Destaque, Notícias › 26/05/2017

DOMINGO DA ASCENSÃO

Mais Cristo, menos “ícaros”

Frei Gustavo Medella

“Voar, voar, subir, subir, ir por onde for”. O verso de Byafra na música “Sonho de Ícaro” faz referência ao mitológico personagem que, embalado por ambições de ascensão, se esquece dos próprios limites e, ao voar em direção ao Sol, tem suas asas de cera desmanchadas pelo Astro Rei. O resultado é uma tragédia: Ícaro cai no mar e é tragado pela força das águas. Morre.

Ícaros não nos faltam nos noticiários políticos dos últimos tempos. Homens que entram para a vida pública e se esquecem de todos os limites, principalmente os éticos e morais. Só pensam em “voar, voar, subir, subir”, de propina em propina, de negociata em negociata, de reforma em reforma, de pacote em pacote, saindo da casa dos milhares em direção aos milhões – e, por que não, bilhões? – de reais. Nada é absurdo. Nenhuma cifra impressiona: ajuda humanitária semanal de 500 mil, gorjetas de milhões, malas, envelopes e quantias transportadas em regiões pouco ortodoxas do corpo humano. Todos voos realizados com asas de cera, embalados por uma ambição doentia sustentada à base de tapinhas nas costas, sorrisos amarelos e pactos interesseiros.

O “voo” de Cristo, no entanto, é muito diferente do de Ícaro. O Senhor não tem asas de cera e voa porque se fez leve, livre de todos os condicionamentos. Sem nenhum bem material, “aquele que passou fazendo o bem” despiu-se do orgulho, da prepotência, da avareza e, de mãos e braços abertos sobre cruz, abraçou a humanidade. Desta liberdade incondicionada e deste amor incondicional vem a sua capacidade de ascender para junto do Pai. Ascende para se tornar mais próximo, para ampliar o raio de sua ação, para mostrar a seus discípulos que mensagem do Reino deve se espalhar para além do alcance dos olhos, aportando em todos os corações que se abrem para a Graça de Deus.

Não é um voo de jatinho próprio rumo a uma luxuosa praia caribenha ou a um paraíso fiscal. É a subida inevitável de quem na vida se dispôs a descer ao abismo mais profundo da humilhação por conta da fidelidade absoluta ao Pai. É a ascensão de quem se abaixa para lavar os pés e servir. Os “ícaros” que conhecemos não são fiéis nem a si mesmos, mas apenas aos próprios desejos espúrios de dinheiro e poder. Para o bem do Brasil, continuemos rezando e trabalhando a fim de que a justiça seja feita e que, antes de seus atos levarem o país à total bancarrota, tais “ícaros” sejam engaiolados e depenados.

Jesus é o Senhor da história

1ª Leitura: At 1,1-11
Sl: 46
2ª Leitura: Ef 1,17-23
Evangelho: Mt 28, 16-20

* 16 Os onze discípulos foram para a Galiléia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado. 17 Quando viram Jesus, ajoelharam-se diante dele. Ainda assim, alguns duvidaram. 18 Então Jesus se aproximou, e falou: «Toda a autoridade foi dada a mim no céu e sobre a terra. 19 Portanto,vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, 20 e ensinando-os a observar tudo o que ordenei a vocês. Eis que eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo.»


* 16-20: Doravante, Jesus é a única autoridade entre Deus e os homens. Ele dá apenas uma ordem àqueles que o seguem: fazer com que todos os povos se tornem discípulos. Todos são chamados a participar de uma nova comunidade (batismo), que se compromete a viver de acordo com o que Jesus ensinou: praticar a justiça (3,15; 5,20) em favor dos pobres e marginalizados (25,31-46). O Evangelho se encerra com a promessa já feita no início: Jesus está vivo e sempre presente no meio da comunidade, como o Emanuel, o Deus-conosco (1,23).

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Domingo da Ascensão, ano A

Frei Ludovico Garmus

Oração: “Ó Deus todo-poderoso, a ascensão do vosso Filho já é nossa vitória. Fazei-nos exultar de alegria e fervorosa ação de graças, pois, membros de seu corpo, somos chamados na esperança a participar de sua glória”.

1. Leitura: At 1,1-11

Jesus foi levado aos céus, à vista deles.

