Notícias › 30/05/2018

9º Domingo do Tempo Cumum

O medo de que o medo acabe

Frei Gustavo Medella

“Há quem tenha medo que o medo acabe”. Esta frase foi dita pelo poeta moçambicano Mia Couto no encerramento de uma conferência proferida em 2011. Retrata a preocupação de quem vive a propagar o medo para dominar, para se colocar acima de seus pares e semelhantes. O medo do crime pode se tornar uma verdadeira indústria de criminosos, assim como o medo da fome tem forte potencial para produzir uma geração de famintos. A religião, quando se fia do medo, produz, no mínimo, insanidade mental, para não citar outras consequências mais graves.

Jesus, ao se apresentar como a encarnação do Emanuel, que significa “Deus Conosco”, mexeu fundo nos interesses daqueles que, em nome da lei e da tradição, colocavam-se como representantes de um Deus distante, irado e implacável. Esta imagem do divino era conveniente e vantajosa, pois permitia a poucos dominarem sobre muitos, sempre à custa de um medo planejado e difundido.

Com o poder humilde que o Pai lhe confiara, de quem não precisava salvaguardar qualquer vantagem para si, Jesus se lança radicalmente numa nova proposta, onde a vida do ser humano é de fato o bem maior. De Deus ninguém deveria ter medo, pois o sonho do Pai para seus filhos era que todos tivessem vida, e “vida em abundância” (Cf. Jo 10,10). Para Ele não havia dificuldade de compreender que a lei existe em função das pessoas, e não o contrário. Aí está o escândalo e o incômodo para quem sempre esteve acomodado numa situação de se sentir superior e, por isso, mais digno de privilégios do que aqueles que o cercavam.

Em nossos dias, temos a graça de encontrar no Papa Francisco um pastor sem medo. Seus gestos, seus pronunciamentos e suas prioridades querem encher de coragem a Igreja para que seja fiel à missão que herdou de Cristo. Seu pontificado é um convite insistente e permanente para que a Igreja deixe de lado todos os filhotes daninhos que nascem do medo: clericalismo, carreirismo, alianças espúrias, corporativismo, conservadorismo, hipocrisia, autorreferencialidade. Vencendo o medo, estaremos dando um passo significativo para nos purificarmos de todos estes fantasmas e para estarmos em maior sintonia com o Evangelho de Jesus.


Na imagem do pintor espanhol Murillo, o regresso do filho pródigo. Deus não é implacável, mas misericordioso e amoroso.


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Jesus liberta da lei

9º Domingo do Tempo Comum

1ª Leitura: dT 5,12-15

sL 80 (81)

2ª Leitura: 2Cor 4,6-11

Evangelho: Mc 2,23-3,6

23 Num dia de sábado, Jesus estava passando por uns campos de trigo. Os discípulos iam abrindo caminho, e arrancando as espigas. 24 Então os fariseus perguntaram a Jesus: «Vê: por que os teus discípulos estão fazendo o que não é permitido em dia de sábado?» 25 Jesus perguntou aos fariseus: «Vocês nunca leram o que Davi e seus companheiros fizeram quando estavam passando necessidade e sentindo fome? 26 Davi entrou na casa de Deus, no tempo em que Abiatar era sumo sacerdote, comeu dos pães oferecidos a Deus e os deu também para os seus companheiros. No entanto, só os sacerdotes podem comer desses pães.» 27 E Jesus acrescentou: «O sábado foi feito para servir ao homem, e não o homem para servir ao sábado. 28 Portanto, o Filho do Homem é senhor até mesmo do sábado.»

* 1 Jesus entrou de novo na sinagoga, onde estava um homem com a mão seca. 2 Havia aí algumas pessoas espiando, para verem se Jesus ia curá-lo em dia de sábado, e assim poderem acusá-lo. 3 Jesus disse ao homem da mão seca: «Levante-se e fique no meio.» 4 Depois perguntou aos outros: «O que é que a Lei permite no sábado: fazer o bem ou fazer o mal, salvar uma vida ou matá-la?» Mas eles não disseram nada. 5 Jesus, então olhou ao seu redor, cheio de ira e tristeza, porque eles eram duros de coração. Depois disse ao homem: «Estenda a mão.» O homem estendeu a mão e ela ficou boa. 6 Logo depois, os fariseus saíram da sinagoga e, junto com alguns do partido de Herodes, faziam um plano para matar Jesus.


