Destaque, Notícias › 19/05/2017

6º DOMINGO DA PÁSCOA

As razões de nossa esperança

Frei Gustavo Medella

No trecho de sua Carta que está na 2ª Leitura deste 6º Domingo da Páscoa, São Pedro pede que sempre estejamos prontos para dar as razões de nossa esperança a todo aquele que nos pedir (Cf. Pd 3,15). Não se trata de um texto decorado, de uma resposta pronta que se aprende em livros ou apostilas. As razões da esperança brotam do próprio Cristo e é o Espírito que as suscita em nossos corações. Não devemos apresentá-las com empáfia ou arrogância, mas, conforme orienta o Apóstolo, este deve sempre ser um exercício de mansidão e respeito (Cf. Pd 3,16).

É um Ministério Perene assumido por Cristo e que, segundo os planos divinos, deve ser perpetuado na vida e na missão da Igreja, que somos todos nós. O mundo todo sai ganhando quando um cristão assume com empenho a missão de viver e testemunhar as razões de sua esperança com mansidão e respeito. É nesta conduta que está a força da Igreja que, conforme o Papa Francisco, “não cresce por proselitismo, mas por atração”. Sendo assim, nossa primeira missão de batizados e batizadas não é a de engrossar as fileiras de um grupo religioso denominado católico romano, mas a de vivermos o amor-serviço em sua dimensão mais comprometida e transformadora.

Aí está o testemunho mais eficaz e encantador que podemos encarnar a fim de sermos, por causa de Cristo, capazes de oferecer um sentido sólido e profundo à vida daqueles que nos procuram. Aproximando-nos das Solenidades da Ascenção e de Pentecostes, peçamos ao Pai e ao Filho, a Força do Defensor, o Espírito de Consolação que nos permite sermos consoladores daqueles que encontramos no percurso de nossa estrada existencial.

 


O Espírito Santo continua a obra de Jesus

1ª Leitura: At 8,5-8.14-17
Sl: 65
2ª Leitura: 1Pd 3,15-18
Evangelho: Jo 14,15-21

* 15 «Se vocês me amam, obedecerão aos meus mandamentos. 16 Então, eu pedirei ao Pai, e ele dará a vocês outro Advogado, para que permaneça com vocês para sempre. 17 Ele é o Espírito da Verdade, que o mundo não pode acolher, porque não o vê, nem o conhece. Vocês o conhecem, porque ele mora com vocês, e estará com vocês. 18 Eu não deixarei vocês órfãos, mas voltarei para vocês. 19 Mais um pouco, e o mundo não me verá, mas vocês me verão, porque eu vivo, e também vocês viverão. 20 Nesse dia, vocês conhecerão que eu estou em meu Pai, vocês em mim, e eu em vocês. 21 Quem aceita os meus mandamentos e a eles obedece, esse é que me ama. E quem me ama, será amado por meu Pai. Eu também o amarei e me manifestarei a ele.»


* 15-26: Advogado é alguém que defende uma causa. Jesus envia o Espírito Santo como advogado da comunidade cristã. O Espírito é a memória de Jesus que continua sempre viva e presente na comunidade. Ele ajuda a comunidade a manter e a interpretar a ação de Jesus em qualquer tempo e lugar. O Espírito também leva a comunidade a discernir os acontecimentos para continuar o processo de libertação, distinguindo o que é vida e o que é morte, e realizando novos atos de Jesus na história.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


6º Domingo da Páscoa, ano A

Frei Ludovico Garmus, OFM

Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, dai-nos celebrar com fervor estes dias de júbilo em honra do Cristo ressuscitado, para que nossa vida corresponda sempre aos mistérios que recordamos”.

1. Primeira leitura: At 8,5-8.14-17

Impuseram-lhes as mãos, e eles receberam o Espírito Santo.

Antes da ascensão ao céu, Jesus reforça a promessa da vinda do Espírito Santo e comunica o plano de evangelização a ser seguido: “Recebereis… o Espírito Santo… e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, até os confins da terra” (At 1,8). Na missão de Jerusalém se destacam as figuras de Pedro e João; na Judeia e Samaria, Estêvão e Filipe; e na missão aos “confins da terra”, Barnabé e Paulo. Em Jerusalém e na Judeia se convertem judeus de língua aramaica e, depois, judeus de fala grega. A força que impulsiona a missão vem do Espírito Santo, derramado sobre a Igreja. É o Espírito Santo que leva Pedro e João a pregar corajosamente o evangelho em Jerusalém. Leva Estêvão a pregar aos judeus de língua grega, Filipe a pregar ao camareiro etíope (pagão) e a levar o evangelho aos samaritanos. Os samaritanos, que só aceitam o Pentateuco, acolhem com alegria o anúncio de Jesus Cristo; depois, pela imposição das mãos de Pedro e João, recebem o Espírito Santo. É o Espírito Santo que leva Pedro a pregar o evangelho à família de Cornélio em Cesareia Marítima. É Ele que une numa só família a Igreja formada de judeus de língua aramaica, judeus de língua grega, samaritanos e pagãos convertidos.

