Destaque, Notícias › 01/11/2018

A morte na mística franciscana

“Vocês conhecem São Francisco de Assis. Morreu à tardinha do dia 3 de outubro de 1226. Conhecido como o santo dos passarinhos. Amigo dos animais. Da natureza toda. Padroeiro da ecologia. O santo da paz. O santo fraterno. Da fraternidade universal, humana e cósmica. Reconciliado com tudo e com todos, até mesmo com a morte, à qual ele chama de Irmã”.

Desta forma, Frei José Ariovaldo abre este Especial sobre a celebração do trânsito de São Francisco, o mesmo tema de Frei Nilo Agostini: “E Francisco vai ao seu encontro (da morte) como quem vai abraçar e saudar uma irmã muito querida”.

São Francisco de Assis, segundo texto de Tomas de Celano, chegava a convidar para louvor até a própria morte, que todos temem e abominam. Leia este texto das Fontes Franciscanas.

Frei Gustavo Medella lembra que Francisco já partiu há quase 800 anos, mas sua experiência continua a inspirar milhões de homens e mulheres em todo mundo. “O Santo de Assis, descobrindo profundamente amado por Deus, o Sumo Bem, Único e Verdadeiro Bem, conseguiu transmitir este amor para além das fronteiras de seu tempo e de seu espaço. Foi modelo de vida até o fim. Francisco bem sabia que tudo aquilo era e tinha havia recebido como dom gratuito, e por isso não queria tomar posse de nada, nem das coisas, nem da natureza, nem da pessoa. Soube viver em profunda gratuidade e, assim, apesar de todos os sofrimentos (físicos inclusive), conseguiu ser uma pessoa realizada e feliz. Quando chegou sua hora, Francisco encheu seu coração de esperança e conseguiu chamar a morte de “novo nascimento”. Não se trata de um fim, mas de uma transformação, do ingresso em uma nova maneira de existir. No Cântico das criaturas, Francisco louva e agradece a Deus por todos os benefícios que Ele realizou (e realiza) na criação. E não deixa de fora a “Irmã Morte Corporal”, escrevendo assim: “Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã a morte corporal, da qual homem algum pode escapar. (…) Felizes os que ela achar conformes à tua santíssima vontade, porque a morte segunda não lhes fará mal!”

Francisco de Assis ensina que a vida é dom, presente de Deus. No momento da partida de alguém querido, esta recordação é muito salutar, pois alia à dor e à tristeza um profundo sentimento de gratidão e esperança.


Jesus é a ressurreição e a vida

Comemoração dos Fiéis Falecidos

Primeira Leitura (Is 25,6a.7-9)

Livro do Livro do profeta Isaías

Naquele dia, 6ao Senhor dos exércitos dará neste monte, para todos os povos, um banquete de ricas iguarias. 7Ele removerá, neste monte, a ponta da cadeia que ligava todos os povos, a teia em que tinha envolvido todas as nações. 😯 Senhor Deus eliminará para sempre a morte e enxugará as lágrimas de todas as faces e acabará com a desonra do seu povo em toda a terra; o Senhor o disse. 9Naquele dia, se dirá: “Este é o nosso Deus, esperamos nele, até que nos salvou; este é o Senhor, nele temos confiado: vamos alegrar-nos e exultar por nos ter salvo”.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

Responsório (Sl 26)

— O Senhor é minha luz e salvação.
— O Senhor é minha luz e salvação.
— O Senhor é minha luz e salvação;/ de quem eu terei medo?/ O Senhor é a proteção da minha vida;/ perante quem eu tremerei?
— Ao Senhor eu peço apenas uma coisa,/ e é só isto que eu desejo:/ habitar no santuário do Senhor por toda a minha vida;/ saborear a suavidade do Senhor/ e contemplá-lo no seu templo.
— Ó Senhor, ouvi a voz do meu apelo, atendei por compaixão!/ É vossa face que eu procuro./ Não afasteis em vossa ira o vosso servo,/ sois vós o meu auxílio!
— Sei que a bondade do Senhor/ eu hei de ver na terra dos viventes./ Espera no Senhor e tem coragem,/ espera no Senhor!

