Destaque, Notícias › 08/02/2018

6º Domingo do Tempo Comum

É mais fácil do que parece

Frei Gustavo Medella

“Simples assim”, diz o clichê que circula nas redes sociais e na boca do povo. Apesar de parecer uma novidade, esta intuição é bem antiga e aparece na fala dos servos de Naamã, o sírio, que convidam o chefe à reflexão quando dizem: “Senhor, se o profeta te mandasse fazer uma coisa difícil, não a terias feito? Quanto mais agora que ele te disse: ‘Lava-te e ficarás limpo’” (2Rs 5,13). Eles se referiam à orientação do Profeta Eliseu a Naamã quando aquele garantiu ao sírio que sua doença estaria curada caso se lavasse sete vezes no Rio Jordão. “Só isso?”, perguntou-se Naamã, incrédulo e decepcionado.

Na vida, muitas soluções estão mais próximas do que se pensa. Em Jesus, o próprio Deus escolhe ser simples para apresentar ao ser humano o caminho da simplicidade. Tal lição, aparentemente fácil, às vezes demora uma vida inteira para ser assimilada. Geralmente dela se toma consciência quando os limites, da idade ou da doença, aparecem. Dar um passo, tomar um copo de água fresca, ir ao banheiro sozinho e conseguir se limpar, por exemplo, são ações extremamente simples, mas aparecem em sua total importância quando alguém não mais consegue realizá-las sem ajuda.

A sabedoria de assimilar os limites e buscar na simplicidade a capacidade de ser feliz é uma das lições que a Liturgia da Palavra deste 6º Domingo do Tempo Comum vem ensinar. A simplicidade como caminho da resolução de dramas e problemas faz lembrar o refrão dos Titãs, que cantam: “As ideias estão no chão. Você tropeça e acha a solução”.

Esta reflexão sobre a simplicidade não deseja assumir um tom alienante ou provocar resiliência naqueles que sofrem as dores da injustiça e da falta de condições mínimas para viver. O Evangelho de Jesus Cristo, Deus que se fez simples entre os simples deve levar a questionar as estruturas de desigualdade pautada em um mercado que se rege apenas pela lei da oferta e da procura, onde o dinheiro tem voz ativa sobre as relações, as instituições e as pessoas. Como diz o Papa Francisco, uma economia que exclui em vez de servir. Que o apelo da Liturgia deste final de semana ressoe na consciência de todos os Cristãos. “Simples assim”.

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Jesus e os marginalizados

1ª Leitura: Lv 13, 1-2.44-46
Sl 31
2ª Leitura: 1Cor 10,31-11,1
Evangelho: Mc 1,40-45

* 40 Um leproso chegou perto de Jesus e pediu de joelhos: «Se queres, tu tens o poder de me purificar.» 41 Jesus ficou cheio de ira, estendeu a mão, tocou nele e disse: «Eu quero, fique purificado.» 42 No mesmo instante a lepra desapareceu e o homem ficou purificado. 43 Então Jesus o mandou logo embora, ameaçando-o severamente: 44 «Não conte nada para ninguém! Vá pedir ao sacerdote para examinar você, e depois ofereça pela sua purificação o sacrifício que Moisés ordenou, para que seja um testemunho para eles.» 45 Mas o homem foi embora e começou a pregar muito e a espalhar a notícia. Por isso, Jesus não podia mais entrar publicamente numa cidade: ele ficava fora, em lugares desertos. E de toda parte as pessoas iam procurá-lo.


* 40-45: O leproso era marginalizado, devendo viver fora da cidade, longe do convívio social, por motivos higiênicos e religiosos (Lv 13,45-46). Jesus fica irado contra uma sociedade que produz a marginalização. Por isso, o homem curado deve apresentar-se para dar testemunho contra um sistema que não cura, mas só declara quem pode ou não participar da vida social. O marginalizado agora se torna testemunho vivo, que anuncia Jesus, aquele que purifica. E Jesus está fora da cidade, lugar que se torna o centro de nova relação social: o lugar dos marginalizados é o lugar onde se pode encontrar Jesus.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


6º Domingo do Tempo Comum, ano B

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Ó Deus, que prometestes permanecer nos corações sinceros e retos, dai-nos, por vossa graça, viver de tal modo, que possais habitar em nós”.

