Deixar de lado a própria sede para saciar o outro

Frei Gustavo Medella

“Tenho sede”, disse Jesus a seus carrascos depois de pregado e sufocado no alto da cruz. “Dá-me de beber”, pediu Jesus à samaritana que viera buscar água junto ao Poço de Jacó. O mesmo que pede água no alto da cruz e na beira do poço deixa correr água de seu lado aberto pelo soldado e apresenta-se à samaritana como aquele que oferece a água capaz de saciar definitivamente a sede de quem dela beber. Pode parecer contraditório, mas não é.

A sede de Jesus não é uma encenação. Como ser humano, estava sujeito à fisiologia de todo mortal e carecia de água para manter suas funções vitais. No entanto, a exemplo de toda pessoa, sua sede não se refere apenas ao nível da necessidade biológica. É algo que vai além. Em termos existenciais, Jesus Cristo é expressão da sede de Deus que vem ao encontro da sede da humanidade: sede de sentido, de justiça, de amor e de respeito. Deus tem fome e sede de saciar seus filhos e filhas no amor: “O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” Jo 4,34.

Ao vencer as tentações no deserto, Jesus manifestou sua maturidade para se colocar a serviço do Reino de Deus e a organizar a própria vida em função da missão. Ali ele aprende a abandonar as próprias prioridades para ir ao encontro do mundo. Ali estava plantada a semente de disposição que produziu o fruto fecundo do Lava-pés, da cruz e da Ressurreição. Só um Espírito totalmente disponível estaria pronto para dar uma resposta a esta altura. O encontro com a samaritana é mais uma mostra desta atitude de entrega: o que pede de beber esquece a própria sede para colocar-se como água que refresca e revigora a vida daquele que crê.

A postura de Cristo para nós se apresenta como convite Quaresmal: esquecer-se um pouco de si para se solidarizar com os sedentos da atualidade. Colocar as próprias necessidades em segundo plano para ir ao socorro daqueles que têm carências mais urgentes e profundas. “Meu irmão me chamou para acudi-lo em sua dor. Coloquei a minha no bolso e fui ao encontro da dele”.

Jesus sacia a sede do homem

3º Domingo da Quaresma

1ª Leitura: Ex 17, 3-7
Sl 94
2ª Leitura: Rm 5,1-2.5-8
Evangelho: Jo 4,5-42

-Chegou, então, a uma cidade da Samaria chamada Sicar, perto do campo que Jacó tinha dado ao seu filho José. 6 Aí ficava a fonte de Jacó. Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto à fonte. Era quase meio-dia. 7 Então chegou uma mulher da Samaria para tirar água. Jesus lhe pediu: «Dê-me de beber.» 8 (Os discípulos tinham ido à cidade para comprar mantimentos). 9 A samaritana perguntou: «Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou samaritana?» (De fato, os judeus não se dão bem com os samaritanos). 10 Jesus respondeu: «Se você conhecesse o dom de Deus, e quem lhe está pedindo de beber, você é que lhe pediria. E ele daria a você água viva.»

11 A mulher disse a Jesus: «Senhor, não tens um balde, e o poço é fundo. De onde vais tirar a água viva? 12 Certamente não pretendes ser maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu este poço, e do qual ele bebeu junto com seus filhos e animais!» 13 Jesus respondeu: «Quem bebe desta água vai ter sede de novo. 14 Mas aquele que beber a água que eu vou dar, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe darei, vai se tornar dentro dele uma fonte de água que jorra para a vida eterna.» 15 A mulher disse a Jesus: «Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede, nem precise vir aqui para tirar.»

A verdadeira religião sai de dentro do homem -* 16 Jesus disse à samaritana: «Vá chamar o seu marido e volte aqui.» 17 A mulher respondeu: «Eu não tenho marido.» Jesus disse: «Você tem razão ao dizer que não tem marido. 18 De fato, você teve cinco maridos. E o homem que você tem agora, não é seu marido. Nisso você falou a verdade.» 19 A mulher então disse a Jesus: «Senhor, vejo que és profeta! 20 Os nossos pais adoraram a Deus nesta montanha. E vocês judeus dizem que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar.»