Segunda Leitura (1Jo 3,1-2)

Leitura da Primeira Carta de São João

Caríssimos: 1Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! Se o mundo não nos conhece, é porque não conheceu o Pai.

2Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

Anúncio do Evangelho (Jo 6,37-40)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, disse Jesus às multidões: 37“Todos os que o Pai me confia virão a mim, e quando vierem, não os afastarei. 38Pois eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. 39E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum daqueles que ele me deu, mas os ressuscite no último dia. 40Pois esta é a vontade do meu Pai: que toda pessoa que vê o Filho e nele crê tenha a vida eterna. E eu o ressuscitarei no último dia”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

ACOMPANHE A REFLEXÃO DE FREI GUSTAVO MEDELLA EM VÍDEO

Dia dos Finados

A liturgia do dia dos Finados poderia ser chamada também a liturgia da esperança. Pois, como “o último inimigo é a morte” (1 Cor 15,26), a vitória sobre a morte é o critério da esperança do cristão. A morte é considerada, espontaneamente, como um ponto final: “tudo acabou”. A resposta cristã é: “A vida não é tirada, mas transformada”(prefácio). Esta resposta baseia-se na fé na Ressurreição de Jesus Cristo. Se ele ressuscitou, também para nós a morte não é o ponto final. Somos unidos com ele na vida e na morte (Jo 11,25-26; evangelho). Ele é a Ressurreição e a Vida: unir-se a ele significa não morrer, não parar de existir diante de Deus, embora o corpo morra e se decomponha.

Trata-se de uma fé, de uma maneira de traduzir o Mistério de Deus e da totalidade da existência. Já no AT, o autor de Sb observa que as aparências enganam: a justiça dos justos não é um absurdo diante da morte (“ele não aproveitou nada da vida!”) . Pelo contrário, é o começo do “estar na mão de Deus”, que não tem fim (1ª leitura). Assim também descreve Paulo a existência cristã como estar já unido com Cristo na Ressurreição, o que é simbolizado pelo batismo (2ª leitura).

O texto de Paulo introduz, porém, um importante complemento na idéia de que a existência do fiel e justo já é o início da vida eterna: Paulo não gosta nada do espiritualismo exaltado de pessoas que se consideram “nova criação” sem morte existencial da vida antiga. No primeiro cristianismo havia uma tendência para um conceito “barato” da vida eterna, um pouco ao modo dos gnósticos, que achavam que bastava participar de algum “mistério” esotérico para ter a imortalidade. Paulo insiste muito na realidade tanto da morte quanto da ressurreição do Cristo (cf. 1Cor 15,12-19). E para participar destas é preciso também crucificar o velho homem com Cristo.

Portanto, a certeza de estarmos nas mãos de Deus – pela fé em Cristo que nos torna verdadeiramente “justos”- não tira nada do caráter crítico da morte corporal: ela fica um véu, atrás do qual nosso olhar não penetra. Inclusive, para o cristão, ele é mais “séria” do que para quem vive sem se preocupar de nada, porque ela significa desde já a morte do homem “natural”. Não podemos viver com a perspectiva de sermos assumidos pelo Espírito de Deus, para ressuscitar com um “corpo não carnal, mas espiritual” (1Cor 15,44ss), se não nos acostumarmos ao Espírito desde já. O corpo espiritual de que Paulo fala é a presença “ao modo de Deus”. Este é o nosso destino. Mas, se não nos tornarmos aptos para este modo agora, como seremos aptos para sempre?

Assim, a morte, para o cristão, é a pedra de toque de sua vida. Dá seriedade à sua vida. Valoriza, na vida, o que ultrapassa os limites da matéria, que é “só para esta vida” (1Cor 15,19). Abre-nos para o que é realmente criativo e supera o dado natural da gente. Um antegosto daquilo que é “vida pneumática”, a gente o tem quando se supera a si mesmo, p.ex., negando seus próprios interesses em prol do outro. O verdadeiro amor implica, necessariamente, o morrer a si mesmo. Superação do homem confinado na perspectiva material, tal é a realidade espiritual que encontrará confirmação definitiva e inabalável na morte. Na morte, o que é verdadeiro e definitivo em nosso existir supera a precariedade da existência. A morte é nossa confirmação na mão de Deus: Ressurreição.