1. Primeira leitura: Lv 13,1-2.44-46

O leproso deve ficar isolado e morar fora do acampamento.

O livro do Levítico reserva dois capítulos (Lv 13–14) para tratar da “lepra”, que nem sempre era a nossa conhecida hanseníase, mas incluía qualquer doença da pele. Hoje a hanseníase é tratável e curável. Nos tempos bíblicos a lepra era considerada punição divina por algum pecado. A pessoa suspeita de ter contraído a “lepra” era submetida e rigorosos exames feitos pelos sacerdotes. Uma vez “confirmada” a doença, a pessoa era segregada do convívio familiar e da comunidade. Se tivesse que entrar ou passar por um núcleo habitacional, devia avisar por meio de uma sineta ou gritar “impuro! Impuro!” No caso de ter sido curada a doença da pele, o paciente devia reapresentar-se aos sacerdotes, para ser novamente examinada. Comprovada a cura, o paciente devia oferecer sacrifícios rituais e nem sempre tinha condições de fazê-lo. Só então podia ser readmitido na família e na comunidade.

Nossos preconceitos, também hoje, excluem pessoas portadoras de hanseníase (lepra) e de HIV, ou por opções sexuais. Não nos sentimos bem no meio dos pobres e os excluímos de nosso convívio. Podemos aprender do exemplo de Jesus (Evangelho) e de muitas pessoas que se dedicam aos pobres e enfermos.

Salmo responsorial: Sl 31,1-2.5.11

Sois Senhor, para mim, alegria e refúgio.

2. Segunda leitura: 1Cor 10,31–11,1

Sede meus imitadores, como também eu o sou de Cristo.

A linda exortação que ouvimos conclui a resposta de Paulo às perguntas que os cristãos de Corinto lhe faziam: pode-se participar ou não de banquetes religiosos pagãos, que eram também festas civis (1Cor 8)? É permitido comer carnes de animais sacrificados aos ídolos e vendidas no mercado (1Cor 10,23-30)? Paulo estabelece dois princípios: como os ídolos não existem, o cristão é livre de comer ou não tal carne; mas nunca deve escandalizar um cristão que pensa diferente, ou têm “consciência fraca”. E estabelece um princípio geral: “Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, mas fazei tudo para a glória de Deus”. Mas Deus não será glorificado se com minha liberdade, escandalizo meu irmão. Por fim, Paulo se apresenta como exemplo: em tudo o que faz procura não o próprio bem, mas o dos outros, para que todos sejam salvos.

Aclamação ao Evangelho

Um grande profeta surgiu, surgiu e entre nós se mostrou:
É Deus que seu povo visita, seu povo, meu Deus visitou!

3. Evangelho: Mc 1,40-45

A lepra desapareceu e o homem ficou curado.

Em Israel, quem sofria de “lepra” era duplamente discriminado: pela própria doença e pela exclusão da comunidade prevista pela Lei (1ª leitura). Quando possível, os leprosos viviam em bandos (cf. Lc ) e eram alimentados pelos parentes ou por pessoas bondosas. Ninguém podia tocá-los para não se tornar “impuro”. Ao aproximar-se de Jesus, o leproso transgride a Lei. Não suportava mais o isolamento e a exclusão. Queria ser reintegrado na sua família e na comunidade. Para isso, porém, devia comprovar sua cura diante dos sacerdotes, como exigia a Lei. Os sacerdotes não tinham o poder de curar a lepra; apenas verificavam se a pessoa estava, ou não, curada. No evangelho de hoje, o leproso manifesta uma profunda confiança em Jesus; reconhece que o Mestre tinha o poder de curá-lo. Por isso, de joelhos, pede a Jesus: “Se queres, tens o poder de curar-me”. O leproso não suporta mais o isolamento da família e da comunidade, a que era submetido pela Lei. Ao prostrar-se por terra, entrega-se confiante ao querer e poder misericordioso de Jesus.

