Notícias › 07/06/2017

Deus escolhe ser encontro

Frei Gustavo Medella

Um Deus que escolhe ser comunidade também se faz encontro e se coloca humildemente como promotor de encontros. Encontro feliz entre divino e humano, entre o verbo e a carne, entre a oração e a ação, entre Pai e Filho na unidade do Espírito Santo.

Por maiores que sejam suas diferenças, por mais duras que sejam as cabeças (Cf. Ex 39,4), aqueles que se dispõem ao seguimento de Cristo devem necessariamente cultivar em si a disposição para o encontro em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Este é o sinal que deveria despertar nos corações – sejam eles da renovação, da liberação, da comunhão na boca ou na mão, de joelhos ou de pé, com ou sem véu, das vestes antigas, das inculturas, da contemplação, da ação – a certeza de que todos são irmãos.

Não se pode perder de vista que o sinal da cruz diz do mistério de Deus que se faz um ser humano de braços abertos que, mesmo diante da maior contradição possível se mantém disposto ao abraço e à acolhida. O caminho do encontro permanece como desafio à comunidade dos discípulos, seja dentro ou fora da Igreja. No entanto, é nessa direção que Deus continua a conduzir o seu Povo. Que a Festa da Trindade nos anime a percorrer esta estrada com amor.

Jesus provoca decisão

1ª Leitura: Ex 34, 4b-6.8-9
Med.: Dn 3,52-56
2ª Leitura: 2Cor 13,11-13
Evangelho: Jo 3,16-18

-* 16 «Pois Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna. 17 De fato, Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, e sim para que o mundo seja salvo por meio dele. 18 Quem acredita nele, não está condenado; quem não acredita, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho único de Deus.


* 16-21: Deus não quer que os homens se percam, nem sente prazer em condená-los. Ele manifesta todo o seu amor através de Jesus, para salvar e dar a vida a todos. Mas a presença de Jesus é incômoda, pois coloca o mundo dos homens em julgamento, provocando divisão e conflito, e exigindo decisão. De um lado, os que acreditam em Jesus e vivem o amor, continuando a palavra e a ação dele em favor da vida. De outro lado, os que não acreditam nele e não vivem o amor, mas permanecem fechados em seus próprios interesses e egoísmo, que geram opressão e exploração; por isso estes sempre escondem suas verdadeiras intenções: não se aproximam da luz.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Santíssima Trindade, ano A

Frei Ludovico Garmus, OFM

Oração: “Ó Deus, nosso Pai, enviando ao mundo a Palavra da verdade e o Espírito santificador, revelastes o vosso inefável mistério. Fazei que, professando a verdadeira fé, reconheçamos a glória da Trindade e adoremos a Unidade onipotente”.

1. Primeira leitura: Ex 34,4b-6.8-9

Senhor, Senhor! Deus misericordioso e clemente.

Nos textos bíblicos Moisés é apresentado como alguém que tem grande familiaridade com Deus. Com Moisés, Deus falava “face a face”. Depois destes diálogos íntimos com Deus, quando Moisés voltava para junto do povo seu rosto brilhava, iluminado por uma luz misteriosa (Ex 34,29-35). Nem sempre foi assim. Por exemplo, quando Moisés voltou a primeira vez ao acampamento dos israelitas, trazendo as tábuas da Lei do alto do monte Sinai, encontrou o povo revoltado, adorando um ídolo. Cheio de indignação, quebrou as tábuas da Lei. Mesmo assim intercedeu em favor do povo pecador. Recebeu, então, nova ordem de subir até o monte, para receber as novas placas da Lei. A primeira leitura narra o novo encontro com Deus e a linda súplica que Moisés então proferiu. Deus, então, se revela a Moisés como um “Deus misericordioso, paciente, rico em bondade e fiel”. Moisés precisava aprender. Percebe como estava ainda distante deste Deus misericordioso e sente-se incapaz de liderar um povo de cabeça dura. Pede, então, que Deus lhe conceda um pouco de sua misericórdia, bondade e paciência, e suplica que não o deixe sozinho nem abandone o povo que escolheu: “Caminha conosco… perdoa nossas culpas… acolhe-nos como propriedade tua”.

