Destaque, Notícias › 30/01/2019

4º Domingo do Tempo Comum

Elevar para eliminar

 Frei Gustavo Medella

“Levaram-no até ao alto do monte sobre o qual a cidade estava construída, com a intenção de lançá-lo no precipício” (Lc 4,29b).

O Ministério de Jesus começava a incomodar o status da prática religiosa de seu tempo. Depois de dizer algumas verdades na sinagoga, sua vida passou a correr riscos e, como estratégia para anulá-lo, aqueles que detinham a autoridade institucional utilizaram-se do artifício de elevá-lo ao alto do monte para, de lá, arremessá-lo de maneira homicida. Tal situação faz lembrar o verso do poema de Augusto dos Anjos, que diz: “A mão que afaga é a mesma que apedreja”. Eleva para destruir, fazendo jus ao ditado: “Quanto mais alto, maior a queda”.

Jesus, no entanto, conhecedor do coração humano e de suas artimanhas, sabe que o caminho a ser percorrido não é o da elevação ou da busca de poder e destaque. Tem claro, desde o início, que seu percurso é o da entrega total e gratuita e que sua missão é a de ser o protagonista das promessas de Deus na vida do Povo, de anunciar e levar a todos, especialmente aos mais sofridos, “as graças incontáveis do Senhor” (cf. Sl 70). Espertamente desvia-se de todos aqueles que desejavam elevá-lo e segue seu caminho de serviço e anúncio.

O exemplo de Jesus serve para o discernimento daqueles que se propõem ao discipulado. Em nível pessoal, é importante que cada um reconheça no próprio coração sentimentos e posturas que podem conduzi-lo a um caminho de autoelevação, para depois levá-lo ao precipício do vazio, da falta de sentido, do isolamento e da solidão. A este caminho, certamente, conduzirão posturas marcadas pelo egoísmo, ganância, autossuficiência, orgulho e vaidade. Em termos comunitários, significa empreender um esforço comum de fidelidade e proatividade diante das provocações do Evangelho. Nesta direção, São Paulo, no célebre trecho da Primeira Carta aos Coríntios (1Cor 12,31-13,13), oferece uma lista de atitudes que, quando pautadas no amor e no serviço, fazem florescer no coração da comunidade fecundos frutos de bênção e salvação: generosidade, paciência, humildade, ousadia, alegria, verdade.


Textos bíblicos para a liturgia deste domingo

Primeira Leitura (Jr 1,4-5.17-19)

Nos dias de Josias, rei de Judá, 4foi-me dirigida a palavra do Senhor, dizendo: 5“Antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci; antes de saíres do seio de tua mãe, eu te consagrei e te fiz profeta das nações. 17Vamos, põe a roupa e o cinto, levanta-te e comunica-lhes tudo que eu te mandar dizer: não tenhas medo, senão, eu te farei tremer na presença deles. 18Com efeito, eu te transformarei hoje numa cidade fortificada, numa coluna de ferro, num muro de bronze contra todo o mundo, frente aos reis de Judá e seus príncipes, aos sacerdotes e ao povo da terra; 19eles farão guerra contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para defender-te”, diz o Senhor.

Responsório (Sl 70)

— Minha boca anunciará todos os dias vossas graças incontáveis, ó Senhor.

— Minha boca anunciará todos os dias vossas graças incontáveis, ó Senhor.

— Eu procuro meu refúgio em vós, Senhor:/ que eu não seja envergonhado para sempre!/ Porque sois justo, defendei-me e libertai-me!/ Escutai a minha voz, vinde salvar-me!

— Sede uma rocha protetora para mim,/ um abrigo bem seguro que me salve!/ Porque sois a minha força e meu amparo,/ o meu refúgio, proteção e segurança!/ Libertai-me, ó meu Deus, das mãos do ímpio.

— Porque sois, ó Senhor Deus, minha esperança,/ em vós confio desde a minha juventude!/ Sois meu apoio desde antes que eu nascesse,/ desde o seio maternal, o meu amparo.

— Minha boca anunciará todos os dias/ vossa justiça e vossas graças incontáveis./ Vós me ensinastes desde a minha juventude,/ e até hoje canto as vossas maravilhas.

