Destaque, Notícias › 15/12/2017

3º domingo do Advento

A dura tarefa de falar de si

Frei Gustavo Medella

Falar de si não é tarefa fácil. Falar de si com total honestidade e transparência, mais difícil ainda. É um exercício que exige deparar-se com as próprias luzes e sombras, em perceber de fato a verdade sobre si, sem nada exagerar ou omitir. No Evangelho deste 3º Domingo do Advento (Jo 1,6-8.19-28), João Batista é inquirido pelos levitas e sacerdotes: “Quem és tu?”.

João poderia apostar apenas nas próprias forças para dar sua resposta, afinal dele diria Jesus mais adiante: “Entre todos nascido de mulher, não existe ninguém maior que João Batista” (Mt 11,11). No entanto, coloca-se com humildade e não responde a partir de si, mas contempla um horizonte maior e prefere dar a resposta a partir de Cristo. Com a força divina, encontra seu lugar na história e no plano da Salvação. Alcança a Alegria prometida por Deus àqueles que compreendem Sua dinâmica de amor e gratuidade. É claro que sofre percalços e dificuldades, mas nenhum entrave é capaz de afastá-lo da fidelidade Àquele de quem ele se via servo e discípulo.

O caminho percorrido por João Batista permanece aberto à humanidade. A cada um de nós é dada a possibilidade de nos reconhecermos a partir do Cristo. Menino, pequeno, simples, frágil, ele não nos ameaça nem nos faz sentir medo por sermos que somos, com as virtudes e os vícios. O que ele espera de nós é honestidade e desejo profundo de abraçar uma vida de amor e serviço. Assim teremos condições de encontrar um sentido maior para nossa existência, por mais precária e simples que seja. O Domingo da Alegria seja para nós mais uma possibilidade de crescermos no desejo de sermos, por Cristo, com Cristo e Cristo, construtores de um mundo melhor.

CONFIRA A REFLEXÃO EM VÍDEO:


A testemunha não é o Salvador

Primeira leitura: Is 61,1-2a.10-11
Salmo responsorial: Lc 1,46-48.49-50.53-54
Segunda leitura: 1Ts 5,16-24
Evangelho: Jo 1,5-8.19-28

6 Apareceu um homem enviado por Deus, que se chamava João. 7 Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele. 8 Ele não era a luz, mas apenas a testemunha da luz.

-* 19 O testemunho de João foi assim. As autoridades dos judeus enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para perguntarem a João: «Quem é você?» 20 João confessou e não negou.

Ele confessou: «Eu não sou o Messias.» 21 Eles perguntaram: «Então, quem é você? Elias?» João disse: «Não sou.» Eles perguntaram: «Você é o Profeta?» Ele respondeu: «Não.» Então perguntaram: 22 «Quem é você? Temos que levar uma resposta para aqueles que nos enviaram. Quem você diz que é?» 23 João declarou: «Eu sou uma voz gritando no deserto: ‘Aplainem o caminho do Senhor’, como disse o profeta Isaías.»

24 Os que tinham sido enviados eram da parte dos fariseus. 25 E eles continuaram perguntando: «Então, por que é que você batiza, se não é o Messias, nem Elias, nem o Profeta?» 26 João respondeu: «Eu batizo com água, mas no meio de vocês existe alguém que vocês não conhecem, 27 e que vem depois de mim. Eu não mereço nem sequer desamarrar a correia das sandálias dele.»