21 Jesus disse: «Mulher, acredite em mim. Está chegando a hora, em que não adorarão o Pai, nem sobre esta montanha nem em Jerusalém. 22 Vocês adoram o que não conhecem, nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. 23 Mas está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores vão adorar o Pai em espírito e verdade. Porque são estes os adoradores que o Pai procura. 24 Deus é espírito, e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade.» 25 A mulher disse a Jesus: «Eu sei que vai chegar um Messias (aquele que se chama Cristo); e quando chegar, ele nos vai mostrar todas as coisas.» 26 Jesus disse: «Esse Messias sou eu, que estou falando com você.»

Os discípulos continuam a missão de Jesus -* 27 Nesse momento, os discípulos de Jesus chegaram. E ficaram admirados de ver Jesus falando com uma mulher, mas ninguém perguntou o que ele queria, ou por que ele estava conversando com a mulher. 28 Então a mulher deixou o balde, foi para a cidade e disse para as pessoas: 29 «Venham ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Messias?» 30 O pessoal saiu da cidade e foi ao encontro de Jesus.

31 Enquanto isso, os discípulos insistiam com Jesus, dizendo: «Mestre, come alguma coisa.» 32 Jesus disse: «Eu tenho um alimento para comer, que vocês não conhecem.» 33 Os discípulos comentavam: «Será que alguém trouxe alguma coisa para ele comer?» 34 Jesus disse: «O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra. 35 Vocês não dizem que faltam quatro meses para a colheita? Pois eu digo a vocês: ergam os olhos e olhem os campos: já estão dourados para a colheita. 36 Aquele que colhe, recebe desde já o salário, e recolhe fruto para a vida eterna; desse modo, aquele que semeia se alegra junto com aquele que colhe. 37 Na verdade é como diz o provérbio: ‘Um semeia e outro colhe’. 38 Eu enviei vocês para colher aquilo que vocês não trabalharam. Outros trabalharam, e vocês entraram no trabalho deles.»

O encontro com a palavra de Jesus produz a verdadeira fé -* 39 Muitos samaritanos dessa cidade acreditaram em Jesus, por causa do testemunho que a mulher tinha dado. «Ele me disse tudo o que eu fiz.» 40 Os samaritanos então foram ao encontro de Jesus e lhe pediram que ficasse com eles. E Jesus ficou aí dois dias. 41 Muitas outras pessoas acreditaram em Jesus ao ouvir sua palavra. 42 E diziam à mulher: «Já não acreditamos por causa daquilo que você disse. Agora, nós mesmos ouvimos e sabemos que este é, de fato, o salvador do mundo.»


* 4,1-15: Conversando com uma mulher que era samaritana, Jesus supera os preconceitos de raça e as discriminações sociais. Como qualquer pessoa, essa mulher tem sede de vida. Todos buscam algo que lhes mate a sede, mas encontram apenas águas paradas. Jesus traz água viva corrente e faz com que a fonte brote de dentro de cada um.

* 16-26: Enquanto os judeus adoravam a Deus no templo de Jerusalém, os samaritanos o adoravam no templo do monte Garizim. Jesus supera o nacionalismo religioso, mostrando que Deus quer ser adorado na própria dimensão da vida humana. A própria vida, dedicada ao bem dos outros, como a de Jesus, é o verdadeiro culto a Deus, a adoração em espírito e verdade. Como Pai, Deus está presente na família humana e não quer que os homens separem religião e vida.

* 27-38: Com sua palavra e ação, Jesus realiza a obra do semeador. Todos os que fazem a experiência de Jesus partem para anunciá-lo, como a samaritana, provocando a vinda do povo. A vontade do Pai é reunir a humanidade em torno de Jesus, e cabe aos discípulos continuar essa tarefa, iniciada pelo próprio Jesus.