Segunda Leitura (1Cor 12,31-13,13)

Irmãos: 31Aspirai aos dons mais elevados. Eu vou ainda mostrar-vos um caminho incomparavelmente superior. 13,1Se eu falasse todas as línguas, as dos homens e as dos anjos, mas não tivesse caridade, eu seria como um bronze que soa ou um címbalo que retine.

2Se eu tivesse o dom da profecia, se conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, se tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, mas se não tivesse caridade, eu não seria nada.

3Se eu gastasse todos os meus bens para sustento dos pobres, se entregasse o meu corpo às chamas, mas não tivesse caridade, isso de nada me serviria.

4A caridade é paciente, é benigna; não é invejosa, não é vaidosa, não se ensoberbece; 5não faz nada de inconveniente, não é interesseira, não se encoleriza, não guarda rancor; 6não se alegra com a iniquidade, mas se regozija com a verdade. 7Suporta tudo, crê tudo, espera tudo, desculpa tudo.

8A caridade não acabará nunca. As profecias desaparecerão, as línguas cessarão, a ciência desaparecerá. 9Com efeito, o nosso conhecimento é limitado e a nossa profecia é imperfeita. 10Mas, quando vier o que é perfeito, desaparecerá o que é imperfeito.

11Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Quando me tornei adulto, rejeitei o que era próprio de criança.

12Agora nós vemos num espelho, confusamente, mas, então, veremos face a face. Agora, conheço apenas de modo imperfeito, mas, então, conhecerei como sou conhecido.

13Atualmente permanecem estas três coisas: fé, esperança, caridade. Mas a maior delas é a caridade. 

«Este não é o filho de José?»

Evangelho: Lc 4, 21-30

21 Então Jesus começou a dizer-lhes: «Hoje se cumpriu essa passagem da Escritura, que vocês acabam de ouvir.» * 22 Todos aprovavam Jesus, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca. E diziam: «Este não é o filho de José?» 23 Mas Jesus disse: «Sem dúvida vocês vão repetir para mim o provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Faze também aqui, em tua terra, tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum.» 24 E acrescentou: «Eu garanto a vocês: nenhum profeta é bem recebido em sua pátria. 25 De fato, eu lhes digo que havia muitas viúvas em Israel, no tempo do profeta Elias, quando não vinha chuva do céu durante três anos e seis meses, e houve grande fome em toda a região. 26 No entanto, a nenhuma delas foi enviado Elias, e sim a uma viúva estrangeira, que vivia em Sarepta, na Sidônia. 27 Havia também muitos leprosos em Israel no tempo do profeta Eliseu. Apesar disso, nenhum deles foi curado, a não ser o estrangeiro Naamã, que era sírio.» 28 Quando ouviram essas palavras de Jesus, todos na sinagoga ficaram furiosos. 29 Levantaram-se, e expulsaram Jesus da cidade. E o levaram até o alto do monte, sobre o qual a cidade estava construída, com intenção de lançá-lo no precipício. 30 Mas Jesus, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho.


* 14-21: Colocada no início da vida pública de Jesus, esta passagem constitui, conforme Lucas, o programa de toda a atividade de Jesus. Is 61,1-2 anunciara que o Messias iria realizar a missão libertadora dos pobres e oprimidos. Jesus aplica a passagem a si mesmo, assumindo-a no hoje concreto em que se encontra. No ano da graça eram perdoadas todas as dívidas e se redistribuíam fraternalmente todas as terras e propriedades: Jesus encaminha a humanidade para uma situação de reconciliação e partilha, que tornam possíveis a igualdade, a fraternidade e a comunhão.
* 22-30: A dúvida e a rejeição de Jesus por parte de seus compatriotas fazem prever a hostilidade e a rejeição de toda a atividade de Jesus por parte de todo o seu povo. No entanto, Jesus prossegue seu caminho, para construir a nova história que engloba toda a humanidade.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Comentários de Frei Ludovico Garmus

4º Domingo do Tempo Comum, ano C

Oração: “Concedei-nos, Senhor Deus, adorar-vos de todo o coração, e amar todas as pessoas com verdadeira caridade”.