Lucas escreveu dois livros: o Evangelho e os Atos dos Apóstolos. Nestes livros ele divide a história da salvação em três tempos: a) o tempo da promessa é o Antigo Testamento até o final da atividade de João Batista; b) o tempo da realização da promessa, que é a vida pública de Jesus, desde o batismo até a Ascensão ao céu; c) o tempo da Igreja, que se inicia com o dom do Espírito Santo. Na liturgia de hoje celebramos o término do segundo tempo: do batismo de Jesus até sua ascensão ao Céu. No trecho da Palavra de Deus que acabamos e escutar Lucas lembra o seu primeiro livro, o Evangelho, onde escreveu sobre “tudo o que Jesus começou a fazer e ensinar”. Isto é, desde o batismo de Jesus até o dia em que “foi elevado ao alto”. Mas esta frase também sugere que, no segundo livro, os Atos dos Apóstolos, vai falar daquilo que a Igreja, movida pela força do Espírito Santo, continuou a “fazer e ensinar”. – O tempo da Igreja é inaugurado pelo próprio Jesus Ressuscitado, que durante quarenta dias instruiu os apóstolos sobre as “coisas referentes ao Reino de Deus”. Entre elas, Jesus recomenda que não se afastem de Jerusalém até receberem o Espírito Santo. Jesus ressuscitado estava falando com os discípulos sobre o Reino de Deus. Mas, os apóstolos e discípulos  ainda lhe perguntavam: “Senhor, é agora que vais restabelecer o reino de Israel?” Em vez do reino de Israel Jesus lhes traça o programa do anúncio dão Reino de Deus. Para cumprir a missão deveriam receber o Espírito Santo: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, Judeia e Samaria, até os confins da terra”. A cena dos apóstolos fitando os céus, para onde Jesus era levado, introduz anjos que os chamam de volta à realidade da missão. Jesus vai voltar um dia, sim, mas agora é o momento de cumprir a ordem de executar a missão delineada por Jesus: Com a força do Espírito Santo, ser testemunha do Ressuscitado em Jerusalém, Judeia e Samaria, até os confins da terra (v. 8). A nós, que recebemos o Espírito Santo, Jesus confia também esta mesma missão, até quando ele vier para “julgar os vivos e os mortos” (Creio).

Salmo responsorial: Sl 46

Por entre aclamações Deus se elevou,
o Senhor subiu ao toque da trombeta.

2. Segunda leitura: Ef 1,17-23

E o fez sentar-se à sua direita nos céus.

O Apóstolo nos convida a abrirmos o coração, para sabermos qual é a esperança que o chamado divino nos dá; qual é a riqueza de nossa herança com os santos e que imenso poder Deus exerce naqueles que nele creem. A ascensão marca a glorificação de Jesus de Nazaré, o Filho de Deus encarnado, que se fez servo “humilde e obediente, até a morte numa cruz. Foi por isso que Deus o exaltou…” (Fl 2,8-9; cf. Hb 5,7-9). Jesus Cristo conclui sua missão aqui na terra e nos concede a força do Espírito Santo, para cumprirmos a missão de anunciar e viver o seu evangelho.

Aclamação ao Evangelho

Ide ao mundo, ensinai aos povos todos;
Convosco estarei, todos os dias,
Até o fim dos tempos, diz Jesus.

3. Evangelho: Mt 28,16-20

Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra.

As mulheres que foram ver o túmulo de Jesus, um anjo explica que Jesus tinha ressuscitado; por isso, o túmulo estava vazio. Elas deviam comunicar aos discípulos que Jesus ressuscitado queria encontrar-se com eles na Galileia, onde o veriam. Foi na Galileia dos gentios que “brilhou uma grande luz” quando Jesus iniciou sua pregação (Mt 4,15-16). Este encontro com o Ressuscitado foi marcado durante a última ceia. Jesus previu que todos o haveriam de abandar no momento da morte. Mas reafirmou que, mesmo abandonado por todos, haveria de ressuscitar e iria à frente deles à Galileia para se encontrar com seus discípulos (Mt 26,32). De fato, o encontro com o Ressuscitado aconteceu num monte indicado por Jesus. Em Mateus, foi num monte que Jesus proclamou as bem-aventuranças e a sua mensagem. Agora, é de um monte que Jesus envia os discípulos para a missão. Ao verem o Ressuscitado, os discípulos se prostraram, mas alguns ainda duvidavam. Jesus, no entanto, envia a todos para a missão, também aos que duvidavam: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo quanto eu vos ordenei”. Para se tornar cristão é preciso ter fé em Deus que é Pai, crer em Cristo seu Filho e no Espírito Santo que está conosco; é preciso ser ensinado e ensinar a observar tudo quanto Jesus ordenou. É preciso confiar, ter fé, que não estamos cumprindo a missão sozinhos. Ele está e estará sempre conosco.