É a fé que nos ajuda a descobrir, em meio aos sofrimentos e provações que se abatem sobre nossas vidas, um Deus misericordioso, que nos perdoa, caminha conosco e nos acolhe como seus filhos e filhas. Esse Deus foi Jesus quem nos revelou.

Salmo responsorial: Dn 3

A vós louvor, honra e glória eternamente!

2. Segunda leitura: 2Cor 13,11-13

A graça de Jesus Cristo, o amor de Deus
e a comunhão do Espírito Santo.

A leitura de hoje é importante porque é usada como saudação inicial da missa e porque reintroduz nela o beijo ou saudação da paz entre todos os fiéis. Contém cinco imperativos iniciais, que resumem o esforço da vida cristã: “Alegrai-vos, trabalhai no vosso aperfeiçoamento, encorajai-vos, cultivai a concórdia, vivei em paz…” Segue um convite a expressar o amor vivido em comunidade (ou família): “Saudai-vos uns aos outros com o beijo santo”… Conclui-se com um voto para que tudo seja vivido na comunhão com a Trindade Santíssima: “A graça do Senhor Jesus Cristo (Filho], o amor de Deus (Pai) e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós”.

Aclamação ao Evangelho:

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Divino,
ao Deus que é, que era e que vem, pelos séculos. Amém.

3. Evangelho: Jo 3,16-18

Deus enviou seu filho ao mundo,
para que o mundo seja salvo por ele.

O evangelho, aludindo ao sacrifício de Isaac (“filho único”) por Abraão, proclama que a obra realizada por Cristo (Filho de Deus) manifesta o plano do amor do Pai para com a humanidade. Quem acolhe este plano de amor é salvo; quem o rejeita, é condenado. Deus, porém, não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas quer que o mundo seja salvo por ele. A condição para a salvação é a fé em Cristo Jesus, Filho de Deus.

Deus enviou seu Filho ao mundo para revelar seu plano de amor, que é “graça e verdade” (Jo 1,17). Deus é “compassivo e misericordioso, lento para a cólera, rico em bondade e fidelidade” (1ª leitura). Este Deus que é Amor, “ninguém jamais viu. O Filho único de Deus, que está junto ao Pai, foi quem no-lo deu a conhecer” (Jo 1,18), pois quem vê Jesus, vê a Deus Pai (Jo 14,9). É como se diz em família: “Ela é a cara da mãe e ele é a cara do pai”. O mistério que nos envolve, hoje, é o da unidade do Pai e do Filho, no seu amor para com a humanidade. Esta unidade no amor, para dentro e para fora, é o Espírito Santo (Santo Agostinho). Pela fé e pelo amor que vivemos somos introduzidos no mistério da Santíssima Trindade: “Se alguém me ama, guarda a minha palavra; meu Pai o amará, e viremos a ele e nele faremos morada” (Jo 14,23).


Tirar as sandálias dos pés

Frei Almir Guimarães

Enquanto Moisés  não tirou as sandálias dos pés  não conseguiu se aproximar da sarça ardente. Tu que aspiras ver aquele  que está além de todo pensamento e de todo sentimento  nada conseguirás enquanto não tomares distância de tudo o que é sensível.

Evágrio Pôntico

Trindade!  Deus belo e grande que não cabe em nossas categorias humanas.   Nem sabemos designa-lo.  O Bem, o Sumo Bem, a Ternura, a Paz. Uma eterna e adorável comunhão de amor. O Pai, eternamente Pai, gera eternamente o Verbo e entre ambos o sopro do Espírito.   O que nos resta é prostrarmo-nos  em silenciosa e profunda adoração. Uma fornalha de amor. Um da  Trindade veio morar em nos e nos levar para essa fornalha de amor.   No alto da cruz  esse Filho amado nos entregou o  Espirito. Confessar a Trindade é acreditar que  Deus é um mistério de comunhão e amor.

