Notícias › 09/04/2019

Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor

Carta aberta ao Bom Burrinho

Frei Gustavo Medella

Bom Burrinho que conduz Jesus, hoje desejo me dirigir a você!

Primeiramente gostaria de dizer-lhe um “muito obrigado” pela docilidade de oferecer seu dorso nunca montado para conduzir o Mestre. Você poderia ter se revoltado, dada sua pouca idade, poderia ter empacado diante do tumulto e da movimentação que lhe eram pouco comuns. Mas nada lhe abalou. Silenciosa e docemente você adentrou a história da salvação e, por isso, até hoje é lembrado ano após ano quando se proclama, no Domingo de Ramos, o Evangelho de São Marcos (Mc 11,1-10).

Em segundo lugar, dirijo a você e a seus coirmãos meu sincero pedido de desculpas, pois com frequência seu nome é invocado para designar alguns seres humanos que não fazem bom uso da inteligência que Deus lhes concedeu. Quanta injustiça, Bom Burrinho! Afinal, você, dentro do projeto ao qual foi chamado no todo da Criação, busca dar conta de suas tarefas. Sua teimosia, quem sabe, não seja uma prova de nossa arrogância e falta de jeito em lidar com as criaturas com as quais o Senhor povoou o planeta? Sendo assim, é verdadeira ofensa a você quando o comparamos com um de nós. Afinal, você não tem maldade, não é preconceituoso, não se deixa levar pela ganância e pela vaidade, não trama o mal contra ninguém. Você, Bom Burrinho, nunca usou o nome de Deus para atender seus próprios interesses. Por isso, perdoe-nos, de coração, pelas repetidas ofensas proferidas a você quando o comparamos conosco. Ah, se pudéssemos aprender com você! Certamente o mundo seria um lugar melhor.

A terceira palavra, Bom Burrinho, é “Vá com Deus!”. Conduza bem e com segurança nosso Senhor. Afinal, Ele é Deus que se torna frágil e simples e, por isso, necessitado de apoio. Ele vai precisar de muita força para manter-se firme e fiel diante dos sofrimentos e dores que vêm pela frente. Leve-o com segurança e não o abandone, como diversos de seus discípulos o fizeram. Vá em paz, Bom Burrinho, e que nós possamos aprender de você a generosidade de carregarmos Jesus conosco todos os dias de nossas vidas.


Textos bíblicos para este domingo

Primeira Leitura: Is 50,4-7

4O Senhor Deus deu-me língua adestrada, para que eu saiba dizer palavras de conforto à pessoa abatida; ele me desperta cada manhã e me excita o ouvido, para prestar atenção como um discípulo. 5O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás. 6Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas. 7Mas o Senhor Deus é meu Auxiliador, por isso não me deixei abater o ânimo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não sairei humilhado.


Responsório: Sl 21

— Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?
— Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?

— Riem de mim todos aqueles que me veem, torcem os lábios e sacodem a cabeça: ‘Ao Senhor se confiou, ele o liberte e agora o salve, se é verdade que ele o ama!’.

— Cães numerosos me rodeiam furiosos, e por um bando de malvados fui cercado.Transpassaram minhas mãos e os meus pés e eu posso contar todos os meus ossos. Eis que me olham e, ao ver-me, se deleitam!

—Eles repartem entre si as minhas vestes e sorteiam entre si a minha túnica.Vós, porém, ó meu Senhor, não fiqueis longe, ó minha força, vinde logo em meu socorro!

— Anunciarei o vosso nome a meus irmãos e no meio da assembleia hei de louvar-vos! Vós que temeis ao Senhor Deus, dai-lhe louvores, glorificai-o, descendentes de Jacó, e respeitai-o toda a raça de Israel!


Segunda Leitura: Fl 2,6-11

6Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, 7mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, 8humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz. 9Por isso, Deus o exaltou acima de tudo e lhe deu o Nome que está acima de todo nome. 10Assim, ao nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e abaixo da terra, 11e toda língua proclame : ‘Jesus Cristo é o Senhor’, para a glória de Deus Pai.


Evangelho: Lucas 23,1-49

Narrador 1: Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo + segundo Lucas.

Naquele tempo, 1 toda a multidão se levantou e levou Jesus a Pilatos. 2Começaram então a acusá-lo, dizendo:

Ass.: “Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo, proibindo pagar impostos a César e afirmando ser ele mesmo Cristo, o Rei”.