Salmo responsorial: Sl 65

Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira,
cantai salmos a seu nome glorioso.

2. Segunda leitura: 1Pd 3,15-18

Sofreu a morte em sua existência humana,
mas recebeu nova vida no Espírito.

O autor da epístola exorta os cristãos perseguidos por causa de sua fé em Cristo a dar razões de sua esperança. Isso deve ser feito “com boa consciência”, isto é, sem polêmicas, com mansidão e respeito pelos que não creem. Para uma testemunha de Cristo (mártir) “será melhor sofrer praticando o bem… do que praticando mal”. O modelo a seguir é Cristo, que “sofreu na sua existência humana, mas recebeu nova vida pelo Espírito”. O testemunho dado por Cristo é a razão da esperança cristã.

Aclamação ao Evangelho:

Quem me ama realmente guardará minha palavra,
e meu Pai o amará, e a ele nós viremos.

3. Evangelho: Jo 14,15-21

Eu rogarei ao Pai e ele vos dará outro Defensor.

Continuamos escutando o discurso de despedida de Jesus. Domingo passado (Jo 14,1-12) a insistência era nas palavras “crer, acreditar e confiar” (seis vezes). No texto de hoje a insistência é no verbo “amar” (cinco vezes). Jesus vai separar-se fisicamente dos seus discípulos, mas não os deixará órfãos (v. 18). Pedirá ao Pai que lhes dará um Defensor, o Espírito Santo, para que permaneça sempre com eles. O Espírito Santo é o Defensor ou Advogado do cristão quando deverá dar testemunho de sua fé diante dos tribunais: “Quando vos levarem diante das sinagogas, dos magistrados e das autoridades, não vos preocupeis como, ou o que, haveis de responder; porque nessa hora o Espírito Santo ensinará o que deveis dizer” (Lc 12,11-12). A condição é o amor: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (v. 15.21). Pelo amor conheceremos o Espírito da Verdade, “porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós”. A presença física e mortal de Jesus é substituída pela presença ou inabitação da Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, nos cristãos que amam a Cristo e observam os seus mandamentos: “Quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele. Os mandamentos de Cristo se resumem no amor, vivido com os irmãos: “Eu vos dou um novo mandamento, que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (13,34). Quando o cristão, animado pelo Espírito Santo, vive o amor ao próximo torna viva a presença do amor de Deus.


Vamos falar de amor

Não andamos cansados de tantos discursos sobre o amor?

Atos 8,5-8. 14-17;
1Pedro 3, 15-18;
João 14, 15-21

Se me amais, guardareis os meus mandamentos e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro defensor, para que permaneça sempre convosco…

Continuamos nossa caminhada pelas veredas e caminhos que a Ressurreição do Senhor abriu diante de nós. Andamos aprofundando nossa fé no Ressuscitado. Hoje João nos fala do amor. Guardar os mandamentos é amar a Deus e aos irmãos.  Os que amam o Senhor guardam seus mandamentos. Há também o tema da promessa do força do alto, ou seja, do Espírito. Vamos nos deter no mandamento do amor.

Há muitas modalidades de amor em geral e em particular entre os cristãos. Ao longo dos séculos os optaram pela fé cristã foram tendo a mania da “comunidade”. Faziam questão de se reunirem frequentemente. Dispersos pelo mundo, trabalhando e lutando, tinham gosto ao se encontrarem no primeiro dia da semana. Juntos começaram a fazer a memória daquele que os amara até o fim e pedia que seus discípulos amassem a todos, que se entreajudassem. Segundo os Atos dos Apóstolos não havia necessitados entre eles. E o povo dizia: “Vede como se amam”. Reunião de todos para o louvor e para armar estratégias para irem ao encontro das necessidades de uns e de outros. Um batalhão treinando a arte de amar.

Precisamos lutar com denodo para fazer surgir e alimentar, onde quer que seja, pequenas comunidades, comunidades na base, comunidades de oração, de escuta da Palavra e de arregimentação de forças para amar para fora do pequeno grupo. A comunidade feita de pessoas que se amam é casa do Ressuscitado.

