Destaque, Notícias › 07/08/2013

Carta do Ministro Geral por ocasião do dia de Santa Clara

santa_clara«Considero-a auxiliar do próprio Deus, sustentáculo dos membros vacilantes de seu corpo inefável» (3 LAg 8 )

Caríssimas Irmãs, desejo começar esta minha primeira carta, por ocasião da festa da Madre Santa Clara, expressando minha sincera e profunda gratidão pela vossa vida doada ao Senhor e a alegria de partilhar convosco a vocação evangélica que Francisco e Clara acolheram de Deus. Portanto, faço minhas, com humildade e confiança, as palavras que Francisco escreveu a Clara e suas Irmãs, em S. Damião: «Visto que por divina inspiração vos fizestes filhas e servas do altíssimo e sumo Rei, o Pai celeste, e vos desposastes o Espírito Santo, escolhendo viver segundo a perfeição do santo Evangelho, quero e prometo, por mim e por meus irmãos, ter sempre por vós diligente cuidado e especial solicitude, assim como tenho por eles.» (FV)

Neste Ano da Fé, Irmãs caríssimas, desejo partilhar convosco algumas reflexões que, a partir da experiência cristã de Clara, podem ajudar a viver nossa vida de fé no contexto atual, marcado por grandes mudanças, conflitos, pobreza. Escutar, compreender e abraçar o peso dessa sociedade e dessa história, que se muda de maneira tão rápida – e discernir, com inteligência espiritual, aquilo que é irrenunciável e que, precisamente por fidelidade ao Espírito, é preciso repensar – constitui para nós um desafio que não podemos deixar de lado. Isso pertence à nossa existência de Frades Menores e Irmãs Pobres.

Como permanecer indiferentes diante da violência e do ódio, que alimentam as guerras, diante de tanta pobreza e exploração da natureza, da crise econômica que ameaça perder de vista que a pessoa humana é mais importante que o dinheiro e os negócios, de tantos jovens sem futuro e, muitas vezes, também sem esperança, de tantas pessoas reduzidas à escravidão, das quais foi roubada a dignidade? Nossa vida de pessoas de fé é questionada por tudo isso. Que resposta a vida contemplativa pode dar a tudo isso? Há uma palavra existencial que vossa vida, evangélica e clariana, pode dizer aos varões e às mulheres de hoje? Só um retorno a Deus poderá ajudar o homem a romper as correntes da morte que o prendem. Só um permanecer dentro da história, em profundidade, colocando-se em escuta do grito das pessoas, para responder-lhes com a Palavra do Evangelho, evitará que nossa vida se afaste da companhia das pessoas, renegando assim a Encarnação do Filho de Deus, que se fez carne, a fim de que o homem retornasse a Deus, retomando, como sua, a imagem e semelhança de Deus, que traz em si.

Creio que Clara e Francisco, portanto, nos ensinam a prospetiva da qual devemos partir; o princípio ao qual dirigir nosso olhar: Deus, o «altíssimo, onipotente, bom Senhor» (Cnt 1), o «alto e glorioso Deus» (OC 1), o «onipotente, santíssimo, altíssimo e sumo Deus» (LH 11), que «é nosso criador, redentor, consolador e salvador » (PN 1), o «Doador, o Pai das misericórdias» (TestC 2), o «altíssimo Pai celestial» (TestC 24), do qual «emana todo sumo bem e todo dom perfeito» (2In 3). Devemos tornar a partir com o olhar e a vida voltados ao Senhor!

Jesus, no Evangelho que proclamaremos na Eucaristia da festa de Santa Clara, nos convoca precisamente a essa prioridade fundamental, a de permanecer, a morar n’Ele: «Permanecei em mim, como eu em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permanece em mim e eu nele produz muito fruto; porque, sem mim, nada podeis fazer» (Jo 15,4-5).

Morar, permanecer e estar são verbos que devem sintonizar-se com a fé vivida, e não apenas pensada, uma fé viva que pode ser resposta profunda e fortemente evangélica, diante da violência e do sofrimento: na verdade, não se trata de passividade, mas de clara e firme decisão de mergulhar as raízes em profundidade, a fim de que sejam unidas firmemente à «nossa irmã, a mãe terra» (Cnt 9) e «ao onipotente, eterno, justo e misericordioso Deus» (Ord 50), e nos possibilite atravessar a experiência humana com mansidão, paciência e esperança.

Hoje, mais do que nunca, temos necessidade de atitudes que sejam fruto de raízes sólidas, como as de Jesus: enraizadas no Pai, sempre voltadas a Ele, jamais separadas d’Ele. Isso nos ensina Clara com a exortação escrita a Inês de Boêmia: «Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da glória. Ponha o coração na figura da substância divina e transforme-se inteira, pela contemplação, na imagem da divindade» (3In 12-13). Esse morar da mente, da alma e do coração, exige uma atitude prolongada e contínua, uma atitude vital não fragmentada, pois a experiência de fé de Clara é feita de contemplação transformadora, de um discipulado que transforma a vida, de um Evangelho que liberta e salva.

