseguições que sofriam, tornaram-se imitadores de Paulo e do próprio Cristo. O que os anima é a fé na ressurreição dos mortos e a esperança na vinda do Senhor. A vivência nesta vida de fé e esperança fez deles um exemplo, conhecido de todos na região. – Como estamos vivendo nossa fé e esperança nos tempos difíceis que nos fazem sofrer?

Aclamação ao Evangelho

Se alguém me ama, guardará a minha palavra
e meu Pai o amará, e a ele nós viremos.

3. Evangelho: Mt 22,34-40

Amarás o Senhor teu Deus, e ao teu próximo como a ti mesmo.

A pergunta dos fariseus reflete o embaraço que eles mesmos sentiam diante das 248 prescrições e 365 proibições em que especificavam as obrigações da Lei de Moisés. Na resposta Jesus extrai o primeiro e maior mandamento do Xemá Yisrael (“Escuta, Israel”), oração oficial que o judeu devia recitar duas vezes ao dia: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento” (Dt 6,4-5). Jesus responde que este é o maior dos mandamentos, mas o aproxima do segundo maior mandamento, que considera “semelhante ao primeiro”, citando Lv 19,8: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Destes dois grandes mandamentos – diz Jesus – dependem toda a Lei e os profetas. Os dez mandamentos do Catecismo da Igreja Católica também se resumem nos mandamentos do amor a Deus (1º ao 3º mandamento) e do amor ao próximo (4º ao 10º mandamento). Em Mc 12,32-34 um escriba confirma o modo o modo como Jesus resume toda a Lei em dois mandamentos. E o texto paralelo de Lucas termina com a pergunta do fariseu: “E quem é o meu próximo?”, pois em Lv 19,8 o próximo é alguém do próprio povo. E Jesus lhe responde com a parábola do Bom Samaritano: o próximo é aquele de quem eu me aproximo, podendo ser um estrangeiro ou alguém desconhecido, que precisa do meu cuidado. E o evangelista João lembra que o mandamento do amor a Deus e ao próximo são insepráveis: “Quem não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4,20).


A única tarefa

José Antonio Pagola

Fazemos muitas coisas na vida. Movemo-nos e corremos atrás de muitos objetivos. Mas o que é verdadeiramente importante, o que se deve fazer na vida para acertar?

Jesus resumiu tudo no amor, associando de maneira íntima e inseparável dois preceitos que o povo judeu conhecia muito bem: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu ser”; “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.

Tudo se reduz a viver o amor a Deus e o amor aos irmãos. Segundo Jesus, daí deriva tudo. Para muitas pessoas, isto poderá parecer conhecido demais, muito velho e totalmente ineficaz. E, não obstante, hoje mais do que nunca precisamos lembrá-lo: saber amar é a única coisa que importa.

Por que tanta gente parece tão infeliz? Por que as coisas que possuímos nos deixam, no fim das contas, tão vazios e insatisfeitos? Por que não acertamos construir uma sociedade melhor, sem recorrer à extorsão, à mentira ou à violência? O que nos falta é amor.

Pouco a pouco a falta de amor vai fazendo do ser humano um solitário, um ser sempre atarefado e nunca satisfeito. A falta de amor vai desumanizando nossos esforços e lutas para obter determinados objetivos políticos e sociais. Falta-nos amor. E, se nos falta amor, falta-nos tudo. Perdemos nossas raízes. Abandonamos a fonte mais importante de vida e felicidade.

Jesus não confundiu o amor a Deus com o amor ao irmão. O “mandamento principal e primeiro” continua sendo amar a Deus, buscar sua vontade, ouvir seu chamado. Mas não se pode amar “com todo o nosso ser” a esse Deus Pai, sem amar com todas as nossas forças aos irmãos.

Ouve-se falar de uma renovação de nossa sociedade, de uma reforma das estruturas. Mas poucos se preocupam em acrescentar sua capacidade de amar. No entanto, por muitas que sejam nossas conquistas sociais, pouco terão mudado as coisas, se continuamos tão imunizados ao amor, à atenção aos desvalidos, ao serviço gratuito, à generosidade desinteressada ou ao compartilhar com os necessitados.

Extraído do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes


Amar a Deus e ao próximo

Pe. Johan Konings

Jesus resume a Lei, a norma ética, em “amar Deus e o próximo”. Tendo claro que “amar”, neste contexto, não significa mero sentimento, mas opção ética, podemos desdobrar este ensinamento em duas perguntas:

1) Pode-se amar Deus sem amar ao próximo? Não. Já na antiga “Lei da Aliança”, mil anos antes de Cristo, “amar a Deus” significa, concretamente, ajudar ao próximo: a viúva, o órfão, o estrangeiro, o povo em geral: o direito do pobre clama a Deus (1ª leitura).

Na mesma linha, Jesus, interrogado sobre qual é o maior mandamento, vincula o amor a Deus ao amor ao próximo, e acrescenta que desses dois mandamentos dependem todos os outros (evangelho). Todas as normaséticas devem ser interpretadas à luz do amor a Deus e ao próximo, que são inseparáveis. É impossível optar por Deus sem ser solidário com seus filhos (1Jo 4,20). A verdadeira religiãoé dedicar-se aos necessitados (Tg 1,27). Na prática, o “amor a Deus” (a religião) passa necessariamente pelo “sacramento do pobre e do oprimido”, ou seja, pela opção por aqueles cuja miséria clama a Deus, seu “Defensor”. Entre Deus e nós está o necessitado. Só dedicando-se a este, temos acesso a Deus. Mas não basta uma esmola. Com a nossa atual compreensão da sociedade e da história, a dedicação ao empobrecido não se limita à escola, mas exige novas estruturas. Importa trabalhar as estruturas da sociedade e transforma-las de tal modo que o bem-estar do fraco e do pobre estejam garantido pela solidariedade de todos, numa estrutura política e social que seja eficaz.

2) Pode-se amar o próximo sem amar a Deus? Nosso mundo é, como se diz, “secularizado”. Não dá muito lugar a Deus. Não nos enganem as aparências, os shows religiosos que aparecem em teatro e televisão, pois esse tipo de religiosidade, muitas vezes, não passa de um produto de consumo, no meio de tantos outros. Não é compromisso com Deus. Ao mesmo tempo, pessoas com profundo senso ético dizem: já não precisamos de Deus para explicar o universo. Será que ainda precisamos dele para sermos éticos, para respeitar nosso semelhante, para “amar o próximo?” Será que não basta ser bom para com os outros, sem apelar a Deus? Para que “amar a Deus”? Para que a religião? Eis a resposta: para amar bem o irmão, devemos também “amar a Deus”, aderir a ele (embora não necessariamente por uma religião explícita). Isso, porque o que entendemos por Deus é o absoluto, o incondicional, aquele que tem a última palavra, que sempre nos transcende e está acima de nossos interesses pessoais. Se não buscamos ouvir essa palavra última, pode acontecer que nos ocupemos com o próximo para nos amar a nós mesmos (amor pegajoso, interesseiro, sufocante etc.)

Como cristão, conhecendo “Deus” como Pai de Jesus Cristo e como a fonte do amor que este nos manifestou, devemos perguntar sempre se nossa prática de solidariedade é realmente orientada pelo absoluto, por Deus, aquele que Jesus chama de Pai. Senão, vamos conceber nosso amor de acordo com a nossa medida, que é sempre pequena demais…

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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