O amor se pratica no seio Igreja doméstica. Há uma transmissão de vida a vida. Pais e filhos, filhos e pais. Há esse interesse que todos cresçam. Há os cuidados pelos avós, pelos envelhecidos, pelos doentes, pelos que erram e precisam ser reintegrados.  A família não é justaposição de indivíduos, nem pensão anônima, mas comunhão de vida, lugar de entreajuda, espaço onde uns lavam os pés dos outros. A família é Igreja doméstica que funciona com a lei do dar a vida uns pelos outros.

No passado e no presente pessoas atraídas pelo amor e pelo amor fraterno, como sacramento de um mundo novo, passaram a viver em comunidades. Pensamos de modo particular nos religiosos e religiosas. Numa de suas Regras, São Francisco de Assis fala do “tutano” de uma comunidade/fraternidade: “E onde estão e onde quer que se encontrem os irmãos, mostrem-se mutuamente familiares entre si. E, com confiança, um manifeste ao outro a sua necessidade porque se a mãe nutre e ama seu filho carnal, quanto mais diligentemente não deve cada um amor e nutrir a seu irmão espiritual? E se algum cair enfermo, os outros irmãos devem servi-lo como gostariam de ser servidos” (Regra Bulada VI)

Há esse amor que significa humanizar o humano. Estar perto efetivamente do que precisa de uma pitada de humano. O que atende no balcão de um serviço público ame espiritualmente os que chegam para serem atendidos. Os que dão aulas pensem que estão abrindo o horizonte de seus alunos à sua dimensão humana. Diante dos robôs criados pela sociedade da pressa, do consumo, do imediato os cristãos através de iniciativas corajosas transformam peças de uma máquina em pessoas sedentas de plenitude.

Amar é humanizar. “Uma sociedade baseada na competição torna-se uma sociedade desumana, excludente, visto que em seus fundamentos está a negação do outro, o fechamento para a possibilidade de partilha, de solidariedade, de ascensão de todas as pessoas” (…). Tudo é cada vez mais efêmero e não tem tempo para cultivar relacionamentos saudáveis e investir em afeto e valores para a convivência durável. Como os resultados devem ser imediatos, as relações tornam-se interesseiras e passageiras, quando não mais satisfazem é só descartar e as pessoas vão se tornando vazias”  (Robson Santarém, Precisa-se de (ser) humano, p. 31-32).

Dois pensamentos que podem nos ajudar:

“O Estado assistencial poderá criar estruturas perfeitas. Mas de que servirão se os homens que a devem animar não forem movidos por um profundo amor pelo homem? Esta é a ação dos cristãos, engajados ao lado de outros homens no esforço de criar um mundo novo, mais juntos e com mais respeito pelo homem. Lembrar que o motor de todo verdadeiro progresso é o amor e só o amor. Sem o amor o próprio progresso pode voltar contra o homem e destruí-lo ou aliená-lo. Procura-se um amor que salve o homem todo: sua dignidade, sua liberdade, sua necessidade de Deus, seu destino ultraterreno. Um amor concreto, que se interesse pelos que estão perto e a quem se pode prestar algum auxílio. Um amor que vai até onde nenhum um outro pode ir” (Missal Dominical da Assembleia Cristã, p. 390).

“Uma comunidade baseada na “amizade cristã” enriqueceria e transformaria hoje a Igreja de Jesus. A amizade promove o que nos une, e não o que nos diferencia. Entre amigos se cultiva a igualdade, a reciprocidade e o apoio mútuo. Ninguém está acima de ninguém. Nenhum amigo é superior ao outro. Respeitam-se as diferenças, mas se cuida da proximidade e da relação. Entre amigos é mais fácil sentir-se responsável e colaborar. E não é difícil estar abertos aos estranhos e diferentes, aos que necessitam de acolhida e amizade. De uma comunidade de amigos é difícil sair. De uma comunidade fria, rotineira e indiferente, a gente vai embora e os que ficam dificilmente sentem nossa falta”.

(Pagola, João, p. 184).


Não estamos órfãos

José Antonio Pagola

Uma Igreja formada por cristãos que se relacionam com um Jesus mal conhecido, pouco amado e apenas lembrado de maneira rotineira é uma Igreja que corre o risco de estar se extinguindo. Uma comunidade cristã reunida em torno de um Jesus apagado, que não seduz nem toca os corações, é uma comunidade sem futuro.

Na Igreja de Jesus precisamos urgentemente de uma nova qualidade em nossa relação com Ele. Precisamos de comunidades cristãs marcadas pela experiência viva de Jesus. Todos podemos contribuir para que na Igreja se sinta e se viva Jesus de maneira nova. Podemos fazer que a Igreja seja mais de Jesus, que viva mais unida a Ele. Como?