Narrador: 3 Pilatos o interrogou:

Leitor 1: “Tu és o rei dos judeus?”

Narrador: Jesus respondeu, declarando:

Pres.: “Tu o dizes!”

Narrador: 4 Então Pilatos disse aos sumos sacerdotes e à multidão:

Leitor 1: “Não encontro neste homem nenhum crime”.

Narrador: 5Eles, porém, insistiam:

Ass.: “Ele agita o povo, ensinando por toda a Judeia, desde a Galileia, onde começou, até aqui”.

Narrador: 6Quando ouviu isto, Pilatos perguntou:

Leitor 1: “Este homem é galileu?”

Narrador: 7Ao saber que Jesus estava sob a autoridade de Herodes, Pilatos enviou-o a este, pois também Herodes estava em Jerusalém naqueles dias. 8Herodes ficou muito contente ao ver Jesus, pois havia muito tempo desejava vê-lo. Já ouvira falar a seu respeito e esperava vê-lo fazer algum milagre. 9Ele interrogou-o com muitas perguntas. Jesus, porém, nada lhe respondeu.

10Os sumos sacerdotes e os mestres da Lei estavam presentes e o acusavam com insistência. 11Herodes, com seus soldados, tratou Jesus com desprezo, zombou dele, vestiu-o com uma roupa vistosa e mandou-o de volta a Pilatos. 12Naquele dia Herodes e Pilatos ficaram amigos um do outro, pois antes eram inimigos.

13Então Pilatos convocou os sumos sacerdotes, os chefes e o povo, e lhes disse:

Leitor 1: 14“Vós me trouxestes este homem como se fosse um agitador do povo. Pois bem! Já o interroguei diante de vós e não encontrei nele nenhum dos crimes de que o acusais; 15nem Herodes, pois o mandou de volta para nós. Como podeis ver, ele nada fez para merecer a morte. 16Portanto, vou castigá-lo e o soltarei”.

Narrador: 18Toda a multidão começou a gritar:

Ass.: “Fora com ele! Solta-nos Barrabás!”

Narrador: 18Barrabás tinha sido preso por causa de uma revolta na cidade e por homicídio.20Pilatos falou outra vez à multidão, pois queria libertar Jesus. 21Mas eles gritaram:

Ass.: “Crucifica-o! Crucifica-o!”

Narrador: 22E Pilatos falou pela terceira vez:

Leitor 1: “Que mal fez este homem? Não encontrei nele nenhum crime que mereça a morte. Portanto, vou castigá-lo e o soltarei”.

Narrador: 23Eles, porém, continuaram a gritar com toda a força, pedindo que fosse crucificado. E a gritaria deles aumentava sempre mais. 24Então Pilatos decidiu que fosse feito o que eles pediam. 25Soltou o homem que eles queriam — aquele que fora preso por revolta e homicídio — e entregou Jesus à vontade deles.

26Enquanto levavam Jesus, pegaram um certo Simão, de Cirene, que voltava do campo, e impuseram-lhe a cruz para carregá-la atrás de Jesus. 27Seguia-o uma grande multidão do povo e de mulheres que batiam no peito e choravam por ele. 28Jesus, porém, voltou-se e disse:

Pres.: “Filhas de Jerusalém, não choreis por mim! Chorai por vós mesmas e por vossos filhos! 29Porque dias virão em que se dirá: ‘Felizes as mulheres que nunca tiveram filhos, os ventres que nunca deram à luz e os seios que nunca amamentaram’. 30Então começarão a pedir às montanhas: ‘Cai sobre nós! e às colinas: ‘Escondei-nos!’ 31Porque, se fazem assim com a árvore verde, o que não farão com a árvore seca?”

Narrador: 32Levavam também outros dois malfeitores para serem mortos junto com Jesus.33Quando chegaram ao lugar chamado “Calvário”, ali crucificaram Jesus e os malfeitores: um à sua direita e outro à sua esquerda. 34Jesus dizia:

Pres.: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!”

Narrador: Depois fizeram um sorteio, repartindo entre si as roupas de Jesus. 35O povo permanecia lá, olhando. E até os chefes zombavam, dizendo:

Ass.: “A outros ele salvou. Salve-se a si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o Escolhido!”

Narrador: 36Os soldados também caçoavam dele; aproximavam-se, ofereciam-lhe vinagre,37e diziam:

Ass.: “Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!”

Narrador: 38Acima dele havia um letreiro:

Leitor 2: “Este é o Rei dos Judeus”.