* 39-42: Os judeus se consideravam escolhidos por Deus, mas não compreenderam e não aceitaram a mensagem de Jesus, e até o obrigaram a sair da Judéia (4,1-3). Os samaritanos, que eram considerados como povo marginalizado e herege, acolheram Jesus como o Salvador do mundo.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

3º Domingo da Quaresma, ano A

Frei Ludovico Garmus, OFM

Oração: “Ó Deus, fonte de toda misericórdia e de toda bondade, vós nos indicastes o jejum, a esmola e a oração como remédio contra o pecado. Acolhei esta confissão de nossa fraqueza para que, humilhados pela consciência de nossas faltas, sejamos confortados pela vossa misericórdia”.

1. Primeira Leitura: Ex 17,3-7

O Senhor está no meio de nós ou não?

Moisés, em nome de Deus, apresenta o plano de libertação: Deixar de servir ao Faraó com trabalhos forçados, para servir somente ao Senhor, numa terra prometida aos antepassados. A primeira parte do plano foi concluída e o povo já não era mais escravo. Mas entre o Egito e a terra prometida havia um deserto; no Egito era abundante a água e a consequente fertilidade do solo. No deserto, só a penúria e escassez de água. Daí a revolta: O povo tenta a Deus, contesta a autoridade de Moisés e quase o apedreja. A reclamação “Deus está, ou não está no meio de nós?” – mostra uma fé abalada no Deus libertador. Deus intervém e ordena que Moisés reassuma a liderança, tomando o seu bastão, símbolo do poder divino, bastão que estendeu para ferir o Egito (rio Nilo) e abrir um caminho no Mar Vermelho para o povo passar. Acompanhado pelos anciãos devia ir à frente do povo, bater na rocha junto ao monte Horeb, na presença do Senhor. Moisés assim o fez e da rocha saiu água para matar a sede de todo o povo. Paulo diz que o povo bebeu uma água espiritual e que a rocha da qual saiu água era Cristo (1Cor 10,3-4). O símbolo da água nos remete para o tema quaresmal e pascal do batismo e ao evangelho; aí Jesus se apresenta para a Samaritana como a fonte de água viva.

Salmo responsorial: Sl 94

Hoje não fecheis o vosso coração,
mas ouvi a voz do Senhor!

2. Segunda leitura: Rm 5,1-2.5-8

O amor foi derramado em nós pelo Espírito que nos foi dado.

No trecho da Carta de Paulo aos Romanos, hoje lido, o Apóstolo nos fala das assim chamadas virtudes cardeais; elas são as mais importantes entre dons do Espírito: fé, esperança e caridade/amor. Na primeira Carta aos Coríntios, Paulo já exaltava a primazia do amor: “No presente permanecem estas três coisas: fé, esperança e amor; mas a maior delas é o amor” (1Cor 13,13). Paulo lembra aos romanos que, por meio de Cristo, somos justificados pela fé, confirmados pela esperança da glória e pelo dom do “amor de Deus derramado em nossos corações pelo Espírito Santo”. Este dom nos foi dado por meio de Jesus Cristo, que “morreu por nós… quando éramos pecadores”, prova máxima do amor de Deus. – Como você procura viver os dons da fé, da esperança e da caridade?

Aclamação ao Evangelho: Jo 4,42.15

Glória e louvor a vós, ó Cristo.
Na verdade, sois Senhor, o Salvador do mundo.
Senhor, dai-me água viva a fim de eu não ter sede!

3. Evangelho: Jo 4,5-42

Uma fonte de água viva que jorra para vida eterna.

