Destaque, Notícias › 21/12/2017

4º Domingo do Advento

Amanhã é Natal. Hoje é Natal. Sempre é Natal!

Frei Gustavo Medella

Amanhã é Natal. Aliás, hoje à noite já é Natal. Ou melhor, Sempre é Natal! Neste ano, o calendário litúrgico nos coloca na mesma data, o 4º Domingo do Advento e a Véspera de Natal: dia 24 de dezembro. À noite já se celebra a Missa do Galo, que anuncia a aurora da Humanidade no Sol do alto que nos vem visitar na singeleza da criança.

A coincidência de datas vem nos revelar que também a matemática do tempo pode nos trazer uma lição. Natal é toda ocasião em que a esperança renasce no coração de alguém. Natal se faz quando nos permitimos sonhar com um mundo onde a paz, a harmonia e o respeito sejam as bases de nossa convivência. Natal se faz quando uma vida nasce, cresce e se desenvolve com dignidade e sob os merecidos e devidos cuidados.

Como cristão, somos sempre convocados a sermos facilitadores do Nascimento de Jesus na vida das pessoas. Se o nosso Salvador não vem para julgar, mas para servir e libertar, não temos o direito de nos acharmos superiores a ninguém. No Menino da Manjedoura, Deus nos coloca todos em pé de igualdade. Com toda certeza, Maria, José, pastores e magos saíram da presença do Menino melhor do que chegaram. Que também nós, plenos da Graça de Deus, saibamos ser esta presença que promove, transforma e restaura vidas. Que todos que vêm ao nosso encontro saiam de nossa presença melhores do que vieram, não por nossa causa, mas pela graça que o Senhor derrama sobre nós. Feliz Natal: hoje, amanhã, sempre!


O Messias vai chegar

Primeira leitura: 2Sm 7,1-5.8b-12.14a16
Salmo responsorial: (Sl 89[88],2-3,4-5.27+29)
Segunda leitura: Rm 16,25-27
Evangelho: Lc 1,25-38

-* 26 No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia chamada Nazaré. 27 Foi a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José, que era descendente de Davi. E o nome da virgem era Maria. 28 O anjo entrou onde ela estava, e disse: «Alegre-se, cheia de graça! O Senhor está com você!» 29 Ouvindo isso, Maria ficou preocupada, e perguntava a si mesma o que a saudação queria dizer. 30 O anjo disse: «Não tenha medo, Maria, porque você encontrou graça diante de Deus. 31 Eis que você vai ficar grávida, terá um filho, e dará a ele o nome de Jesus. 32 Ele será grande, e será chamado Filho do Altíssimo. E o Senhor dará a ele o trono de seu pai Davi, 33 e ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó. E o seu reino não terá fim.» 34 Maria perguntou ao anjo: «Como vai acontecer isso, se não vivo com nenhum homem?» 35 O anjo respondeu: «O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com sua sombra. Por isso, o Santo que vai nascer de você será chamado Filho de Deus. 36 Olhe a sua parenta Isabel: apesar da sua velhice, ela concebeu um filho. Aquela que era considerada estéril, já faz seis meses que está grávida. 37 Para Deus nada é impossível.» 38 Maria disse: «Eis a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra.» E o anjo a deixou.


* 26-38: Maria é outra representante da comunidade dos pobres que esperam pela libertação. Dela nasce Jesus Messias, o Filho de Deus. O fato de Maria conceber sem ainda estar morando com José indica que o nascimento do Messias é obra da intervenção de Deus. Aquele que vai iniciar nova história surge dentro da história de maneira totalmente nova.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


A Mãe do Menino que está para chegar

Meu Senhor e meu Filho

Frei Almir Guimarães

Estamos às portas do Natal. Quando a noite começar a descer no final deste dia, muitas pessoas estarão se dirigindo para a celebração do nascimento do Filho de Deus e de Maria. Há os que fazem questão de ter diante de seus olhos a realização deste mistério; Deus presente numa frágil criancinha. Outros pensarão apenas na comemoração festiva talvez esquecendo mesmo o sentido do Natal que é, pois, uma criança, a Criança.

