Destaque, Notícias › 05/01/2018

Epifania do Senhor

O compromisso de manifestar Deus ao mundo

Frei Gustavo Medella

Epifania é a celebração de um Deus que se manifesta. Na etimologia do termo latino “manifestum”, encontram-se as palavras “manus” (mãos) e “festus”, que significa agarrado, apanhado. Manifestar-se é, portanto, tornar-se próximo, deixar-se apanhar pelas mãos. Esta é a atitude de Deus ao manifestar-se à humanidade na forma de um recém-nascido que espera ser carregado nos braços.

Os “magos”, segundo a origem do termo, peritos em adivinhação, deixam-se guiar pelo brilho da estrela, que não os conduz a nenhum projeto de grandeza, poder ou ostentação, mas a uma criança pobre. Estes adivinhos que, percorrendo o grande percurso desde o Oriente, aprenderam a enxergar com o coração e por isso não se frustraram diante da singeleza da cena mas, ao contrário, prostraram-se reverentes e ofereceram ao menino da periferia os presentes que traziam para o Rei.

No percurso que encerra nossa vida, também somos convidados a adquirir a experiência que o caminho nos proporciona. Também recebemos a chance de enxergar a partir de dentro, percebendo na simplicidade do presépio os grandes valores que fazem a nossa vida ganhar um novo sentido.

A epifania nos revela, assim, que o mesmo Deus que a nós se manifesta, deseja que O manifestemos a outros. Oferecer nossas melhores forças em favor da justiça, da paz e do respeito significa atualizar a adoração reverente dos Magos diante do Pequenino de Belém.

Estamos cheios de Herodes prontos para devorarem nossos sonhos e projetos. Basta olharmos para as mazelas que temos vivido em nosso país. No entanto, precisamos confiar que, assim como concedeu aos Magos, o Senhor há de nos revestir da esperteza necessária a fim de que possamos manifestá-Lo com garra e profecia a nossos contemporâneos.

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Jesus, perigo ou salvação?

1ª Leitura: Is 60, 1-6
Sl 71
2ª Leitura: Ef 3, 2-3ª.5-6
Evangelho: Mt 2, 1-12

1 Tendo nascido Jesus na cidade  de Belém, na Judéia, no tempo do rei  Herodes, alguns magos do Oriente  chegaram a Jerusalém, 2 e perguntaram: “Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Nós vimos a sua estrela no Oriente, e viemos para prestar-lhe homenagem”. 3 Ao saber disso, o rei Herodes ficou alarmado, assim como toda a cidade de Jerusalém. 4 Herodes reuniu todos os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei, e lhes perguntou onde o Messias deveria nascer. 5 Eles responderam: «Em Belém, na Judéia, porque assim está escrito por meio do profeta: 6 ‘E você, Belém, terra de Judá, não é de modo algum a menor entre as principais cidades de Judá, porque de você sairá um Chefe, que vai apascentar Israel, meu povo.’ « 7 Então Herodes chamou secretamente os magos, e investigou junto a eles sobre o tempo exato em que a estrela havia aparecido. 8 Depois, mandou-os a Belém, dizendo: “Vão, e procurem obter informações exatas sobre o menino. E me avisem quando o encontrarem, para que também eu vá prestar-lhe homenagem.”

9 Depois que ouviram o rei, eles partiram. E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até que parou sobre o lugar onde estava o menino. 10 Ao verem de novo a estrela, os magos ficaram radiantes de alegria.

11 Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele, e lhe prestaram homenagem. Depois, abriram seus cofres, e ofereceram presentes ao menino: ouro, incenso e mirra. 12 Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, partiram para a região deles, seguindo por outro caminho.


* 2,1-12: Jesus é o Rei Salvador prometido pelas Escrituras. Sua vinda, porém, desperta reações diferentes. Aqueles que conhecem as Escrituras, em vez de se alegrarem com a realização das promessas, ficam alarmados, vendo em Jesus uma séria ameaça para o seu próprio modo de viver. Outros, apenas guiados por um sinal, procuram Jesus e o acolhem como Rei Salvador. Não basta saber quem é o Messias; é preciso seguir os sinais da história que nos encaminham para reconhecê-lo e aceitá-lo. A cena mostra o destino de Jesus: rejeitado e morto pelas autoridades do seu próprio povo, é aceito pelos pagãos.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Epifania do Senhor

Frei Ludovico Garmus

Oração: “Ó Deus, que hoje revelastes o vosso Filho às nações, guiando-as pela estrela, concedei aos vossos servos e servas que já vos conhecem pela fé, contemplar-vos um dia face a face no céu”.

