Destaque, Notícias › 05/05/2017

4º DOMINGO DA PÁSCOA

Resistir à tentação de “pular a cerca”

Frei Gustavo Medella

Na sabedoria popular, “pular a cerca” significa agir às escondidas para realizar um ato que a própria consciência de quem o pratica acusa como errado. Se assim não fosse, passaria pela porta, sem preocupação em ser notado, sem a intenção de se esconder. O caminho legítimo e seguro é o da porta. Por ali se entra e sai, por ali as pessoas são recebidas, enviadas, acolhidas. No Evangelho deste 4º Domingo do Tempo da Páscoa (Jo 10,1-10), Jesus se define como a “porta das ovelhas”. Dentre as possíveis compreensões desta afirmação do Mestre, fica uma provocação decisiva para aqueles que se identificam como cristãos: “chegar às ovelhas sem passar por Cristo é ilegítimo e desonesto”.

Esta questão poderia ser abordada em termos institucionais, como uma avaliação da ação pastoral da Igreja, por exemplo. No entanto, nesta reflexão pretendo lançar um breve olhar sobre o relacionamento humano. Como cristãos, quais têm sido os caminhos que utilizamos para ter acesso às pessoas? Será que entramos através de Cristo, com caridade e respeito, gratuidade e espírito de fraternidade? Passar pelo “Cristo Porta” significa adentrar na vida da pessoa com sua licença, oferecendo a ela a oportunidade de se tornar alguém melhor, em todos os sentidos. O verdadeiro discípulo sabe que os relacionamentos que constrói precisam necessariamente ter como via o desejo de se tornar presença do Senhor na vida do rebanho.

Por outro lado, quando não nos deixamos orientar por Cristo e pelo seu modo de ser e de agir, corremos o risco de sermos usurpadores, tenhamos ou não consciência. É muito triste quando alguém que se diz cristão se utiliza deste “rótulo” para se aproximar dos outros em busca de vantagens pessoais, à procura de benefícios financeiros, investindo no cultivo de um culto a si mesmo. Quem se comporta assim invade a vida do outro, “pula a cerca do respeito” e produz tristeza e desilusão na vida do rebanho. Basta lembrarmos, sem citar nomes, da quantidade de fraudes e extorsões praticadas por muitos que se dizem “apóstolos”, “bispos”, “missionários”, “pastores”, mas que não passam de meros exploradores de muitas ovelhas perdidas.

Desta constatação fica a consciência de que, em maior ou menor proporção, todos podemos estar sujeitos a instrumentalizar as relações em benefício próprio. Por isso se faz necessário um discernimento permanente, animado por um desejo sincero e perseverante de seguir com atenção e disciplina os passos do Bom Pastor.

Foto: Ali Unlu (Flickr)

O povo conhece a voz de Jesus

1ª Leitura: At 2, 14a.36-41
Sl: 22
2ª Leitura: 1Pd 2, 20b-35
Evangelho: Jo 10, 1-10

* 1 «Eu garanto a vocês: aquele que não entra pela porta no curral das ovelhas,  mas sobe por outro lugar, é ladrão e  assaltante. 2 Mas aquele que entra pela  porta, é o pastor das ovelhas. 3 O porteiro abre a porta para ele, e as ovelhas ouvem a sua voz; ele chama cada uma de suas ovelhas pelo nome e as conduz para fora. 4 Depois de fazer sair todas as suas ovelhas, ele caminha na frente delas; e as ovelhas o seguem porque conhecem a sua voz. 5 Elas nunca vão seguir um estranho; ao contrário, vão fugir dele, porque elas não conhecem a voz dos estranhos.» 6 Jesus contou-lhes essa parábola, mas eles não entenderam o que Jesus queria dizer.

Jesus é o único caminho –* 7 Jesus continuou dizendo: «Eu garanto a vocês: eu sou a porta das ovelhas.  8 Todos os que vieram antes de mim são ladrões e assaltantes, mas as ovelhas não os ouviram.  9 Eu sou a porta. Quem entra por mim, será salvo. Entrará, e sairá, e encontrará pastagem. 10 O ladrão só vem para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância.