Neste 4º domingo do Advento, nesta véspera do Natal, desenha-se diante de nós, a partir das leituras e cânticos litúrgicos, a figura de Maria. Lemos, uma vez mais, o relato da Anunciação, quantas e quantas  vezes representado pelos pintores de todos os séculos. Parece que esse momento fascinou e continua fascinando a tantos. Uma mulher requisitada da parte de Deus.

O mensageiro divino aproxima-se do coração da mulher de Nazaré, essa Maria que estava prometida em casamento a José, da casa de Davi. Certamente uma menina ainda. O relato de Lucas e a mensagem do anjo apresentam algumas posturas e determinados comportamentos a serem vividos por Maria e que podem fazer parte de  nosso modo de  vida cristã.

Maria é convidada a alegrar-se porque o Senhor está com ela. Há autores que afirmam ser a alegria a primeira mensagem que temos a ouvir nesses nossos tempos. Alegria é verdade, mas com ela vem também a esperança. Maria precisa ter clara consciência de que com ela está o Senhor. Ele é a fonte de alegria.

Alegria profunda. No meio de tantas dúvidas e incertezas de nossos tempos e desse novo milênio a alegria brota da convicção de que não estamos sós. Deus está perto de nós. Está em nós. Podemos reclamar de muitas coisas, mas não podemos nunca dizer que ele está longe de nós.

“Não tenhas medo”. Esta mais uma palavra chave. O medo sufoca, impede a criatividade, causa paralisias. Diante dos convites do Senhor é preciso ousadia o que quer dizer exclusão de toda sorte de medo.

Ora, essa menina de Nazaré foi colocada diante de uma proposta do Altíssimo de viver perto de nós, de ser o Emanuel, de beber da água de nossas fontes e sentar-se à nossa mesa estava para ser concretizado. O Deus grande, por meio do mensageiro, pede um assentimento à menina da Nazaré. Há hesitações, solicitação de esclarecimentos, protesto de humildade. Aquela que pertencia ao grupo dos pobres de Javé dá tempo ao tempo, espera. Muito provavelmente depois de um bom momento de reflexão sai de dentro dela o assentimento: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a sua palavra”. Abrem-se as cortinas do amanhã. O sim da mulher de Nazaré inaugura o reino prometido a Davi. Aí está a Mãe do menino que está para nascer.

“Maria faz uma experiência pessoal da visita de Deus, única. Verdade que Deus já andou batendo às nossas portas talvez por ocasião de um encontro, de uma determinada leitura, de um acontecimento, de uma experiência íntima que marcaram nossa inteligência e perturbaram nosso coração. Temos lembrança de tudo isto? A Deus nada é impossível. Aos nossos olhos determinadas coisas podem parecer impossíveis. Vamos descobrindo, no entanto, que ao logo do tempo uma escolha ou um projeto vão ganhando corpo. Deus não age em nosso lugar. Convida-nos a ir colocando decisões em prática uma após a outra. Quando chama, não pode tudo de uma vez. Reclama nossa confiança e nossa esperança. Em cada passo que damos ele garante que está conosco. O grande “sim” que pronunciamos um dia  em tal ou tal engajamento, por exemplo no matrimônio vai ganhado carne  na sucessão de pequenos “sins” cotidianos”  (Christine  Florence).

Ela passou a guardar essas coisas no fundo do coração. Vestida da força do alto, respirando esperança, Maria vai percorrer seu caminho de Mãe até o momento em que o mais belo dos filhos dos homens, aquele que nasceu de suas entranhas será estraçalhado de dor e de abandono  no alto da cruz. Sempre Mãe, sempre fiel, sempre levando as coisas para o fundo do coração.

Mas tudo isso vem mais tarde. Agora comtemplamos a mocinha que se torna Mãe de Deus e o alimenta com o leite de peito e o carinho de suas entranhas.

Prece à Virgem

Eu te suplico, ó  Virgem Santa, que o Espírito do qual geraste Jesus me obtenha  possuir  Jesus.

Que o  Espírito pelo qual a tua carne  concebeu Jesus conceda a minha alma receber Jesus.

Que o Espírito  que te fez saber o que é possuir e dar à luz Jesus me faça conhecer Jesus.

Que nesse Espírito no qual te declaraste a serva do Senhor, aceitando que se fizesse em ti segundo a palavra do anjo, também eu proclame  humildemente as grandezas de Jesus.