Primeira leitura: Is 60,1-6

Apareceu sobre ti a glória do Senhor.

Em 597 aC, Nabucodonosor conquistou Jerusalém e levou a elite governante de Judá, inclusive o sacerdote Ezequiel. Na época pós-exílica, o profeta anônimo, autor deste texto, anima os exilados a retornarem a Jerusalém. O Templo estava sendo reconstruído e a cidade aumentaria sua população; as luzes das lamparinas, sinal de vida nas casas novamente habitadas, haveriam de se multiplicar na escuridão das ruínas da cidade, em reconstrução. Jerusalém se tornaria brilhante, como um facho luminoso que atrairá os povos pagãos. Se no passado Jerusalém foi saqueada pelos dominadores, agora camelos e dromedários haveriam de trazer riquezas de todas as partes. Com seu incenso proclamarão a glória do Senhor. No exílio os judeus aprenderam a conviver com outros exilados de nações diferentes. O profeta anuncia que essas nações também farão parte do novo Israel. O Deus de Israel é o Deus de todos os povos.

Salmo responsorial: Sl 71

As nações de toda a terra hão de adorar-vos, ó Senhor!

Segunda leitura: Ef 3,2-3a.5-6

Agora foi-nos revelado que os pagãos são co-herdeiros das promessas.

O Evangelho que Paulo pregava era dirigido a judeus e pagãos, escravos e livres, sem distinção. Entende que as promessas de um Salvador não se restringiam apenas aos judeus, mas incluíam a todos os povos. A esta nova forma de anunciar a salvação em Jesus Cristo, Paulo considera como uma revelação que lhe foi dada pelo Espírito, um mistério escondido no passado e agora revelado: Não só os judeus são destinatários da salvação trazida por Jesus Cristo, mas também todos os pagãos. Paulo abre seu coração à comunidade cristã de Éfeso, formada, sobretudo, por pagãos convertidos: “Se ao menos soubésseis da graça que Deus me concedeu para realizar o seu plano a vosso respeito”. – Hoje nos alegramos com a vinda dos magos para adorar o Menino Jesus, salvador de toda a humanidade (Evangelho).

Aclamação ao Evangelho

Vimos sua estrela no Oriente
e viemos adorar o Senhor.

Evangelho: Mt 2,1-12

Viemos do Oriente adorar o Rei.

Magos veem do oriente, orientados pela profecia de Balaão em Nm 24.  Eles procuram o rei recém-nascido, segundo lhes parecia, no palácio de Herodes um rei recém-nascido. Herodes fica alarmado com a notícia vista como ameaça ao seu trono, e com ele toda Jerusalém, pois era um homem violento. Herodes consulta os entendidos na Bíblia, para poder responder aos magos onde deveria nascer o tal futuro rei. Os sumos sacerdotes e escribas respondem, citando a profecia de Miqueias, que o futuro rei, esperado como o salvador do povo, deveria nascer em Belém de Judá. Os doutores não acreditam, mas sabem ler as Escrituras e interpretá-las. Herodes finge interesse, mas tem más intenções. Só os magos, pagãos, acreditaram nas profecias de Balaão, um profeta pagão, famoso na Transjordânia e citado na Bíblia: “Vejo-a, mas não é agora, contemplo-a, mas não está perto: Uma estrela avança de Jacó, um cetro se levanta de Israel (…), um dominador sairá de Jacó” (Nm 24,17-19). Os magos, iluminados pelas Escrituras Sagradas, são novamente guiados pela estrela até Belém. Chegando a casa onde moravam os pais com o menino, os magos e prostram em adoração e oferecem-lhe seus presentes: ouro porque ele é rei; incenso porque é Deus e mirra porque é homem e será embalsamado com mirra e aloés…

Há dois modos de nos achegamos a Deus: Pelos sinais da natureza e pelos Livros Sagrados. Os magos leram os sinais nas estrelas e chegaram até Jerusalém. Julgavam que um rei que deveria nascer num palácio. Mas iluminados pela Palavra de Deus, encontraram uma casa simples onde o menino-rei morava com seus pais, Maria e José. Santo Agostinho fala de dois livros escritos por Deus: um livro são as obras da Criação, outro são as Escrituras Sagradas. Estes são os livros que nos levam ao encontro com o Salvador da humanidade.