* 10,1-6: Nesta comparação, o curral representa a instituição que explora e domina o povo. Os ladrões e assaltantes são os dirigentes. Jesus mostra que sua mensagem é incompatível com qualquer instituição opressora e que sua missão é conduzir para fora da influência dela os que nele acreditam, a fim de formar uma comunidade que possa ter vida plena e liberdade.
* 7-21: O único meio de libertar-se de opressores ou de uma instituição opressora é comprometer-se com Jesus, pois ele é a única alternativa (a porta). Jesus é o modelo de pastor: ele não busca seus próprios interesses; ao contrário, ele dá a sua própria vida a todos aqueles que aceitam sua proposta. Jesus provoca divisão: para uns, suas palavras são loucura; para outros, sua ação é sinal de libertação.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

4º Domingo da Páscoa, ano A

Frei Ludovico Garmus, OFM

Oração: “Deus todo-poderoso, conduzi-nos à comunhão das alegrias celestes, para que o rebanho possa atingir, apesar de sua fraqueza, a fortaleza do Pastor”.

1. Leitura: At 2,14a.36-41

Não era possível que a morte o dominasse.

Domingo passado, em seu primeiro anúncio aos judeus (querigma) no dia de Pentecostes, Pedro lembrou o que Jesus fez durante sua vida pública e acusou os chefes que o mataram. Mas Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos, ao terceiro dia, e que os apóstolos eram testemunhas de tudo isso. Jesus, porém, foi exaltado à direita de Deus e derramou o Espírito Santo, conforme prometera. De fato, todos os ouvintes foram atraídos para saber o que estava acontecendo junto ao Cenáculo. – Hoje é retomado o discurso de Pedro no dia de Pentecostes. Pedro faz um apelo a todos os ouvintes que reconheçam que “Deus constituiu Senhor e Cristo este Jesus que vós crucificastes”. O anúncio de Pedro provoca um desejo de mudança nos ouvintes e por isso perguntam: “Irmãos, o que devemos fazer?” A resposta de Pedro é clara: Todos devem converter-se, isto é, mudar de vida, batizar-se em nome de Jesus Cristo para receberem o perdão dos pecados, condição para eles também receberem o Espírito Santo. Esta proposta/promessa da pregação de Pedro é para os judeus (“vós e vossos filhos”) e para os pagãos (“os que estão longe”), para todos que “nosso Deus chamar a si”. – Deus nos chama por meio de seu Filho, Jesus Cristo, o bom pastor e nos faz um apelo: “Salvai-vos dessa gente perversa”.

Salmo responsorial: Sl 22

O Senhor é o pastor que me conduz,
para as águas repousantes me encaminha.

2. Segunda leitura: 1Pd 2,20b-25

Voltareis ao Pastor de vossas vidas.

Pela sua cruz, Cristo “carregou nossos pecados em seu próprio corpo, a fim de que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça”. Cristo é o bom pastor que vai atrás das ovelhas perdidas, para enfaixar aquelas machucadas (Ez 34,11.16; Lc 15,1-7) e curar as feridas com o remédio de seu amor: “Por suas feridas fostes curados. Andáveis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao pastor e guarda de vossas vidas” (1Pd 2,24-25).

Aclamação ao Evangelho: Jo 10,14

Eu sou o bom pastor, diz o Senhor;
Eu conheço as minhas ovelhas
e elas me conhecem a mim.

3. Evangelho: Jo 10,1-10

Eu sou a porta das ovelhas

Cada ano do ciclo litúrgico (anos A, B e C) medita-se uma parte da parábola (ou alegoria) do Bom Pastor de Jo 10. Neste ano (A) meditamos a primeira parte. O texto se divide em duas partes: uma parábola enigmática do pastor das ovelhas (v. 1-6) e Jesus como a porta das ovelhas (v. 7-10). Há uma oposição entre a figura do ladrão/assaltante e a do verdadeiro pastor das ovelhas. Há também uma diferente reação das ovelhas: elas seguem confiantes ao seu pastor e fogem do estranho, que é o ladrão e o assaltante. A porta tem dupla função: distingue o verdadeiro do falso pastor e serve para a entrada e saída tanto das ovelhas como do pastor. A porta significa, pois, segurança e abrigo para as ovelhas, durante a noite, e possibilidade de sair em busca de pastagens e água, durante o dia. A porta do curral exerce, portanto, uma função básica para a vida das ovelhas; torna possível, também, apresentar Jesus como a porta (v. 7-10). Insiste-se agora na distinção entre Jesus e os assaltantes, que ameaçavam as ovelhas no curral. A estes, porém, as ovelhas não ouviram, porque eles vieram para matar, roubar e destruir. Mas Jesus veio para que todos tenham vida em abundância. Jesus é a porta em relação ao Pai. Ele é o caminho, a verdade e a vida: “Ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14,6).

