Destaque, Notícias › 28/07/2017

Escolher é preciso e não preciso

Frei Gustavo Medella

Num restaurante, numa loja de roupas, ao comprar um aparelho celular, por mais possibilidades que a pessoa tenha, em algum momento ela será obrigada a escolher. Saborear ao mesmo tempo todos os pratos de um restaurante ou levar consigo todo o estoque da loja, ainda que se tenha dinheiro para tal, é humanamente impossível. Se o verso do poeta diz que “navegar é preciso e viver não é preciso”, ainda que se possa causar alguma confusão, pode-se afirmar que viver é escolher e escolher, por sua vez, é tanto preciso quanto não preciso.

Explico: Faz-se preciso porque necessário, fruto da condição limitada do ser humano. É “não preciso” porque, pelo menos nas escolhas mais importantes da vida, a razão quase nunca dá conta de ponderar e prever com precisão os efeitos e as consequências da escolha realizada.

Se fosse necessário definir em uma palavra o tema central da Liturgia deste 17º Domingo do Tempo Comum, creio que o vocábulo “escolha” seria o ideal. Na 1ª leitura (1Rs 3,5.7-12), em sonho, Deus apresenta um “cardápio aberto” de possibilidades a Salomão, jovem a quem fora confiado o encargo de governar. No ímpeto de sua adolescência, poderia pedir algo que sinalizasse status, força, poder, vantagem ou facilidade em relação aos demais. No entanto, de modo maduro, o jovem pede Sabedoria para bem desempenhar a sua tarefa. Certamente não tenha sido a escolha mais fácil, no entanto foi a mais frutuosa para ele e para o povo. E nossos governantes? Eles têm feito escolhas que de fato contribuem para o bem comum e para a promoção da justiça e da paz? Parece estar claríssimo que NÃO. Infelizmente…

No Evangelho (Mt 13,44-52), Jesus conta três parábolas para ilustrar a seriedade e o comprometimento que são exigidos por aqueles que escolhem segui-Lo. Para o homem que encontra o tesouro escondido no campo, a escolha é empreender todos os esforços para adquirir aquele campo. No caso do comprador de pérolas, a postura é semelhante: lançar-se por inteiro no empenho de adquirir aquela pérola de valor imenso e único. Na parábola da rede lançada ao mar, um ensinamento a mais. A rede vem com peixes bons e maus. Cabe aos pescadores discernir e fazer a seleção entre o que vale e o que não vale a pena. Esta última comparação mostra que o exercício de escolher não se realiza apenas num momento pontual, mas acompanha o ser humano durante toda a existência.

O que há de diferente é o nível das escolhas. Ou seja, as escolhas mais profundas e fundamentais devem nortear aquelas que são mais imediatas e cotidianas. Assim agem tanto o homem que encontra o tesouro perdido no campo quando o comprador que deseja adquirir a pérola preciosa. Depois deste encontro forte e cheio de sentido, todas as suas opções se pautam na opção fundamental de alcançar aquele nobre objetivo a que se propuseram. Quem escolhe se lançar de corpo e alma no seguimento de Cristo e na construção do Reino, necessariamente vai perceber que, a partir desta decisão, todas as suas escolhas devem contribuir para este objetivo maior que seu coração e sua razão elegeram para lhe tornar um ser humano completo e feliz.


1ª Leitura: 1Rs 3,5.7-12
Sl 118
2ª Leitura: Rm 8,28-30
Evangelho: Mt 13,44-52

* 44 «O Reino do Céu é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra, e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens, e compra esse campo. 45 O Reino do Céu é também como um comprador que procura pérolas preciosas. 46 Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens, e compra essa pérola.»

* 47 «O Reino do Céu é ainda como uma rede lançada ao mar. Ela apanha peixes de todo o tipo. 48 Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e escolhem: os peixes bons vão para os cestos, os que não prestam são jogados fora. 49 Assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são bons. 50 E lançarão os maus na fornalha de fogo. Aí eles vão chorar e ranger os dentes.»

