Destaque, Notícias › 13/04/2018

3º Domingo de Páscoa

O compromisso de prosseguir no itinerário da Páscoa

Frei Gustavo Medella

Segue-se a atmosfera pascal. Os discípulos ainda estão “digerindo” tudo o que aconteceu com o Mestre e tentando compreender o significado daqueles recentes fatos. Na cena que vem narrada pelo Evangelista Lucas (Lc 24,35-48), algumas indicações que podem orientar a caminhada da Igreja ainda hoje.

1) Narrar a história da Salvação é tarefa central para a continuidade do projeto salvífico.

Os discípulos compartilhavam a experiência vivida com o Mestre na caminhada que faziam para Emaús. Ao descrever a cena, certamente reaqueciam o próprio coração e transmitiam força e vibração àqueles que os ouviam. A Palavra de Deus bem proclamada na Liturgia, uma homilia bem preparada, a dedicação fiel a círculos e estudos bíblicos, todos estes são expedientes importantes para manter vivo e atual o seguimento do Senhor. Cabe ressaltar que Jesus se faz presente entre eles justamente enquanto relatam sua experiência com o Ressuscitado.

2) O cristão é convidado a passar da escuta para a admiração, e desta para a alegria.

Durante a escuta da Palavra, os discípulos têm a experiência concreta com o Senhor. Ele os saúda. Espantam-se e chegam a sentir medo. Este espanto pode representar as interrogações que brotam de um aprofundamento da fé. A saudação de paz não serve para apaziguar a consciência do discípulo, lançando-o num possível comodismo, mas para provocá-lo a trabalhar na construção de um Reino que pressupõe a justiça e o respeito.

3) Da alegria ao testemunho.

Atendendo ao convite do Senhor, o discípulo se dá conta da grandeza do Amor que o Pai expressa em Cristo. O medo de não corresponder a este Amor pleno pode aparecer, assim como o receio das exigências próprias da missão. No entanto, tais sentimentos devem dar lugar à certeza de que Deus não desampara nenhum daqueles que abrem espaço para Ele em suas vidas. Tal certeza, construída a partir da escuta que gera espanto e alegria, é peça fundamental na engrenagem que leva a energia produzida no coração para os pés e as mãos daqueles que desejam transformar em obras o testemunho de transformação de toda e qualquer realidade marcada pela morte da vida nova nascida do Ressuscitado.

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A realidade da ressurreição

1ª Leitura: At 3,13-15.17-19
Sl 4(5), 2.4.7.9
2ª Leitura: 1Jo 2,1-5ª
Evangelho: Lc 24,35-48

Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus quando ele partiu o pão.

* 36 Ainda estavam falando, quando Jesus apareceu no meio deles, e disse: «A paz esteja com vocês.» 37 Espantados e cheios de medo, pensavam estar vendo um espírito. 38 Então Jesus disse: «Por que vocês estão perturbados, e por que o coração de vocês está cheio de dúvidas? 39 Vejam minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo. Toquem-me e vejam: um espírito não tem carne e ossos, como vocês podem ver que eu tenho.» 40 E dizendo isso, Jesus mostrou as mãos e os pés. 41 E como eles ainda não estivessem acreditando, por causa da alegria e porque estavam espantados, Jesus disse: «Vocês têm aqui alguma coisa para comer?» 42 Eles ofereceram a Jesus um pedaço de peixe grelhado. 43 Jesus pegou o peixe, e o comeu diante deles.

* 44 Jesus disse: «São estas as palavras que eu lhes falei, quando ainda estava com vocês: é preciso que se cumpra tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos.» 45 Então Jesus abriu a mente deles para entenderem as Escrituras. 46 E continuou: «Assim está escrito: ‘O Messias sofrerá e ressuscitará dos mortos no terceiro dia, 47 e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém’. 48 E vocês são testemunhas disso.


* 36-43: A ressurreição não é fruto da imaginação dos discípulos, nem se reduz a fenômeno puramente espiritual. A ressurreição é fato que atinge o próprio corpo; daí a identidade do ressuscitado com o Jesus terrestre. Qualquer ação humana que traz mais vida para os corpos oprimidos, doentes, torturados, famintos e sedentos, não é apenas obra de misericórdia, mas é sinal concreto do fato central da fé cristã: a ressurreição do próprio Senhor Jesus.