O evangelho de hoje é a realização plena do que a primeira leitura prefigura. A água pedida pelos israelitas no deserto prefigura a água viva que Jesus dá. Os hebreus pediam uma água que conheciam, mas não matava a cede. Jesus pede à Samaritana que lhe dê de beber da água do poço de Jacó (1ª leitura). A mulher estranha que Jesus (um judeu) peça água a uma Samaritana. Jesus responde que se o conhecesse ela mesma lhe pediria uma “água viva”, capaz de matar a sede para sempre. “E a água que eu lhe der – diz Jesus – se tornará nela uma fonte de água que jorra para a vida eterna”. A Samaritana pede, então, a Jesus que lhe dê de beber desta “água viva” e recebe o dom de Deus, isto é, a fé no próprio Jesus Cristo. Torna-se ela mesma “uma fonte de água que jorra para a vida eterna”.

De fato, ao final do diálogo, a Samaritana crê em Jesus e transforma-se em missionária do próprio povo: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será ele o Cristo”? Jesus, que tinha sede, não bebe a água do poço de Jacó. Sua sede é dar a todos os que nele crêem a “água viva” (o Espírito Santo), a fim de que sejam para outros “uma fonte de água que jorra para a vida eterna”. Quando os discípulos insistiam que comesse alguma coisa Jesus responde: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (v. 34). – Como você procura saciar a sede de Deus em sua vida?

À beira do poço

Frei Almir Guimarães

No deserto, o povo murmurava contra Moisés: “Por que nos fizeste sair do Egito?  Foi para nos fazer morrer de sede, a nós  nossos filhos e nosso gado?”

Este é um dos incontáveis episódios da grande travessia do Povo pelo deserto, ao sair do Egito e antes de atingir a Terra Prometida. Moisés feriu o rochedo com a vara e da pedra saiu água para o povo beber. A andança pelo deserto estava  sendo penosa. O povo quase desistia. Tinha sede. E o tema da sede, da água perpassa a liturgia deste domingo.  Paulo, por sua vez, fala do Espírito derramado em nossos corações. Tema da sede de Deus, da água, do batismo, do Espírito que pode ensopar existências. Somos convidados a acompanhar as reações da mulher de Samaria e seu encontro com Jesus à beira do poço.

Não sabemos seu nome. Ela é simplesmente designada de “a samaritana”. Desta forma, ela pode representar muitas outras mulheres. Quem sabe talvez haja no coração de cada mulher uma samaritana que ao meio-dia se dirige ao poço de Jacó.  Ou será que cada um de nós não seria uma samaritana?

Será que esta que agora encontra-se com Jesus, ao longo de sua vida, chegou a conhecer o amor? Tivera cinco maridos e aquele com quem vivia não era seu marido. Grande sorte foi a dela porque naquela sociedade apequenada já poderia ter sido apedrejada tal se explica porque os samaritanos eram menos rigorosos em tais casos do que os judeus. Talvez ela tivesse optado por buscar água no meio do dia para não encontrar outras mulheres que poderiam pretender insultá-la.

Não ficou impressionada com esse estrangeiro, esse judeu, sentado à beira do poço que lhe pedia água. A conversa, no entanto, foi se desenvolvendo. De repente não é mais questão de balde, de cântaro. Na verdade, no coração daquela mulher havia uma fonte que precisaria ser desobstruída. Jesus sabe disso. Ele conhece a verdade do ser humano. “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva”, Água viva, água da vida, água que dá vida. Um sonho no contexto nesse país tão seco. “Dá-me dessa água, Senhor, para que eu não  tenha mais sede e não precise mais vir aqui”.

A água do poço de Jacó sacia a sede do corpo. Aquela, porém, que vem de Deus sacia o desejo mais secreto. Jesus disse: “Vai, chama teu marido e vem aqui”. O tom da conversa muda. O diálogo entre os dois se faz em profundidade mais densa, numa experiência mais interior e mesmo dolorosa. “Não tenho marido”. “Não levo o nome de homem algum. As outras são mulheres de Alfeu, de Simão, de José. Numa idade em que muitas mulheres veem os filhos crescerem junto delas como rebentos de oliveira, tive encontros estéreis com homens dos quais não fui esposa e apenas companheira de um momento. Não pertenço a ninguém. Sou uma mulher sozinha, uma solitária”.