* 23-28: O centro da obra de Deus é o homem, e cultuar a Deus é fazer o bem ao homem. Não se trata de estreitar ou alargar a lei do sábado, mas de dar sentido totalmente novo a todas as estruturas e leis que regem as relações entre os homens. Porque só é bom aquilo que faz o homem crescer e ter mais vida. Toda lei que oprime o homem é lei contra a própria vontade de Deus, e deve ser abolida.

* 3,1-6: Jesus mostra que a lei do sábado deve ser interpretada como libertação e vida para o homem. Ao mesmo tempo, partidos que eram inimigos entre si reúnem-se para planejar a morte desse profeta: afinal, ele está destruindo a idéia de religião e sociedade que eles tinham.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Misericórdia e caridade acima da Lei

Frei Clarêncio Neotti

O sábado foi instituído como dia sagrado principalmente por duas razões: como memória dos dias da criação, em cujo sétimo dia o Senhor descansara (Ex 20,11), e comemoração da saída da escravidão egípcia (Dt 5,15). Por isso mesmo, o sábado significava um dia de agradecimento e de libertação, celebrado com repouso de todos, inclusive dos animais e escravos (Dt 5,14). Mas os fariseus e os escribas haviam complicado de tal maneira a observância do sábado, com dezenas de proibições e sutilezas, que o preceito do sábado se tornara um peso muito grande para o povo.

Jesus respeita o sábado, mas em seu sentido genuíno: dia em que se manifesta e se celebra a misericórdia e o amor divino, seja na criação amorosa das criaturas, seja na libertação dos males que impedem a felicidade. O mesmo se diga da observância do domingo, que substituiu o sábado para lembrar a ressurreição de Jesus, o grande gesto de Deus que recriou o universo e libertou em definitivo a humanidade do pecado e da morte. A observância do domingo é um mandamento a ser cumprido. Mas para celebrar a misericórdia divina e a redenção trazida por Cristo.

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Nossa vida cristã carregamos em vasos de barro

Frei Almir Guimarães

tique-20“O Deus que disse: “Do meio das trevas brilhe a luz” é o mesmo que fez brilhar a sua luz em nossos corações, para tornar claro o conhecimento de sua glória na face de Cristo” (2Cor 4, 6). Buscamos a Cristo. No rosto de Cristo manifesta-se a glória do Altíssimo, mesmo quando seu semblante parece desfigurado. Não somos meros praticantes de uma religião, por vezes praticantes rotineiros. O Senhor permitiu que Cristo, seu Filho, vivo e ressuscitado, fosse se insinuando em nossa história: convivência com o Evangelho, força do exemplo de pessoas à nossa volta, vivência profunda  do Sermão da Montanha, transformação interior pelos sacramentos.  Nossa intimidade com Cristo fez com que pudéssemos ver uma luz para a vida, uma vida em Deus.

tique-20Trazemos o tesouro da vida na luz em vasos de barro, vasos quebradiços. Temos certeza de que a nossa vida de fé com rasgos de esplendor vem do Senhor. Somos, no entanto, fragilidade. Cuidado para que os vasos não se quebrem. Eis algumas pistas:

tique-20Encontro com Deus: A vocação mais profunda do ser humano é unir-se da Deus. Trata-se, sempre no universo da fé, de  experimentar  o Deus incompreensível, verdadeira essência da espiritualidade cristã. Trata-se não simplesmente de uma aceitação doutrinal, mas uma experiência silenciosa, calada, uma aceitação do Senhor a partir do mais profundo de nós mesmos.  Lembramo-nos sempre da afirmação de Karl Rahner: “O cristão do futuro ou será um místico,  quer dizer uma pessoa que ‘experimentará algo’, ou não será cristão”.

tique-20Experiência de ressurreição: Em determinados momentos de nossa vida demo-nos conta que em nós ia morrendo o homem velho, marcado pela falsidade e pela vaidade e, na força do Espírito, sentimos que entramos num processo de conversão, de ressurreição. Fomos convidados a deixar o mundo vazio e tolo, à maneira do filho pródigo, e lançar nossa vida no abraço do Pai que andava nos esperando.  Bendito esses momentos em que tivemos a certeza  de “deixar o mundo”, o mundo das fachadas e das aparências”.

tique-20Reproduzir em nós a imagem de Cristo: Aos poucos vamos nos configurando a Cristo. Seremos verdadeiramente nós mesmos na medida em que formos nos tornando semelhantes a Cristo, reproduzimos em nós sua imagem. O Pai se compraz em ver traços do Filho amado em nosso rosto.