28 Isso aconteceu em Betânia, na outra margem do Jordão, onde João estava batizando.


* 1,1-18: O Prólogo de João lembra a introdução do Gênesis (1,1-31; 2,1-4a). No começo, antes da criação, o Filho de Deus já existia em Deus, voltado para o Pai: estava em Deus, como a Expressão de Deus, eterna e invisível. O Filho é a Imagem do Pai, e o Pai se vê totalmente no Filho, ambos num eterno diálogo e mútua comunicação.
A Palavra é a Sabedoria de Deus vislumbrada nas maravilhas do mundo e no desenrolar da história, de modo que, em todos os tempos, os homens sempre tiveram e têm algum conhecimento dela.
Jesus, Palavra de Deus, é a luz que ilumina a consciência de todo homem. Mas, para onde nos conduziria essa luz? A Bíblia toda afirma que Deus é amor e fidelidade. Levado pelo seu imenso amor e fiel às suas promessas, Deus quis introduzir os homens onde jamais teriam pensado: partilhar a própria vida e felicidade de Deus. E para isso a Palavra se fez homem e veio à sua própria casa, neste seu mundo.
A humanidade já não está condenada a caminhar cegamente, guiando-se por pequenas luzes no meio das trevas, por pequenas manifestações de Deus, mas pelo próprio Jesus, Manifestação total de Deus. Com efeito, Jesus Cristo, que é a luz, veio para tornar filhos de Deus todos os homens. Um só é o Filho, porém, todos podem tornar-se bem mais do que filhos adotivos: nasceram de Deus.
Deus tinha dado uma lei por meio de Moisés. E todos os judeus achavam que essa lei era o maior presente de Deus. Na realidade, era bem mais o que Deus tinha reservado para todos. Porque Jesus, o Deus Filho, o verdadeiro e total Dom do Pai, é o único que pode falar de Deus Pai, porque comunica o amor e a fidelidade do Deus que dá a vida aos homens.

* 19-28: Quando João Batista começou a pregação, os judeus estavam esperando o Messias, que iria libertá-los da miséria e da dominação estrangeira. João anunciava que a chegada do Messias estava próxima e pedia a adesão do povo, selando-a com o batismo. As autoridades religiosas estavam preocupadas e mandaram investigar se João pretendia ser ele o Messias. João nega ser o Messias, denuncia a culpa das autoridades, e dá uma notícia inquietante: o Messias já está presente a fim de inaugurar uma nova era para o povo.
Messias é o nome que os judeus davam ao Salvador esperado. Também o chamavam o Profeta. E, conforme se acreditava, antes de sua vinda deveria reaparecer o profeta Elias.
João Batista é a testemunha que tem como função preparar o caminho para os homens chegarem até Jesus. Ora, a testemunha deve ser sincera, e não querer o lugar da pessoa que ela está testemunhando.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Tempo da grande alegria

Frei Almir Guimarães

tique-20Este terceiro domingo do Advento é conhecido como o domingo da alegria. Isaías fala do Servo que foi enviado para anunciar a boa nova aos humildes. Paulo, escrevendo aos tessalonicenses, exorta à alegria. As boas novas sempre provocam explosões de alegria ou leves e doces sorrisos de paz e serenidade.

tique-20Tema da alegria. Difícil abordá-lo. Há manifestações que recebem o rótulo de alegria, mas que não passam de alarido ensurdecedor. Muitas manifestações de baderna são mera tradução do medo de enfrentar a vida. Há, que bom que assim o seja, essas alegrias tão simples e tão cotidianas: a casa arrumada, a mesa posta, a torta de nozes e as pessoas esperando a chegada dos convidados; a alegria de uma aurora que anuncia a chegada sol e que se faz preceder pelo voltejar os pássaros; alegria do dever cumprido que baila no rosto da velha senhora com seu avental descascando goiabas para fazer uma geleia;  alegria do homem que, depois de longa internação hospitalar, volta à casa com direito a vasos floridos e  a um brinde de champagne.

tique-20Há alegrias mais profundas como a de sabermos que fomos inventados para o amor. Que Deus não nos criou para vivermos na opressão, na miséria, na dor de toda sorte. Somos resultado de um plano de amor e esse amor não acaba. Manifestou-se no  rosto do Menino das Palhas e foi evidenciado naquela sexta-feira de dor-amor.  Não existe maior amor do que dar a vida pelos seus.