* 44-53: A missão cristã nasce da leitura das Escrituras, onde se percebe o testemunho de Jesus (vida-morte-ressurreição) como seu centro e significado. Essa missão continua no anúncio de Jesus a todos os povos, e provoca a transformação da história a partir da atividade de Jesus voltada para os pobres e oprimidos. A conversão e o perdão supõem percorrer o caminho de Jesus na própria vida e nos caminhos da história. A missão é iluminada pelo Espírito do Pai e de Jesus (a «força que vem do alto»).

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


3º Domingo da Páscoa, ano B

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Ó Deus, que vosso povo sempre exulte pela sua renovação espiritual, para que, tendo recuperado agora com alegria a condição de filhos de Deus, espere com confiança o dia da ressurreição”.

1. Primeira leitura: At 3,13-15.17-19

Vós matastes o autor da vida,
mas Deus o ressuscitou dos mortos.

Depois que Pedro e João curaram o paralítico, este os acompanhava por toda parte; isso atraiu muita gente para ver o maravilhoso acontecimento. Então Pedro tomou a palavra para explicar o acontecido. Não foram eles que o curaram, e sim, Jesus. Este Jesus, que o povo e as autoridades haviam rejeitado diante de Pilatos. Preferiram que lhes soltasse Barrabás, um assassino, e condenasse à morte Jesus, o “Santo e Justo”, o próprio “Autor” ou princípio “da vida”, por meio do qual Deus concede a Israel a conversão e o perdão dos pecados (5,31). Escolheram um assassino, que tira a vida, e rejeitaram a Jesus, aquele que dá a vida. – Os vários títulos dados a Jesus fazem parte da pregação dos primeiros cristãos. – O mais importante, porém, é o anúncio da ressurreição de Jesus, rejeitado “por ignorância” pelo seu povo. Pedro explica que, assim, Deus quis cumprir o sofrimento do Messias, anunciado pelos profetas. Ao dizer que Jesus foi rejeitado pelo seu povo “por ignorância”, Pedro se coloca no mesmo nível dos que ele acusa. Talvez, se lembrasse que ele próprio havia negado Jesus no tribunal judaico; mas arrependeu-se e foi perdoado. Experimentou a misericórdia divina e, por isso, exorta os ouvintes: “Arrependei-vos e convertei-vos, para que vossos pecados sejam perdoados”. No domingo passado (Jo 20,19-31) perdoou os discípulos que o traíram, negaram e abandonaram; deu-lhes também o Espírito Santo para perdoarem os pecados. Hoje, Pedro coloca-se como pecador perdoado, que anuncia a boa-nova do perdão e da reconciliação aos seus ouvintes.

Salmo responsorial: Sl 4

Sobre nós fazei brilhar o esplendor de vossa face!

2. Segunda leitura: 1Jo 2,1-5a

Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados,
e também pelos pecados do mundo inteiro.

Com palavras paternais, o autor da Carta exorta os cristãos do final do I século a não pecarem. Tem consciência que as pessoas podem tornar-se infiéis à primeira conversão, quando abraçaram a fé cristã e receberam o perdão dos pecados. Lembra, contudo, que, se alguém pecar, pode confiar em Jesus Cristo, o intermediário junto ao Pai, e ser novamente perdoado. Mas quem conhece/experimenta a misericórdia do perdão de Deus é convidado a observar os seus mandamentos, a fim de que nele se realize o seu amor divino.

Aclamação ao Evangelho: Lc 24,32

Senhor Jesus, revelai-nos o sentido da Escritura,
fazei o nosso coração arder, quando nos falardes.

3. Evangelho: Lc 24,35-48

Aleluia, Aleluia, Aleluia.
Assim está escrito: o Messias sofrerá
e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia.