1. Primeira leitura: Jr 1,4-5.17-19

Eu te consagrei e te fiz profeta das nações.

O texto que ouvimos faz parte da narrativa da vocação do profeta Jeremias (cf. Jr 1,4-19). É um texto autobiográfico, no qual o próprio Jeremias conta, em 1ª pessoa, sua vocação para ser profeta. Ser profeta não é decisão de uma pessoa, mas um chamado especial que Deus lhe faz. Estava no plano de Deus chamar Jeremias para ser profeta: “Antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci; antes que nascesses eu te consagrei”. O chamado divino não é uma imposição que tira a liberdade da pessoa, mas um convite de Deus para uma missão especial: ser “profeta das nações”. A liberdade de acolher ou rejeitar o convite fica evidente pela forma de diálogo da narrativa de vocação: é o Eu divino que se dirige ao tu humano. Jeremias, num primeiro momento, quer “tirar o corpo fora”, porque imagina a oposição que deverá enfrentar por parte do palácio (reis e príncipes), da classe sacerdotal e do “povo da terra”, que detinham, respectivamente, o poder político, religioso e econômico. As palavras que Jeremias deverá falar não serão dele mesmo: “comunica-lhes tudo o que eu te mandar dizer”. Serão palavras de denúncia, apelos de conversão e ameaças de castigo que Deus colocará em sua boca (v. 9). Deus, porém, convida o profeta a não se intimidar, diante da oposição e das ameaças. Vai transformá-lo numa cidade fortificada. Promete estar sempre ao lado de seu profeta para defendê-lo.

Salmo responsorial: Sl 70

Minha boca anunciará todos os dias,
vossas graças incontáveis, ó Senhor.

2. Segunda leitura: 1Cor 12,31–13,13

Permanecem a fé, a esperança e a caridade.
Mas a maior delas é a caridade.

Nos últimos dois domingos ouvimos Paulo falar dos diversos dons ou carismas, existentes na comunidade de Corinto. Explicava que os dons procedem do mesmo Espírito, mais do que um diadema que embeleza uma pessoa são um avental para melhor “lavar os pés”, servindo a comunidade. Assim, judeus e gregos, escravos e livres, unidos pelo mesmo pelo Espírito Santo, formam um só corpo de Cristo. Na leitura de hoje, Paulo esclarece que existe uma hierarquia entre os diversos dons e serviços. Certamente, havia concorrência entre os cristãos a respeito dos dons. Havia quem considerasse seu carisma o mais importante. Paulo explica que nenhum carisma/dom vale alguma coisa sem a caridade, sem o amor. Todos têm seu valor, enquanto acompanhados pelo amor. No presente, os dons mais importantes são a fé, a esperança e a caridade. No futuro existirá apenas a Caridade, o Amor (o Espírito Santo) que nos une como comunidade a Jesus Cristo e a Deus.

Aclamação ao Evangelho: Lc 4,18

Foi o Senhor que me mandou boas notícias anunciar;
Ao pobre, a quem está no cativeiro, libertação eu vou proclamar!

3.Evangelho: Lc 4,21-30

Jesus, assim como Elias e Eliseu, não é enviado só aos judeus.

Simeão, ao tomar o menino Jesus em seus braços, louvou a Deus e falou, em tom profético, para Maria: “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição” (Lc 2,35). Diante da pessoa de Jesus e de sua mensagem não podemos permanecer indiferentes. Ou se é contra, ou a favor. Ficou claro isso na visita de Jesus a Nazaré (3º Domingo) e hoje se repete na fala de Jesus aos conterrâneos. Acolhido por uns, rejeitado por outros, Jesus prossegue corajosamente seu “caminho” (4,30), que o levará à morte na cruz. No início de sua atividade na Galileia é elogiado por todos pela qualidade de seu ensino (4,15): “Eles ficavam admirados de sua doutrina porque sua palavra tinha autoridade” (4,15.32). Mas aos poucos – como o mostra Lucas em seu evangelho – o ensino cheio de sabedoria, as críticas aos sacerdotes, escribas e fariseus, os gestos de misericórdia para com pobres e pecadores, provocam oposição ferrenha contra Jesus, por parte dos adversários. Assim acontecia também nos anos 70, quando Lucas escreve seus dois livros: Evangelho e Atos dos Apóstolos.