Creio que com essa atitude de fé se possa achar um modo de ser que vá contra qualquer tipo de violência; que se possa individuar um estilo de vida que nos leve a buscar aquilo para o qual fomos criados, esperando que nos coloquemos diante da missão de ser custódios da vida, de respeitá-la em todas as suas formas, de zelar pelos irmãos e irmãs, acompanhando seus passos nas sendas da verdadeira vida. Ocupar-se, acompanhar, cuidar, com profundo senso de confiança e segurança n’Aquele ao qual tudo pertence e do qual somos, de algum modo, colaboradores: «eu a considero, num bom uso das palavras do Apóstolo, auxiliar do próprio Deus, sustentáculo dos membros vacilantes de seu corpo inefável» (3In8).

Nesse caminho de fé e de colaboração com Deus, Clara exorta-nos a fixar, continuamente, nossos olhos em Cristo, o “espelho” no qual perscrutamos e encontramos a nós mesmos «no meio do espelho, considere a humildade, ou pelo menos a bem-aventurada pobreza, as fadigas sem conta e as penas que suportou pela redenção do gênero humano. E, no fim desse mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis padecer no lenho da cruz e nela morrer a morte mais vergonhosa» (4In22-23). Por aquele Homem, descrito no “espelho”, humilde, pobre e amoroso a ponto de dar a própria vida por nós na cruz, o mal foi derrotado. Com sua vida doada por amor, Jesus fintou e confundiu o mal, abrindo para todos a porta da salvação por meio da fé n’Ele. Pelo olhar prolongado sobre o Homem do “espelho”, aprendemos uma nova resposta: a paciência, a mansidão, a humildade, que nega todas as formas de violência. Esta divide a consciência do homem e sua relação com o próximo e com Deus. No entanto, vossa vida unificada, caríssimas Irmãs, feita de silêncio e de Palavra, pode ser sinal de harmonia recuperada, que reconduz o caos da violência ao cosmos divino.

O Senhor, o altíssimo e onipotente, deixa-se encontrar por quem o busca, põe-se em nosso nível, humilha-se ao tornar-se pessoa humana. Ou melhor, Deus desce ainda mais, porque deseja nosso amor, quer nossa resposta. É Ele que nos procura e nos ama, por primeiro (cf. 1Jo 4,19). Esse é nosso Deus, o Deus de Jesus Cristo. Deus fez-se um de nós, abaixou-se, a ponto de lavar nossos pés. Deus, o Pai, habita conosco através de seu Filho Jesus, que quis assumir a forma de servo (cf. Fl2,7). Jesus na cruz toma sobre si o mal dos homens e, em troca, dá sua Mãe à humanidade (cf. Jo 19,27), restitui ao seu traidor o nome de amigo (cf. Jo 21,15-17), torna justo os culpados (cf. Lc 23,34), promete o Reino ao malfeitor (cf. Lc 23,43), dá-nos o sentido último da vida, na relação com o Pai, que permanece para além da morte e conduz à ressurreição (cf. Lc 23,43).

Dessa salvação que o Senhor nos doou gratuitamente, devemos fazer experiência concreta: não podemos considerar questão resolvida a procura de Deus, o desejo d’Ele e a acolhida de seu amor salvífico! O primeiro dom da ressurreição de Cristo é a paz, que Ele mesmo dá a seus discípulos (cf. Lc 24,36; Jo 20,19). O mundo de hoje precisa dessa paz. Somos chamados a vivê-la e a guardá-la, antes de tudo, em nós mesmos e, depois, em nossas Fraternidades, implorando-a do Senhor, a fim de que possamos dá-la a quantos chegam a nós, pedindo-nos o dom da escuta, da oração e da ajuda também material. Como podemos ser colaboradores de Deus no sustento dos membros vacilantes de seu corpo (cf. 3In 8), se nós, primeiramente, não tivermos feito a experiência da ressurreição e da paz de Cristo em nossa vida pessoal e comunitária?

A vós, Irmãs caríssimas, no contexto histórico em que vivemos, é pedido de viver uma maternidade totalmente especial: acolher em vosso seio «as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens de hoje, dos pobres sobretudo, e de todos os que sofrem»; essas, na realidade, «são as puras alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo, e nada há de mais genuinamente humano, que não encontre eco em nosso coração» (GS 1). Acolher e gerar vida nova através da amizade sincera, da acolhida generosa, de uma palavra sólida, uma oração verdadeira, um silêncio que custodia. E isso vos será possível na medida em que dais espaço ao Senhor em vossa vida, entregando a Ele vossa alma, para que possa habitar nela. Escutemos as profundas palavras de Clara: «pois é claro que, pela graça de Deus, a mais digna das criaturas, a alma do homem fiel, é maior do que o céu.

Pois os céus, com as outras criaturas, não podem conter o Criador: só a alma fiel é Sua mansão e sede. E isso só pela caridade que os ímpios não tem, pois, como diz a Verdade: Quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei, e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada. Assim como a gloriosa Virgem das virgens o trouxe materialmente, assim também você, seguindo seus passos, especialmente os da humildade e pobreza, sem dúvida alguma, poderá trazê-lo espiritualmente em um corpo casto e virginal.

