Destaque, Notícias › 02/03/2018

3º Domingo do Quaresma

O Cristo do chicote para tempos de ódio

Frei Gustavo Medella

“Não pronunciarás o nome do Senhor teu Deus em vão!” (Ex 20,7). Pode parecer um sacrilégio, mas chega a dar saudade do tempo em que apenas se pronunciava o nome de Deus em vão… E se parava por aí! Pois “em vão” significa, ao pé da letra, de forma vazia, sem grande influência, inadvertidamente. Saudade das palavras vãs… Hoje, a situação tem se tornado mais grave. Beira ao insuportável. Afinal, muito mais grave do que se pronunciar o nome de Deus “em vão”, é trazê-lo à fala para estimular – e até legitimar – atitudes de ódio, violência, discórdia, discriminação e morte. Doença coletiva, alucinante e fatal. Falta de lucidez, de capacidade crítica, de bom senso.

Para não olhar o quintal do vizinho, podemos refletir esta realidade a partir de posicionamentos e ações de muitos que se dizem “católicos, apostólicos, romanos”.  Aferrados a uma visão distorcida do que significa a fidelidade à Tradição, defendem posicionamentos frontalmente contrários à proposta de vida evangélica apresentada por Jesus, que pressupõe o serviço, a acolhida, a promoção da paz e a defesa dos fracos. Não aceitam dialogar e com muita facilidade partem para a agressão, a hostilidade e até a violência. Dizem-se fiéis absolutos da hierarquia, mas não se furtam a desrespeitar, com ofensas baixas, os hierarcas que possam contrariar seus preceitos petrificados. Ninguém escapa, nem o Papa, o Vigário de Cristo, que traduz para o respectivo tempo a atualidade do Evangelho deixado pelo Mestre.

Diante deste crítico cenário, é preciso novamente que se abra espaço para o Cristo do chicote. Que os fios de bom senso, respeito, fidelidade evangélica se unam num resistente arranjo capaz de açoitar a soberba e o orgulho daqueles que se enchem de um deus idolátrico, eivados de cegueira e espírito de segregação. Que o Senhor esvazie os corações entulhados de muitas certezas daqueles que se autoinvestem da estéril missão de “fiscais da fé”.

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O corpo de Jesus é o novo Templo

1ª Leitura: Ex 20,1-17 ou 20,1-3.7-8.12-17
2ª Leitura: 1Cor 1,22-25
Evangelho: Jo 2,13-25

-* 13 A Páscoa dos judeus estava próxima, e Jesus subiu para Jerusalém. 14 No Templo, Jesus encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas sentados. 15 Então fez um chicote de cordas e expulsou todos do Templo junto com as ovelhas e os bois; esparramou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas. 16 E disse aos que vendiam pombas: «Tirem isso daqui! Não transformem a casa de meu Pai num mercado.» 17 Seus discípulos se lembraram do que diz a Escritura: «O zelo pela tua casa me consome.»

18 Então os dirigentes dos judeus perguntaram a Jesus: «Que sinal nos mostras para agires assim?» 19 Jesus respondeu: «Destruam esse Templo, e em três dias eu o levantarei.» 20 Os dirigentes dos judeus disseram: «A construção desse Templo demorou quarenta e seis anos, e tu o levantarás em três dias?» 21 Mas o Templo de que Jesus falava era o seu corpo. 22 Quando ele ressuscitou, os discípulos se lembraram do que Jesus tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus.

Jesus conhece o homem por dentro -* 23 Jesus estava em Jerusalém durante a festa da Páscoa. Vendo os sinais que ele fazia, muitos acreditaram no seu nome. 24 Mas Jesus não confiava neles, pois conhecia a todos. 25 Ele não precisava de informações a respeito de ninguém, porque conhecia o homem por dentro.


* 13-22: Para os judeus, o Templo era o lugar privilegiado de encontro com Deus. Aí se colocavam as ofertas e sacrifícios levados pelos judeus do mundo inteiro, e formavam verdadeiro tesouro, administrado pelos sacerdotes. A casa de oração se tornara lugar de comércio e poder, disfarçados em culto piedoso. Expulsando os comerciantes, Jesus denuncia a opressão e a exploração dos pobres pelas autoridades religiosas. Predizendo a ruína do Templo, ele mostra que essa instituição religiosa já caducou. Doravante, o verdadeiro Templo é o corpo de Jesus, que morre e ressuscita. Deus não quer habitar em edifícios, mas no próprio homem..
* 23-25: Para acreditar em Jesus, não basta aceitá-lo como Messias nos moldes tradicionais, isto é, como um chefe que exerce função nacionalista através do poder e domínio. Acreditar em Jesus é aceitá-lo como o Messias que realiza o projeto de Deus e que dá sua própria vida, rompendo as muralhas de separação entre os homens. Jesus rejeita qualquer adesão que instrumentalize a sua ação em favor de interesses de grupo. Este trecho serve como introdução a todo o diálogo com Nicodemos (3,1-36).

