Destaque, Notícias › 27/04/2017

3º DOMINGO DA PÁSCOA

Por onde passa o Caminho de Emaús?

Frei Gustavo Medella

Neste 3º Domingo do Tempo Pascal, somos chamados a percorrer o Caminho de Emaús. É o caminho da vida, das venturas e desventuras, da queda e do reerguimento, do encontro e da solidão. Caminho que se faz com Jesus, mesmo que sua presença não seja sempre notada.

É caminho de revisão, de conversar sobre o passado, de tentar compreender e dar sentido aos fatos acontecidos. Hora de colocar os pingos nos “i’s”, de revisitar o coração a fim de que ele não fique refém de mágoas, ressentimentos, reservas, desânimo. Momento de refazer com a memória o caminho do Mestre.

É caminho de partilha, de conversa franca, de falar sobre a falta que o Senhor faz, da saudade que sua ausência, ainda que aparente, desperta. Perceber-se longe de Deus coloca em evidência com cores ainda mais fortes a fragilidade humana.

É caminho de acolhida, onde quem chega é bem-vindo. Conversavam dois. O terceiro se integra. Sente-se próximo e familiar, embora ainda não reconhecido pelos dois. No entanto, a abertura para acolhê-lo já existia. Caminha junto. Era o Senhor.

É caminho de esclarecimento. Sob a tutela do Mestre, revisitam os episódios vividos, assim como a História da Salvação. Com Jesus, tudo adquire uma nova clareza. A dor, o sofrimento, as lutas e incompreensões ganham um novo contorno, emoldurado pela força da ressurreição.

É caminho eucarístico. Parte-se o pão. Sacia-se a fome em sua mais ampla dimensão: fome de justiça, de paz, de ânimo, de esperança, de dignidade. O Pão da vida, vida em abundância.

É caminho de reencantamento. Ocasião de retornar à missão, de recobrar o vigor do discípulo, de comprometer-se com o anúncio desta notícia transformadora: “O Senhor ressuscitou! Está vivo! E nós estamos vivos com Ele! Aleluia!”

Jesus caminha com os homens

1ª Leitura: 2,14.22-33
Sl: 15
2ª Leitura: 1Pd 1,17-21
Evangelho: Lc 24,13-35

-* 13 Nesse mesmo dia, dois discípulos iam para um povoado, chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém. 14  Conversavam a respeito de tudo o que  tinha acontecido. 15 Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou,  e começou a caminhar com eles. 16 Os  discípulos, porém, estavam como que cegos, e não o reconheceram. 17 Então Jesus perguntou: «O que é que vocês andam conversando pelo caminho?» Eles pararam, com o rosto triste. 18 Um deles, chamado Cléofas, disse: «Tu és o único peregrino em Jerusalém que não sabe o que aí aconteceu nesses últimos dias?» 19 Jesus perguntou: «O que foi?» Os discípulos responderam: «O que aconteceu a Jesus, o Nazareno, que foi um profeta poderoso em ação e palavras, diante de Deus e de todo o povo. 20 Nossos chefes dos sacerdotes e nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte, e o crucificaram. 21 Nós esperávamos que fosse ele o libertador de Israel, mas, apesar de tudo isso, já faz três dias que tudo isso aconteceu! 22 É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos deram um susto. Elas foram de madrugada ao túmulo, 23 e não encontraram o corpo de Jesus. Então voltaram, dizendo que tinham visto anjos, e estes afirmaram que Jesus está vivo. 24 Alguns dos nossos foram ao túmulo, e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas ninguém viu Jesus.»

25 Então Jesus disse a eles: «Como vocês custam para entender, e como demoram para acreditar em tudo o que os profetas falaram! 26 Será que o Messias não devia sofrer tudo isso, para entrar na sua glória?» 27 Então, começando por Moisés e continuando por todos os Profetas, Jesus explicava para os discípulos todas as passagens da Escritura que falavam a respeito dele.

28 Quando chegaram perto do povoado para onde iam, Jesus fez de conta que ia mais adiante. 29 Eles, porém, insistiram com Jesus, dizendo: «Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando.» Então Jesus entrou para ficar com eles. 30 Sentou-se à mesa com os dois, tomou o pão e abençoou, depois o partiu e deu a eles. 31 Nisso os olhos dos discípulos se abriram, e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles.