tique-20Há a alegria da certeza de que nosso destino último não é a terra dos cemitérios nem a poeira lançada ao mar depois da cremação. Alegria de sermos acolhidos pelo Pai na soleira de sua casa depois de termos perdido o rumo e cabeça. Somos  convidados para o banquete da glória.  Trata-se apenas de uma questão de tempo.

tique-20Nada de desânimo. Os joelhos debilitados serão revigorados. As promessas são encantadoras e animadoras: os cegos enxergam, os surdos ouvem, a estéril dá à luz. Deus não permite que vivamos a esmo.

tique-20Alegria porque Deus é nosso Emanuel, Deus conosco.  Certeza de  que convivemos com ele ou ele convive conosco  como Ressuscitado, aquele que nos fala, aquele que nos dá o Pão de sua Palavra e o Pão da Eucaristia.

tique-20“Exulto de alegria no Senhor e minha alma regozija-se em meu  Deus; ele me vestiu com as vestes da salvação, envolveu-me  com o manto da justiça  e adornou-me com um noivo  com sua coroa ou  uma noiva com suas joias” (Is 61,10-11).

tique-20“A alegria cristã não é algo secundário na vida de um cristão. É um traço característico, a única maneira de seguir e viver a Jesus. Ainda que nos pareça “normal”  é realmente estranho “praticar” a religião cristã  sem experimentar que Cristo é fonte de alegria vital(…).  A alegria cristã nasce da união íntima com Jesus Cristo. Por isso não se manifesta de ordinário na euforia  ou no otimismo a todo transe, mas se esconde humildemente no fundo da alma do crente.

 É uma alegria que está na própria raiz da vida sustentada pela fé em Jesus.  Não se vive essa alegria de costas  para o sofrimento que existe no mundo, pois é a alegria  do próprio Jesus dentro de nós. Ao contrário,  converte-se em princípio de luta contra a tristeza. Poucas coisas maiores e mais evangélicas podemos fazer do que aliviar o sofrimento das pessoas  transmitindo-lhes  alegria realista e esperança”  (Pagola, João, p. 227).


Testemunhas de Jesus

José Antonio Pagola

A fé cristã nasceu do encontro surpreendente vivido por um grupo de homens e mulheres com Jesus. Tudo começa quando estes discípulos e discípulas se põem em contato com Ele e experimentam “a proximidade salvadora de Deus”. É essa experiência libertadora, transformadora e humanizadora que eles vivem com Jesus que desencadeou tudo.

Sua fé foi despertada no meio de dúvidas, incertezas e mal-entendidos, enquanto o seguem pelos caminhos da Galileia. Foi ferida pela covardia e negação quando Jesus foi executado na cruz. Reafirma-se e torna-se contagiosa quando o experimentam cheio de vida depois de sua morte.

Se ao longo dos anos esta experiência não se transmite e se contagia de uma geração a outra, introduz-se uma ruptura trágica na história do cristianismo. Os bispos e presbíteros continuam pregando a mensagem cristã. Os teólogos escrevem estudos teológicos. Os pastores administram os sacramentos. Mas, se não há testemunhas capazes de transmitir algo do que se viveu no começo com Jesus, falta o essencial, o único que pode manter viva a fé nele.

Em nossas comunidades precisamos dessas testemunhas de Jesus. A figura do Batista, abrindo-lhe caminho no meio do povo judeu, nos anima a despertar hoje na Igreja esta vocação tão necessária. Em meio à escuridão de nossos tempos, necessitamos de “testemunhas” da luz que nos chega a partir de Jesus.

Crentes que despertam o desejo de Jesus e tornam crível sua mensagem. Cristãos que, com sua experiência pessoal, seu espírito e sua palavra, facilitem o encontro com Ele. Seguidores que o resgatem do esquecimento para torná-lo mais visível entre nós.

Testemunhas humildes que, a exemplo do Batista, não se atribuem nenhuma função que concentre a atenção em sua pessoa, roubando protagonismo a Jesus. Seguidores que não o suplantem nem o eclipsem. Cristãos sustentados e animados por Ele que deixem entrever, por trás de seus gestos e suas palavras, a presença inconfundível de Jesus vivo no meio de nós.