Que nesse Espírito, no qual tu o adoras como Senhor e o contemplas como Filho, também ame a Jesus. E possa eu realmente ter para com Jesus o mesmo respeito  que ele tinha para com seus pais,  embora, na verdade, fosse Deus.

Santo Ildefonso de Toledo

Elogio à  Virgem Mãe

Ó Virgem santíssima, que encheste de espanto de espanto os exércitos angélicos. Prodígio estupendo  nos céus:  uma mulher revestida de sol, trazendo nos braços a luz.

Prodígio estupendo nos céus : o tálamo virginal acolhendo o Filho de Deus. Prodígio estupendo nos céus: o Senhor dos anjos se tornou o filho da Virgem.

Os Anjos acusavam Eva, agora cobrem Maria de glória, pois ergueu Eva de sua queda, e fez entrar no céu Adão, que fora expulso do paraíso. É ela a medianeira do céu e da terra,  nela se realizou a sua união.

Imensa é a graça da Virgem santa.  Também Gabriel a saúda  inicialmente  dizendo: Ave, cheia de graça  (Lc 1,28), céu resplandecente. Ave, cheia de graça, que desalteras os sedentos  com a doçura da fonte eterna. Ave, santíssima  Virgem Imaculada, tu geraste o Cristo que antes de ti existia. Ave, púrpura real, que revestiste o Rei do céu e da terra. Ave, livro impenetrável que deste a ler ao mundo, o Verbo, Filho do Pai.

Santo Epifânio

Amanhã é Natal

Senhor,
amanhã é Natal.
Hoje ainda não é Natal.
Paira no ar, Senhor, uma suave esperança
que  a gente não pode descrever.
É bom esperar.
É muito bom esperar.
Esperar o amigo que vem de longo,
o fim da enfermidade,
a chegada da primavera depois de inverno duro,
o entendimento depois do desentendimento.
Quero esperar.
Quantas vezes  parecia um homem sem esperança.
Meus olhos se cansaram e meu ânimo enlanguesceu
No canto de minha boca, por vezes,
um sorriso seco e amargo de quem nada  mais  esperava.
Mas hoje é diferente, Senhor, muito diferente.
Quando esta noite chegar ao seu ponto mais alto será Natal.
Bendita  noite de Natal.
Ainda não é Natal.
Amanhã será Natal.
Que meu coração nesta hora experimente sede ti, Senhor.
Faze com todos os cantinhos de meu coração
suspirem por tua vinda.
Tudo está preparado.
Espero que amanhã minha vida será visita por teu Amor.
Associo-me à Maria do  Advento.
Para  Deus nada é impossível.
Amanhã será Natal.


A alegria é possível

José Antonio Pagola

A primeira palavra da parte de Deus a seus filhos, quando o Salvador se aproxima do mundo, é um convite à alegria. É o que Maria ouve: ‘Alegra-te”.

Jürgen Moltmann, o grande teólogo da esperança, expressou isto da seguinte maneira: “A palavra última e primeira da grande libertação que vem de Deus não é ódio, mas alegria; não é condenação, mas absolvição. Cristo nasce da alegria de Deus, e morre e ressuscita para trazer sua alegria a este mundo contraditório e absurdo”.

No entanto, a alegria não é fácil. Não se pode forçar ninguém a ficar alegre; não se pode impor a alegria a partir de fora. A verdadeira alegria deve nascer no mais profundo de nós mesmos. Do contrário, será riso exterior, gargalhada vazia, euforia passageira, mas a alegria ficará fora, à porta do nosso coração.

A alegria é um presente belo, mas também vulnerável. Um dom de que devemos cuidar com humildade e generosidade no fundo da alma. O romancista alemão Hermann Hesse diz que os rostos atormentados, nervosos e tristes de tantos homens e mulheres se devem ao fato de que “a felicidade só pode senti-la a alma, e não a razão, nem o ventre, nem a cabeça, nem o bolso”.

Mas existe algo mais. Como se pode ser feliz quando há tantos sofrimentos sobre a terra? Como se pode rir quando ainda não secaram todas as lágrimas e diariamente brotam outras novas? Como ter prazer quando dois terços da humanidade se encontram mergulhados na fome, na miséria ou na guerra?