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


3º Domingo do Quaresma, ano B

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Ó Deus, fonte de toda misericórdia e de toda bondade, vós nos indicastes o jejum, a esmola e a oração como remédio contra o pecado. Acolhei a confissão da nossa fraqueza para que, humilhados pela consciência de nossas faltas, sejamos confortados pela vossa misericórdia”.

1. Primeira leitura: Ex 20,1-3.7-8.12-17

A Lei foi dada por Moisés.

A Bíblia Depois da espetacular passagem pelo mar Vermelho, os hebreus são guiados por Moisés, enfrentam vários perigos (inimigos, falta de água e comida) e chegam aos pés do Monte Sinai. Ali se celebra a Aliança de Israel com Deus, que exige a observância de mandamentos, para Ele ser o Deus de Israel e eles, o seu povo. Logo no início Deus se apresenta como Aquele que libertou seu povo da escravidão do Egito. Os mandamentos, portanto, visam preservar a liberdade, para que Israel nunca mais volte a ser um povo de escravos, mas sirva, adore e ame unicamente o Deus libertador. O 1º mandamento se restringe ao v. 3, que é uma afirmação do monoteísmo, no meio de uma civilização politeísta. O que seria o 2º mandamento original, os v. 4-6, foram omitidos na catequese do cristianismo, por motivos práticos; referem-se à proibição de fazer e adorar imagens de outros deuses. Já que Deus é um só, não existem outros deuses e suas imagens nada mais representam. Os v. 9-11 também foram omitidos, pois apenas especificam o mandamento do sábado (v. 8). Por sua vez, o 10º mandamento foi subdividido em dois: não desejar a mulher do próximo (adultério), nem cobiçar os bens do próximo. Esta divisão já aparece em Dt 5,21. Por isso, no Catecismo da Igreja Católica, o v. 14 (não cometer adultério) foi mudado para “não pecar contra a castidade”. Os três primeiros mandamentos falam da nossa relação com Deus. Jesus resume os três primeiros mandamentos num único, o maior e primeiro mandamento: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o coração…”; os outros mandamentos compõem o segundo: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22,36-40).

Salmo responsorial: Sl 18

Senhor, tens palavras de vida eterna.

2. Segunda leitura: 1Cor 1,22-23

Pregamos Cristo crucificado, escândalo para os homens;
mas para os chamados, sabedoria de Deus.

A presença de Paulo em Atenas chamou a atenção dos sábios do Areópago, que o convidaram para que lhes falasse mais sobre Jesus e a ressurreição, pensando que ia anunciar uma nova divindade. Mas quando lhes fala de um Deus encarnado, que morre e ressuscita, rejeitam sua pregação. Por isso, ao chegar a Corinto, Paulo está mais convencido ainda que o diferencial de sua pregação é a sabedoria da cruz. Por isso continua com fervor a anunciar a sabedoria de Deus, que é Cristo crucificado, tanto aos judeus, que “pedem sinais milagrosos”, como para os gregos,  “que procuram sabedoria”. A fé na ressurreição não pode ser separada da Cruz de Cristo.

Aclamação ao Evangelho

Glória e louvor a vós, ó Cristo.
Tanto Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único:
Quem nele crer terá a vida eterna.

3. Evangelho: Jo 2,13-25

Destruí este templo, e em três dias eu o levantarei.