Para tal existência, morta para o homem velho, é que o batismo, configuração com Cristo, nos encaminha. Portanto, vivemos já a vida da ressurreição, num certo sentido. Quem diz isto em termos expressos é João (evangelho). A Marta, que representa o conceito veterotestamentário da vida eterna – a ressurreição depois da morte, no fim dos tempos – Jesus responde que, quem crê nele, já durante sua vida tem a vida eterna (11, 25-26; cf. 5,24). O fundamento de afirmação não convencional assim é que Jesus mesmo é o dom escatológico por excelência. Quem vê Jesus, vê Deus (Jo 14,9). Quem aceita Jesus na fé, não precisa esperar a vida do além para ver Deus (na linguagem do A.T., “ver Deus” era a grande esperança).

Com isso, estamos longe dos temas tradicionais referentes aos finados. De fato, a celebração dos féis falecidos é a celebração de nossa esperança e da comunidade dos santos, da “comunhão dos santos”, tanto quanto a festa do 1o de novembro. A liturgia nada diz das penas do purgatório e coisas semelhantes, que tradicionalmente estão no centro da atenção neste dia. Ao deixarmo-nos ensinar pela nova liturgia, deslocaremos o acento desta comemoração. Vamos assmilar a espiritualidade desta liturgia, para ter uma visão mais cristã da morte, o passo definitivo que conduz à vida verdadeira.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes


Santos e finados

A Igreja considera o 1º de novembro – Todos os Santos – dia santo de guarda, mas os fiéis “guardam” o dia 2, Finados – que inclusive é feriado nacional. Por quê?

O povo dá mais importância à oração pelos familiares falecidos do que à celebração dos santos gloriosos. Acha que os parentes falecidos lhe estão mais próximos e precisam mais de oração… Por isso, Finados ganha de Todos os Santos. Também o povo sofrido é mais sensível ao pensamento do sofrimento e da morte do que ao da glória. Glória, nunca conheceu, sofrimento, sim. (Por isso, celebra mais a Sexta-feira Santa que a Páscoa da Ressurreição).

Mas os falecidos, não são santos também? Se não fossem santos, isto é, pertencentes ao “Santo”, a Deus, que sentido teria rezar por eles. Para aliviar as penas do purgatório? Mas isso tem sentido apenas porque já estão encaminhados para Deus. Só lhes falta o “acabamento”! A 2ª leitura de hoje diz que os batizados já co-ressuscitaram com Cristo. Se já somos “filhos de Deus” e ainda não se manifestou o que seremos (2ª leitura de Todos os Santos), os que já percorreram o caminho são santos, pertencem a Deus, mesmo se ainda lhes falta alguma purificação. A festa de Todos os Santos e o Dia dos Finados são uma coisa só: inclui toda a Igreja militante, padecente e triunfante. Se estamos convencidos disso, estes dias não se tornam dias tristes, mas dias para curtirmos o pensamento da glória e da paz que recebem os que procuram, durante sua caminhada na terra, o rosto amoroso do Pai.

Os santos “acabados” – a Igreja triunfante – e os santos “em fase de acabamento” – as almas do purgatório – são solidários com os que ainda estamos a caminho da santidade, a Igreja militante aqui na terra. Esta é a comunhão de todos os santos, que hoje celebramos. Temos presentes os que nos precederam, não nos fixando na sua imperfeição, mas no destino glorioso que lhes foi designado por Deus. Assim recordamos os nossos pais, que nos deram a vida e a fé cristã; os nossos irmãos e amigos que lembramos com grata saudade, por todo o bem que nos fizeram. E pensamos também em todos aqueles que estão ainda a caminho, os que estamos lutando lado a lado. Pois a “Igreja pelejante” aqui na terra é a que mais precisas das nossas preces.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

WP Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com