Destaque, Notícias › 16/03/2018

5º Domingo da Quaresma

Cinco passos para ver Jesus

Frei Gustavo Medella

“Senhor, gostaríamos de ver Jesus” (Jo 12,21b). Este foi o pedido que um grupo de gregos dirigiu ao Apóstolo Filipe em Jerusalém. Este é anseio de muitas pessoas de fé: ver Jesus, percebê-lo em seu dia a dia, caminhar em sua companhia. Filipe combina com André, seu companheiro no Apostolado, e os dois levam a questão a Jesus. Em sua resposta, o Filho do Homem oferece valiosas instruções para aqueles que, de verdade, desejam estar com Ele. São elas:

1) Disposição para morrer – Jesus se utiliza da metáfora do grão de trigo para ilustrar a fecundidade de uma morte que gera vida: “Em verdade, em verdade vos digo, se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito fruto” (Jo 12,24). O martírio e a entrega de Jesus vieram coroar a disposição que ele manifestou durante toda a sua vida. Com sua prática, o Mestre revela o quão libertador é ao ser humano quando ele consegue morrer para o egoísmo, a ganância, o ódio e a indiferença para produzir, com seu próprio testemunho, preciosos frutos de partilha e solidariedade.

2) Desapego – A capacidade de perceber que as pessoas são sempre mais importantes do que as coisas, certamente preservaria a humanidade de muitos sofrimentos. Desapegar-se da própria vida não significa adotar, em relação a si próprio, uma postura de desleixo e falta de cuidado com a saúde, mas cultivar em si a empatia, ou seja, a capacidade de perceber e se comprometer com as necessidades e os sentimentos do outro como se fossem seus. “Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna” (Jo 12,25).

3) Espírito de serviço – Jesus joga com o significado dos verbos “seguir” e “servir”, revelando o quanto estas ações caminham juntas quando o assunto é o discipulado. O seguidor de Cristo deve necessariamente ser também um servidor da humanidade. São termos inseparáveis que qualificam e distinguem a fidelidade e a dedicação do discípulo. Não existe, portanto, seguimento sem serviço, especialmente aos mais pobres e desprotegidos da humanidade.

4) Coerência entre ensinar e viver – Chama a atenção a profunda e total coerência de Jesus entre aquilo que Ele ensinou e viveu. Olhando para o Mestre, percebe-se o grau de exigência deste desafio.

5) Perseverança na angústia – Jesus sentiu-se angustiado diante dos sofrimentos que teria pela frente (Cf. 12,27). No entanto, consegue enxergar o significado de sua entrega e assim torna-se capaz de seguir adiante em sua destemida missão. Para adquirir esta força, Cristo lançou mão de um profundo espírito de oração e diálogo interior, no profundo de sua consciência, para ouvir a voz do Pai.

Aproximando-se o final do Tempo da Quaresma, mais uma vez Jesus espera de seus seguidores uma disposição renovada para acompanha-lo até as últimas consequências em seu projeto de construção do Reino de Deus.

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A missão do verdadeiro Messias

1ª Leitura: Jr 31,31-34
Sl 50
2ª Leitura: Hb 5, 7-9
Evangelho: Jo 12,20-33

– 20 Entre os que tinham ido à festa para adorar a Deus, havia alguns gregos. 21 Eles se aproximaram de Filipe, que era de Betsaida da Galiléia, e disseram: «Senhor, queremos ver Jesus.» 22 Filipe falou com André; e os dois foram falar com Jesus.

23 Jesus respondeu para eles, dizendo: «Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado. 24 Eu garanto a vocês: se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito fruto. 25 Quem tem apego à sua vida, vai perdê-la; quem despreza a sua vida neste mundo, vai conservá-la para a vida eterna. 26 Se alguém quer servir a mim, que me siga. E onde eu estiver, aí também estará o meu servo. Se alguém serve a mim, o Pai o honrará. 27 Agora estou muito perturbado. E o que vou dizer? Pai, livra-me desta hora? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. 28 Pai, manifesta a glória do teu nome!»

