Destaque, Notícias › 01/09/2017

A tentação de um Cristianismo sem cruz

liturgia_22_010917_830

Frei Gustavo Medella

Tornar-se motivo de riso. Talvez este seja um dos maiores medos humanos. Nossa necessidade intrínseca de sermos aceitos, reconhecidos e notados nos faz tremer diante da possibilidade de sermos considerados ridículos. O riso, neste caso, denota escárnio, zombaria, desprezo, enfim, uma grande humilhação.

Esta é a experiência que o Profeta Jeremias faz ao declarar que sua fidelidade à missão para qual o Senhor o seduzira estaria levando-o a se tornar alvo de irrisão e zombaria. Sua vontade era a de largar tudo e deixar de lado o compromisso com Deus que estava lhe trazendo tantos dissabores. “Não quero mais!” No entanto, passado o ímpeto da indignação, numa reflexão mais acurada e profunda, o profeta escuta Deus falando em seu interior. Tem mais um encontro intenso com o Senhor, desta vez, descrito como “fogo ardente a penetrar-lhe todo o corpo” (Cf. Jr 20,9). Este encontro faz rever a sua decisão. Jeremias sente-se parte de um projeto maior que toma toda sua vida. Chega à conclusão de que não há outro caminho a seguir senão o da fidelidade ao Senhor.

No Evangelho (Mt 16,21-27), Pedro passa por tentação semelhante à de Jeremias. Deseja desviar Jesus do caminho da fidelidade ao Pai na intenção de poupá-lo de qualquer sofrimento. É repreendido pelo Mestre, que o faz perceber a cruz como uma consequência da adesão ao projeto do Reino. Duas histórias que nos levam a reforçar a certeza de que não existe Cristianismo sem Cruz.

O seguimento de Jesus

1ª Leitura: Jr 20,7-9
Sl 62
2ª Leitura: Rm 12,1-2
Evangelho: Mt 16,21-27

21 E Jesus começou a mostrar aos seus discípulos que devia ir a Jerusalém, e sofrer muito da parte dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e dos doutores da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. 22 Então Pedro levou Jesus para um lado, e o repreendeu, dizendo: «Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!» 23 Jesus, porém, voltou-se para Pedro, e disse: «Fique longe de mim, Satanás! Você é uma pedra de tropeço para mim, porque não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens!»


* 24 Então Jesus disse aos discípulos: «Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, e me siga. 25 Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la. 26 Com efeito, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? O que um homem pode dar em troca da sua vida? 27 Porque o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a própria conduta
* 13-23: Cf. nota em Mc 8,27-33. Pedro é estabelecido como o fundamento da comunidade que Jesus está organizando e que deverá continuar no futuro. Jesus concede a Pedro o exercício da autoridade sobre essa comunidade, autoridade de ensinar e de excluir ou introduzir os homens nela. Para que Pedro possa exercer tal função, a condição fundamental é ele admitir que Jesus não é messias triunfalista e nacionalista, mas o Messias que sofrerá e morrerá na mão das autoridades do seu tempo. Caso contrário, ele deixa de ser Pedro para ser Satanás. Pedro será verdadeiro chefe, se estiver convicto de que os princípios que regem a comunidade de Jesus são totalmente diferentes daqueles em que se baseiam as autoridades religiosas do seu tempo.
* 24-28: Cf. nota em Mc 8,34-38.[ * 34-38: A morte de cruz era reservada a criminosos e subversivos. Quem quer seguir a Jesus esteja disposto a se tornar marginalizado por uma sociedade injusta (perder a vida) e mais, a sofrer o mesmo destino de Jesus: morrer como subversivo (tomar a cruz).]

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

22º Domingo do Tempo Comum, ano A

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração:
Deus do universo, fonte de todo bem, derramai em nossos corações o vosso amor e estreitai os laços que nos unem convosco para alimentar em nós o que é bom e guardar com solicitude o que nos destes”.

Primeira leitura: Jr 20,7-9

A palavra do Senhor tornou-se para mim fonte de vergonha.