Movido pela compaixão, Jesus toca o leproso com a mão (algo proibido) e transforma em realidade seu desejo: “Eu quero, fica curado! Jesus mostra, assim, a misericórdia do Pai. Deus não quer ver ninguém excluído da convivência da família e da sociedade. A lepra era considerada punição por algum pecado. O pecado contra o irmão quebra o vínculo com Deus e o amor que nos une. Jesus proibiu ao leproso de fazer propaganda de sua cura entre o povo. A proibição faz parte do “segredo messiânico” de Marcos, pois o Cristo vai se revelar aos poucos e plenamente, apenas pela cruz a ressurreição. Ordena, ao mesmo tempo, que ex-leproso se apresente aos sacerdotes, conforme exigia a Lei, porque somente eles podiam oficialmente reconhecer a cura readmiti-lo no seio da família e da comunidade. Mas o fato de o ex-leproso retornar à comunidade, curado, tornou a proibição de não divulgar a cura sem efeito. Todo mundo ficou sabendo da cura milagrosa. Jesus, porém, procura retirar-se para lugares desertos (Mc 1,35). Mesmo assim, o povo o procurava. – A palavra do leproso “se queres” e a resposta de Jesus “quero” são um convite a revermos algumas possíveis atitudes de discriminação e exclusão que praticamos, às vezes, sem perceber. Convida, também, a querer aquilo que Deus quer que façamos.

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Serviço e anúncio

Frei Clarêncio Neotti

O leproso pede de joelhos. Ressaltam aqui duas virtudes próprias de quem pede angustiado: humildade e confiança. O orgulhoso tem dificuldade de pedir. Um evangelho apócrifo (antigo como os Evangelhos, mas não aceito pela Igreja como livro da Bíblia) conta o milagre de hoje, pondo na boca do leproso estas palavras: “Mestre Jesus, tu que andas com os leprosos e comes em suas grutas, também eu fiquei leproso; se queres, podes curar-me”. A oração afirma que Jesus desceu aos mais espezinhados. Não só passou por eles. Não só os curou, quando os encontrou, como parece ser o caso de hoje. Mas foi visitá-los, andou no meio deles e comeu com eles. Comer com alguém significava participar de sua sorte, ou seja, ser compassivo.

No domingo passado, ao comentar a cura da sogra de São Pedro, acentuamos a frase: “Ela se pôs a servi-los”. E dissemos que o serviço é uma característica do cristão. Hoje, o neocurado sai proclamando e divulgando a notícia da cura (salvação) recebida (v. 45). Nos dois milagres ocorrem duas palavras que são quase o coração da fé e do comportamento cristão: serviço (ou diaconia) no primeiro caso; anúncio (ou proclamação do kerigma) no segundo. Diaconia e kerigma são duas palavras gregas que voltaram ao vocabulário cristão pós-conciliar. Quem é curado pelo Senhor e o segue como discípulo transforma sua vida num anúncio da bondade de Deus (evangelização), anúncio testemunhado na prática pelo serviço caridoso e gratuito. Uma gratuidade que vai além da obrigação. Uma caridade que supera as leis. Exatamente como Jesus hoje diante do leproso.

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Jesus e o leproso: um tocante encontro

Frei Almir Guimarães

Lá ia vagando pelos caminhos um vulto cambaleante. Pobre ser em pedaços. Um leproso. Um ser banido do convívio com os outros. Chega-se a Jesus. Fome. Rejeitado. Sem presente e sem amanhã. Um ser em ruínas.

O Livro do Levítico dos tempos antigos afirmava: “O Senhor falou a Moisés e Aarão dizendo: Quando alguém tiver na pele de seu corpo alguma inflamação, erupção ou mancha branca… se um homem estiver leproso é impuro, e como tal o sacerdote o deve declarar. O homem atingido por este mal andará com vestes rasgadas e os cabelos em desordem e a barba coberta, gritando: ‘Impuro! Impuro!’”.

Respeitosamente, de joelhos, o leproso se dirige a Jesus: “Se queres tens o poder de curar-me”. No meio de sua aflição e total exclusão o doente confia ao Senhor sua desgraça. Em dois versículos Marcos anuncia que o pedido é atendido:  “Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele e disse: Eu quero. Fica curado. No mesmo instante, a lepra desapareceu e ele ficou curado”.

Quantos detalhes! Quanta simplicidade! Assim o comentário de José Antonio Pagola: “Causa surpresa a emoção que a proximidade do leproso produz em Jesus. Comove-se até às entranhas. Transborda nele a ternura. Como não vai querer limpá-lo, ele que vive movido apenas pela compaixão de Deus para com seus filhos e filhas mais indefesos e desprezados? Sem hesitar estende a mão e toca sua pele desprezada pelos puros. Jesus sabe que isto está proibido pela lei e que, com este gesto, está reafirmando a transgressão iniciada pelo leproso. A única coisa que o move é a compaixão. ‘Eu quero: fica limpo’” (Pagola, Marcos, p. 58). Jesus, o homem da bondosa misericórdia.