Cremos no Pai, nesse Altíssimo e Bom Senhor, que é Pai. Cria agora os céus e a terra. Não estamos sós em nossa história, nesse mundo, em vitórias  e fracassos, problemas e conflitos. Não vivemos esquecidos. Temos um Pai que  tem os  traços do  pai do filho pródigo, que faz  chover   sobre justos e pecadores, Pai que  sustenta a vida, a nossa vida e a vida de tudo o que existe. Pai vivo, autor e alimentador da vida.  Ama. É o eterno amante. Nunca vai retirar de nós o seu amor e sua fidelidade.   Dele só brota amor. Fomos feitos à sua imagem e semelhança, por isso  somos destinados ao amor. Só amando acertamos o  passo na vida.  Jesus gostava de chama-lo de pai querido, de paizinho.

O Verbo, a Palavra que o Pai pronuncia é o  Filho.   Ele é o grande presente que  Deus deu ao mundo.  Viveu entre nós, conheceu a trama da vida de todos nós. Nasceu, cresceu em idade e graça,  percorreu os caminhos da terra, falou, rezou, testemunhou,  relacionou-se,  demonstrou desafeto quando o projeto do Pai não era vivenciado, foi amado e rejeitado, teve amigos mais íntimos e mostrou um  carinho  todo especial para com os  pecadores, os que falham na vida.  Ele se fez imagem do Pai.  Quem o via, via o Pai.  Seu nome é  Emanuel.  Depois de sua ressurreição designamo-lo de Senhor.  Um Deus que nos amou até o fim.  Olhando para ele vemos o Pai. Nele podemos sentir Deus humano, próximo, amigo.  Fez-se mensageiro do Pai que nos quer ver como irmãos que se estimam e se amam.

O Espírito Santo é comunhão do Pai e do Filho. Ele é o amor eterno entre o Pai amante e  Filho amado, aquele que revela  que o amor divino  não é possessão ciumenta do Pai  nem açambarcamento egoísta do Filho, “O amor de Deus foi derramado em nossos corações  pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm  5,5).


Abrir-nos ao mistério de Deus

José Antônio Pagola

Ao longo dos séculos, os teólogos fizeram um grande esforço para aproximar-se do mistério de Deus, formulando, com diferentes construções conceituais, as relações que vinculam e diferenciam as Pessoas divinas no seio da Trindade. Esforço legítimo, sem dúvida, nascido do amor e do desejo de Deus.

Jesus, porém, não segue esse caminho. A partir de sua própria experiência de Deus, convida seus seguidores a relacionar-se de maneira confiante com Deus Pai, a seguir fielmente seus passos de Filho de Deus encarnado, e a deixar-nos guiar e animar pelo Espírito Santo. Assim Ele nos ensina a abrir-nos ao mistério santo de Deus.

Antes de tudo, Jesus convida seus seguidores a viver como filhos e filhas de um Deus próximo, bom e entranhável, que todos podem invocar como Pai querido. O que caracteriza este Pai não é seu poder e sua força, mas sua bondade e sua compaixão infinitas. Ninguém está só. Todos temos um Deus Pai que nos compreende, nos ama e nos perdoa como ninguém.

Jesus nos revela que este Pai tem um projeto nascido de seu coração: construir com todos os seus filhos e filhas um mundo mais humano e fraterno, mais justo e solidário. Jesus o chama “reino de Deus”, e convida todos a entrar nesse projeto do Pai, buscando uma vida mais justa e digna para todos, a começar por seus filhos mais pobres, indefesos e necessitados.

Ao mesmo tempo, Jesus convida seus seguidores a também confiar nele: “Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus; crede também em mim”. Ele é o Filho de Deus, imagem viva de seu Pai. Suas palavras e seus gestos nos revelam como o Pai de todos nos ama. Por isso convida todos a segui-lo. Ele nos ensinará a viver com confiança e docilidade a serviço do projeto do Pai.