Jeremias não escolheu ser profeta do Senhor. Foi escolhido por Deus desde o ventre materno, conforme ele mesmo nos conta (1,4-10). Os tempos em que vivia eram difíceis: Após a morte do rei justo Josias o reino de Judá teve maus governantes. A sociedade era injusta e violenta, a religião era ameaçada pela prática da idolatria e pelo sincretismo religioso. A missão confiada por Deus era bastante negativa: “Dou-te hoje – disse-lhe o Senhor – o poder sobre nações e reinos, para arrancar e destruir, para exterminar e demolir, para construir e plantar”. Seus ouvintes – reis, príncipes do povo, sacerdotes, juízes e as pessoas ricas – não gostavam de ouvir suas repreensões e ameaças, como invasão estrangeira, destruição do templo, exílio, etc. Por isso, até os próprios conterrâneos o odiavam, negavam-lhe o casamento (11,18-23; 16,1-9). A missão que Deus lhe confiou exigia, de certa forma, “perder a sua vida” (Evangelho). Os amigos afastavam-se dele e o ameaçavam de morte para fazê-lo calar; impediram-no até de casar-se (11,18-19). Jeremias tornou-se um homem isolado, contestado e desprezado no país inteiro. O texto hoje lido mostra um profeta com vontade de desistir da missãoe largar tudo. Lamenta até o dia em que nasceu (Jr 15,10; 20,14-18); mesmo assim, busca refúgio em Deus e diante d’Ele se desabafa. Não queria mais falar em nome do Senhor (20,9), mas a palavra de Deus ardia em seu coração como fogo devorador. E o profeta continua a alimentar-se das palavras divinas, que lhe dão conforto e ânimo de continuar fiel à missão recebida. Algo muito forte dentro dele dizia que devia continuar falando coisas desagradáveis para seus opositores, mas necessárias para o bem-estar e a salvação do povo. – Em meio às perseguições e sofrimentos de toda sorte, Jeremias buscou na oração e no diálogo confiante com Deus, a força para cumprir fielmente sua missão. E você o que faz nos momentos de aflição? Alimenta-se da palavra de Deus?

Salmo responsorial: Sl 62

A minha alma tem sede de vós, como a terra sedenta, ó meu Deus!

Segunda leitura: Rm 12,1-2

Oferecei-vos em sacrifício vivo.

Paulo nos convida a viver o evangelho de hoje: Não pensar como o mundo (“ganhar a vida”), mas “perder a vida” por amor a Jesus e de seu Evangelho, oferecendo-a “em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”, isto é, colocando-se a serviço do próximo. O Apóstolo pede ao cristão uma conversão no modo de pensar e agir do mundo, para assumir a nova maneira de pensar e agir de Jesus Cristo e, assim, cumprir a vontade de Deus. Isto é, sair da “escola do mundo” e ingressar na “escola de Jesus”.

Aclamação ao Evangelho: Ef 1,17-18

Que o Pai do Senhor Jesus Cristo nos dê do saber o espírito;
conheçamos, assim, a esperança à qual nos chamou, como herança!

Evangelho: Mt 16,21-27

Se alguém quer me seguir renuncie a si mesmo.

Domingo passado ouvimos Pedro confessando Jesus como o Cristo e Filho de Deus. Jesus, então, falava em edificar sua Igreja sobre esta confissão de Pedro e lhe prometia o poder de ligar e desligar, as chaves do Reino dos Céus; isto é, confiava-lhe a direção de sua Igreja. Pedro e os apóstolos tinham os seus próprios sonhos e expectativas a respeito de Jesus, agora, reconhecido como o Messias esperado. Mas, hoje, no evangelho que acabamos de ouvir, Jesus começa a explicar-lhes de que forma ele será o Messias. A viagem que faziam a Jerusalém não terminaria em triunfo, mas na sua rejeição pelos chefes do povo e na sua condenação à morte. Pedro, elogiado no domingo anterior, sente-se no direito de censurar Jesus por ideias tão negativas e assustadoras. Mas Jesus o repreende severamente: “Vai para longe, Satanás!” Ou: “põe-te atrás de mim, Satanás”. Satanás é quem se opõe ao plano de Deus. Não era Pedro que devia guiar Jesus; ao contrário, era Pedro que devia colocar-se no seguimento do Mestre. Pedro pensava como os homens pensam e não como Deus. Em seguida, Jesus se volta para os discípulos e expõe qual é o pensamento de Deus: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por amor de mim, vai salvá-la”. Lucas diz que Jesus falou isso para “as multidões que o seguiam”; portanto, também para nós. Quando o evangelho de Mateus foi escrito, após o ano 70, seguir a Jesus significava carregar a sua cruz, o desprezo, as perseguições e a própria morte [1ª leitura]. Mas a meta final desta viagem a Jerusalém é a ressurreição de Cristo. Assim o é também para todos nós: “Porque o Filho do Homem virá na glória de seu Pai… e retribuirá, a cada um, de acordo com a sua conduta”.

A cruz é outra coisa

José Antonio Pagola

É difícil não sentir desconcerto e mal-estar ao ouvir mais uma vez as palavras de Jesus: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. Entendemos muito bem a reação de Pedro que, ao ouvir Jesus falar de rejeição e sofrimento, “o toma à parte e se põe a censurá-lo”. Diz o teólogo mártir, Dietrich Bonhoeffer, que esta reação de Pedro “prova que, desde o princípio, a Igreja se escandalizou do Cristo sofredor. Ela não quer que seu Senhor lhe imponha a lei do sofrimento”.

Este escândalo pode tornar-se hoje insuportável para nós que vivemos no que Leszek Kolakowsky chama “a cultura de analgésicos”, essa sociedade obsediada por eliminar o sofrimento e mal-estar por meio de todo tipo de drogas, narcóticos e evasões.

Se quisermos esclarecer qual deve ser a atitude cristã, temos que compreender bem em que consiste a cruz para o cristão, pois pode acontecer que nós a ponhamos onde Jesus nunca a pôs.