Muito tempo depois Francisco de Assis também teve um encontro tocante e decisivo com o leproso. Ele  mesmo narra nas primeiras linhas de seu Testamento. Assim podemos traduzir o que ele atesta: “Foi assim que o Senhor deu a mim, frei  Francisco, começar uma vida nova, uma vida transformada. Sempre tive muita dificuldade de passar perto e aproximar-me de leprosos. Sentia-me revoltar o estômago. Um dia, um dia estupendo, o Senhor me deu forças para que eu chegasse perto de um deles… Abracei-o. Tudo mudou. O amargo ficou doce e o doce, amargo. Sabem, depois dessa cena de amor tudo mudou mesmo. Deixei a maneira de viver segundo a vaidade. Deixei a mentalidade mundana. Abandonei o mundo. Naquele momento começava minha aventura espiritual. Foi assim que tudo começou”.

Jesus se aproxima do leproso rompendo a lei. Francisco toca as carnes do leproso e passou boa parte de sua vida deles se ocupando. O Evangelho que acabamos de ouvir pede que nos aproximemos carinhosamente de todos aqueles que carregam pesos existenciais: solidões doloridas, doenças que fazem  chorar de verdade, desprezo por parte dos seus, tendências diferentes, vergonhas escondidas. Talvez alguns desses estejam se aproximando de nós para que estendamos para eles nossa mão carinhosa.

O encontro e o cuidado com os mais frágeis pode ser para nós uma porta rumo a uma plenitude de vida. Donald Spoto escreveu uma instigante biografia de São Francisco. Lá ele fala do Francisco e os leprosos: “Cuidando dos rejeitados do mundo,  Francisco começava a ascender à genuína nobreza que buscava e que seria descoberta não nas armas, ou em títulos e batalhas, glórias ou desafios. A honra não estava na companhia dos mais fortes, dos mais atraentes, dos mais bem vestidos ou mais seguros na sociedade, mas entre os mais fracos, os mais desfigurados, os que estavam marginalizados, os dependentes e desprezados” (Donald Spoto, Francisco de Assis. O Santo Relutante, Objetiva, p. 104).

Quem sabe  nossa práxis cristã precisasse com urgência reencontrar o  Cristo e não ficar restrita a práticas e rezas, muitas vezes interesseiras. Talvez devêssemos abrir as portas de nossa intimidade aos mais desprezados da face da terra.  Não seria isso simplesmente viver o Evangelho? Não seria agir com compaixão?  Não é isso que conta?

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Contra a exclusão

José Antonio Pagola

Na sociedade judaica, o leproso não era só um enfermo. Era, antes de mais nada, um impuro. Um ser estigmatizado, sem lugar na sociedade, sem acolhida em lugar nenhum, excluído da vida. O velho livro do Levítico o dizia em termos claros: “O leproso trará as vestes rasgadas e a cabeça desgrenhada … Irá avisando aos gritos: ‘Impuro, impuro’. Enquanto durar a lepra, será impuro. Viverá isolado e habitará fora do povoado”.

A atitude correta, sancionada pelas Escrituras, é clara: a sociedade deve excluir os leprosos da convivência. É o melhor para todos. Uma postura firme de exclusão e rejeição. Sempre haverá na sociedade pessoas que sobram.

Jesus se revolta diante desta situação. Em certa ocasião aproxima-se dele um leproso, avisando certamente a todos de sua impureza. Jesus está só. Talvez os discípulos tenham fugido horrorizados. O leproso não pede para “ser curado”, mas para “ficar limpo”. O que ele busca é ver-se libertado da impureza e da rejeição social. Jesus fica comovido, estende a mão, “toca” o leproso e lhe diz: “Eu quero. Fica limpo”.

Jesus não aceita uma sociedade que exclui leprosos e impuros. Não admite a rejeição social dos indesejáveis. Jesus toca o leproso para libertá-lo de medos, preconceitos e tabus. Limpa-o para dizer a todos que Deus não exclui nem castiga ninguém com a marginalização. É a sociedade que, pensando só em sua segurança, levanta barreiras e exclui de seu seio os indignos.