Então veio uma voz do céu: «Eu manifestei a glória do meu nome, e vou manifestá-la de novo.» 29 A multidão que aí estava ouviu a voz, e dizia que tinha sido um trovão. Outros diziam: «Foi um anjo que falou com ele.» 30 Jesus disse: «Essa voz não falou por causa de mim, mas por causa de vocês. 31 Agora é o julgamento deste mundo. Agora o príncipe deste mundo vai ser expulso 32 e, quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim.» 33 Jesus assim falava para indicar com que morte ia morrer.


* 12-36: Temos aqui duas concepções sobre o Messias. Seguindo a tradição transmitida pelos dirigentes, o povo aclama Jesus como um rei político. Mais tarde, essa idéia será transformada em motivo da condenação de Jesus. Por outro lado, Jesus se apresenta como o Messias predito pelas Escrituras, mostrando porém sua verdadeira missão: dar a vida para salvar e reunir o povo.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


5º Domingo da Quaresma, ano B

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Senhor nosso Deus, dai-nos por vossa graça caminhar com alegria na mesma caridade que levou o vosso Filho a entregar-se à morte no seu amor pelo mundo”.

1. Primeira leitura: Jr 31,31-34

Concluirei uma nova aliança, e não mais lembrarei o seu pecado.

Jeremias já era profeta quando, em 622, o rei Josias, apoiado pelos sacerdotes e os anciãos, renovou a Aliança com Deus, centralizou o culto no templo de Jerusalém e proibiu o culto a outros deuses. Mas esta aliança, feita outrora no deserto por de Moisés, foi muitas vezes violada por Israel. Mesmo durante a vida de Josias ela foi rompida, por patrões, que atendendo as exigências da Lei, tinham libertado seus escravos, mas tornaram a escravizá-los, quando os babilônios aparentemente levantaram o cerco de Jerusalém. Mas, Jerusalém foi tomada e destruída pelo inimigo e muitos foram levados para o exílio. Aqui, Jeremias promete não mais uma renovação da aliança do Sinai, tantas vezes violada, mas uma nova aliança. Deus a fará com os sobreviventes do reino de Israel, destruído pelos assírios e do reino de Judá, pelos babilônios. Os termos da aliança não serão mais escritos em pedra (como a aliança do Sinai), mas inscritos no coração de cada pessoa. Deus levará de volta o seu povo ao deserto para “falar-lhe ao coração” (cf. Os 2,16). Vai arrancar o coração de pedra e substituí-lo por um coração de carne, humano e sensível, capaz de receber o Espírito do Senhor (cf. Ez 36,26-27). A Lei não precisará mais ser ensinada, mas será vivida porque todos “conhecerão” e terão a experiência do amor misericordioso de Deus, que tudo perdoa.

Salmo responsorial: Sl 50

Criai em mim um coração que seja puro.

2. Segunda leitura: Hb 5,7-9

aprendeu a obediência e tornou-se causa de salvação eterna.

O texto que ouvimos é uma interpretação da cena da agonia de Jesus no Horto das Oliveiras, descrita pelos evangelistas. O autor não esconde a angústia de Jesus frente à morte, que faz parte da vida humana, nem suas preces, súplicas e lágrimas para que o Pai o livrasse da morte (evangelho: “Pai, livra-me desta hora”). Destaca, porém, que Jesus aprendeu a ser obediente e assim tornou-se causa de salvação para os que o imitam na obediência. Afirma que a oração de Jesus foi atendida pelo Pai, sem livrá-lo da morte, mas glorificando-o pela ressurreição (cf. Fl 2,5-11; Is 52,13–53,12).

Aclamação ao Evangelho:

Glória a vós, ó Cristo, verbo de Deus.

Se alguém me quer servir, que venha atrás de mim;
e onde eu estiver, ali estará meu servo.