Facilmente chamamos “cruz” tudo aquilo que nos faz sofrer, inclusive esse sofrimento que aparece em nossa vida, gerado por nosso próprio pecado, ou por nossa maneira equivocada de viver. Mas não devemos confundir a cruz com qualquer desgraça, contrariedade ou mal-estar que acontece na vida.

A cruz é outra coisa. Jesus chama seus discípulos para segui-lo fielmente e colocar-se a serviço de um mundo mais humano: o Reino de Deus. Isto é o principal. A cruz é apenas o sofrimento que nos virá como consequência desse seguimento; o destino doloroso que teremos de compartilhar com Cristo, se seguirmos realmente seus passos. Por isso não devemos confundir o “carregar a cruz” com posturas masoquistas, uma falsa mortificação, ou o que P. Evdokimov chama “ascetismo barato” e individualista.

Por outro lado, devemos entender corretamente o “renunciar a si mesmo”, condição que Jesus pede para carregar a cruz e segui-lo. “Renunciar a si mesmo” não significa mortificar-se de qualquer maneira, castigar-se a si mesmo e, menos ainda, anular-se ou auto destruir-se. “Negar-se a si mesmo” é não viver dependente de si próprio, esquecer-se do próprio “ego”, para construir a vida sobre Jesus Cristo. Libertar-nos de nós mesmos para aderir radicalmente a Ele. Em outras palavras, “carregar a cruz” significa seguir a Jesus dispostos a assumir a insegurança, a conflitividade, a rejeição ou a perseguição que o próprio Crucificado teve que padecer.

Mas nós crentes não vivemos a cruz como derrotados, mas como portadores de uma esperança final. Todo aquele que perde sua vida por Jesus Cristo a encontrará. O Deus que ressuscitou Jesus nos ressuscitará também para uma vida plena.

Trecho do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, José Antonio Pagola, Editora Vozes

Tomar a cruz e seguir Jesus

Pe. Johan Konings

“É proibido proibir”. Hoje em dia existe o pensamento de que nada pode restringir o prazer e o poder. Privar-se de algum prazer é contrário ao que ensinam os grandes doutrinadores da sociedade – a publicidade, a televisão… “Chega de cristianismo triste! Para que sempre falar em cruz e sacrifício?”

No domingo passado vimos que Pedro, com entusiasmo, proclamou a fé em Jesus Messias. No evangelho de hoje, Jesus começa a ensinar que “o filho do Homem” vai sofrer e morrer. Ao ouvir essas palavras, Pedro fica indignado. Mas Jesus o repreende, porque pensa segundo categorias humanas e não segundo o projeto de Deus. Ensina-lhe que, para segui-lo, é preciso assumir a cruz. Séculos antes, Jeremias já experimentara a estranha lógica de Deus. Ele disse abertamente que Deus o “seduziu” para a tarefa ingrata de ser profeta (1ª leitura).

Os critérios humanos se opõem ao modo de proceder de Deus. O homem envereda pelo sucesso e pela eficiência, Deus pelo dom da própria vida. O caminho de Jesus e de seus seguidores é convencer o mundo do amor de Deus.

Deus não deseja “sacrificar pessoas” (como é praxe em estratégias militares e políticas). Apenas deseja que sejam testemunhas de seu projeto. Mas os que não concordam com este projeto matam os profetas, os enviados de Deus, quando estes querem ser fiéis à sua missão. Exemplos disto não faltam em nosso mundo. Por isso, quando Pedro protesta contra a ideia da morte de Jesus, este o vê do lado do grande “adversário”, Satanás: “Vai para trás de mim, Satanás, tu és uma pedra de tropeço para mim”. Pedro deve ir atrás de Jesus, em vez de seduzi-lo para um caminho que não condiz com o projeto de Deus (Satanás significa sedutor). Pedro pensava num Messias de sucesso, Jesus pensa no Servo Sofredor de Deus, que liberta o mundo por sua dedicação até a morte.

A lição que Pedro recebe ensina-nos a olhar para Cristo, para ver nele a lógica de Deus; a olhar para os pobres, para ver neles o resultado da estratégia do adversário… Pois o sucesso e a ganância produzem os porões de miséria.

Devemos analisar o sistema de Deus e o sistema do Adversário hoje. O sistema de Deus proíbe ao homem dominar seu irmão, porque Deus é o único “dono”, os sistemas contrários são baseados na dominação do homem pelo homem. Quem quiser ser mensageiro do Reino de Deus experimentará na pele a incompatibilidade com os sistemas deste mundo (2ª leitura). O mensageiro de Deus, seguidor de Jesus, será rejeitado pela sociedade como “corpo alheio”. Tomando consciência disso, vamos rever nossa escala de valores e critérios de decisão. A mania de sucesso, o prazer de dominar, de aparecer, de mandar… já não valem. Vale agora o amor fiel, que assume a Cruz, até o fim.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com