Narrador: 39Um dos malfeitores crucificados o insultava, dizendo:

Leitor 2: “Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!”

Narrador: 40 Mas o outro o repreendeu, dizendo:

Leitor 1: “Nem sequer temes a Deus, tu que sofres a mesma condenação? 41Para nós, é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal”.

Narrador: 42E acrescentou:

Leitor 1: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado”.

Narrador: 43Jesus lhe respondeu:

Pres.: “Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso”.

Narrador: 44Já era mais ou menos meio-dia e uma escuridão cobriu toda a terra até as três horas da tarde, 45pois o sol parou de brilhar. A cortina do santuário rasgou-se pelo meio,46e Jesus deu um forte grito:

Pres.: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”.

Narrador: Dizendo isso, expirou.

(Aqui todos se ajoelham e faz-se uma pausa.)

Narrador: 47O oficial do exército romano viu o que acontecera e glorificou a Deus, dizendo:

Leitor 1: “De fato! Este homem era justo!”

Narrador: 48E as multidões, que tinham acorrido para assistir, viram o que havia acontecido e voltaram para casa, batendo no peito. 49Todos os conhecidos de Jesus, bem como as mulheres que o acompanhavam desde a Galileia, ficaram a distância, olhando essas coisas.


Comentários do exegeta Frei Ludovico Garmus

Domingo de Ramos, ano C

 Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, para dar aos homens um exemplo de humildade, quisestes que o nosso Salvador se fizesse homem e morresse na cruz. Concedei-nos aprender o ensinamento da sua paixão e ressuscitar com ele em sua glória”.

  1. Primeira leitura: Is 50,4-7

Não desviei meu rosto das bofetadas e cusparadas.

Sei que não serei humilhado. 

O texto de hoje traz as palavras do 3º Cântico do Servo Sofredor. É uma figura profética que está entre os judeus exilados na Babilônia. Ele está convencido de ter recebido uma missão da parte de Deus para levar uma mensagem de conforto para os exilados abatidos. O Servo apresenta-se como um discípulo, atento, todas as manhãs, para receber a mensagem divina a ser transmitida. Mas, para cumprir esta missão deve enfrentar o desprezo e o sofrimento. Cheio de confiança no auxílio divino, porém, não se deixa abater. – A exemplo do Servo Sofredor, embora ameaçado de morte pelos adversários, Jesus entra resolutamente em Jerusalém para cumprir sua missão até o fim.

Salmo responsorial: Sl 21 (22)

Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?

  1. Segunda leitura: Fl 2,6-11

Humilhou-se a si mesmo; por isso, Deus o exaltou acima de tudo.

Jesus, Filho de Deus, podia ter escolhido o caminho do poder – sugerido pelo diabo (Lc 4,1-13) e disputado pelos discípulos (Lc 9,46-48; 22,24-30) –, mas esvaziou-se a si mesmo e assumiu a condição de servo. Apresentando-se como quem é “manso e humilde de coração” (Mt 11,29), colocou-se a serviço de todos: “Eu estou no meio de vós como quem serve” (Lc 22,27). Identificou-se não com a classe dominante, mas com a maioria das pessoas, sujeitas à dominação, exploradas, desprezadas, marginalizadas; tornou-se solidário com todos os “crucificados” da história humana. Como o Servo do Cântico de Isaías, foi obediente até a morte de cruz. Por isso o Pai o ressuscitou dos mortos. Preocupado com o espírito de competição dentro da comunidade, Paulo recomenda: “Tende os mesmos sentimentos de Cristo Jesus”. O caminho de Cristo, humilde e solidário com todos, tornou-se o caminho do cristão.

Aclamação ao Evangelho

Glória e louvor a vós, ó Cristo!

Jesus Cristo se tornou obediente, obediente até a morte numa cruz.

Pelo que o Senhor Deus o exaltou, e deu-lhe um nome muito acima de outro nome.

Evangelho: Lc 22,14–23,56

Desejei ardentemente comer convosco esta ceia pascal, antes de sofrer.

A narrativa da Paixão e Morte de Jesus tem uma sequência muito parecida nos quatro Evangelhos. Contudo, cada um dos evangelistas tem características e interesses próprios. Lucas escreve depois da destruição de Jerusalém, nos anos 70. Não escreve como testemunha ocular (cf. Lc 1,1-4), mas como discípulo de Jesus, para discípulos de Jesus. Por isso, omite as torturas chocantes sofridas por Jesus e insiste na sua inocência. Mostra que o discípulo deve seguir a Jesus no caminho da cruz. Sua narrativa da Paixão tem um apelo pessoal e pastoral.