Será que temos “saudades do céu”?

Frei Almir Guimarães

Os apóstolos continuavam olhando para o céu enquanto Jesus subia.

Ressoam aos nossos ouvidos os relatos do Novo Testamento que falam da Ascensão do  Senhor Jesus. Ele, o mais belo dos filhos dos homens, não podia, efetivamente, permanecer definitivamente entre nós. Seu lugar, sua casa definitiva era o seio da Trindade. Não o tivemos mais entre nós daquela maneira tão singela e tão cativante como aqui vivera entre nós: bebendo de nossas fontes, sentando-se à mesa com puros e não puros, falando de coisas simples, contando histórias de moedas e ovelhas perdidas, história de administradores infiéis, de fermento, de sal, de luz, olhando as pessoas jogadas à beira da estrada. Ele nos preveniu. Iria partir mas ficaria conosco, de uma outra forma até a consumação de todos os tempos.

Seria tão bom poder retê-lo entre nós. O vazio de sua ausência deve ter preocupado os primeiros discípulos e as primeiras comunidades. Eles tinham nele alguém insubstituível. Não os incomodava. Era bom, de uma bondade plena.  “Era de uma bondade tão modesta que fomos tentados a pensar numa realidade quase cotidiana” (K. Rahner). Deu ao enigma de nossa vida o nome de Pai. Ele era a misericórdia de Deus e a sabedoria eterna morando entre nós. Pudemos representar Deus de uma maneira diferente das abstrações filosóficas. Deus: um Pai que nos ama. A terra, tinha finalmente, alguém que não precisava de palavras eruditas e complicadas para falar das coisas de Deus. Usava silêncios e palavras curtas, colocava gestos e toques  eloquentes.

Ele não podia continuar eternamente entre nós na figura simplesmente humana. Conheceu a realidade da morte. Nesse momento conferiu-lhe um sentido de amor, de dom de si para o bem de muitos. Deu a vida para que todos não precisassem mais temer a morte. Sua morte se transformou em vida para que os seus fossem libertados de todo temor e medo. Levou para a morte o nosso corpo que ele havia adquirido no seio de uma mulher de nossa raça. Pela sua ressurreição passou seu corpo para a vida porque é nosso irmão mais velho e nas alturas prepara um lugar para nós.

Nossos olhos estão fitos na glória. Lá é nossa casa definitiva. Mas estamos ainda no tempo da peregrinação e das andanças. E ele nos acompanha misteriosamente, ao mesmo tempo que prepara o lugar para os que morrerem a si mesmos e nele renascerem.

Jesus viera do mistério do Alto. Esse Jesus que se remexia nas palhas da manjedoura e que morreu estirando os braços no alto da cruz foi a realização de um sonho de Deus: morar na casa dos homens, sentar-se à sua mesa, viver sua vida e nos apontar as coisas do Alto. O Alto a que nos referimos não é geográfico, espacial, mas um Alto de dignidade. No espaços mais íntimos da Trindade penetrou nossa natureza humana.

O que sabemos é que não adianta ficar olhando para o céu, para o alto. Somos convidados a ir pelo mundo e anunciar o Ressuscitado presente entre nós e fazer com que muitas vidas tenham a ventura de a ele aderir.

Será que temos “saudades” do céu?

Fazer discípulos de Jesus

José Antonio Pagola

Mateus descreve a despedida de Jesus traçando as linhas de força que hão de orientar para sempre seus discípulos, os traços que devem mercar sua Igreja para cumprir fielmente sua missão.

O ponto de partida é a Galileia, para onde Jesus os convoca. A ressurreição não deve levá-los a esquecer o que viveram com Ele na Galileia. Foi lá que o ouviram falar de Deus com parábolas comovedoras. Lá o viram aliviando o sofrimento, oferecendo o perdão de Deus e acolhendo os mais esquecidos. É precisamente isto que eles devem continuar transmitindo.

Entre os discípulos que rodeiam a Jesus ressuscitado há “crentes” e há aqueles que “vacilam”. O narrador é realista. Os discípulos “se prostram”. Sem dúvida querem crer, mas em alguns surge a dúvida e a indecisão. Talvez estejam assustados e não conseguem captar tudo que aquilo significa. Mateus conhece a fé frágil das comunidades cristãs. Se não contassem com Jesus, bem depressa a fé se apagaria.

