Notícias › 13/06/2017

Como Santo Antônio se tornou poderoso

Moacir Beggo

 São Paulo (SP) – A Missa das 10h30 deste dia de Santo Antônio foi presidida por Frei José Francisco de Cássia dos Santos, que é Definidor e coordenador da Frente de Solidariedade da Província da Imaculada Conceição. O frade agradeceu a presença dos visitantes devotos que vieram celebrar este dia de Santo Antônio na Igreja do Pari, lembrou os títulos que o santo coleciona e a exclusividade de ser o único a ter uma trezena. “Desafio vocês: qual é o outro santo que tem uma trezena para se preparar para uma festa?”, destacou.

Frei José revelou que nasceu de uma família católica e, desde criança, escutou sua avó rezar a Trezena de Santo Antônio, um livrinho que é uma relíquia para ele. “Em 1982, tinha onze anos, só para vocês ter uma ideia de quanto tempo faz que aprendi a rezar com Santo Antônio. Muito antes de pensar em ser um frade franciscano como Santo Antônio. Um franciscano como Santo Antônio. Não um santo. É diferente, viu! Não confundam!”, brincou.

Ele leu o Responsório e perguntou à assembleia: “De onde vem tamanho poder atribuído a Santo Antônio, alguém que é capaz de curar os doentes, afugentar os mares, ir ao socorro de todos aqueles que clamam por misericórdia, dos aflitos, dos sofredores, dos endividados, dos perdidos. De onde vem esta força?”

Segundo Frei José, Santo Antônio buscou essa força na intimidade com Deus. O frade disse que há muitas  maneiras de buscar essa intimidade, mas destacou três:

1ª) Leitura, meditação da Palavra da Deus

Ninguém de nós encontra-se com Deus andando pela rua. O apóstolo João diz: “A Deus ninguém viu, portanto a forma de nos relacionarmos com Deus, uma delas, é a escuta da sua Palavra. E Antônio foi um assíduo ouvinte do Santo Evangelho. Leu e meditou a Palavra de Deus. Buscou a contemplação do Senhor a partir de suas palavras.

2ª) Vida de oração

Mediação para que possamos entrar na intimidade com Deus. Pode ser a oração do Santo Rosário, do Credo ou tantas outras orações que aprendemos desde criança. Existem muitas orações que nós aprendemos a rezar, mas também pode ser uma oração espontânea que você se recolhe diante do Senhor num pequeno momento de silêncio. É muito desafiador hoje rezar. É muito barulho, muito ruído. Tem muita rede social,  muito telefone tocando, muita gente no zapzap. A todo momento somos interpelados. Você, às vezes, está em intimidade e o zapzap está pulando lá em cima da mesa, de algum móvel. Enfim, nós somos incitados à desconcentração a todo momento. Por isso, rezar não é fácil, recolher-se em silêncio, abster-se do barulho externo e acalmar o barulho interno, porque dentro de nós há muitos ruídos, barulhos, algazarras, murmúrios. Como é difícil rezar hoje? E rezar não é falar alto, gritar nas praças, pelo contrário. A oração íntima com Deus se faz no silêncio e no recolhimento. Mateus 6: entra no seu quarto, feche a porta e ore em silêncio ao seu Pai que está no céu. Ele que conhece a intimidade do seu coração vai ouvir a sua necessidade. Quem faz muito barulho para rezar, já ganhou o que queria: sucesso, chamar a atenção… Não é o frei que está falando isso. É Mateus. Chegue na sua casa e leia pra você ver! Por isso, a oração para nós é importantíssima. Antônio não foi só um homem de oração, mas um consagrado. Consagrou a sua vida a Deus para viver na intimidade da oração.

3ª) É o serviço da caridade, o serviço aos pobres

Hoje, um símbolo que vocês vão levar para a casa passando ali na barraca – graças a Deus não falta, todo mundo leva para casa, todo mundo traz e doa, não tem dinheiro,  – do pão. O pão é o símbolo da caridade, o símbolo da partilha, o símbolo de quem tem e vai ao encontro daquele que não tem. E muito mais do que ter. A riqueza não está em ter. Porque hoje o mundo prega que, quanto mais você acumula, mais você tem, mais você é. Diante de Deus, essa matemática não funciona. A lógica da matemática de Deus é outra. A lógica não está em acumular. A riqueza está na capacidade que cada um tem de partilhar. Quanto mais você partilha, mais rico você é (lembrou a multiplicação dos pães).