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Verdadeiramente, este é o Filho de Deus

Frei Clarêncio Neotti

A Epifania do Senhor é também a festa da fé, isto é, da possibilidade de conhecer a Deus. O conhecimento de Deus é a base e a meta da vocação cristã. Nos últimos 100 anos, a ciência e a técnica muitas vezes pretenderam substituir a religião. A era industrial, que predominou no século XX, pensou em restituir ao homem o paraíso perdido. Descobriu as mais inimagináveis máquinas, encurtou as distâncias, acrescentou satélites aos astros do céu, trouxe o mundo inteiro para dentro de nossa casa. Benditas todas essas conquistas! Mas a humanidade não reencontrou o paraíso. Aí está – e todos nós somos prova disso – carregada de angústias e medos, guerras fratricidas e violentos afrontamentos à dignidade humana. E com uma grande desvantagem sobre os antepassados: despida de fé, com poucos atos religiosos conscientes.

Percebe-se por toda a parte uma sede do transcendental, uma volta ao místico, uma necessidade de Deus. Os que pensaram num Deus esclerosado e deposto começam a perceber que seus olhos haviam-se ofuscado com o brilho da ciência e do progresso. E que Deus, na pessoa de Jesus nascido em Belém, continua sendo a única pedra fundamental (Mt 21,42) da casa da felicidade. Os Magos, prostrados em adoração na quietude da gruta de Belém, assemelham-se aos soldados romanos ao pé da Cruz, em meio ao terremoto e fendimento das rochas: “Verdadeiramente, este é o Filho de Deus” (Mt 27(54).

Os pastores – gente simples – reconheceram o Menino Deus e voltaram ao trabalho “glorificando e louvando a Deus” (Lc 2(20). Os Magos – gente sábia – “encheram-se de grande alegria e, caindo por terra, adoraram-no” (Mt 2,10-11). Do ju-

mento à estrela, do feno aos anjos, da pedra da gruta à ternura de Maria, todos contemplam “a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e verdade, que se fez carne e armou sua tenda entre nós” (Jo 1(14). Esse é o significado da festa da Epifania, festa da luz, festa da salvação universal, festa da fé.

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Dos que buscam a Casa de Deus

Frei Almir Guimarães

Hoje, os Magos que o procuravam resplandecente nas estrelas, o encontram no berço. Hoje, os Magos veem claramente, envolvido em panos, aquele que há muito tempo procuravam de modo obscuro nos astros (São Pedro Crisólogo).

Domingo da Epifania, domingo dos Magos. Desde nossa infância esses personagens misteriosos foram pedindo licença para ocupar lugar importante de nossa atenção. Havia o presépio das coisas singelas e simples e, de repente, alguém tirava de uma caixa de papelão esses senhores com pompa e coroas, montados em camelos e dando uma tonalidade um tanto grandiosa ao presépio do frágil menino. Ficamos sabendo que eram três. Chegou-se mesmo a dar-lhes nomes: Melchior, Gaspar e Baltasar. Mateus é o único evangelista a mencionar esses personagens que povoaram de cores e luzes nossa imaginação de crianças. O evangelista simplesmente diz que eram Magos e nada mais. Depois, bem depois, místicos e espirituais, nos disseram que eram buscadores de Deus, peregrinos da casa de Deus. Que significado tem esse episódio para nós?

“É nossa própria história, história de nossa peregrinação sem fim, quem deciframos através dos doze versículos do evangelho de Mateus que nos falam desse magos vindos da longínqua Babilônia, guiados pela estrela, obstinados vencedores da imensidão dos desertos como da indiferença e da política na terra em que nasceu o Menino, chegando finalmente a encontrar a Criança e adorar o Deus salvador. É nossa história que lemos ou, dizendo melhor, que devíamos ler neste relato. Não somos todos peregrinos e viajantes, pessoas sem domicilio fixo mesmo quando nunca deixamos nossa casa? Vejam como o tempo passa, como os dias terminam, como a mudança é lei eterna de nossa existência, como estamos sempre indo para frente. Se somos sinceros podemos nos descrever como peregrinos…

O profeta Isaías, na primeira leitura desta solenidade tem palavras de ânimo e de alento. “Levanta-te, acende as luzes Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor. Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos; mas sobre ti apareceu o Senhor e a sua glória já se manifesta sobre ti. Os povos caminham à tua luz e os reis, ao clarão de tua aurora” (Is 60, 1-3). Luz, claridade, estrela… Os passos desses buscadores da casa de Deus serão guiados pela estrela.

O Menino deitado nas palhas, no despojamento total, é a verdadeira luz que ilumina a todo homem que vem a este mundo. Veio para todo o orbe. Vemos, com a chegada dos Magos, a procissão dos estrangeiros e dos diferentes que buscam a Deus guiados pela estrela. Os Magos representam homens e mulheres que carregam questionamentos e interrogações, que se sentem mal com uma vida vivida pela metade, que querem um sentido de vida pujante, que têm sede de plenitude. Fazem parte do grupo daqueles que Agostinho designa de gente de coração inquieto.