32 Então um disse ao outro: «Não estava o nosso coração ardendo quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?» 33 Na mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém, onde encontraram os Onze, reunidos com os outros. 34 E estes confirmaram: «Realmente, o Senhor ressuscitou, e apareceu a Simão!» 35 Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus quando ele partiu o pão.


* 13-35: Lucas salienta os «lugares» da presença de Jesus ressuscitado. Primeiro, ele continua a caminhar entre os homens, solidarizando-se com seus problemas e participando de suas lutas. Segundo, Jesus está presente no anúncio da Palavra das Escrituras, que mostra o sentido da sua vida e ação. Terceiro, na celebração eucarística, onde o pão repartido relembra o dom da sua vida e refontiza a partilha e a fraternidade, que estão no cerne do seu projeto.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

3º Domingo depois da Páscoa, ano A

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Ó Deus, que o vosso pela sua renovação espiritual, para que, tendo recuperado agora com alegria a condição de filhos de Deus, espere com plena confiança o dia da ressurreição”.

1. Primeira leitura: At 2,14.22-33

Não era possível que a morte o dominasse.

No dia de Pentecostes os judeus comemoravam em Jerusalém a doação da Lei de Moisés, recebida no monte Sinai. Na mesma ocasião estavam reunidos em Jerusalém, também, os apóstolos com dezenas de discípulos e discípulas, no monte Sião. A comunidade estava reunida em oração, com portas e janelas fechadas, por medo dos judeus. De repente, houve um forte ruído do céu, acompanhado de um vento impetuoso e línguas de fogo, enchendo toda a casa onde os discípulos estavam reunidos. Era a manifestação do Espírito Santo prometida por Jesus, antes da ascensão de Jesus ao céu (At 2,1-4). Muitos judeus peregrinos acorreram ao lugar para ver o que estava acontecendo. Em meio a uma intensa alegria, abrem-se as portas e janelas e os discípulos saem da casa. Pedro, então, toma a palavra para explicar ao povo o sentido de tudo o que estava acontecendo. Em seu discurso, Pedro dirige-se aos ouvintes judeus (v. 22-24) o “querigma”, isto é, o primeiro anúncio da paixão, morte e ressurreição de Jesus que visa levar os ouvintes à conversão e à fé em Jesus. Os acontecimentos do “querigma” pascal são pura iniciativa de Deus, nome repetido quatro vezes. A ação divina por meio de Jesus é pública: “tudo isso vós mesmos o sabeis”, porque as coisas aconteceram “entre vós”. Mas, a ressurreição de Jesus é presenciada apenas pelas testemunhas qualificadas (v. 32), as 120 pessoas reunidas no cenáculo com os apóstolos. Pedro cita o salmo 15, argumentando que Davi, profeticamente, fala da ressurreição de Jesus, “eu vós o matastes, pregando-o numa cruz” (v. 25-33). Deus Pai ressuscitou Jesus dentre os mortos (cf. Lc 9,21-22.43-45; 18,31-34) e o exaltou à sua direita na glória do céu. O Pai concedeu a Jesus o Espírito Santo que havia prometido, e Jesus o derramou sobre as testemunhas de sua ressurreição. Os ouvintes estavam presenciando a ação do Espírito Santo derramado sobre as testemunhas.

Salmo responsorial: Sl 15 (16)0

Vós me ensinais vosso caminho para a vida;
junto de vós felicidade sem limites!

2. Segunda leitura: 1Pd 1,17-21

Fostes resgatados pelo precioso sangue de Cristo,
cordeiro sem mancha!

Desde antes da criação do mundo Deus nos amou e no fim dos tempos enviou seu próprio Filho para nos salvar. Não foi com ouro ou prata que Cristo nos resgatou do pecado e da morte, mas com seu próprio sangue, entregando sua vida como máxima expressão de amor. Mas Deus o ressuscitou dos mortos – diz Pedro – e por isso alcançamos a fé em Deus. Pela fé estamos firmemente ancorados em Deus. Assim, nossa fé e esperança estão guardadas no coração de Deus. É o que cantamos no Salmo responsorial: “Guardai-me, ó Deus, porque em vós me refugio”.