A alegria de Maria é o prazer de uma mulher crente que se alegra em Deus salvador, aquele que levanta os humilhados e dispersa os soberbos, aquele que enche de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazias. A alegria verdadeira só é possível no coração daquele que deseja e busca justiça, liberdade e fraternidade para todos. Maria se alegra em Deus porque ele vem consumar a esperança dos abandonados.

Só se pode ser alegre em comunhão com os que sofrem e em solidariedade com os que choram. Só tem direito à alegria quem luta por torná-la possível entre os humilhados. Só pode ser feliz quem se esforça por tornar felizes os outros. Só pode celebrar o Natal quem busca sinceramente o nascimento de um homem novo entre nós.

Trecho do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes.


Filho de Davi e filho de Deus

Pe. Johan Konings

Uma história antiga. Por volta do ano 1000ª.C., o Rei Davi consegue firmar seu “império” e pensa em construir uma “casa” para Deus, um templo. Mas Deus manda o profeta Natã dizer a Davi que ele não é de viver em templo: acompanhou o povo de Israel pelo deserto numa tenda, a Tenda da Aliança. E mais: ele, Deus, vai construir uma casa para Davi – casa no sentido de família, descendência. E então, Deus será como um pai para o descendente do rei (1ª leitura).

Mil anos depois, Deus se mostra fiel à sua promessa. Vive em Nazaré um descendente remoto de Davi. Chama-se José. Tem uma noiva, Maria. Nesta, ligada à casa de Davi por ser noiva do descendente, Deus quer suscitar, pela misteriosa ação de seu Espírito, o prometido “filho de Davi”. Conforme a promessa, Deus será um pai para o prometido, que será para ele um filho: o “Filho do Altíssimo”, o Messias (Lc 1,32, evangelho). Maria não consegue imaginar como isso será possível. Ela nem está convivendo com José. Então, Deus lhe dá um sinal para mostrar que ela pode confiar em sua palavra. Faz-lhe conhecer a gravidez de sua parenta Isabel, que era estéril. E Maria, confiante na fidelidade de Deus, dá o seu “sim”: “Aconteça-me segundo a tua palavra” (1,38).

Deus dá sinais. As profecias, que revelam o modo de agir de Deus, são sinais de fidelidade de Deus (2ª leitura). Que de Maria nasça um remoto “filho de Davi” é um sinal de que ele é “Filho de Deus”, obra de Deus na humanidade. Ora, para realizar seu projeto, Deus se expõe ao “sim” dessa mocinha do povo. Assim, o “Filho de Deus” será um verdadeiro “filho da humanidade”, alguém que faça parte de nossa história e nos liberte de verdade. Só o que é assumido pode ser salvo, diz Sto. Irineu. Se Jesus não fosse verdadeiro filho da humanidade, nossa salvação nele seria mera ficção.

Não expliquemos. Contemplemos. “Revelação de um mistério envolvido em silêncio desde os séculos eternos”… (Rm 1,25). Não peçamos a Deus que ele justifique seu modo de agir para os nossos critérios “científicos”. Quanto sabemos das coisas da criação… e das do Criador? Admiremos o modo de Deus se tornar presente. E, sobretudo, não queiramos fazer da mãe de Jesus uma Maria qualquer. Será que temos medo de reconhecer que, em algumas pessoas, Deus faz coisas especiais? Estamos com ciúmes? Ora, não acha cada qual a sua namorada excepcional em comparação com as outras moças? Não neguemos a Deus esse prazer…

Essa admiração, porém, não é alienação. Só por ser verdadeiramente humano é que Jesus realiza entre nós uma missão verdadeiramente divina. Pois se fosse um anjo, nada teria a ver conosco. Jesus é tão humano como só Deus pode ser. Que ele é descendente de Davi significa que ele resume em si toda a história humana. Resume, recapitula, reescreve essa história. A história de Adão, a história de Davi, o “reinado”, da comunidade humana política e socialmente organizada. Será que desta vez vai dar certo – menos guerra, adultérios, idolatrias…? Da sua parte, a “qualidade divina” da obra está garantida. Deus está com ele, “Emanuel”. Mas, e da nossa parte?

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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