Você vai conter quem pode conter você e todas as coisas, vai possuir algo que, mesmo comparado com as outras posses passageiras deste mundo, será mais fortemente seu» (3In 21-26). Agrada a Deus tornar infinitamente grande aquilo que não é nem mesmo visível aos olhos do corpo e assim faz da alma fiel o lugar de sua presença, uma ponte, um espaço de comunhão, de revivificação, de reconciliação. E faz de vós, pela força do Espírito, ainda hoje, o seio em que se encontram e estão juntas a humanidade e a divindade (como em Maria, na qual Deus se fez carne), onde Deus e o homem moram e vivem reconciliados. Vossa tarefa é aquela de estar entre o Um e o outro, de pertencer a Um e ao outro, de manter juntos, como simples e transparentes mediadoras, Deus e a humanidade amada, conduzindo os homens a Ele, e Ele aos homens.

Quão grande é o amor de Deus por vós, Irmãs caríssimas, de ser a tal ponto envolvidas em seu existir e capazes de carregar em vós sua vida! Isso certamente abre vosso coração à alegria e esperança! Clara viveu, por toda sua vida, com essa consciência e certeza, e, próxima da morte, nos deixou sua bela e intensa profissão de fé em Deus Pai: «a virgem muito santa, voltando-se para si mesma, diz baixinho à sua alma: “Vá segura, que você tem uma boa escolta para o caminho. Vá, diz, porque Aquele que a criou também a santificou; e, guardando-a sempre como uma mãe guarda o filho, amou-a com terno amor. E bendito sejais Vós, Senhor, que me criastes!”» (LSC 46). O dom, que podemos pedir ao Senhor, neste Ano da Fé, é o de reconhecermos, como Clara, no grande abraço da Trindade (cf. PC 3,75; 14,32), o grande seio que protege cada vida, e que a enche de si, e assim chegar à conclusão de nossos dias terrenos, reconhecendo que nossa vida foi santificada, protegida e amada pelo Senhor.

Ao final desta minha carta, caríssimas Irmãs, desejo voltar ao ponto do qual partimos: nossa fé no Deus de Jesus Cristo, vivida num contexto marcado pela pobreza e violência. Reconheçamos e proclamemos a todos que Deus é inocente, que Ele é o Deus da vida, do amor e da esperança. Recordemos ao homem suas responsabilidades e façamos nossa parte a fim de construir um mundo melhor: com vida centrada na Ressurreição do Senhor, caracterizada pela sobriedade e essencialidade, pelo uso simples e moderado das coisas, pelas relações verdadeiras, fundadas sobre uma caridade sem fingimento (cf. Rm 12,9), por gestos concretos de solidariedade, de partilha e de serviço, por alguma palavra a menos e de mais silêncio. Uma vida humilde que prefere o ser em vez do fazer, o verdadeiro em lugar do aparente, o esperado em vez do imediato, a contemplação em lugar da eficiência, o silêncio e o recolhimento em vez da dispersão, a misericórdia em lugar de apontar o dedo. Vivamos «como peregrinos e forasteiros neste mundo» (RB 6,2; RSC 8,2), sem apropriar-se e sem conservar algo para nós (cf. Ord 29).

Seja nossa vida a dizer: não somos melhores que os outros, mas o Senhor nos chamou para segui-lo e sermos como Ele. O Senhor colocou-vos como «espelho e exemplo a todos os que vivem no mundo» (TestC 20): não ofusqueis o caminho deles, mas iluminai-os e sustentai-os com o exemplo de uma vida totalmente abandonada n’Ele, confiada à Sua graça e misericórdia. Sede irmãs-mães, guardas e amantes da vida, procurando sem descanso, atentas, delicadas, perspicazes e respeitosas quanto aos sinais de vida presentes em tudo. A fé no Senhor abre à novidade da vida e dos eventos: muda o modo de acolher a existência, as relações com as irmãs e os irmãos, as situações da história, com seus desafios e seus dramas. Quando colocamos Deus no centro, percebemos que ninguém pode roubar-nos a esperança, e nos esperam dias luminosos, na medida em que também nós, hoje, façamos nossa parte para gerá-los. Dias de vida para nós e para a humanidade.

Irmãs caríssimas, confio-vos à madre Santa Clara, «imagem da Mãe de Deus» (LSC prólogo), a fim de que possais viver, com a mesma paixão e radicalidade dela, a «perfeição do santo Evangelho» (FV 1) e ser, continuamente, gratas ao Pai das misericórdias pelo dom de vossa vocação (cf. TestC 2). Como sinal e empenho do recíproco zelo e solicitude (cf. FV 2), confio à vossa oração meu serviço de «ministro geral e servo de toda a Fraternidade» (RB 8,1), assim como confio também a vós todos os Frades Menores, com os quais comungais o mesmo “sonho” de Clara e Francisco, certos de que nossa comum vocação evangélica é dom de um só e mesmo Espírito (cf. 2Cel 204), dom do Senhor Ressuscitado. Felicidades!
Roma, 15 de julho de 2013
Festa de São Boaventura

Fr. Michael Anthony Perry, ofm
Ministro Geral, OFM

Fonte: Site do Pró-vocações

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