De repente, ela parece não estar mais tão sozinha. O homem que ela tem diante dos olhos é um enviado de Deus, um profeta. Ele não julga, nem condena, nem apaga a chama que ainda crepita nas brasas. Ele inspira confiança. O diálogo pode continuar.

A mulher:  “Nossos pais adoraram neste monte, mas vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar. Disse-lhe Jesus: “Acredita-me mulher, está chegando a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis. Nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. Mas está chegando a hora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. De fato, estes são os adoradores que o Pai procura”. Em espírito, porque Deus está para além dos costumes humanos, de ritos religiosos, de ordenamentos litúrgicos. Na verdade, é nos mais profundo de nós mesmos que o encontramos e o adoramos.

Continua o diálogo. A mulher diz: “Sei que o Messias (que se chama Cristo) vai chegar. Quando ele vier vai nos fazer conhecer todas as coisas. Disse-lhe Jesus: “Sou eu que estou falando contigo”.

Havia, de fato, havido um encontro. Muito ainda precisará ser descoberto. A fonte continuará jorrando. No âmago desse encontro Jesus se revelou à mulher. Ela poderá dizer aos outros que há um outro amor.

Texto fortemente inspirado em:
François Monfort
Au bord  d’ un  puits, une femme
Fêtes et Saisons,  fev 1977, p. 5

Texto para reflexão

“Entre  Jesus e a mulher criou-se um clima novo, mais humano e real. Jesus expressa seu desejo íntimo:  “Se conhecesses o dom de Deus”, se soubesses que Deus é dom  que se oferece a todos como amor salvador… Mas a mulher não conhece nada gratuito. A água tem que ser extraída do poço com esforço. O amor de seus maridos foi se apagando, um depois do outro. Quando ela ouve falar de uma “água” que acalma a sede para sempre, de um “manancial” interior, que  “jorra”  dando fecundidade e vida eterna desperta na mulher, o anseio da vida plena que habita em todos nós: “Senhor, dá-me dessa água”. De Deus pode-se falar com qualquer pessoa, se compartilhamos nossa sede de felicidade superando nossas diferenças: se profetas e dirigentes religiosos pedem de beber às mulheres, descobriremos entre todos que Deus é amor e só Amor”  (Pagola).

Questões

O que mais chama atenção do texto da samaritana?
Você consegue vislumbrar uma aproximação desse texto com a realidade do batismo?
Como se manifesta a sede de Deus em certos corações?

A religião de Jesus

José Antonio Pagola

Cansado da caminhada, Jesus se senta junto ao poço de Jacó, nas proximidades da cidade de Sicar. Logo chega uma mulher samaritana para saciar sua sede. Espontaneamente Jesus começa a falar com ela do que traz em seu coração.

No decorrer da conversa, a mulher lhe fala dos conflitos que enfrentam judeus e samaritanos. Os judeus peregrinam a Jerusalém para adorar a Deus. Os samaritanos sobem o monte Garizim, cujo cume se divisa do poço de Jacó. Onde se deve adorar a Deus? Qual é a verdadeira religião? O que pensa o profeta da Galileia?

Jesus começa esclarecendo que o verdadeiro culto a Deus não depende de um determinado lugar, por muito venerável que possa ser. O Pai do céu não está atado a nenhum lugar e não é propriedade de nenhuma religião. Não pertence a nenhum povo concreto.

Não devemos esquecer que para encontrar-nos com Deus não é necessário ir a Roma ou peregrinar a Jerusalém. Não é preciso entrar numa capela ou visitar uma catedral. Do cárcere mais secreto, da sala de terapia intensiva de um hospital, de qualquer cozinha ou lugar de trabalho podemos elevar nosso coração a Deus.