“Hoje os contemplam maravilhados, no presépio, o céu na terra, a terra no céu, o homem em Deus, Deus no homem e, incluído no corpo pequenino de uma criança, aquele que o universo não pode conter. Vendo-o, proclamam sua fé e não discutem, oferecendo-lhe místicos presentes, incenso a Deus, ouro ao rei e mirra ao que haveria de morrer” (São Pedro Crisólogo).

Deus em nosso meio, Deus com rosto de homem, irmão. Mistura do divino e do humano. Deus próximo, Deus Emanuel, Deus dos caminhos do Oriente e Jesus ressuscitado que vive nos chamando para segui-lo. Ele luz que veio a esse mundo para abrir os olhos aos cegos. Claridade da fé.

Os buscadores de Deus:

tique-20Muitos nascemos em famílias católicas e fomos sendo envolvidos em ritos e símbolos. Passamos a viver no regime da  religião. Muitos desses que foram batizados em criança tiveram ocasião de crescer no conhecimento do Senhor e sempre conservaram saudade da luz. Pode acontecer, no entanto, que muitas pessoas tenham se acostumado com a fé. Há o perigo da rotina, da separação de fé e vida, da privatização da fé. Tais pessoas perderam o gás, não têm o fogo de que fala o Evangelho. Deus não pode ser um mero acessório em nossa vida, ao lado de tudo o que chamamos de vida, de nossa vida.

tique-20Há aqueles que tiveram uma catequese falha, que depois de um tempo de prática deixaram tudo. Formulam perguntas. Acham Deus mudo demais, indiferente a tudo, ao mundo, ao amanhã. Para estes talvez Deus tenha morrido.

tique-20Há aqueles que interpelados pelo maravilhoso ou pelo trágico da vida sentem o brilhar de uma estrela, o mero cintilar de uma estrela: um filho que nasce, um fracasso conjugal, a união numa família toda complicada, uma visita na vida de pessoa que era como que um anjo do céu. E tudo mudo.

tique-20Há os que encontram ou reencontram a fé frequentando as páginas dos Evangelhos e  tentando  descobrir o  Deus de Jesus Cristo em suas posturas, no comportamento de gente que viveu perto de Jesus, na audácia de Paulo. São pessoas que aos poucos vão dando suas mãos a Zaqueu, ao filho pródigo, à viúva que deposita no cofre do templo tudo o que tem.

tique-20Há os que descobrem a Deus na dedicação aos outros. Sua fé é marcada pelo encontro do  Senhor nos seres humanos mais abandonados.

tique-20Muitos conseguem alimentar sua fé  frequentando grupos de pessoas límpidas que perscrutam suas vidas, iluminam suas historias com o evangelho. Pessoas que carregam uma pergunta:  “Senhor, onde é a tua casa?”

Quem são esses Magos?

São esses diferentes, esses outros que chegam nesse tempo plural.
São caminhantes rumo a uma Jerusalém bem assentada.
São nômades que chegam a um mundo instalado.
São espreitadores de uma sociedade adormecida.
Constituem a alegria para um mundo triste.

Chegam a Jerusalém com uma pergunta nos lábios:
“Onde está o rei do judeus que acaba de nascer?”
Não precisamos de carregadores de perguntas nós que somos daqueles que conhecem todas as respostas?
Nós que sabemos tudo.
Os Magos chegam à cidade colocar uma  bomba.
Chegam ao mais secreto de nós mesmos.
Vêm para nos questionar.
São diferentes.

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Aprender a adorar a Deus

José Antonio Pagola

Hoje se fala muito de crise de fé, mas dificilmente se diz algo sobre a crise do sentimento religioso. E, não obstante, como aponta algum teólogo, o drama do ser humano contemporâneo não é, talvez, sua incapacidade para crer, mas sua dificuldade para sentir Deus como Deus. Inclusive os mesmos que se dizem crentes parecem estar perdendo a capacidade de viver certas atitudes religiosas diante de Deus.

Um exemplo claro é a dificuldade para adorá-lo. Em tempos não muito distantes, parecia fácil sentir reverência e adoração diante da imensidade e do mistério insondável de Deus. É mais difícil hoje adorar a quem reduzimos a um ser estranho, incômodo e supérfluo.