Lucas fala de três manifestações de Jesus ressuscitado: Na primeira, algumas mulheres que seguiram Jesus desde a Galileia, visitam o túmulo e encontram-no vazio; dois anjos lhes explicam o que aconteceu: “Ele não está aqui, mas ressuscitou como havia prometido”. Elas não veem a Jesus. Mesmo assim, comunicam a notícia aos apóstolos, mas eles não acreditam (24,1-12). Depois, Jesus se manifesta a dois discípulos no caminho de Emaús. Quando estes voltam a Jerusalém e comunicam o acontecimento aos onze e aos discípulos reunidos, estes o confirmam: “O Senhor ressuscitou de verdade e apareceu a Simão” (24,13-35). Por fim, no evangelho de hoje (v. 36-48), enquanto os apóstolos ouviam o relato dos discípulos de Emaús, Jesus aparece e os saúda: “A paz esteja convosco!” Mas eles se assustam, pensando ver um fantasma. Para tirar-lhes as dúvidas e confirmar que ressuscitou “de verdade”, Jesus mostra-lhes as mãos e os pés chagados. Como, apesar da alegria e surpresa, alguns ainda duvidassem, Jesus pede-lhes algo para comer e come diante deles (cf. At 10,41). Para crer na ressurreição, não basta um túmulo vazio. Agora eles têm provas que confirmam a identidade do Cristo ressuscitado com o Jesus histórico, que conviveu com seus discípulos na vida pública e morreu na cruz. Além destas provas, o próprio Jesus recorda o que havia dito sobre sua morte e ressurreição e abre-lhes a inteligência para compreenderem o que as Escrituras dele falavam. Por fim, aponta-lhes a futura missão: Como testemunhas qualificadas, deveriam anunciar em seu nome a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém (cf. At 1,8). – A fé na ressurreição de Cristo a uma vida nova de cristãos reconciliados com Deus e com os irmãos.

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Ressurreição, conversão e comportamento humano

Frei Clarêncio Neotti

Aos Apóstolos não foi fácil aceitar a Ressurreição, ainda que Jesus a tivesse predito (Mt 17,9.22; 27,63; Mc 9,30; 10,34; Lc 18,33). Deixaram-se convencer pelas provas e pela graça (“Jesus lhes abriu os olhos da inteligência”, lemos em Lc 24,45) e, ao partirem para a pregação, apresentaram-se sempre como ‘testemunhas da Ressurreição’ (At 2,32). Ao pregarem a Ressurreição, os Apóstolos a uniam ao perdão dos pecados e à conversão. Os profetas prometiam o perdão em nome de Javé, porque só Deus podia perdoar pecados (Me 2,7). Agora, o perdão é dado em nome de Jesus de Nazaré ressuscitado. No nome de Jesus está a salvação (At 4,12). Os Apóstolos, na sua pregação, vão acentuar que Jesus morreu e ressuscitou para a remissão dos pecados (At 5,31). Jesus mesmo dissera na Última Ceia que seu sangue seria derramado para o perdão dos pecados (Mt 26,28). Em outras palavras: para a santificação de quem crer nele e na sua missão salvadora.

Os Evangelistas acrescentam que o perdão é para todos. Não há povo, não há classe social privilegiada. Entre os quatro Evangelistas, Lucas é quem mais acentua a universalidade da graça de Deus. A condição imposta é para todos a mesma: crer no nome do Senhor Jesus e converter o coração. À fé devem seguir e acompanhar as obras boas, fruto de um coração voltado para Deus. Por isso a fé tem tudo a ver com o comportamento e a justiça social. Já o Apóstolo Tiago observou isso, quando escreveu: “De que aproveitará a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras? Poderá a fé salvá-lo? Se o irmão ou a irmã estiverem nus e carentes do alimento cotidiano, e alguém de vós lhes disser: ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, mas não lhes der com que satisfazer à necessidade do corpo, que adiantaria? A fé sozinha, se não tiver obras, será morta” (Tg 2,14-17).

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Companheiro de Caminhada

José Antonio Pagola

Há muitas maneiras de pôr obstáculos à verdadeira fé. Uma delas é a atitude do fanático, que se agarra a um conjunto de crenças sem nunca deixar-se interrogar por Deus e sem jamais dar ouvidos a alguém que possa questionar sua posição. Sua fé é uma fé fechada, onde falta acolhida e escuta do Mistério e onde sobra arrogância. Esta fé não liberta da rigidez mental nem ajuda a crescer, porque não se alimenta do verdadeiro Deus.

Temos também a posição do cético, que não busca nem se interroga, porque já não espera nada de Deus, nem da vida, nem de si mesmo. Sua fé é uma fé triste e apagada. Falta nela o dinamismo da confiança. Nada vale a pena. Tudo se reduz a simplesmente continuar vivendo.

Temos, além disso, a postura do indiferente, que já não se interessa nem pelo sentido da vida nem pelo mistério da morte. Sua vida é pragmatismo. Só lhe interessa o que pode proporcionar-lhe segurança, dinheiro ou bem-estar. Para ele Deus significa cada vez menos. Na verdade, de que adianta crer nele?