Com seu grupo de seguidores, Jesus quer formar uma família nova, na qual todos busquem “cumprir a vontade do Pai”. Esta é a herança que Ele quer deixar na terra: um movimento de irmãos e irmãs a serviço dos mais pequenos e desvalidos. Essa família será símbolo e germe do novo mundo querido pelo Pai.

Para isto precisam acolher o Espírito que anima o Pai e seu Filho Jesus: “Vós recebereis a força do Espírito Santo que virá sobre vós e assim sereis minhas testemunhas”. Este Espírito é o amor de Deus, o sopro compartilhado pelo Pai e seu Filho Jesus, a força, o impulso e a energia vital que fará dos seguidores de Jesus suas testemunhas e colaboradores a serviço do grande projeto da Trindade Santa.

Trecho extraído do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes.


Três pessoas em um só Deus

Pe. Johan Konings

Para muitas pessoas, inclusive cristãs,  a SS. Trindade não passa de um  problema de matemática: como pode  haver três pessoas divinas em um só  Deus? Parece que nada tem a ver  com sua vida.

Se a Trindade fosse um problema  matemático, deveríamos procurar uma  “solução”. Mas, na realidade, não se trata de uma fórmula matemática, mas de um resumo de duas certezas de nossa fé: 1) Deus é um só; 2) o Pai, o Filho e o Espírito Santo são Deus. Isso nos convida à “contemplação” do mistério de Deus. Pois um mistério não é para a gente colocá-lo dentro da cabeça, mas para colocar a cabeça nele…

Na 1ª Leitura, Moisés invoca o nome de Deus: “O Senhor (Javé), Deus misericordioso e clemente, lento para a ira, rico em amor e fidelidade…”. São essas as primeiras qualidades de Deus. Deus é um Deus que ama. Segundo o evangelho, Jesus revela em que consiste a manifestação maior do amor de Deus para com o mundo: ele deu o seu Filho, que quis morrer por amor a nós. O Pai e o Filho estão unidos num mesmo amor por nós. Em sua carta, João retoma o mesmo ensinamento: “Foi assim que o amor de Deus se manifestou entre nós: Deus enviou o seu filho único ao mundo, para que tenhamos a vida por ele” (1 Jo 4,9)

Assim, tanto no Antigo Testamento como no Novo, Deus é conhecido como sendo “amor e fidelidade”. Estas são as qualidades que se manifestam com toda a clareza em Cristo (a “graça e verdade” de que fala Jo 1,14). Em Jesus, Deus aparece como comunhão de amor: o Pai, Jesus e o Espírito que age no mundo, esses três estão unidos no mesmo amor por nós. Um solitário não ama. Deus não é um ancião solitário. Deus é amor (1 Jo 4,8), pois ele é comunidade em si mesmo, amor que transborda até nós.

Se Deus é comunidade de amor, também nós devemos sê-lo, nele. Se tanto ele nos amou, a ponto de enviar seu Filho, que deu sua vida por nós, nós também devemos dar a vida pelos irmãos, amando-os com ações e de verdade (cf. 1Jo 3,16-18). No amor que nos une, realizamos a “imagem e semelhança de Deus”, a vocação de nossa criação (Gn 1,26).

O conceito clássico do homem é individualista. Isso não é cristão… Se Deus é comunidade, e nós também devemos sê-lo, não realizaremos nossa vocação vivendo só para nosso sucesso individual, propriedade privada e liberdade particular. A Trindade serve de modelo para o homem novo, que é comunhão. Devemos cultivar os traços pelos quais o povo se assemelha ao Deus-Trindade: bondade, fidelidade, comunicação, espírito comunitário etc.

Como pode haver três pessoas em um só Deus? Pelo mistério do amor, que faz de diversas pessoas um só ser. Deus é comunidade, e nós também devemos sê-lo.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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