Percebendo que era rejeitado por seus conterrâneos, Jesus diz: “Nenhum profeta é bem recebido em sua pátria”. E como justificativa cita os exemplos dos profetas Elias e seu discípulo Eliseu. Ambos, rejeitados pelo próprio povo e perseguidos em sua terra, são enviados a estrangeiros. Por ocasião de uma grande seca e carestia, Elias foi enviado a Sarepta, na Sidônia, para socorrer uma viúva e seu filho órfão. Eliseu, apesar de haver muitos leprosos em Israel, cura a Naamã, que era da Síria. Ao citar estes dois exemplos, Lucas, por um lado lembra o programa de Jesus anunciado na sinagoga de Nazaré (2º Domingo), por outro lado sinaliza o anúncio da boa-nova aos pagãos, que acontecia em seu tempo. Ao ouvirem as palavras de Jesus, “todos na sinagoga ficaram furiosos” e o expulsaram da cidade ameaçando-o de morte. Jesus, porém, passou no meio deles e “continuou o seu caminho”.

Qual é a minha reação diante da boa-nova que Jesus hoje anuncia? Adesão? Rejeição? Ou simples indiferença? Por quê? Há tantos anos me com sidero cristão católico: O que mudou em minha vida?

Ao celebrarmos agora a Eucaristia, vamos pedir que Jesus abra nossos ouvidos e nossos olhos para prosseguirmos no seu “caminho” de amor, servindo a todas as pessoas que sofrem.


O tema do amor

Batendo  na mesma tecla

Frei Almir Guimarães

A caridade é paciente, é benigna; não é invejosa, não é vaidosa, não se ensoberbece; não faz nada de inconveniente, não é interesseira, não se encoleriza, não guarda rancor, não se alegra com a iniquidade, mas se regozija com a verdade. Suporta tudo, tudo crê, espera tudo, desculpa tudo.(1Co  13, 4-7).

>> O tema do amor é recorrente. Precisamos bater sempre na mesma tecla. Vamos, pois, nos deter no tema da caridade, do amor fraterno, a partir do capítulo 13 de Paulo na carta aos Coríntios, leitura proposta na liturgia de hoje. Não sei quantas vezes já ouvimos esse hino do amor e quantas vezes ele nos convidou a sermos pessoas diferentes, livres, profundamente de bem com a vida e respirando amor. “Há pessoas em cujos olhos se vê que são  plenas de amor, que absorvem em si o amor divino. Essas pessoas  não dirigem seu amor a determinados indivíduos, elas irradiam o amor em seu ser total” (Anselm  Grün).

>> Deus é amor. A Trindade é comunhão de dom, o Pai, O Verbo e o Sopro. Os Três se amam reciprocamente e vivem na troca do dom. O amor entre Três é difusivo e, assim, criador. O mundo, o cosmo, as galáxias, o ser  humano e tudo o que existe é resultado desse amor difusivo. Ele, a fornalha de amor, o Deus que é incêndio de amor nos envolve e nos leva à dinâmica do dom. Jesus, Deus feito homem, é amor. Ele mesmo conjugará o verbo amar em todos os tempos e modos da gramática. E sempre ressoa aos nosso ouvidos a palavra do Senhor ao dizer que não existe maior amor do que dar a vida pelos seus e até mesmo inimigo.

>> O amor não é fugaz sentimento mais ou menos adocicado que eventualmente pode  nos habitar. É decisão. A pessoa resolve ter como linha mestra de seu projeto de vida o amor. Insistimos: amar é tomar a decisão de sair de si e buscar o outro, os outros na linha de batalhar por seu enobrecimento, proporcionar respeito por sua dignidade e promovê-lo em todos os sentidos.

>> Muitas vezes a Escritura, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, pede nossa atenção especial para com a fragilidade de um certo grupo de pessoas: órfãos, viúvas e estrangeiros. Essas pessoas estão a nos dizer que precisam de atenções que não podem ser adiadas. O amor mais urgente se dirige aos mais frágeis.