Quando João escreve seu evangelho, o Templo já tinha sido destruído. Talvez por isso, João coloca logo no início de seu evangelho a cena da expulsão dos vendilhões do Templo, que os outros evangelistas situam após a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. O tema central de hoje é a adoração de Deus, “em espírito e verdade”, no Cristo morto e ressuscitado. O tema já é preparado quando Jesus chama Natanael, que se espanta por tê-lo visto debaixo da figueira. Jesus então diz: “Na verdade eu vos digo: vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem” (Jo 1,51). O lugar privilegiado para o encontro com Deus não será mais o Templo e, sim, Jesus, “o Filho único do Pai”, “a Palavra que se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Antecipando a destruição do Templo, com chicote na mão, Jesus expulsa todos, junto com bois, ovelhas, pombas e cambistas, dizendo: “Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio”. O que importa para a verdadeira adoração – diz Jesus à Samaritana – não é este ou aquele templo, “porque os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade; são estes os adoradores que o Pai deseja” (Jo 4,23). Quando os judeus questionam sobre o seu gesto e lhe perguntam: “que sinal nos mostras para agir assim”, Jesus aponta sua futura morte e ressurreição: “Destruí este Templo, e em três dias eu o levantarei”. Depois da sua ressurreição os discípulos entenderam que Jesus estava falando do Templo do seu corpo. Paulo lembra que o corpo de cada pessoa que crê em Jesus – e a própria comunidade cristã – são um templo vivo, onde Deus gosta de morar (1Cor 6,15-20; 12,12-30; Jo 14,23).

No contexto da CF “Fraternidade e violência”, convém lembrar que Jesus foi vítima da violência humana, como milhões de pessoas que hoje sofrem, são vítimas de nossa sociedade corrupta e injusta.

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O templo que Jesus frequentou

Frei Clarêncio Neotti

Podemos dividir o evangelho de hoje em três partes: primeiro, a purificação do templo, expulsando os que haviam transformado seus átrios em lugar de comércio para a compra e venda de animais, que serviam ao formalismo ritual. Os peregrinos, tantas vezes vindos de longe, deviam encontrar e pagar no lugar os animais para o sacrifício. Muitas vezes os peregrinos dispunham só de dinheiro romano, não admitido no templo, por serem as moedas cunhadas com imagens de imperadores ‘estrangeiros’ ou com figuras ‘pagãs’ do mundo romano. Daí a presença de cambistas no templo. Segundo o Evangelista, o episódio acontece no recinto sacro, mas externo ao templo propriamente dito, que era um lugar de acesso também a estrangeiros e ‘pagãos’. Por isso, pode parecer excessivo o rigor de Jesus. Mas ao Evangelista interessa o simbolismo do episódio.

O templo que Jesus conheceu fora restaurado por Herodes (o Grande), o mesmo Herodes que mandara massacrar os meninos de Belém (Mt 2,16). Era considerado uma das mais suntuosas construções do Oriente Médio. (Reconstruído sobre a planta do famoso templo de Salomão, o templo que Jesus frequentou foi arrasado no ano 70, como ele predissera; cf. Me 13,2). O templo se tornara o centro do culto ao Deus único e centro do judaísmo. Todos os hebreus adultos iam ao templo ao menos uma vez por ano. Nele Jesus foi consagrado a Deus por Maria e José (Lc 2,22-39); nele ‘se perdeu’ aos 12 anos (Lc 2,41-52); a ele Jesus terá ‘subido’ nas solenidades costumeiras.

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Sinceridade e verdade: nada mais nada menos

Frei Almir Guimarães

Introdução

Mais um domingo da Quaresma, uma versão dos  dez mandamentos  (Êxodo).

Sabedoria de Deus não é erudição… Deus escreve certo por linhas tortas… tem seus caminhos… o que parece insensatez pode ter valor… o forte é fraco e o fraco é forte.

O famoso episódio  dos vendilhões do templo… Quando Jesus chega a Jerusalém, não encontra  gente que busca a Deus, mas comércio.

O Altíssimo e Santo que  precisamos buscar  não está  em primeiro lugar.

Os mandamentos do amor

Ele é grande, belo, mora numa luz inacessível… somos buscadores do Senhor.

Não somos apenas membros de uma religião… mas andamos buscando o Senhor  para estabelecer com ele um clima de amor/entrega.

Irrequieto é nosso coração enquanto não descansar em Deus, já dizia Agostinho.

Temos desejo, ânsia, vontade de amá-lo de todo coração, de manter com ele laços de profunda intimidade?

Não queremos pronunciar seu santo nome de qualquer maneira. Se ele é nosso amado, seu nome precisa ser santificado.

Vivemos com outras pessoas amadas pelo Senhor, pelas quais ele deu a sua vida.

Somos gratos a nossos pais e quando envelhecem queremos que nada lhes falte.  Respeitaremos a vida humana desde o nascedouro até a morte.

Nosso corpo não é objeto de prazer de qualquer tipo… Batalhamos por uma pureza de corpo e de coração.

O que é dos outros, é dos outros… Só queremos ter uma dívida que não conseguimos  pagar: a de um crescente amor pelos outros.

Longe de nós cobiçar pessoas e coisas.

Nunca colocar o nome do irmão na lama… sobretudo quando o outro é mais puro que nós.