Antônio foi um homem sensível aos sofredores, sensível ao sofrimento do ser humano, ao sofrimento material, à privação da roupa, à falta de alimento, mas nós não podemos pensar que uma pessoa sofre só porque passa fome, não podemos pensar que uma pessoa sofre só porque passa frio, não podemos pensar que uma pessoa sofre só porque não tem onde morar, porque não tem uma escola com dignidade para crianças e jovens, porque não tem trabalho.  Nós, seres humanos, não necessitamos só de bens materiais. Nós também padecemos de dores e sofrimentos que vêm da alma e do coração.

Às vezes, eu brinco com meus confrades. Eu levanto de manhã cedo, meio triste – vocês levantam algum dia meio tristes? – e eles falam assim: “o que você tem?” Eu digo: “hoje estou com dor na vida!” Vocês ouviram falar isso? Dói uma coisa que não é material. Falta alguma coisa que não é a roupa sobre o corpo, que não é pão no estomago, mas falta carinho, falta amor, falta fé. Faltam muitas outras coisas que não se compra nos supermercados, que não estão disponíveis nas lojas, nos shoppings.  Quanta a gente vai ao shopping para preencher o vazio da vida. Ledo engano. Antônio nos ensina que devemos ir ao encontro uns dos outros. Porque o que falta em mim está no outro. O que tenho posso oferecer ao outro, que é o meu gesto de carinho, de amor, de atenção. É o amor que Deus nos revela que devemos cultivar no nosso coração e oferecer aos outros. Assim como a imagem do Menino Jesus, símbolo da encarnação de Deus na vida humana.

A gente pensa que fazer caridade é dar pão para quem tem fome. É também. Roupa para os desnudos, visita aos doentes, mas a caridade é muito mais do que isso. É dar atenção à pessoa necessitada. A nossa caridade não pode ser superficial. E agora vou contar uma historieta para vocês sobre a caridade superficial. O frei, todo domingo ao meio-dia, senta à mesa para almoçar, porque vocês sabem que na vida religiosa somos disciplinados. O que tem na mesa? Arroz, feijão, uma carne gostosa, cheirando à cebola. Como religioso, acabei de fazer o Sinal da Cruz com saliva na boca. E bem na hora, toca a campainha! Quem é? Um infeliz, pobre coitado da praça que sabe que o frei come àquela hora. Aí, o frei é caridoso, faz um prato bonito, vai lá e dá para o pobre. Fecha a porta e vai comer o seu prato. O frei nem questionou o pobre, rapidamente o serviu. Será que o frei é caridoso? Ou está querendo ficar livre dele para comer o seu almoço? Quantos de nós não fazemos caridade porque queremos ver o pobre longe de nós? Fora, quanto mais rápido, é melhor para nós. Eu até dou um prato de comida, uma blusa, isso não faz diferença para mim. A sua presença me incomoda. A presença me desconcerta, o seu jeito de ser questiona a minha vida. E por isso não quero você perto de mim; quero que você vá embora rapidamente. No fundo, faço marketing da caridade, da bondade.

O simbolismo do pão. A fila para pegar o pão de Santo Antônio.

Será que é essa a caridade que Santo Antônio é símbolo? Ou será que de fato ele tem interesse em entender por que você sofre, por que você está com fome, de onde você vem, como eu posso ajudar a você sair da miséria? O caminho é muito mais longo, muito mais desafiador, mas é esse o caminho que nos santifica, é esse o caminho que santificou Antônio, é esse o caminho que colocou Antônio não como um santo entre os demais, mas o santo do mundo inteiro. Um santo capaz de atender a nossa súplica e a nossa oração. Um santo capaz de entender onde é que a nossa vida dói. E onde é que está a nossa carência para que venha em nosso auxílio a sua caridade, a misericórdia de Deus.

Que no dia de hoje, a pregação de Santo Antônio, a vida evangélica de oração de homem orante e a sua caridade renovem em nosso coração o desejo de seguir este caminho e também fazer e permitir que a obra de Deus, que realizou na sua vida, continue realizando na vida de cada um de nós.

Assim seja! Amém!

 

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