Destaque, Reflexão Dominical › 09/07/2016

Deus se encarna naquele que age com amor

(Frei Gustavo Medella)

Tenho um amigo – ateu – que, para justificar sua opção, tem o hábito de postar no Facebook notícias de muitos desmandos, violências e explorações praticados em nome de Deus e da religião. Junto ao fato partilhado, a frase recorrente: “Depois me perguntam por que sou ateu”. Respeito a opção de meu amigo e evito entrar em debate com ele por conta de suas ideias. No entanto, erros e escândalos também podem ser cometidos em nome de outras entidades como a pátria, a família, a propriedade, o capital, o nome a zelar etc.

A religião que escandaliza, desagrega e destrói apoia-se numa caricatura de deus geralmente construída para atender interesses muito parciais e direcionados. Apoia-se em muitas leis e decretos que têm como objetivo segregar as pessoas, mantendo o privilégio de alguns poucos “eleitos”. Está implantada no coração do fariseu que se aproxima de Jesus não em busca de misericórdia ou acolhida, mas para tentá-lo. Faz um discurso bonito à primeira vista, porque ornado com passagens da Sagrada Escritura (“Amarás o Senhor, teu Deus…). No entanto, qualquer tentativa de trazê-lo para o chão da realidade torna-se desconcertante, levando o interpelado a querer se justificar (“Quem é o meu próximo?).

A religião vivida, intuída e praticada por Jesus Cristo aponta na direção de um amor gratuito e desinteressado, dirigido não a quem pode trazer alguma recompensa, mas a quem precisa no momento de um gesto solidário. O Deus de Jesus Cristo se faz tão simples e acessível que se encarna não em figuras importantes ou ilustres, mas naquele que se dispõe a agir com amor. Na parábola do Bom Samaritano, Deus “todo poderoso”, mas também “todo proximidade” se apresenta na figura do samaritano, um estrangeiro desprezado, que se comove em acudir aquele de quem não conhecia sequer o nome. Ali compreendemos o verdadeiro conceito de Salvação que, para além de uma meta localizada no pós-morte, se faz ação concreta no aqui e no agora da existência.

Em Jesus e em seu modo simples e prático de proceder, “qualquer um tem a chance de se tornar Deus para o outro” e aí conseguimos compreender com mais clareza o conceito de “próximo”, inacessível ao fariseu que desejava entendê-lo apenas no âmbito da razão. Próximo – nosso coração nos atesta – é aquele de quem podemos ser presença de Deus, especialmente num momento de crise e abandono.

E aí, voltando a meu amigo ateu, diferentemente dele, cada vez que vejo um ser humano dando o melhor de si para ajudar o outro, oferecendo a própria vida para tornar o mundo um lugar melhor, lutando sinceramente pela paz e pela justiça, trabalhando para que ninguém mais passe fome no mundo, penso (mas não chego a postar no Facebook): e ainda me perguntam por que acredito em Deus!

 (Fonte: Franciscanos)

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