As pessoas de consciência bem formada, de consciência delicada têm o decálogo inscrito em seu coração.

Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração e ao próximo como a ti mesmo.

Começamos a amar ao Senhor respirando sinceridade no templo de nosso coração.

O zelo  pela casa do Senhor

“Os que dizem amar o  Senhor, precisam  fazer de sua casa uma casa de oração!”

Jesus nos mostra um Jesus indignado.

Jesus sobe Jerusalém para celebrar as festas com seus discípulos.

O que esperava Jesus ver? Talvez pessoas recolhidas, gente procurando a  presença de Deus,  pessoas com ar de profundidade e de recolhimento.  Há todo um aparato em função do templo, das oferendas… mas que choca a Jesus.  Não  esperava ver isso: vendedores de bois, cordeiros, bancas a troca de moedas… derruba mesas, usa de chicote. Talvez as coisas não tenham passado com cores tão fortes.  Jesus aceita a tradição.  Vem ao templo por respeito à tradição.  Não profana, nem macula o templo.  Choca-se com a mentira.

Penso que ele se sentiu estranho nesse lugar.  O que está a ver nada tinha a ver com a adoração carinhosa do Pai.  Parece uma religião de compra e venda, de dinheiro..  Parece…  Pessoas buscando seus próprios interesses.

“Quase sem dar-nos conta, todos nós podemos converter-nos em “vendedores e cambistas” que não sabem viver senão buscando seu próprio interesse. Estamos convertendo onde tudo se compra e se vende, e corremos o risco de viver nossa relação com Deus de maneira mercantil”  (Pagola, João, Vozes, p.58).

Como estamos construindo e constituindo nossas comunidades? Apenas reuniões sempre aos domingos, cada um colocando diante de  Deus interesses e suas preocupações.  Insistência no dízimo… que outros façam o bem que não temos a coragem de fazer.  A oferta de nós mesmos, nossas ofertas materiais estão impregnadas do perfume da transparência?

Parece que  Jesus não conseguiu enxergar no templo  a atitude do publicano que não ousava levantar os olhos,  naquele momento não encontrou  pessoas que  haviam deixado um pobre coitado na hospedaria,  parece que não estava lá, naquele momento, a viuvinha que tirou de seu lencinho a única moeda que tinha… O que havia lá, tudo indica, estava em contradição com o jeito de Jesus viver.

Conclusão

Lutaremos na busca de uma coerência de vida.

Sinceridade diante de Deus e sinceridade diante dos outros.

Uma religião que começa no interior, no mais íntimo de nós mesmos.

As aparências enganam.  Sinceridade e verdade. Nada mais, nada menos.

Pensamento

Podemos dizer que a civilização em que nos movemos torna difícil  nossa aspiração por uma vida evangélica  na busca do escondido e do secreto porque com a multiplicidade de presenças  superficiais  –  o celular, a rede  –  nossa civilização trivializou  a  intimidade.  Com a multiplicação à nossa volta de um mundo de coisas provisórias foi diminuindo nossa aptidão para a constância  e foi sendo desacreditada a solidão, fazendo de forma que não sejamos mais capazes de  escutar a eloquência do silêncio e assim não sejamos capazes de fidelidades duradouras.  Nunca foi fácil a criação de um espaço interior, em sintonia e bem integrado com o espaço exterior.  Nunca foi fácil o caminho para a autenticidade que pouco tem a ver com a descansada vida daquele que não foge do ruído mundano e que  acredita na autenticidade, daquele que  sente a age com o aquilo que enche de força seu coração.

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Um templo novo

José Antonio Pagola

OS quatro evangelistas se fazem eco do gesto provo cativo de Jesus expulsando do Templo “vendedores” de animais e “cambistas” de dinheiro. Não pode suportar ver a casa de seu Pai cheia de gente que vive do culto. A Deus não se compra com “sacrifícios”.

Mas João, o último evangelista, acrescenta um diálogo com os judeus, no qual Jesus afirma de maneira solene que, depois da destruição do Templo, Ele “o levantará em três dias”. Ninguém conseguiu entender o que Ele dizia. Por isso o evangelista acrescenta: “Jesus falava do templo de seu corpo”.

Não esqueçamos que João está escrevendo seu Evangelho quando o Templo de Jerusalém já estava destruído há vinte ou trinta anos. Muitos judeus se sentem órfãos. O Templo era o coração de sua religião. Como poderão sobreviver sem a presença de Deus no meio de seu povo?