Com razão o Papa Francisco nos convoca a sermos uma “Igreja em saída”. A Igreja não pode permanecer medrosa, encerrada em si mesma, como os discípulos no Cenáculo antes da manifestação do Espírito. A Igreja de Cristo deve abrir suas portas e janelas, sair em busca das ovelhas desgarradas, perdidas ou machucadas. O verdadeiro pastor vai ao encontro das ovelhas. Deve ter o “cheiro das ovelhas”, para que elas o reconheçam e o sigam em busca de pastagens, que as saciem de verdade, e da água viva, que é o próprio Cristo Jesus (Jo 4,13-14).

Um pastor chamado Jesus

Atos 2, 14.36-41
1Pedro 2,20-25
João 10,1-10

Frei Almir Guimarães

No ofício de pastor, uma tarefa importantíssima é conduzir as ovelhas por caminhos seguros, protegê-las de todo possível dano, libertá-las de qualquer perigo, tirá-las do atoleiro e curar as feridas que possam ter sofrido (Espiritualidade Pastoral, Salvador Valadez Fuentes, Paulinas , p.86).

Neste tempo pascal desenha-se diante de nossos olhos a figura do pastor Cristo Jesus, o Bom Pastor. Quando empregamos esta palavra vem-nos à mente uma pessoa profundamente cuidadosa e atenciosa. Aquele se preocupa com as ovelhas, proporciona-lhes o melhor alimento, protege-as dos animais selvagens. O pastor verdadeiro, estimando as ovelhas, faz nascer laços de carinho entre ele e elas. Elas conhecem a sua voz e ele pressente suas necessidades. Há uma forte dimensão de intimidade e de desvelo nos textos do bom pastor.

Os tempos modernos, talvez, não apreciem muito a imagem do pastor. Pastor lembra ovelha, sem muita garra e ovelha obediente e submissa. Hoje preferimos dizer que somos discípulos do Mestre. Entretanto, por detrás da imagem do pastor há imensa riqueza que não pode ser negligenciada.

Pastor é uma palavra que vem da língua indo-europeia, da raiz pa e quer dizer alimentar. Pão e pastor estão ligados à ideia de alimentar.

Jesus se mostrou pastor em suas posturas e falas.  Uma das mais belas parábolas do Mestre é a do filho pródigo em que o pai acolhe a ovelha transviada. Jesus não demonstra muito afeto pelas pessoas mecanicamente observantes, por frios de regulamentos e fala de buscar a ovelha desgarrada no meio do espinheiros. Nesse empenho o pastor bom quer provocar alegria. Seu jeito de ser é de alguém que vive “antenado” em pessoas que, desviadas do bom caminho,  podem conhecer uma ventura de existir como Zaqueu, a prostituta que estava para ser apedrejada, os pecadores de toda espécie. Pastor e misericórdia são realidades que caminham juntas.

Gostamos de fixar os olhos no peito aberto de Jesus no alto da cruz e ver a fenda ali feita como espaço de amor e de alimentação de nossa fragilidade. Gostamos também de contemplá-lo com vestes de pastor carregando uma ovelha nos ombros.

Jesus-pastor conhece as ovelhas. E as ovelhas o conhecem. Esse conhecimento significa comunhão de vida, um amor forte e experimental.

Jesus-pastor não apenas dá sua vida, mas comunica vida. Ele é ressurreição e vida, pão da vida, veio para que os seus tenham vida e vida em abundância. O que nele crer não morrerá para sempre. Não é precisamente esta a missão do agente de pastoral: comunicar vida, vida de Deus? Uma prática pastoral que não comunica vida não é de Jesus, não é pastoral.