3. Evangelho: Jo 12,20-33

Se o grão de trigo cair na terra e morrer,
produzirá muito fruto.

Alguns judeus de origem grega se dirigem a Filipe e André porque “queriam ver a Jesus”. Ambos eram de Betsaida, a região mais helenizada da Galileia. André fazia parte dos seguidores de João Batista e, encaminhado pelo Batista, tornou-se o primeiro a seguir a Jesus. Filipe é o primeiro discípulo que Jesus chama diretamente para segui-lo. André já tinha chamado seu irmão Simão Pedro para conhecer a Jesus (Jo 1,40-42). Filipe, por sua vez, tinha chamado Natanael para conhecer Jesus de Nazaré (Jo 1,45-51). Eles vão até Jesus e expõem o pedido dos gregos. Jesus, porém, lhes dá uma resposta que constitui uma virada no Evangelho de João: conclui a primeira parte do Evangelho (Jo 1,19–12,50: “Livro dos Sinais”) e dá início ao “Livro da Exaltação (13–20): “Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado”. Jesus várias vezes já havia falado desta sua “hora” (Jo 2,4; 4,21.23; 5.25.28; 7,30; 8,20). É a hora da glorificação do Filho do Homem. Esta glorificação coincide com sua exaltação e morte na cruz e culmina com a ressurreição. A chegada desta “hora” é comunicada por Filipe e André em primeiro lugar aos gregos que desejavam ver a Jesus. No “Livro dos Sinais” Jesus se dirigia, sobretudo, aos judeus. Chegando a “hora” de sua exaltação dirige-se a todos, especialmente, aos gregos: “É necessário que o Filho do Homem seja levantado para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna” (evangelho do 4º Domingo!). Antes, Jesus fugiu dos judeus que iam apedrejá-lo e retirou-se para o outro lado do Jordão (Jo 10,22-42). Quando Marta e Maria chamam Jesus para ver Lázaro gravemente enfermo, ele decide voltar a Jerusalém, apesar das ameaças. Tomé anima os discípulos temerosos, dizendo: “Vamos nós também para morrermos com ele” (Jo 11,16). Chegou a hora em que Jesus seria levantado na cruz, para triunfar sobre a morte: “Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado” (Jo 12,23). O Filho do Homem entrega sua vida, morre como o grão de trigo, para produzir frutos de vida.

Para estar com Jesus o discípulo deve ter a mesma disposição do Mestre: “Quem se apega à sua vida, perde-a, mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo, conserva-a para a vida eterna”. Estar com Jesus é estar com Ele em sua agonia (cf. Mt 26,36-46). O Evangelho de João vê Jesus através de sua glorificação, mas não esconde o drama humano de sua existência (cf. 2ª leitura).

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São precisos os olhos da fé

Frei Clarêncio Neotti

Na primeira vez que Jesus, em sua vida pública, subiu a Jerusalém, recebeu a visita de Nicodemos (Jo 2,23; 3,1-21). O velho mestre representava, de certa forma, todos os judeus a quem Jesus anunciava, em primeiro lugar, a nova doutrina e as condições exigidas para recebê-la. Agora, é um grupo de gregos pagãos que o foram ver.

No encontro com Nicodemos, Jesus falou de sua ‘exaltação’, quando fosse levado à cruz (Jo 3,14). Agora anuncia que é chegada a hora de sua glorificação na morte (12,23). Os gregos “queriam ver Jesus” (v. 21). ‘Ver’, no Evangelho de

João, está na linha do ‘crer’. Não basta ver Jesus com os olhos do corpo. Muitos dos que o viam, nele não acreditavam. Eram precisos os olhos da fé. E para tanto se fazia necessário entrar no destino de Jesus.