Temos também aquele que se sente proprietário da fé, como se esta consistisse num “capital” recebido no batismo e que está aí, não se sabe muito bem onde, sem que a pessoa precise preocupar-se demais. Esta fé não é fonte de vida, mas “herança” ou “costume” recebido de outros. A pessoa poderia desfazer-se dela quase sem sentir falta.

Temos ainda a fé infantil dos que creem não em Deus, mas naqueles que falam dele. Nunca tiveram a experiência de dialogar sinceramente com Deus, de buscar seu rosto ou de abandonar-se a seu mistério. Basta-lhes crer na hierarquia ou confiar “naqueles que sabem dessas coisas”. Sua fé não é experiência pessoal. Falam de Deus “por ouvir dizer”.

Em todas estas atitudes falta o mais essencial da fé cristã: o encontro pessoal com Cristo. A experiência de caminhar pela vida acompanhados por alguém vivo, com quem podemos contar e a quem podemos nos confiar. Só Ele nos pode fazer viver, amar e esperar apesar de nossos erros, fracassos e pecados.

De acordo com o relato evangélico, os discípulos de Emaús contavam “o que lhes havia acontecido pelo caminho”. Caminhavam tristes e desesperançados, mas algo novo despertou neles ao encontrar-se com um Cristo próximo e cheio de vida. A verdadeira fé sempre nasce do encontro pessoal com Jesus como “companheiro de caminhada”.

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Era preciso que o Cristo padecesse?

Pe. Johan Konings

O sofrimento de Jesus é entendido de muitas maneiras, nem sempre aceitável. Há quem diga que Jesus teve de pagar nossos pecados com seu sangue. Mesmo se é verdade que o sofrimento de Jesus nos resgatou, não é porque Deus exigiu que ele pagasse com seu sangue a nossa dívida. Seria injusto e cruel. Os homens é que “castigaram” Jesus, mas Deus o reabilitou. “Aquele que conduz à vida, vós o matastes, mas Deus o ressuscitou dentre os mortos” (1ª leitura). Era preciso que o Cristo padecesse (evangelho), não porque Deus o desejava, mas porque as pessoas o rejeitaram e o fizeram morrer. Mas Deus quis mostrar publicamente que Jesus, assumindo a morte inflingida ao justo, teve razão. É isso que significa a ressurreição. O próprio Ressuscitado cita os discípulos os textos da Escritura que falam nesse sentido (Lc 24,44).

Muitas vezes, a gente só descobre o sentido profundo das coisas depois que aconteceram. Assim também foi preciso primeiro o Cristo morrer e ressuscitar, para que os discípulos descobrissem que nele se realizou o modo de agir de Deus, do qual falam as Escrituras. Muitas vezes o Antigo Testamento fala do justo perseguido ou rejeitado (p. ex., Sl 22, Sl 69; Sb 2), do Servo Sofredor (Is 52, 13-53,12). Esses textos nos ensinam que aquele que quer praticar a justiça segundo a vontade de Deus há de enfrentar perseguição e morte. Ora, esses textos encontraram em Jesus uma realização inesperada e incomparável: aquele que Deus chama seu Filho morre por estar comprometido com o amor e a justiça de Deus. Em frente dessa morte, a ressurreição é a homenagem de Deus a seu Filho. O que foi rebaixado pelos injustos, é reerguido por Deus e mostrado glorioso aos que nele acreditaram. A ressurreição é a prova de que Deus dá razão a Jesus e de que seu amor é mais forte que a morte.

Se Deus dá razão a Jesus, se Deus endossa a prática de vida que Jesus nos ensinou por seu exemplo, já não podemos hesitar em alinhar nossa vida com a sua. Jesus “ressuscitou por nós”, isto é, para nos mostrar que o certo é viver e morrer como ele. Quem, morrendo ou vivendo, dá a vida pelos irmãos, não é um ingênuo; Deus lhe dá razão.

Que significa então: “Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados”(2ª leitura)? À luz do que dissemos acima, esta expressão não significa que Jesus é um sacrifício oferecido para pagar a dívida em nosso lugar, mas que aquilo que os antigos queriam realizar pelas vítimas de expiação – reconciliar-se com Deus – foi realizado de modo muito superior pela vida de justiça que Jesus viveu até à morte por amor. E, na medida em que o seguirmos nessa prática de vida, guardando seu mandamento, o amor de Deus se torna verdade em nós (1 Jo 2,3-5).

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