Para adorar a Deus é necessário sentir-se criatura infinitamente pequena diante dele, mas infinitamente amada por Ele; admirar sua grandeza insondável e degustar sua presença próxima e amorosa que envolve todo o seu ser. A adoração é admiração. É amor e entrega. É abandonar nosso ser a Deus e permanecer em silêncio agradecido e alegre diante dele, admirando seu mistério a partir de nossa pequenez.

Nossa dificuldade para adorar provém de raízes diversas. Quem vive aturdido interiormente por todo tipo de ruídos e esfalfado por mil impressões passageiras, sem nunca deter-se diante do essencial, dificilmente encontrará “o rosto adorável” de Deus.

Por outro lado, para adorar a Deus é necessário deter-se diante do mistério do mundo e saber conternplá-lo com amor. Quem olha a vida amorosamente até o fundo começará a vislumbrar as pegadas de Deus antes que o suspeite.

Só Deus é adorável. Nem as coisas mais valiosas, nem as pessoas mais amadas são dignas de ser adoradas como Ele. Por isso só quem é livre interiormente pode adorar a Deus de verdade.

Esta adoração a Deus não afasta do compromisso. Quem adora a Deus luta contra tudo que destrói o ser humano que é sua “imagem sagrada”. Quem adora o Criador respeita e defende sua criação. Adoração e solidariedade, adoração e ecologia estão intimamente unidas. Assim ficam claras as palavras do grande cientista e místico Teilhard de Chardin: “Quanto mais humano se torna o homem, mas experimentará a necessidade de adorar”.

O relato dos magos nos oferece um modelo de autêntica adoração. Estes sábios sabem olhar o cosmos até o fundo, captar sinais, aproximar-se do Mistério e oferecer sua humilde homenagem a esse Deus encarnado em nossa existência.

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Salvação universal e cobiça de poder

Pe. Johan Konings

No dia 6 de janeiro ou no domingo seguinte celebramos a festa chamada Epifania ou Revelação do Senhor, popularmente, a festa dos Reis Magos, porque o evangelho conta a história dos magos que viram a estrela de Belém.

E de Herodes, que não a viu…

No Antigo Testamento, alguns profetas sonharam com a restauração de Israel. O “terceiro Isaías”, vivendo logo depois que os judeus voltaram do exílio babilônico, tem uma visão da restauração do povo: todos os povos vão ver a luz de Deus que brilhará sobre a Cidade Santa, Jerusalém.

Os judeus dispersos e mesmo os povos pagãos chegarão trazendo ricos presentes. O mundo inteiro proclamará as obras gloriosas do Senhor (1ª leitura). Ora, essa confluência de judeus e pagãos realiza-se no povo fundado por Jesus Cristo. Este é o “mistério”, o projeto escondido de Deus, que Paulo conhece por experiência pessoal; ele dedicou sua vida a pregar o evangelho a judeus e pagãos (2ª leitura).

Mateus, no evangelho, traduz a fé de que Jesus é o Messias universal numa narração que descreve a realização da profecia da 1ª leitura: reis magos (astrólogos) do Oriente enxergam a luz que brilha sobre Belém, cidade de Davi, na proximidade de Jerusalém. É a estrela do recém-nascido messias, “rei dos judeus”. Querem adorá-lo e oferecer-lhe seus ricos presentes. Ora, o rei “em exercício”, Herodes, juntamente com os doutores e os sacerdotes, não enxerga a estrela que brilha tão perto; é obcecado por seu próprio brilho e sede de poder. Os reis das nações pagãs chegam de longe para adorar o menino, mas os chefes dos judeus tramam sua morte… As pessoas de boa vontade, aqueles que realmente buscam o Salvador, o encontram em Jesus, mas os que só gostam de seu próprio poder têm medo de encontrá-lo.

Significativamente, o medo de Herodes, o Grande, o leva a matar todos os meninos de Belém (cf. a festa dos Santos Inocentes, 28 de dezembro). Por que se matam ou se deixam morrer crianças também hoje? Porque os poderosos absolutizam seu poder e não querem dar chances aos pequenos, nem sequer para viverem. Preferem sangrar o povo pela indústria do armamento, dos supérfluos, da fome….

Pobre e indefeso, Jesus é o não-poder. Ele não se defende, não tem medo. Em redor dele se unem os povos que vêm de longe. “E, avisados num sonho, voltaram por outro caminho”. O caminho, na Bíblia, é o símbolo da opção de vida da pessoa (Sl 1). Os reis magos optaram por obedecer à advertência de Deus; optaram pelo Menino Salvador, contra Herodes e contra todos os que rejeitam o “menino, matando vida inocente.

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