Jesus-pastor liberta e cura, das enfermidades físicas, do pecado, da incredulidade e do temor, do apego aos bens terrenos, da discriminação feminina.

Nossos sacerdotes são designados de pastores. Quanta grandeza e beleza! Os que são colocados à frente das comunidades são encarregados de alimentar a vida dos que lhes foram confiados: cuidar que a explicação da Palavra seja feita de tal forma que nutra o mais profundo dos que lhes foram confiados; interessar-se pela vida mais profunda dos que lhes foram confiados; colocar alimento da vida dos pais que pedem batismo para os filhos, para os que se unem pelo matrimônio, para homens e mulheres que perderam o gosto de viver. Os pastores de hoje precisam ser criativos e, no dizer do Papa Francisco, serem animadores de uma Igreja em saída. Os padres serão pessoas cujo coração se forja na contemplação e na imitação do Bom Pastor. Como Jesus o padre pastor dá a vida pelas ovelhas.

Este pensamento de José A. Pagola pode ser útil não somente para os sacerdotes, mas também para todos os agentes de pastoral e para os pais que são “pastores” de seus filhos: “Seguir a Jesus como Bom Pastor é interiorizar as atitudes fundamentais que ele viveu e esforçar-nos para vive-las hoje a partir de nossa própria originalidade, prosseguindo a tarefa de construir o Reino de Deus que ele começou. Mas enquanto a meditação for substituída pela televisão, o silêncio interior pelo ruído e o seguimento da própria consciência pela submissão cega à moda, será difícil  escutarmos a voz do Bom Pastor que pode ajudar-nos a viver no meio dessa “sociedade de consumo” que consome seus consumidores” (Pagola, João, p. 153).

Oração

Senhor, se eu tivesse entranhas de misericórdia…
sairia de casa para encontrar-me com os necessitados;
de minha apatia para ajudar os que sofrem;
de minha ignorância para conhecer os ignorados;
de meus caprichos para socorrer os famintos;
de minha atitude crítica para compreender os que falham;
de minha suficiência, para estar com os incapazes;
de minhas pressas para dar meu tempo as abandonados;
de minha preguiça para ajudar os cansados de gritar;
de minha burguesia para compartilhar com os pobres.
Florentino Ulibarri

Jesus é a porta

José Antonio Pagola

Jesus propõe a um grupo de fariseus um relato metafórico no qual critica com dureza os dirigentes religiosos de Israel. A cena foi tomada da vida pastoril. O rebanho está resguardado dentro de um redil, rodeado por uma cerca ou pequeno muro, enquanto um guarda vigia o acesso. Jesus concentra sua atenção precisamente nessa “porta” que permite chegar às ovelhas.

Há duas maneiras de entrar no redil. Tudo depende do que se pretende fazer com o rebanho. Se alguém se aproxima do redil e “não entra pela porta”, mas vai tentar entrar “por outro lugar”, é evidente que não é o pastor. Não vem cuidar de seu rebanho, mas é “um estranho” que vem roubar, matar e causar dano: A atuação do verdadeiro pastor é bem diferente. Quando se aproxima do redil, “entra pela porta’, vai chamando as ovelhas pelo nome e elas atendem sua voz. Faz todas as ovelhas sair e, quando reuniu todas, vai caminhando à frente delas até os pastos onde poderão alimentar-se. As ovelhas o seguem porque reconhecem sua voz.

Que segredo se encerra nessa “porta” que legitima os verdadeiros pastores que passam por ela e desmascara os estranhos que entram “por outro lugar’: não para cuidar do rebanho, mas para causar-lhe dano? Os fariseus não entendem de que está lhes falando aquele Mestre.

Então Jesus lhes dá a chave do relato: “Em verdade vos digo: eu sou a porta das ovelhas’: Os que entram pelo caminho aberto por Jesus e o seguem vivendo seu Evangelho são verdadeiros pastores: saberão alimentar a comunidade cristã. Os que entram no redil deixando Jesus de lado e ignorando sua causa são pastores estranhos: causarão dano ao povo cristão.