Jesus “se aproxima” e entra em contato com eles. Ele tem a força e o poder que a eles lhes falta. O Ressuscitado recebeu do Pai a autoridade do Filho de Deus com “pleno poder no céu na terra”. Se nele se apoiarem, não vacilarão.

Jesus lhes indica com toda precisão qual há de ser a missão deles. Não é propriamente “ensinar doutrina”, nem só “anunciar o Ressuscitado”. Sem dúvida, os discípulos de Jesus terão de cuidar de diversos aspectos: “dar testemunho do Ressuscitado”, “proclamar o Evangelho”, “implantar comunidades”… mas tudo deverá estar finalmente orientado para um objetivo: “fazer discípulos” de Jesus.

Esta é a nossa missão: fazer “seguidores” de Jesus que conheçam sua mensagem, sintonizem com seu projeto, aprendam a viver como Ele e reproduzam hoje sua presença no mundo. Atividades tão fundamentais como o batismo, compromisso de adesão a Jesus, e o ensino de “tudo que foi mandado” por Ele são vias para aprender a ser discípulos. Jesus lhes promete sua presença e ajuda constante. Não estarão sós nem desamparados. Mesmo que sejam poucos. Nem que sejam só dois ou três.

Assim é a comunidade cristã. A força do Ressuscitado a sustenta com seu Espírito. Tudo está orientado para aprender e ensinar a viver como Jesus e a partir de Jesus. Ele continua vivo em suas comunidades. Continua conosco e entre nós curando, perdoando, acolhendo…e salvando.

Trecho do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes.

O Senhorio de Jesus e a Evangelização

Pe. Johan Konings

O início do livro dos Atos narra que, depois das últimas instruções aos discípulos, Jesus foi, diante dos olhos deles, elevado ao céu, para partilhar a glória de Deus (1ª leitura). Os donos deste mundo haviam jogado Jesus lá embaixo (se não fosse José de Arimateia a sepultá-lo, seu corpo teria terminado na vala comum….).

Mas Deus o colocou lá em cima, “à sua direita”. Deu-lhe o “poder” sobre o universo não só como “Filho do Homem” no fim dos tempos (cf. Mc 14,62), mas, desde já, através da missão universal daqueles que na fé a aderem a ele. Nós participamos desse poder, pois Cristo não é completo sem o seu “corpo”, que é a Igreja (2ª leitura). Com a Ascensão de Jesus começa o tempo para anunciá-lo como Senhor de todos os povos. Mas não um senhor ditador!

Seu “poder” não é o dos que se apresentam como donos do mundo. Jesus é o Senhor que se tornou servo e deseja que todos, como discípulos, o imitem nisso. Mandou que os apóstolos fizessem de todos os povos discípulos seus (evangelho). Nessa missão, ele está sempre conosco, até o fim dos tempos.

O testemunho cristão, que Jesus nos encomenda, não é triunfalista. É o fruto da serena convicção de que, apesar de sua rejeição e morte infame, “Jesus estava certo”. Essa convicção se reflete em nossas atitudes e ações, especialmente na caridade. Assim, na serenidade de nossa fé e na radicalidade de nossa caridade damos um testemunho implícito. Mas é indispensável o testemunho explícito, para orientar o mundo àquele que é a fonte de nossa prática, o “Senhor” Jesus.

A ideia do testemunho levou a Igreja a fazer da festa da Ascensão o dia dos meios de comunicação social – a mídia: imprensa, rádio, televisão, internet. Para uma espiritualidade “ativa”, a comunidade eclesial deve se tornar presente na mídia – uma tarefa que concerne eminentemente aos leigos. Como é possível que num país tão “católico” como o nosso haja tão pouco espírito cristão na mídia, e tanto sensacionalismo, consumismo e até militância maliciosa em favor da opressão e da injustiça?

Ao mesmo tempo, para a espiritualidade mais “contemplativa”, o dia de hoje enseja um aprofundamento da consciência do “senhorio” de Cristo. Deus elevou Jesus acima de todas as criaturas, mostrando que ele venceu o mal por sua morte por amor, e dando-lhe o poder universal sobre a humanidade e a história. Por isso, a Igreja recebe a missão de fazer de todas as pessoas discípulos de Jesus.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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