Aclamação ao Evangelho

Senhor Jesus, revelai-nos o sentido da Escritura;
Fazei o nosso coração arder, quando falardes.

3. Evangelho: Lc 24,13-35

Reconheceram-no ao partir o pão.

Lucas coloca três narrativas relacionadas com a ressurreição de Jesus, todas, no primeiro dia da semana, dia especial em que os cristãos celebravam a ressurreição do Senhor (At 20,7). Na primeira conta como as mulheres, discípulas de Jesus desde a Galileia (Lc 8,1-3), que o acompanharam até testemunharem sua morte na cruz (23,55), se dirigem ao túmulo levando perfumes, mas não encontram o corpo de Jesus. Dois anjos lhes explicam que o túmulo está vazio porque Jesus ressuscitou como havia dito. Elas levam a notícia aos discípulos. Eles, porém, não acreditam na explicação dada pelos anjos. Pedro, no entanto, vai conferir o túmulo vazio e fica apenas admirado. Segue, então, a narrativa sobre os discípulos de Emaús, que hoje escutamos. Após a manifestação do Ressuscitado os dois discípulos voltam imediatamente a Jerusalém para contar sua experiência aos apóstolos, que lhes comunicam: “O Senhor ressuscitou de verdade e apareceu a Simão”. Segue, então, no mesmo dia, já de noite, a aparição de Jesus a todos os que estavam reunidos. – As experiências de Jesus se dão enquanto as pessoas estão reunidas falam de Jesus, contam e recordam o que Le fez e falou. Os anjos recordam que Jesus ressuscitou conforme havia dito na Galileia. Jesus leva a boa notícia de sua ressurreição aos discípulos tristes e desanimados, recorda as Escrituras e se manifesta a eles ao partir do pão. Tudo aponta para a liturgia eucarística que estamos celebrando. A celebração da Eucaristia na comunidade reunida no Dia do Senhor é o lugar privilegiado para a experiência da presença viva do Cristo Ressuscitado, que nos quer alimentar com sua palavra e com seu corpo e sangue.

Emaús, a “avenida” que andamos percorrendo

Frei Almir Guimarães

Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras? (Lc 24,32)

A Igreja não comemora a Ressurreição do Senhor apenas no domingo de Páscoa. Durante todo o tempo pascal vamos aprofundando nosso conhecimento do Ressuscitado e de sua ação em nosso meio. Neste domingo, diante de nós, dois personagens, conhecidos como os discípulos de Emaús. Na caminhada que empreendem encontram um peregrino misterioso que haveria de os cativar.

“A fé em Cristo ressuscitado não nasce em nós de maneira automática e segura. Ela vai despertando em nosso coração de maneira frágil e humilde. No começo é quase só um desejo. Geralmente cresce rodeada de dúvidas e questionamentos (…). Crer no Ressuscitado não é questão de um dia. É um processo que pode durar anos. O importante é nossa atitude interior. Confiar sempre em Jesus. Reservar-lhe muito mais lugar em cada um de nós e em nossas comunidades cristãs”  (Pagola, Lucas, p. 366).

Passados  os dias da paixão, e sepultamento de Jesus os discípulos entraram numa nuvem escura. Penetram na noite da dúvida. Teria sido tudo um sonho? Teriam se enganado com aquele que lhes havia falado com tanta veemência da vida? Agora estava morto. Com ele os discípulos sepultaram esperanças e sonhos. Cléofas e seu companheiro deram as costas a Jerusalém, cabisbaixos, caminhando na direção de Emaús. Esse nome passou a ser sinônimo de comunhão, intimidade, beleza e contemplação. Muitas casas de retiro e de revigoramento espiritual são designadas de Emáus.

Os dois caminhavam com tristeza. Esse Jesus que havia suscitado tanto entusiasmo, alento, esperança morrera no alto da cruz. Quantas punhaladas do coração? Era melhor fugir.