João retoma em seu Evangelho a despedida de Jesus na última ceia. Os discípulos percebem que dentro de bem pouco tempo Jesus lhes será arrebatado. O que será deles sem Jesus? A quem seguirão? Onde alimentarão sua esperança? Jesus lhes fala com ternura especial. Antes de deixá-los, quer fazê-los ver como poderão viver unidos a Ele, inclusive depois de sua morte.

Antes de tudo, deve ficar gravado em seu coração algo que nunca deverão esquecer: “Não vos deixarei órfãos. Voltarei’: Jamais devem sentir-se sós. Jesus lhes fala de uma presença nova que os envolverá e os fará viver, pois os atingirá no mais íntimo de seu ser. Não os esquecerá. Virá e estará com eles. Jesus já não poderá mais ser visto com a luz deste mundo, mas poderá ser visto por seus seguidores com os olhos da fé. Não devemos cuidar desta presença de Jesus ressuscitado no meio de nós e reavivá-la muito mais? Como vamos trabalhar por um mundo mais humano e uma Igreja mais evangélica, se não sentimos Jesus junto de nós?

Jesus lhes fala de uma experiência nova que até aquele momento seus discípulos não conheciam, enquanto o seguiam pelos caminhos da Galileia: “Sabereis que eu estou no Pai e vós estareis em mim”. Esta é a experiência básica que sustenta nossa fé. No fundo de nosso coração cristão sabemos que Jesus está no Pai e nós estamos nele. Isto muda tudo.

Esta experiência é alimentada pelo amor: “Ao que me ama… eu também o amarei e me revelarei a ele’: É possível seguir a Jesus tomando a cruz cada dia sem amá-lo e sem sentir-nos amados entranhavelmente por Ele? É possível evitar a decadência do cristianismo sem reavivar este amor? Que força poderá mover a Igreja se deixarmos que se apague o amor? Quem poderá preencher o vazio deixado por Jesus? Quem poderá substituir sua presença viva no meio de nós?

Do livro “O caminho aberto por Jesus”, de José A. Pagola, Editora Vozes.


A iniciação cristã e a crisma

Pe. Johan Konings

Continuando nossas reflexões sobre o batismo, consideramos hoje o sacramento da crisma. Antigamente, o dia da crisma era um dia muito especial para as comunidades, quando o bispo vinha “confirmar” as crianças (hoje, muitas vezes, é o vigário episcopal que faz isso). De onde vem esse costume? Na 1ª leitura lemos que o diácono Filipe batizou novos cristãos na Samaria. Depois, vieram os apóstolos Pedro e João de Jerusalém para confirmar os batizados, impondo-lhes as mãos, para que recebessem o Espírito Santo. Assim, os apóstolos predecessores dos bispos, completaram e “confirmaram” o batismo.

Como “alicerces” da Igreja, os apóstolos garantem aos recém-batizados o dom do Espírito, que lhes foi confiado por Cristo (evangelho) e expressam a unidade das igrejas (no caso, a de Jerusalém e a de Samaria). A confirmação do batismo pela imposição das mãos do bispo – sucessor dos apóstolos – tornou-se o sacramento da crisma: completa o batismo e realiza o dom do Espírito Santo. Chama-se “crisma”, isto é, “unção”, porque o bispo unge a fronte do crismado em sinal da dignidade e vocação do cristão. Antigamente era administrado na mesma celebração do batismo e da eucaristia, que com a crisma constituem a “iniciação cristã”.

Quando se introduziu o costume de batizar as crianças, a confirmação e a eucaristia ficaram para um momento ulterior, geralmente no início da adolescência, pelo que a crisma adquiriu o significado de “sacramento do cristão adulto”. O adolescente ou jovem é confirmado na sua fé, pelo dom do Espírito. Agora, ele terá de assumir pessoalmente o que, quando do batismo, os pais e padrinhos prometeram em seu nome. Pois a fé pode ser exigente (2ª leitura). Para a comunidade, a celebração da crisma significa também a unidade das diversas comunidades locais na “Igreja particular” ou diocese, graças à presença do bispo ou do vigário episcopal.

O evangelho de hoje nos ensina algo mais sobre o Espírito que Jesus envia aos seus. Muitos imaginam o Espírito de modo sensacionalista. Ora, Jesus envia o Espírito para que os fiéis continuem sua obra no mundo. Pois o lugar de Jesus “na carne” era limitado, no tempo e no espaço, e os fiéis são chamados a ampliar, com a força do Espírito-Paráclito, a sua obra pelo mundo afora. É este o sentido profundo da crisma, que assim completa nosso batismo.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes.

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