A leitura do Evangelho mais breve inicia-se com o processo diante do governador romano Pilatos. No tribunal judaico (sinédrio), Jesus não afirma ser o Cristo. Apresenta-se como o Filho do Homem, que “estará sentado à direita do Deus Poderoso” e é condenado porque afirma ser o Filho de Deus. No tribunal de Pilatos, os sumos sacerdotes e mestres da Lei o acusam de ser um agitador no meio do povo, que proíbe pagar impostos a César e afirma “ser ele mesmo o Cristo”, o Rei dos judeus. Pilatos interroga Jesus sobre as acusações e afirma quatro vezes sua inocência (23,4.14.15.22). Só Lucas diz que Pilatos enviou Jesus a Herodes Antipas, ao saber que o acusado era da Galileia. Mas, interrogado por Herodes, Jesus nada respondeu. Então Herodes, com sua corte, zomba de Jesus e o manda de volta a Pilatos. Este, por sua vez, apesar de inocentar Jesus, comunica ao povo que iria castigá-lo e, depois, soltá-lo. A multidão, porém, pede que Jesus seja crucificado e que Pilatos solte Barrabás; este, sim, um subversivo muito popular. Pilatos atende ao pedido da multidão e entrega Jesus “à vontade deles”. Lucas apresenta Simão de Cirene como um discípulo que carrega a cruz “atrás de Jesus”. Também a multidão e as mulheres que “seguem” a Jesus, arrependidos. A palavra de Jesus dirigida às mulheres em pranto – “Filhas de Jerusalém, não choreis por mim! Chorai por vós mesmas e por vossos filhos”! –, remete aos sofrimentos do povo quando Jerusalém foi destruída. Jesus é crucificado entre dois ladrões, lembrando as palavras de Jesus ao final da ceia: “Foi contado entre os criminosos” (22,37). Jesus dá o exemplo concreto do perdão, que Lucas inclui entre os pedidos do Pai-Nosso (11,1-4). O povo permanece em contemplação, olhando e escutando o que acontecia, enquanto os chefes zombam de Jesus como o Cristo, o Ungido de Deus para salvar o povo, mas incapaz de salvar-se a si mesmo. O letreiro colocado acima da cabeça de Jesus – “Este é o Rei dos Judeus” – resume o motivo da condenação no tribunal de Pilatos e a acusação dos chefes contra Jesus, Messias, Filho de Deus. O malfeitor que insulta Jesus repete de certa forma as zombarias dos chefes. O bom ladrão dirige-se a um Jesus, humano e misericordioso, sem usar o título Cristo: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado”. Jesus é o Salvador. No momento da morte de Jesus a natureza toda se veste de luto. Rasga-se a cortina do Santuário, “abre-se o céu” para o Filho de Deus, como no batismo (cf. Lc 3,21-22), e Jesus entrega-se nas mãos do Pai: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. Um oficial romano (pagão) exclama: “De fato! Este homem era um justo”! E as multidões que assistiram ao acontecido voltam para suas casas, batendo no peito, arrependidos, enquanto as mulheres que tinham seguido a Jesus desde a Galileia, permanecem em contemplação, à distância. Um homem justo, membro do Sinédrio, chamado José de Arimateia, cede seu túmulo novo, para dar sepultura ao corpo de Jesus. As mulheres assistem a tudo, voltam a suas casas e providenciam perfumes e bálsamos para os últimos cuidados ao amado Mestre; depois, descansam durante o sábado.

Que a leitura da paixão de Jesus Cristo segundo Lucas nos leve à contemplação dos sofrimentos e morte de Jesus, o Filho de Deus que deu sua vida por todos nós. Tenhamos sempre presente que Lucas não conheceu a Jesus de Nazaré. Mas escreveu seu Evangelho como discípulo de Jesus, para confirmar a fé e o amor de outros discípulos de seu tempo. Escreveu-o para nós.