Em muitas Igrejas estamos todos sofrendo muito, tanto os pastores como o povo de Deus. As relações entre a hierarquia e o povo cristão são vividas com frequência de maneira receosa, constrangida e conflitiva: há bispos que se sentem rejeitados e há setores cristãos que se sentem marginalizados.

Seria muito fácil atribuir tudo ao autoritarismo abusivo da hierarquia ou à insubmissão inaceitável dos fiéis. A raiz é mais profunda e complexa. Criamos entre todos nós uma situação difícil. Perdemos a paz. Vamos necessitar cada vez mais de Jesus.

Temos que fazer crescer entre nós o respeito mútuo e a comunicação, o diálogo e a busca sincera da verdade evangélica. Precisamos respirar o quanto antes um clima mais amável na Igreja. Não sairemos desta crise se não voltarmos todos ao espírito de Jesus. Ele é “a porta”.

Trecho do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes.

Salvação – Só por Cristo?

Pe Johan Konings

No evangelho, Jesus narra uma parábola. Naquele tempo, os povoados tinham seu curral (redil) comunitário. O curral tinha um portão, por onde os pastores entravam para chamar as suas ovelhas (que conheciam a voz de seu pastor), e por onde as ovelhas passavam para ir pastar. Mas também apareciam sujeitos que abriam uma brecha na cerca em vez de entrar pela porta: os ladrões. Até aí a parábola (versos 1-5). Depois, Jesus explica: ele mesmo é essa porta por onde pastores e ovelhas devem passar. Pastor que não passa por ele, não serve para os fiéis. E também os fiéis têm de passar por ele para encontrar a vida que procuram.

Pastor mesmo é quem passa através de Jesus e faz o rebanho passar por ele. Neste sentido, as pregações apostólicas apresentadas nas leituras de hoje são eminentemente pastorais. São obra de pastores que passaram por Cristo e nos conduzem a ele e – através dele – ao Pai. Veja só, na 1ª leitura o apelo à conversão e a entrada no “rebanho” mediante o batismo, depois da pregação de Pedro. E, na 2ª leitura Pedro lembra aos fiéis que, outrora ovelhas desgarradas, eles estão agora junto ao verdadeiro pastor, Jesus.

O sentido fundamental da pastoral é ir aos homens por Cristo e conduzi-los através dele ao verdadeiro bem. As maneiras podem ser muitas; antigamente, mais paternalista talvez; hoje, mais participativa. Mas pode-se chamar de pastoral uma mera ação social ou política associada a setores da Igreja ou a suas instituições? Isso ainda não é, de per si, pastoral. Para ser pastoral, a atuação precisa ser orientada pelo projeto de Cristo, que ele nos revelou dando sua vida por nós.

Nesta ótica, os pastores devem ir aos fiéis (não aguardá-los de braços cruzados), através de Cristo (não através de mera cultura ou ideologia), para conduzi-los a Deus ( e não apenas à instituição da Igreja), fazendo-os passar por Cristo, ou seja, exigindo adesão à prática de Cristo. E os fieis devem discernir se seus pastores não são “ladrões e assaltantes”. O critério para discernir isso é este: se eles chegam através de Cristo e fazem passar os fiéis por ele.

Pelas palavras do Novo Testamento, parece que toda salvação passa por Cristo. Mas isso deve ser entendido num sentido inclusivo, não exclusivo. Todo caminho que verdadeiramente conduz a Deus, em qualquer religião e na vida de “todos aqueles que procuram de coração sincero” (Concílio Vaticano II; Oração Eucarística IV), passa de fato pela porta que é Jesus. Portanto – e é isso que acentua o evangelho de João, escrito para pessoas que já aderiram à fé em Jesus: não precisam procurar a salvação fora desse caminho. Isso vale ser repetido para os cristãos de hoje. Por outro lado, não é preciso que todos confessem o Cristo explicitamente; basta que, nas opções da vida, eles optem pela prática que foi, de fato, a de Cristo. Agir como Cristo é a salvação. E é a isso que a pastoral deve conduzir.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes.

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