Um peregrino misterioso, porém, se associa ao caminhar do dois. Fala-lhes das Escrituras com paixão e convicção. Procura lembrar aos dois passagens que falavam do Messias, palavras de confiança e de esperança. Promessas feitas aos pais da fé, de modo especial a Abraão… Aos poucos, o coração dos dois começa a arder. Um fogo, um ardor, uma ponta de esperança.

O que valeu para eles, vale para nós. Se em nossa  caminhada nos reunimos para recordar Jesus, escutar sua mensagem, conhecer sua ação profética, meditar sua entrega, sua crucifixão, se percebemos que as palavras de Jesus nos comovem, então nosso coração começa a arder. Em nosso grupo, ele caminha conosco. Ontem como hoje, trata-se de conviver com as Escrituras. Ele como que salta das páginas. Será fundamental não alimentar cegueira e surdez.

O peregrino ameaça ir adiante. Os discípulos pedem que entre na pousada de Emaús.  “A cena é simples e afetuosa. Uns viajantes, cansados de seu longo caminhar, sentam-se como amigos  para compartilhar a mesma experiência. É então que Jesus repete exatamente os quatro  gestos  que, de acordo com a tradição, havia feito na ceia de despedida: Tomou o pão, pronunciou a bênção, o partiu e deu a eles. Nos discípulos desperta a fé: Seus olhos se abriram e o reconheceram. Descobrem a Jesus como alguém que alimenta suas vidas, os sustenta no cansaço e os fortalece no cminho” (Pagola,  Grupos de Jesus, p. 308)

Felizes, transformados, sem sinais de cansaço, quase correndo os dois voltam a Jerusalém na pressa de anunciar aos outros a boa nova:  Jesus os havia nutrido com seu pão e eles o reconheceram de modo especial, na fração do pão.

Concluindo

“Não basta celebrar missas nem ler trechos bíblicos de qualquer maneira. O relato de Emaús fala de duas experiências básicas. Os discípulos não leem um texto, ouvem a voz inconfundível de Jesus, que faz arder seu coração. Não celebram uma liturgia, sentam-se como amigos à mesma mesa e descobrem juntos que é o próprio Jesus que os alimenta. Para que continuar a fazer as coisas de uma maneira que não transforma? Não precisamos antes de mais nada, de um contato mais real com Jesus?  De uma nova simplicidade? De uma fé diferente? Não precisamos aprender a viver com mais verdade e a partir de uma dimensão nova? Se Jesus desaparece de nosso coração, todo o resto é inútil” (Pagola, Lucas, p.361-362).

Emaús é um pedaço de nossa aventura humana e cristã. Quando deixamos que a Palavra nos perpasse e quando alimentamo-nos com o Pão da vida  temos a certeza da presença entre nós  daquele que deixou vazio o sepulcro da morte.

Oração

Fica, Senhor, porque já está ficando tarde,
o caminho é longo e o cansaço é grande.
Fica para dizer-nos tuas palavras vivas,
que aquietam a mente e inflamam a alma.
Mantém inquietos nossos corações lerdos,
dissipa nossas dúvidas e temores.
Olha-nos com teus olhos de luz e vida,
devolve-nos a  ilusão perdida.
Fica e limpa-nos  o rosto e as entranhas;
queima esta tristeza, dá-nos esperança.
Fica e renova valores e sonhos:
dá-nos de novo tua alegria e tua paz.
Fica, Senhor, porque já está ficando tarde,
o caminho é longo e o cansaço grande

Ulibarri

Não fugir para Emaús

José Antonio Pagola

Não são poucos os que olham hoje a Igreja com pessimismo e desencanto. Não é a Igreja que eles desejariam. Uma Igreja viva e dinâmica, fiel a Jesus Cristo, comprometida deveras em construir uma sociedade mais humana.

Veem-na imóvel e defasada, excessivamente ocupada em defender uma moral obsoleta que já não interessa a muitos, fazendo penosos esforços para recuperar uma credibilidade que parece encontrar-se “em nível baixíssimo”. Percebem-na como uma instituição que está aí quase sempre para acusar e condenar, poucas vezes para ajudar e infundir esperança no coração humano. Sentem-na frequentemente triste e entediada, e de alguma maneira intuem – com o escritor francês Georges Bernanos – que “o contrário de um povo cristão é um povo triste”.