Jesus não fala à samaritana de “adorar a Deus”. Sua linguagem é nova. Até por três vezes lhe fala de “adorar o Pai”. Por isso não é necessário subir a uma montanha para aproximar-nos um pouco de um Deus longínquo, alheio aos nossos problemas, indiferente aos nossos sofrimentos. O verdadeiro culto começa por reconhecer a Deus como Pai querido que nos acompanha de perto ao longo de nossa vida.

Jesus lhe diz algo mais. O Pai está buscando “verdadeiros adoradores”. Não está esperando de seus filhos grandes cerimônias, celebrações solenes, incensos e procissões. Corações simples que o adorem “em espírito e em verdade” é o que Ele deseja.

“Adorar o Pai em espírito” é seguir os passos de Jesus e deixar-nos conduzir como Ele, pelo Espírito do Pai, que o envia sempre para os últimos. Aprender a ser compassivos como o é o Pai. Jesus o diz de maneira clara: “Deus é Espírito, e aqueles que o adoram, devem fazê-lo em espírito”. Deus é amor, perdão, ternura, sopro vivificador … e os que o adoram devem assemelhar-se a Ele.

“Adorar o Pai em verdade” é viver na verdade. Voltar constantemente à verdade do Evangelho, sermos fiéis à verdade de Jesus sem fechar-nos em nossas próprias mentiras. Depois de vinte séculos de cristianismo, será que aprendemos a dar culto verdadeiro a Deus? Somos os verdadeiros adoradores que o Pai está buscando?

Trecho do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes.

O batismo, “água viva”

Pe. Johan Konings

A água é tão vital que sua escassez até poderá provocar uma terceira guerra mundial. Sem água não há vida. Quando os hebreus no deserto desafiaram Deus exigindo água, Deus lhes deu água física (1ª leitura). No evangelho, Jesus conscientiza a mulher samaritana de sua sede bem mais profunda, não por água material, mas por “espírito e verdade”. Esta sede é aliviada pelo dom de Jesus Cristo.

Ele é a “água viva”, que acaba definitivamente com a sede e faz o mundo viver para Deus. Paulo, na 2ª leitura, evoca “simbolismo da água para falar do amor de Deus, derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”. O batismo é a efusão do Espírito sobre os fiéis.

Esse dom de Deus é gratuito. Os hebreus, no deserto, desconfiaram de Deus e acharam que deviam desafiá-lo. Mas o dom do Espírito trazido por Cristo, que dá sua vida por nós, e pura graça. Nem sequer conseguimos pedi-lo como convém, porque ultrapassa o que pedimos. Por isso, devemos deixar Deus converter e educar o nosso desejo, para que nosso desejo material nos leve ao desejo da vida no Espírito.

Por outro lado a consciência do dom espiritual (= divino) não leva a desprezar o desejo materialista daqueles que realmente estão necessitados. O desejo fundamental conforme a vontade de Deus orienta também a busca dos bens materiais necessários e sua justa distribuição.

Precisamos de verdadeira “educação do desejo”. Nossa sociedade consumista não “cultiva” o desejo, mas exacerba-o e o torna desenfreado. Em vez disso, devemos aprofundar nosso desejo, para que ele reconheça a sua meta verdadeira: a “água viva”, Cristo, o dom de Deus na comunhão com o nossos irmãos… O desejo da água natural significa o desejo de viver. Aliviada a sede, o desejo continua. Qual é o seu fim? O desejo não é pecado: é bom, é vital, mas deve ser orientado; através das criaturas para seu verdadeiro fim, o Criador.

A Quaresma é na tradição da Igreja, o tempo da preparação para o batismo. A água do batismo significa uma realidade invisível, aponta para a satisfação de nosso grande desejo: a vida que Cristo nos dá, o Espírito de Deus, derramado em nossos corações. A “educação” de nosso desejo pode ser a preparação da renovação do nosso compromisso batismal. E a melhor pedagogia para isso é começar a não mais satisfazer qualquer desejo mesquinho e egoísta, mas concentrar nossa vida em torno do desejo profundo – material e espiritual – de nós mesmos e dos nossos irmãos.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella

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