Ele fala por parábolas. Compara-se a um grão de trigo, que morre para poder dar fruto (v. 24). Ver Jesus é compreender, o quanto for possível, esse caminho de morte e vida, de humilhação e glória. Vê, de fato, Jesus quem for também capaz de ser grão de trigo e fazer morrer seu egoísmo e seus interesses (v. 25), para que repontem frutos de salvação.

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Se o grão de trigo não morrer…

Frei Almir Guimarães

… não poderá dar fruto.  Na vida da Igreja  vai chegando  o tempo da Semana Santa e desenha-se diante de nossos olhos a figura de Jesus que se compara a um grão de trigo. Para que os campos fiquem dourados com o baloiçar das espigas de trigo há a morte. Morte e vida, vida e morte se enlaçam e entrelaçam. Não seria essa uma lei normal da vida? No regime de nossa existência há sempre esse nexo meio paradoxal entre morte e vida e vida e morte.

“Em verdade, em verdade vos digo, se o grão de trigo não cai na terra, não morre, ele continua só um grão de trigo, mas se morre então produz muito fruto”.

O evangelho, em outro lugar, lembra um fato. A mulher espera seu filho.  Alegria de saber-se mãe.  Espera cheia de júbilo e ternura. Chega o momento de dar à luz. Momento de dor, de morte a um estado de alegria. Depois a ventura de afagar  junto do peito o fruto das entranhas.

Na vida de todos os dias, os que querem tudo nada conseguem. O moço que quer vencer na vida precisa estudar, lutar, reservar dias e noites que poderiam ser de lazer, mas que são dedicados ao penoso empenho de estudar. Sentimos que a vida nos coloca diante de encruzilhadas. Moça bonita, jovem escolhe o caminho do casamento.  Dentro dela também um certo desejo de uma consagração total a Deus na vida contemplativa. É preciso deixar de lado uma das opções. Morte bem morrida.  Se não for bem morrida haverá conflitos. Se alguém escolhe este companheiro para o casamento,  precisará  morrer  ás outras opções.  Se alguém opta pela maternidade e paternidade terá diante dos olhos o convite quase coercitivo de ser pai, de ser mãe, de consagrar-se aos filhos, de morrer a uma parte de seus desejos.  Entendamo-nos bem.  Não se trata de aniquilar-se, mas há uma morte a ser aceita. Morte que é vida.

Imaginamos nossa vida com este e aquele objetivo. Circunstâncias podem fazer mudar. Um rapaz tem o sonho de ter muitos filhos. Imagina o dia de contar histórias nas noites de inverno para um bando de  filhos. Pensa em escalar montanhas e fazer  passeios com as crianças  na cidade dos avós. Chega uma menininho especial, todo especial  que não entende nada. E mais nenhum…

Tínhamos querido viver a vida cristã intensamente numa paróquia.  Imaginávamos as reuniões amistosas e os encontros alegres. Nem sempre as coisas assim acontecem. A liturgia é pesada. As pessoas chegam e saem. Não se deixam cativar. Mas será preciso continuar a buscar a Deus mesmo com certos desentendimentos que acontecem mesmo em nossas comunidades.

Os que querem seguir a Cristo precisam ter maleabilidade. Precisam aprender a mudar. Os que vivemos um período da vida  cristã de uma maneira, bem certinha, bem arrumadinha, precisaremos  aprender a viver na intempérie e na ventania.

João dá a entender que esse momento final é duro para Cristo.  “Agora, sinto-me angustiado. E que direi?  Pai, livra-me desta hora?  Mas foi precisamente a esta hora que eu vim”.

O grão de trigo, chamado  Jesus, precisa morrer para desse fruto.

Pensamento final

“Poucas frases são tão provocativas como as que ouvimos hoje  no Evangelho: “Se o grão de trigo não cair na terra e não morrer  permanecerá infecundo; mas se morrer produzirá  muito fruto”.  O pensamento de Jesus é claro.  Não se pode gerar vida sem dar  a própria. Não se pode fazer viver os outros, se nós mesmos não estamos dispostos a  “desviver”  pelos outros.  A vida é fruto do amor  e brota na medida em que sabemos entregar-nos”  (Pagola, João, p. 177).