>> A família é um espaço de manifestação de profundo bem querer. Há antes de tudo o amor conjugal: preventivo, atencioso, capaz de auscultar as necessidades mais profundas do cônjuge, terno, delicado até nas manifestações do encontro amoroso dos corpos, amor sempre preocupado em perdoar. Amor parental e maternal que é marcado por atenções  constantes, feito de coisas pequenas, presencial e prático. Amor que leva os pais a impedirem que seus filhos sejam fantoches de uma sociedade sem alma, mercantilista e hedonista. Amor familiar é camaleão que vai mudando de cores ao longo do tempo da vida tanto no aspecto conjugal quanto parental.

>> O amor manifesta-se através de um profundo respeito pela dignidade do semelhante. O outro é imagem de Deus. Essa postura de respeito atencioso não depende da cor da pele, do nível de instrução, das posses que alguém venha a ter. Por isso ninguém pode ser deixado de lado em sua miséria material ou moral. O outro nunca será transformado em coisa, nem pode ser usado como objeto descartável. É sinal de amor alertar a uns e outros que cuidem de não enveredar pelas sendas do indiferentismo e do descuido pela busca do  rosto de Deus, sentido da vida. Tais exortações são sinais de amor.

>> Amor fraterno tem tudo a ver com serviço carinhoso. Francisco de Assis sempre foi considerado como alguém que soube ser irmão, amar respeitosamente o irmão. Um dos termos chaves da espiritualidade de Francisco é servir. A palavra servo, com efeito, aparece  mais de cinquenta vezes em seus escritos e servo mais de vinte vezes. “Nenhum dos irmãos exerça uma posição de cargo ou de mando e muito menos entre os próprios irmãos. Pois como diz o Senhor no Evangelho: Os príncipes das nações as subjugam e os grandes imperam sobre elas”, assim não deve ser entre os irmãos, mas mantes: Aquele que quiser ser o maior entre eles seja o seu ministro ( Mt 20, 26-27) e o servo deles, e quem for o maior entre eles faça-se menor (cf lc 22,26). E nenhum irmão trate mal a um outro nem fale mal dele. Antes sirvam e obedeçam de bom grado uns aos outros na caridade do Espírito” (Regra não bulada 5,12-17). E nesse gênero de vida ninguém seja chamado de prior, mas todos sejam  designados indistintamente de frade menores, continua  Francisco.


Texto para reflexão

O amor é benigno. Uma pessoa cheia de amor faz bem aos outros, tem uma irradiação de cura. Perto dela a gente se sente bem. Ela vê  o bem nas outras pessoas e faz com que elas o manifestem. Como crê no bem das pessoas, relaciona-se benignamente com elas. O amor irradia sossego e independência. Quem sente o amor em si é livre. Não fica comparando com os outros, vive em si. Seu coração não é  suscetível a atos que causam tristeza. O amor conduz o ser humano a si mesmo, a seu próprio  modo de ser, manifesta seu interior.

Anselm Grün, “Pequeno tratado do verdadeiro amor”, Vozes, p.  34.


Oração

Peço-te, Senhor, pela compaixão. Não me permitas subir pelo tempo  afora aparelhado de uma indiferença crescente. Não me deixes supor o  mundo, com todas as suas dores, como um flagelo distante. Não consistas no meu virar de cara  rotineiro; na minha surdez aos desgostos alheios; na dureza prática com que encaro as fragilidades que  irrompem na vida dos outros. Ensina-me a compaixão, a misericórdia, o cuidado. Ensina-me a prece verdadeira que dos gestos do bom samaritano  subia até ti.

José Tolentino Mendonça, “Um Deus que dança”, Paulinas p.94.


O medo de ser diferentes

José Antonio Pagola

Sem demora Jesus pôde ver o que podia esperar de seu próprio povo. Os evangelistas não nos esconderam a resistência, o escândalo e a contradição que ele encontrou, inclusive nos ambientes mais próximos. Sua atuação livre e libertadora tornava-se por demais molesta. Seu comportamento punha em perigo demasiados interesses.

Jesus o sabe desde o início de sua atividade profética. É difícil que alguém decidido a atuar ouvindo fielmente a Deus seja bem aceito num povo que vive de costas para Ele. “Nenhum profeta é visto com bons olhos em sua terra”.