As testemunhas de Jesus não falam de si mesmas. Sua palavra mais importante é sempre aquela que deixam Jesus falar. Na realidade, a testemunha não tem a palavra. É só “uma voz” que anima todos a “aplainar” o caminho que pode levar-nos a Jesus. A fé de nossas comunidades também hoje se sustenta na experiência dessas testemunhas humildes e simples que, no meio de tanto desalento e desconcerto, irradiam luz, pois nos ajudam com sua vida a sentir a proximidade de Jesus.

Trecho do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes


Alegria por causa de Deus, escondido, mas próximo

Pe. Johan Konings

Em meio ao estresse de uns e a miséria de outros faz bem ouvir uma mensagem de alegria: “Transbordo de alegria por causa do Senhor… Como a terra produz a vegetação e o jardim faz brotar suas sementes, assim o Senhor fará brotar a justiça e a glória diante de todas as nações”. Este trecho, o “Magnificat do Antigo Testamento”, é a expressão de um povo que acredita na sua renovação, porque Deus está aí (1ª leitura).

Geralmente as pessoas têm medo da presença de Deus (cf. Is 6,5). Foi preciso que Deus se desse a conhecer de maneira diferente para que superássemos esse medo. Mas esse “Deus diferente” estava escondido. Quem nos prepara para a descoberta é João Batista, hoje apresentado na ótica do Evangelho de João. Ele não é a luz, mas vem testemunhar da luz (Jô 1,6-8). Ele não é o Messias, nem o Profeta (novo Moisés), nem Elias (1,21). Ele se identifica com a voz que convida o povo a preparar uma estrada para a chegada do Senhor (1,23, cf. Is 40,3). E anuncia: “No meio de vós está alguém que não conheceis, aquele que vem depois de mim, e do qual não sou digno de desatar a correia da sandália” (1, 26-27). Naquele que o Batista anuncia manifesta-se que Deus está perto de nós, não como realidade assustadora, mas como pessoa humana que nos ama com tanta fidelidade que dá até sua vida por nós. Não é essa uma razão de alegria? Alegria contida, pois sabemos quanto custou a Jesus manifestar a presença de Deus desse jeito…

Por que Deus não veio logo com todo o seu poder? Deus prefere ficar escondido. É discreto. Quer deixar espaço para nós, para construirmos a História que Deus nos confia. Discretamente assim, quer participar ativamente de nossa história, em Jesus, para que aprendamos a fazer a história do jeito dele. E esse jeito se chama shalom: paz e felicidade. Lembrando a vinda de Jesus ao mundo, celebramos a presença discreta de Deus em nossa história. Que significa “alegria” no mundo de hoje? Réveillon num restaurante cinco estrelas? Bem diferente é a imagem que surge da 2ª leitura: “Estai sempre alegres, orai sem cessar, por tudo daí graças. Não apagueis o Espírito….”As primeiras comunidades cristãs viviam na espera da volta gloriosa de Jesus para breve. Eram animadas pelo Espírito de Deus, que os fazia até falar profeticamente. Por isso era preciso “examinar e ficar com o que fosse bom” (5,19), pois havia também “profetas confusos”, como hoje… Mas o importante era que reinasse a alegria por causa da proximidade do Senhor. Deus mesmo quer nos aperfeiçoar e santificar e não desiste: “Quem vos chamou é fiel: ele o fará” (5,24). A alegria é saber-se aceito por Deus, como a amada pelo amado (cf. 1ª leitura).

Talvez esta imagem da alegria não convença todos. É pouco publicitária… Ora, este terceiro domingo do Advento chama-se pela primeira palavra da antiga antífona em latim, “Gaudete”, “Alegrai-vos”. Se não formos capazes de participar dessa alegria, esticando o pescoço no alegre desejo de ver aquele que está discretamente presente no meio de nós, alguma coisa não está certa…

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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