Mistério pascal de morte e vida.  Unimos nossa história ao grão de trigo que é  Cristo.  Fazemos parte dessa vida de dom da vida.

Viver é desprender-se. 

Sim, viver é desprender-se.  Sabemo-lo muito bem. Cada nova conquista  significa que renunciamos a outra coisa. Cada nascimento significa  para a mãe  parte de sacrifício de sua própria vida, de sua pessoa. A cada escolha deixamos de lado todas as outras possiblidades. Um dia a mais na existência significa um dia mais perto da morte. Viver é desprender-se. E o inverso seria verdade? Será verdade que  desprender-se quer dizer viver?

A cada hora de nossa existência  despedimo-nos de alguém ou de alguma coisa, sob  mil  formas. Formas de sofrimento. Ou aceitamos o sofrimento, ou escapamos dele.  Sim, não há dúvida de que fomos feitos para a felicidade.

Que podemos fazer para  amenizar os sofrimentos das despedidas?  Sofrimento de envelhecer, de ver nossas forças definharem; sofrimento de perder ente querido: um filho, uma companheira de toda  uma vida, um irmão, uma irmã,  um pai ou parente, um amigo, uma vizinha querida;  um emprego  ao qual se deve renunciar, por um insucesso, por uma sombra que manchou nossa reputação,  por todas as oportunidades perdidas; sofrimento pelas tensões e cicatrizes na Igreja; pela pulverização de valores importantes  ou da fé com relação aos filhos que  vão de mal a pior; sofrimento por nossa própria morte que  inexoravelmente se aproxima.

Cardeal Godfried Danneels
Carta Pastoral, Páscoa de 1995

Pedido de entrega

Ama. Ama.  Ama,
pouco importa o preço.

Realiza as mais insignificantes tarefas
por amor a mim.

Vai ao mercado…
Mas permanece comigo.
Reza. Jejua.  Reza sempre.

Fica no oculto.
Sê uma luz para os passos de teu irmão.

Sem medo vai  até às profundezas do coração  dos homens;
estarei contigo.

Reza sem parar.
Sou teu repouso.

Catherine de Hueck (1900-1985)

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Uma lei paradoxal

José Antonio Pagola

Encontramos no Evangelho poucas frases tão desafiantes como estas palavras que resumem uma convicção bem própria de Jesus: “Na verdade eu vos digo: se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, permanecerá infecundo; mas se morrer, produzirá muito fruto”.

A ideia de Jesus é clara. Com a vida acontece o mesmo que acontece com o grão de trigo, que deve morrer para libertar toda sua energia e produzir fruto. Se “não morrer” permanecerá estéril. Ao contrário, se “morrer” torna a germinar trazendo consigo novos grãos e nova vida.

Com esta linguagem tão clara e cheia de força, Jesus deixa entrever que sua morte, longe de ser um fracasso, será precisamente o que dará fecundidade à sua vida. Mas, ao mesmo tempo, convida seus seguidores a viver segundo esta mesma lei paradoxal: para dar vida é necessário “morrer”.

Não se pode gerar vida sem dar a própria vida. Não é possível ajudar a viver, se a pessoa não está disposta a “desviver” pelos outros. Ninguém contribui para um mundo mais justo e humano vivendo apegado a seu próprio bem-estar. Ninguém trabalha seriamente pelo reino de Deus e sua justiça, se não está disposto a assumir os riscos e rejeições, a conflitividade e a perseguição que Jesus sofreu.

Passamos a vida tentando evitar sofrimentos e problemas. A cultura do bem-estar nos empurra para organizar-nos da maneira mais cômoda e prazerosa possível. É este o ideal supremo. Mas há sofrimentos e renúncias que precisamos assumir, se quisermos que nossa vida seja fecunda e criativa. O hedonismo não é uma força mobilizadora; a obsessão pelo próprio bem-estar empequenece as pessoas.