Salvação imerecida

Frei Clarêncio Neotti

Os quatro Evangelistas contam a Paixão do Senhor. Num ano lemos a de Mateus, noutro a de Marcos e, no terceiro, a de Lucas. A Paixão de Jesus, segundo João, é lida todos os anos na Sexta-feira Santa. Não devemos ler – o perigo existe – a Paixão de Jesus como uma peça jurídica de condenação. Os Evangelistas a descrevem como um fato histórico, sim, mas dentro de uma perspectiva de salvação e dos objetivos em que eles se fixaram ao escrever o seu Evangelho. Por isso, se todos coincidem no fato histórico, acentuam menos ou mais pormenores, ou os omitem.

Assim, Lucas é o único a contar o episódio do bom ladrão (Lc 23,40-43) e do envio de Jesus a Herodes (Lc 23,6-12). A Lucas não interessa somente o fato, mas também o sentido eclesial contido nele. O fato, então, toma a força de um símbolo dentro da história da salvação. Herodes, por exemplo, torna-se a imagem dos que se interessam falsamente por Jesus. Não se interessam pela salvação que ele traz com sua doutrina, mas pela curiosidade dos milagres ou pelas vantagens da promoção social.

No bom ladrão estamos figurados todos. É na morte de Jesus que encontramos o perdão e a salvação. É a morte de Jesus que abre as portas do céu. Ninguém merece a salvação. Ela nos vem pela misericórdia divina.


Um Rei sentado num burrico

Frei Almir Guimarães

O Senhor vem, mas não rodeado de pompa, como se fosse conquistar a glória. Ele não discutirá, nem gritará, diz a Escritura, e ninguém ouvirá sua voz (Mt 12,19; cf Is 42,2). Pelo contrário, será manso e humilde, e se apresentará com vestes pobres e aparência modesta.
Santo André de Creta

♦ Entramos na última semana de nosso retiro quaresmal. Dispomo-nos ainda a percorrer as etapas fundamentais da marcha de Jesus rumo ao Calvário e à Glória. Morte e ressurreição. Que frutos alcançamos ao longo do tempo da quaresma? Com que disposições viveremos os dias desta que designamos de semana santa?

♦ A Procissão dos Ramos evoca a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. O formulário da bênção das palmas pede o olhar de Deus sobre os ramos que os fiéis haverão de portar em sinal da adesão a Cristo-Rei que entra em sua cidade montado num burrico. A solenidade deste dia é, na verdade, exaltação do Cristo Rei. Os paramentos vermelhos lembram o fogo, a força e o martírio. Como naquele dia em Jerusalém, também em nossos templos há um forte clima de alegria. Cantos de vitória. Palmas que se agitam. As leituras da missa vão nos falar de alegria, mas também nos levarão à apreensão. Em toda a semana santa é o que ocorre: júbilo e dor. Este paradoxo, segundo os liturgistas, é a língua do mistério.

♦ “Vinde, subamos juntos ao monte das Oliveiras e corramos ao encontro de Cristo que hoje volta de Betânia e se encaminha voluntariamente para aquela venerável e santa Paixão a fim de realizar o mistério de nossa salvação” (Santo André de Creta, Lecionário Monástico II, p. 511). E mais adiante: “O Senhor vem, mas não rodeado de pompa, como se fosse conquistar a glória. Ele não discutirá, diz a Escritura, nem gritará, nem ninguém ouvirá sua voz. Pelo contrário será manso e humilde e se apresentará com vestes pobres e aparência modesta” (Idem, ibidem).

♦ O Rei entra em Jerusalém montado num burrico. O gesto atesta a pobreza e simplicidade do Messias. Jesus pede que providenciem para ele um asno que depois haverá de devolver. O burrico é a cavalgadura pobre e humilde de que fala o profeta Zacarias (9,9). Sim, o burrico é apenas emprestado. O cortejo que acompanha Jesus mostra características reais expressas nos mantos estendidos pelo chão e nos gritos de ovação. Jesus, de seu lado, sente-se, no fundo a pedra que os pedreiros rejeitaram. Não partilha a concepção de um Messias triunfalista que é abraçada pela multidão.

♦ A profecia do servo sofredor, texto escrito séculos antes do tempo de Jesus e proclamado na liturgia deste domingo descreve antecipadamente os sofrimentos em sua paixão: o servo abre os ouvidos para as palavras de Deus, oferece as costas aos que nele batem e estende as faces aos que lhe arrancam a barba, não desvia o rosto das cusparadas e bofetões. Terminada a alegre procissão de entrada no templo somos levados a contemplar e, de alguma forma, partilhar a paixão do Senhor. Ecoam, de maneira especial, as palavras da Carta aos Filipenses: “…aquele que se fez obediente até a morte e morte de cruz”.