O evangelista faz os seguidores de Jesus lembrar que eles não hão de sentir nostalgia do velho Templo. Jesus, “destruído” pelas autoridades religiosas, mas “ressuscitado” pelo Pai, é o “novo Templo”. Não é uma metáfora atrevida. É uma realidade que há de marcar para sempre a relação dos cristãos com Deus.

Para aqueles que veem em Jesus o novo Templo, onde Deus habita, tudo é diferente. Para encontrar-se com Ele não basta entrar numa igreja. É necessário aproximar-se de Jesus, entrar em seu projeto, seguir seus passos, viver com seu espírito.

Neste novo Templo que é Jesus, para adorar a Deus não basta o incenso, as aclamações nem as liturgias solenes. Os verdadeiros adoradores são aqueles que vivem diante de Deus “em espírito e em verdade”. A verdadeira adoração consiste em viver com o “Espírito” de Jesus na “verdade” do Evangelho. Sem isto, o culto é “adoração vazia”.

As portas deste novo Templo que é Jesus estão abertas a todos. Ninguém está excluído. Podem entrar nele os pecadores, os impuros e inclusive os pagãos. O Deus que habita em Jesus é de todos e para todos. Neste Templo não se faz nenhuma discriminação. Não há espaços diferentes para homens e mulheres. Não há raças eleitas, nem povos excluídos. Os únicos preferidos são os necessitados de amor e de vida.

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A aliança de Deus e a cruz de Cristo

Pe. Johan Konings

A Quaresma é tempo de preparação ou de renovação batismal. No afã de instruir os fiéis, a liturgia do 3º domingo apresenta os Dez Mandamentos (1ª leitura). Não são meros  “preceitos”. A primeira frase não é um preceito, mas a expressão do benefício que Deus prestou a seu povo. “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa de escravidão”.  Os Dez Mandamentos têm a forma de uma “aliança”, de um pacto entre um soberano e seus subalternos. O soberano “entra” com sua proteção e força, os subalternos com sua colaboração. Deus mostrou sua força, tirando o povo do Egito. Agora, os subalternos vão colaborar, observando as regras necessárias para que o povo que Deus escolheu para si fique em pé. São regras vitais: respeitar e adorar a ele só, e respeitar-se mutuamente, na justiça e na solidariedade. Estas duas regras são necessárias para que o povo não se desintegre pela divisão religiosa e pela divisão político-social. São as duas tábuas da Lei: o amor a Deus e o amor ao próximo. Desde então fazem parte do catecismo, até hoje.

Esse Deus, que nos manda adorar a si e amar os nossos irmãos, dá-se a conhecer de forma sempre mais concreta através da História. Os antigos israelitas o concebiam, sobretudo, como “o Senhor dos Exércitos”, o Todo-Poderoso, que os tirou do Egito. São Paulo, porém, depois que se converteu a Jesus de Nazaré, percebeu Deus de outra maneira. Deus não se manifesta só no poder; em Jesus, manifestou-se na fraqueza da cruz, “escândalo para os judeus e loucura para os pagãos”( 2ª leitura). Loucura também para os cristãos de nome que somos nós, que preferimos cuidar de nosso próprio proveito, enquanto mais que a metade da humanidade vive na miséria, e isso, bem perto de nós.

Esse Deus da “loucura do amor”, que se manifesta em Jesus, é o centro do evangelho de hoje, que orienta nosso olhar para a obra do amor fiel que Jesus levará a termo em Jerusalém. Jesus entra no Templo, irrita-se com os abusos – comércio em vez de oração – e expulsa, até com chicote, os animais do sacrifício e os vendedores. Ora, expulsando, na véspera da Páscoa, os animais do sacrifício – um para cada família de peregrinos – ele põe fim ao regime do Templo (que servia exatamente para os sacrifícios dos animais). O evangelista acrescenta que os discípulos mais tarde entenderam que a esse gesto se referiam as palavras do Sl 69,10: “O zelo por tua casa me devorará”. E quando os chefes exigem um sinal de sua autoridade, Jesus responde: “Destruí este santuário, eu o reerguerei em três dias”. O evangelista explica que ele falava da ressurreição, do templo de seu corpo, que desde agora toma o lugar do templo de pedra. Jesus é o lugar do verdadeiro culto, da verdadeira adoração, do encontro com Deus. Jesus crucificado.

Jesus renovou a primeira Aliança, a de Moisés e da Lei, no dom de sua própria vida. Este dom é agora o centro de nossa religião, de nossa busca de Deus. Uma vida que não vai em direção da cruz não é cristã.

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