Estamos nos acostumando a viver fechando os olhos ao sofrimento dos outros. Parece que isto é o mais inteligente e sensato para sermos felizes. É um erro. Conseguiremos certamente evitar alguns problemas e dissabores, mas nosso bem-estar será cada vez mais vazio e estéril, nossa religião cada vez mais triste e egoísta. Neste ínterim, os oprimidos e aflitos querem saber se sua dor importa a alguém.

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A hora da nova aliança

Pe.Johan Konings

A 1ª leitura deste domingo contém uma das promessas mais carinhosas do Antigo Testamento: a promessa de uma “nova aliança”. A antiga tinha sido rompida demasiada vezes. Ficou gasta. Deus vai recorrer ao último recurso: uma nova aliança, diferente da anterior. A Lei não estará mais escrita em tábuas de pedra ou em rolos de papel, como os dos escribas. Estará inscrita no coração de cada um. Ninguém precisará ainda de mestre! Todos conhecerão Deus, e Deus os acolherá, esquecendo seus pecados.

O evangelho nos propõe Jesus Cristo como cumprimento dessa promessa. Chegou a “hora” – hora da glorificação de Cristo pelo Pai e do Pai por Cristo (Jo 12,23.28; cf. 13,31; 17,1…). A “glória” é o mais próprio ser de Deus.  Sem a vontade de Deus, não há glória para Jesus. E esta vontade manifesta-se, de modo dramático, numa antecipação da agonia de Jesus: “Salva-me desta hora”.

A 2ª leitura, da Epístola aos Hebreus, fala no mesmo sentido. Anteriormente, a carta expôs que Jesus substitui as grandes instituições de Israel: ele é o sumo sacerdote no lugar de Aarão, o mediador no lugar de Moisés. Para tanto, ele participa em tudo de nossa condição humana, exceto o pecado. Participa da agonia. Grita a Deus entre lágrimas, e é ouvido pelo Pai. Este o tira, não da morte, mas da angústia. Jesus sabe que Deus está com ele, ele o  “aprendeu” (Hb 5,8). Assim, no evangelho, na hora da angústia (12,27: “Pai, salva-me desta hora”), Jesus reconhece a vontade de Deus não como algo terrível, mas como glória, ou seja, como o íntimo de Deus, revelando-se no amor de seu Filho para todos: “Pai, glorifica teu nome” (12,28). Também nossa vocação na “nova Aliança” é: conhecer Deus de perto, do modo como Jesus o aprendeu.

”Se o grão de trigo não morrer na terra, fica só, mas se morre, produz muito fruto” (Jô 12,24). É a “lei do grão do trigo”, o modo de agir de Deus, a instrução da Aliança definitivamente renovada. Deus sabe que o endurecimento só é vencido pela vítima. Quando o adversário a quer abafar, a verdade do amor se afirma. É a força da flor sem defesa. A justiça se vê afirmada e vencedora na hora em que a violência a quer suprimir. Os exemplos da “lei do grão de trigo” são muitos em nosso mundo e na América Latina, terra de justos martirizados pelos que se dizem cristãos. Pois essa lei vale não só para Jesus, mas também para seus seguidores: “Quem quer servir-me, siga-me, e onde estiver eu, estará também aquele que me serve, e meu Pai o honrará”(12,16).

Eis a aprendizagem da nova Aliança, da “lei”, da instrução inscrita em nosso coração. Não é extrínseca, imposta de fora. Faz parte de nosso ser cristão, de nosso ser  participante da vida de Cristo. Essa instrução, como a ação escondida do grão na terra, frutificará em nossas atitudes políticas, culturais, humanitárias. Seremos capazes de “morrer” em relação aos nossos proveitos imediatos, a fim de que brote aquilo que, profundamente, sabemos ser  verdadeiro e justo?

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