♦ “Em vez de mantos ou ramos sem vida, em vez de folhagens que alegram o olhar por

♦ O rei entrou em sua cidade montado num burrico que havia pedido emprestado.


Deus não é um sádico

José Antonio Pagola

Não são poucos os cristãos que entendem a morte de Jesus na cruz como uma espécie de “negociação” entre Deus Pai e seu Filho. Segundo esta maneira de entender a crucifixão, o Pai, justamente ofendido pelo pecado dos seres humanos, exige para salvá-los uma reparação, que o Filho lhe oferece entregando sua vida por nós.

Se fosse assim, as consequências seriam gravíssimas. A imagem de Deus Pai ficaria radicalmente pervertida, porque Deus seria um ser justiceiro, incapaz de perdoar gratuitamente; uma espécie de credor implacável, que não pode salvar-nos se não for saldada previamente a dívida contraída com Ele. Seria difícil evitar a ideia de um Deus “sádico”, que encontra no sofrimento e no sangue um “prazer especial”, algo que lhe agrada de maneira particular e o leva a mudar de atitude para com suas criaturas.

Esta maneira de apresentar a cruz de Cristo exige uma profunda revisão. Na fé dos primeiros cristãos, Deus não aparece como alguém que exige previamente sangue para que sua honra fique satisfeita, e Ele possa assim perdoar. Pelo contrário, Deus envia seu Filho somente por amor e oferece a salvação quando ainda éramos pecadores. Jesus, por sua vez, não aparece nunca procurando influir sobre o Pai com seu sofrimento, a fim de compensá-lo e assim obter dele uma atitude mais benévola para com a humanidade.

Então, quem quis a cruz e por quê? Certamente não o Pai, que não quer que se cometa crime algum, e menos ainda contra seu Filho amado, e sim os seres humanos, que rejeitam Jesus e não aceitam que Ele introduza no mundo um reinado de justiça, de verdade e de fraternidade. O que o Pai quer não é que matem seu Filho, mas que seu Filho viva seu amor ao ser humano até às últimas consequências.

Deus não pode evitar a crucifixão, porque para isso deveria destruir a liberdade dos seres humanos e negar-se a si mesmo como Amor. O Pai não quer o sofrimento e o sangue, mas não se detém nem sequer diante da tragédia da cruz e aceita o sacrifício de seu Filho querido unicamente por amor insondável para conosco. Assim é Deus.


A morte do Justo

Pe. Johan Konings

Foi diante da morte do justo que o mundo se compungiu. Hoje, o relato da Paixão de N. Senhor segundo Lucas (evangelho) nos conta como os poderosos rivais, Herodes e Pilatos, tornam-se amigos às custas de Jesus, mandando-o de um para o outro como objeto de diversão. Conta também como um dos malfeitores crucificados com Jesus escarnece do sofrimento do justo. Por outro lado, vemos Simão de Cirene ajudando Jesus a levar a cruz; as mulheres chorando o seu sofrimento; o bom ladrão solicitando a misericórdia de Jesus; o povão que se arrepende … Qual é a nossa atitude diante do sofrimento do justo? A de Herodes e de Pilatos? A das mulheres e do bom ladrão?

O oficial romano ao pé da cruz exclamou: “Realmente, este homem era um justo!” O que é ser justo, no sentido da Bíblia? Por que o justo sofre? A 1ª e a 2ª leitura no-lo dizem: por obediência a Deus. Então, Deus manda sofrer? Não é isso horrível e cruel? Não, Deus não manda sofrer o justo, seu “filho”. Só manda amar. Amar até o fim. Mas quem ama, sofre! O justo que ama, sofre, não por causa da paixão sentimental, mas porque ele não quer ser infiel ao amor que começou a demonstrar, e que se opõe à violência dos donos de nosso mundo! Nesta fidelidade, o justo pode expirar como Jesus, dizendo: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. Ser justo é corresponder àquilo que Deus espera de nós, colaborar com o seu plano. É fazer como o bispo Romero e tantos outros que deram a vida por aquilo que consideravam ser o desejo de Deus: o amor testemunhado aos mais pobres dentre seus filhos.

Diante da cruz do justo que morre, temos que optar: ou pelo lado dos que dão sua vida para viver e fazer viver o amor de Deus, ou pelo lado dos que se dão as mãos para suprimir a justiça; lado de quem carrega a cruz ou de quem a impõe…

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