Oração

Vem, Espirito Santo.
Desperta em nós a fé pequena e vacilante.
Ensina-nos a viver confiando
no amor insondável do Pai
por todos os seus filhos  filhas,
estejam dentro ou fora da Igreja.

Vem, Espírito  Santo.
Faze com que Jesus ocupe o centro
de nossa vida e de nossa Comunidade.
Atraí-nos para seu Evangelho
e torna-nos autênticos  seguidores de Cristo,
seus discípulos missionários,
comprometidos  com seu projeto de vida, liberdade e paz.
Que não fujamos de sua   Palavra,
nem nos desviemos de seu mandato de amor
para que não se apague no mundo a sua memória.

(José Antonio Pagola)

Meios para viver o encontro

com Deus em Cristo:

Tique-20-amareloOração –  definida como intimidade
amorosa  com quem sabemos que nos
ama.  Refazemos em nós a própria
experiência de Jesus, como um
diálogo partilhado com o Pai.
Fazemos nossas as palavras de Jesus:
“Nada faço por minha própria conta:
somente ensino o que aprendi
do Pai. Ele que me enviou está comigo,
não me deixa só, porque faça sempre
o que lhe agrada” (Jo 8, 28-29).

Tique-20-amareloO primado da palavra –  Ouvir,
estar disposto a ser fecundado pela
Palavra, como Maria.  Reuniões em
torno da Palavra.  Leitura serena dos
Evangelhos com a porta fechada.
Criar  grupos sólidos de Leitura
orante da Bíblia.

Tique-20-amareloLiturgia –  Aí Jesus está particularmente presente
para realizar sua obra de salvação:  salmos,  leituras, eucaristia, pão da vida, alimento da caminhada.  Felizes os que oferecem sua vida na celebração e o fazem não por obrigação dominical.  Há pessoas que conseguem organizar-se para participar da missa mesmo em dias de semana.

Tique-20-amareloA mística da ação  –  O ideal da vida cristã abarca a contemplação e a ação. Não se trata de um ativismo nervoso e irrefletido.  A caridade e o apostolado  alimentam a união com  Deus. Não se pode separar  união com Deus e entrega aos demais.  A vida de Jesus  é entrega a Deus e aos irmãos; fala  faz o que o vê e ouve do Pai.

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Salvar o homem ou deixá-lo morrer?

José Antonio Pagola

A cena se passa num sábado, dia sagrado em que é proibido qualquer tipo de trabalho. Jesus coloca o paralítico no meio da assembleia e formula claramente o dilema: O que fazemos? Observamos fielmente a lei e abandonamos este homem ou o salvamos infringindo a lei? O que é que se deve fazer: “Salvar a vida de um homem ou deixá-lo morrer?”

Surpreendentemente, os presentes se calam. No fundo de seu coração é mais importante manter o que estabelece a lei do que preocupar-se com aquele pobre homem. Jesus olha para eles entristecido e “com um olhar indignado”.

A lei é necessária para a convivência política ou religiosa. Jesus não a despreza. Mas a lei deve estar sempre a serviço da pessoa e da vida. Seria um erro defender a lei acima de tudo, e propugnar a ordem social sem perguntar-nos se realmente está a serviço dos necessitados.

A ordem não basta. Não é suficiente dizer: “Antes de tudo, ordem e respeito à lei”, porque a ordem estabelecida num determinado momento numa sociedade pode defender os interesses dos bem-instalados e esquecer os mais desvalidos.

Não se pode fazer passar a lei e a ordem por cima das pessoas. Se um ordenamento legal concreto não está a serviço das pessoas, e em especial das mais fracas e mais necessitadas de proteção, então a lei fica vazia de sentido.

A Igreja deveria ser testemunho claro de como as leis devem estar sempre a serviço das pessoas. Nem sempre foi assim. Às vezes foram absolutizadas algumas normas, considerando-as provenientes de “uma ordem querida por Deus”, sem perguntar-nos se realmente ajudam para o bem dos crentes e promovem a vida. Mais ainda. O cristianismo foi praticado não poucas vezes como “uma carga suplementar de práticas e obrigações que vêm tornar mais duro e oneroso o peso, de per si tão pesado, da vida social” (P. Teilhard de Chardin).