Nós crentes não o deveríamos esquecer. Não se pode pretender seguir fielmente a Jesus e não provocar, de alguma maneira, a reação, a crítica e até a rejeição daqueles que, por diversos motivos, não podem estar de acordo com uma concepção evangélica da vida.

Resulta difícil para nós viver na contracorrente. Causa-nos medo ser diferentes. Faz muito tempo que está na moda “estar na moda”. E não só quando se trata de adquirir o traje de inverno ou escolher as cores do verão. O “ditado da moda” nos impõe os gestos, as maneiras, a linguagem, as ideias, as atitudes e as posições que precisamos defender.

É necessária uma grande dose de coragem para ser fiéis às próprias convicções, quando todo o mundo se acomoda e se adapta à “moda” É mais fácil viver sem um projeto pessoal de vida, deixando-nos levar pelo convencionalismo. É mais fácil instalar-nos comodamente na vida e viver de acordo com o que nos ditam de fora.

No começo, talvez alguém escute ainda essa voz interior que lhe diz que não é esse o caminho acertado para crescer como pessoa nem como crente. Mas logo nos tranquilizamos. Não queremos passar por um “anormal” ou por um “estranho”. Está-se mais seguro sem abandonar o rebanho.

E assim continuamos caminhando. Em rebanho. Ao passo que, a partir do Evangelho, continuamos sendo convidados a ser fiéis ao projeto de Jesus, inclusive quando isso possa acarretar-nos a crítica e a rejeição por parte  da sociedade, e inclusive da Igreja.


A Boa Nova para todos e o profeta rejeitado

Pe. Johan Konings

Depois de todos os esforços para integrarmos em nossas comunidades ricos e pobres, brancos e negros, homens e mulheres, constatamos que as discriminações, as panelinhas, os particularismos continuam. Quem mora mais perto da igreja matriz deve ser melhor atendido … Quem tem algum primo padre tem direito a cerimônias melhores… Muitos pensam que Deus está ai só para eles! A Igreja é realmente para todos, ou somente para gente de bem, “gente da casa”?

Os antigos israelitas achavam que a aliança de Deus pertencia exclusivamente a eles. Também achavam que bastava ser israelita para ter a salvação garantida. Não aguentavam que os seus profetas os criticassem. Por isso, quando Deus manda o profeta Jeremias, já o prepara desde o início para enfrentar a resistência de seu povo (1ª  leitura). Semelhante resistência também a encontra Jesus, especialmente na sua própria terra, Nazaré. Ele anuncia que o Reino de Deus e a libertação se destinam também aos pagãos, e mesmo com prioridade (evangelho). Aos que ciosamente esperam dele milagres para sua própria cidadezinha, Jesus lembra que os milagres de Elias e Eliseu favoreceram estrangeiros. Por isso, seus conterrâneos querem precipitá-lo da colina de sua cidade. Mas Deus o toma firme e inabalável – como o tinha prometido a Jeremias. Com autoridade assombrosa, Jesus atravessa o corredor polonês formado pelos que ameaçam sua vida.

A Igreja, corpo e presença de Cristo, deve anunciar ao mundo a salvação para todos, sem discriminação ou privilégio. Ser “gente da casa” (católico de tradição) não tem peso algum. A boa-nova é para todos quantos quiserem converter-se. A primeira exigência do ser cristão é não ser egoísta, não querer as coisas só para si – nem as materiais, nem as espirituais. O evangelho é privilégio nenhum. Excluir quem quer que seja, por pertencer a outra classe, ideologia ou ambiente, está em contradição direta com o evangelho e a prática de Jesus. O evangelho é para todos. Se alguém, por força de sua cabeça fechada, tapa os ouvidos, problema dele. Portanto, que “os da casa” não rejeitem o profeta que se dirige a outros …

Para anunciar a boa-nova a todos, a Igreja “toda profética” não deve ser escrava de privilégios e influências alheias. Deve falar com a desinibição que caracteriza os profetas. Os que nela possuem o carisma profético devem destacar-se por sua autenticidade, sua coragem de: mártir, sua simplicidade, que deixa transparecer o Reino de Deus em sua vida.

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