A tentação fácil é o abandono e a fuga. Alguns já o fizeram há tempo, inclusive de maneira ruidosa: hoje afirmam quase com orgulho que creem em Deus, mas não na Igreja. Outros vão se distanciando dela aos poucos, “na ponta dos pés e sem fazer ruído”: sem que quase ninguém perceba, vai se apagando em seu coração o afeto e a adesão de outros tempos.

Sem dúvida, seria um erro alimentar nestes momentos um otimismo ingênuo, pensando que virão tempos melhores. Mais grave ainda seria fechar os olhos e ignorar a mediocridade e o pecado da Igreja. Mas nosso maior pecado seria “fugir para Emaús”, abandonar a comunidade e dispersar-nos tomando cada um o seu caminho, mergulhados na decepção e no desencanto.

Precisamos aprender a “lição de Emaús”. A solução não está em abandonar a Igreja, mas em restabelecer nossa vinculação com algum grupo cristão, comunidade, movimento ou paróquia onde possamos compartilhar e reavivar nossa esperança em Jesus.

Onde há homens e mulheres que caminham perguntando-se por Ele e aprofundando-se em sua mensagem, ali se torna presente o Ressuscitado. É provável que um dia, ao ouvir o Evangelho, sintam de novo “arder seu coração”. Onde há crentes que se encontram para celebrar juntos a Eucaristia, ali está o Ressuscitado alimentando sua vida. É provável que um dia “seus olhos se abram” e o vejam.

Por mais morta que apareça aos nossos olhos, nesta Igreja habita o Ressuscitado. Por isso, também aqui têm sentido os versos de Antonio Machado: “Acreditei que minha lareira estava apagada, revolvi as cinzas … e queimei a mão”.

Trecho do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes.

A memória de Cristo na Palavra e na Eucaristia

Pe. Johan Konings

A saudade é a gostosa presença do ausente. Quando alguém da família ou uma pessoa querida está longe, a gente procura se lembrar dessa pessoa. É o que aconteceu com os discípulos de Emaús (evangelho de hoje). Jesus tinha sumido… mas, sem que o reconhecessem, estava caminhando com eles. Explicava-lhes as Escrituras. Mostrava-lhes as passagens do Antigo Testamento que falavam dele. Pois existe no Antigo Testamento um veio escondido que, à luz daquilo que Jesus fez, nos faz compreender que Jesus é o Messias: os textos que falam do Servo Sofredor, que salva o povo por seu sofrimento (Is 52-53); ou do Messias humilde e rejeitado (Zc 9-12); ou do povo dos pobres de Javé (Sf 2-3) etc.

Jesus ressuscitado abriu, para os discípulos de Emaús esse veio.Textos que eles já tinham ouvido, mas nunca relacionado com aquilo que Jesus andou fazendo… e sofrendo. Isso é uma lição para nós. Devemos ler a Sagrada Escritura através da visão de Jesus morto e ressuscitado, dentro da comunidade daqueles que nele crêem. É o que fazem os apóstolos na sua primeira pregação, quando anunciam ao povo reunido em Jerusalém a ressurreição de Cristo, explicando os textos que, no AT falam dele (1ª leitura). Para a compreensão cristã da Bíblia é preciso “ler a Bíblia na Igreja, reunidos em torno de Cristo ressuscitado”.

O que aconteceu em Emaús, quando Jesus lhes abriu as Escrituras, é parecido com a primeira parte de nossa celebração dominical, a liturgia da palavra. E muito mais parecido ainda com a segunda parte: Jesus abençoa e parte o pão, e nisso os discípulos o reconhecem presente. Desde então a Igreja repete este gesto da fração do pão e acredita que nele Cristo mesmo se torna presente. É o rito eucarístico de nossa missa.

Emaús nos ensina duas maneiras fundamentais para ter Cristo presente em sua ausência: ler as escrituras à luz de sua memória e celebrar a fração do pão, o gesto pelo qual ele realiza sua presença real, na comunhão de sua vida, morte e ressurreição. É a presença do Cristo pascal, glorioso – já não ligado a tempo e espaço, mas acessível a todos os que o buscam na fé e se reúnem em seu nome.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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