Não é suficiente defender a disciplina da Igreja, se esta disciplina não ajuda, de fato, a viver com alegria e generosidade o evangelho. Não é suficiente defender a ordem e a segurança do Estado, se este Estado não oferece, de fato, segurança alguma aos mais fracos.

No nosso meio existem pessoas necessitadas. Continuamos defendendo a ordem, a segurança e a disciplina ou nos preocupamos em “salvar” realmente as pessoas? Se nos calamos, deveríamos sentir sobre nós o olhar duro de Jesus.

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O Dia do Senhor

Pe. Johan Konings

Considera-se grande progresso a abertura do comércio, aos domingos, nos hipermercados e shopping-centers. A distinção entre dia útil e domingo caiu. Qual é a prática cristã a respeito do “Dia do Senhor”, o domingo?

O termo “Dia do Senhor”, na Bíblia, não indica em primeiro lugar o domingo, mas o dia em que Deus mostra sua atuação (o êxodo e a derrota dos egípcios no Mar Vermelho é “o dia que o Senhor fez”), sobretudo no fim da História (o juízo final). O descanso semanal chama-se o shabbat. Os primeiros cristãos descansavam em honra de Deus no sábado, como os judeus; e na noite do sábado para o “primeiro dia da semana” celebravam a ressurreição de Jesus (cf. Mt 28, 1; Mc 16,2; Lc 24,1; Jo 20,1.19.24; 1 Cor 16,2). Como a “ressuscitação” de Jesus foi a atuação de Deus por excelência e, além disso, estava na perspectiva da volta final, essa celebração acabou recebendo o nome de “Dia do Senhor”, entendendo-se por “Senhor” o Cristo ressuscitado. Em latim, dizia-se dies Domini ou dies dominicalis, de onde nosso “domingo”, que é de fato o primeiro da semana. O cristão começa a semana com cara de domingo e não de segunda-feira …

A 1ª leitura nos ensina que o sentido profundo do “repouso” semanal (shabbat) é a libertação. Na escravidão do Egito, os israelitas não podiam descansar. Na Terra Prometida, eles gozavam do descanso no sétimo dia, em recordação e agradecimento a Deus que os libertou da escravidão. Por isso, deviam conceder descanso também a seus empregados e mesmo ao gado. Se não fizessem assim, comportar-se-iam como o faraó do Egito! Descansar e deixar descansar é marca do povo de Deus. O sábado pertence a Deus, é “dia do Senhor”.

No tempo de Jesus, os mestres da lei achavam a imobilidade no sábado mais importante que a razão de sua celebração, a libertação. Transformaram o fazer-nada em obsessão em vez de sinal da libertação. Criticam Jesus porque permite aos discípulos arrancarem umas espigas, e tramam sua morte porque, no sábado, cura um homem com a mão doente (evangelho). Mas, para Jesus, o sábado é para o bem da pessoa humana. Ele diz isso em virtude de sua autoridade como Filho do Homem, plenipotenciário de Deus (Me 2,28).

Os cristãos transferiram o repouso semanal para o novo “dia do Senhor”, o domingo da ressurreição de Jesus, sobrepondo à lembrança da libertação do Egito a da libertação dos laços da morte. O descanso nesse dia não deve ser absolutizado, como algo que existe para si. É um sinal, uma recordação, uma referência. Deve ser interpretado com o “divino humanismo” de Jesus, como uma instituição para o bem do ser humano. Por isso, a Igreja permite a manutenção dos serviços essenciais, no domingo. Mas prescreve “abster-se das atividades e negócios que impeçam o culto a ser prestado a Deus, a alegria própria do dia do Senhor e o devido descanso da mente e do corpo” (Catec. Igr. Cat.). Como quer o sentido inicial em Israel, é preciso libertar-se do trabalho-escravidão. E da escravidão do consumismo …

O domingo é também o dia da comunidade cristã, que recorda a ressurreição de Cristo na celebração da Eucaristia. Neste espírito, o domingo serve para aprofundar a caridade e a solidariedade, mesmo em forma de mutirão ou de outros serviços livres e libertadores.

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