Há alguns anos, todos nós pudemos ouvir a promessa que o responsável máximo do Estado fazia aos cidadãos: “Varreremos a rua de pequenos delinquentes”. Ao que parece, no interior de uma sociedade limpa, composta por pessoas de bem, há uma “sujeira” que é necessário retirar para que não nos contamine. Uma sujeira, na verdade, não reciclável, porque a cadeia atual não está pensada para reabilitar ninguém, mas para castigar os “maus” e defender os “bons”.

Como é fácil pensar na “segurança dos cidadãos” e esquecer-nos do sofrimento de pequenos delinquentes, drogados, prostitutas, vagabundos e desgarrados. Muitos deles não conheceram o calor de um lar nem a segurança de um trabalho. Aprisionados para sempre, nem sabem nem podem sair de seu triste destino. E a nós, cidadãos exemplares, só nos ocorre varrê-los de nossas ruas. Ao que parece, tudo muito correto e muito “cristão”. E também muito contrário a Deus.

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O Messias e os marginalizados

Pe. Johan Konings

A exclusão está na moda, virou princípio de organização socioeconômica: a lei do mercado, da competitividade. Quem não consegue competir, desapareça. Quem não consegue consumir, deve sumir. Escondemos favelas por trás de paredões ou placares de publicidade. Que os feios, os aleijados, os idosos, os aidéticos não poluam os nossos cartões postais!

Em tempos idos, a exclusão muitas vezes provinha da impotência ou da superstição. Assim, a exclusão dos cegos e coxos do templo de Jerusalém. Ou a marginalização dos leprosos, ilustrada abundantemente em Lv 13-14 (cf. 1ª leitura). Enquanto não se tivesse constatado a cura por um complicado ritual, o leproso era considerado impuro, intocável. Jesus, porém, toca no leproso – e o cura (evangelho). É um sinal do Reino de Deus. Jesus torna o mundo mais conforme ao sonho de Deus. Pois Deus não deseja sofrimento nem discriminação. O Antigo Testamento pode não ter encontrado outra solução para esses doentes contagiosos que a marginalização; mas Jesus mostra que um novo tempo começou.

Começou, mas não terminou. Reintegrar os marginalizados não foi uma fase passageira no projeto de Deus, como os benefícios que os políticos realizam nas vésperas das eleições. O plano messiânico continua através do povo messiânico, como se concebe a Igreja. Devemos continuar inventando, quando pudermos, soluções contra toda e qualquer marginalização. Pois somos todos irmãos e irmãs.

Seremos impotentes para excluir a exclusão, como os antigos israelitas em relação à lepra? Que fazer com os criminosos, viciados no crime?  Será nosso mundo tão bom que possa reintegrar tais pessoas, sem que se enrosquem de novo? O fato de ter de marginalizar alguém é um reconhecimento da não perfeição de nossa sociedade. Toda forma de marginalização é uma denúncia contra nossa sociedade, e ao mesmo tempo um desafio. Isso é muito mais ainda o caso em se tratando de pessoas inocentes. A marginalização é sinal de que não está acontecendo o que Deus deseja. Onde existe marginalização, o Reino de Deus ainda não chegou, pelo menos não completamente. E onde chega o Reino de Deus, a marginalização não deve mais existir. Por isso, Jesus reintegra os marginalizados, como é o caso do leproso, dos pecadores, dos publicamos, prostitutas…. Essa reintegração está baseada no poder-autoridade que Jesus detém como enviado de Deus: “Se quiseres, tens o poder de me purificar” (Mc 1,40). Jesus passa por cima das prescrições levíticas, toca no leproso e o “purifica” por sua palavra em virtude da autoridade que lhe é conferida como “Filho do Homem” (= “executivo” de Deus, cf. Mc 2, 10.28).

Há quem pense que os mecanismos auto-reguladores do mercado são o fim da história e a realização completa da racionalidade humana. E os que são (e sempre serão) excluídos por esse processo, onde ficam? Não será esse raciocínio o de um varejista que se imagina ser o criador do universo? A liturgia de hoje nos mostra um outro caminho, o de Jesus: solidarizar-se com os marginalizados, os excluídos, tocar naqueles que a “lei” proíbe tocar, para reintegrá-los, obrigando a sociedade a se abrir e a criar estruturas mais acolhedoras. Mais messiânicas.

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