* 51 «Vocês compreenderam tudo isso?» Eles responderam: «Sim.» 52 Então Jesus acrescentou: «E assim, todo doutor da Lei que se torna discípulo do Reino do Céu é como pai de família que tira do seu baú coisas novas e velhas.»

* 44-46: Para entrar no Reino é necessária decisão total. Apegar-se a seguranças, mesmo religiosas, que são falsas ou puras imitações, em troca da justiça do Reino, é preferir bijuterias a uma pedra preciosa.

* 47-50: A consumação do Reino se realiza através do julgamento que separa os bons dos maus. Os que vivem a justiça anunciada por Jesus tomarão parte definitiva no Reino; os que não vivem serão excluídos para sempre. É preciso decidir desde já.

* 51-52: As parábolas revelam o segredo de Deus para aqueles que têm fé. Por isso, o doutor da Lei que se torna discípulo de Jesus é capaz de ver a ligação entre o Antigo e o Novo Testamento. Em Jesus tudo se renova e toma novo sentido.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


17º Domingo do Tempo Comum, ano A – Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Ó Deus, sois o amparo dos que em vós esperam e, sem vosso auxílio, ninguém é forte, ninguém é forte, ninguém é santo; redobrai de amor para conosco, para que, conduzidos por vós, usemos de tal modo os bens que passam para abraçar os que não passam”.

Primeira leitura: 1Rs 3,5.7-12
Pediste-me sabedoria.

Salomão, apenas nomeado e ungido rei de Israel e Judá, foi oferecer sacrifícios em Gabaon. Estava preocupado com seu plano de governo, para substituir à altura seu pai Davi no trono. Em sonho, o próprio Deus lhe diz: “Pede o que desejas, e eu te darei”. E Salomão não pediu riquezas nem vida longa, ou a morte de seus inimigos, mas o dom da sabedoria para praticar a justiça. Praticar a justiça para o rei significava julgar os pobres com justiça e coibir a violência e opressão dos grandes e poderosos contra os pequenos (+ órfão, viúva, estrangeiro). Para isso precisava de um coração compreensivo para governar bem o povo de Deus. Desejava o dom da sabedoria para buscar sempre o que era melhor para o bem-estar do povo; e foi isso que ele pediu. – Logo em seguida conta-se como o rei fez justiça entre duas pobres mulheres (prostitutas), que, tendo morrido o filho de uma delas, disputavam o filho ainda vivo.

Estamos vivendo em tempos de graves crises, tanto a nível mundial como, especialmente no Brasil. Peçamos a Deus que ilumine nossos políticos e governantes com o dom da sabedoria, a fim de que busquem o bem do povo mais pobre e não os interesses pessoais ou de grupos.

Salmo responsorial: Sl 118

Como eu amo, Senhor, a vossa lei, vossa palavra!

Segunda leitura: Rm 8,28-30
Ele nos predestinou para sermos conformes à imagem de seu Filho.

Paulo medita sobre o projeto de Deus a nosso respeito. Tudo começa com seu projeto de amor para conosco. “Desde sempre” Deus quis nos tornar conformes à imagem de seu Filho. Deus nos ama como seus filhos adotivos e irmãos de Cristo. Quer, assim, que seu Filho seja o primogênito no meio de uma multidão de irmãos. Deus já glorificou seu Filho Jesus Cristo e quer que nós, irmãos de Jesus Cristo, participemos da mesma glória.

Aclamação ao Evangelho

Eu te louvo, ó Pai Santo, Deus do céu, Senhor da terra: os mistérios do teu Reino aos pequenos, Pai, revelas!

Evangelho: Mt 13,44-52
Ele vende todos os seus bens e compra aquele campo.

O evangelho que ouvimos contém as últimas três parábolas (exclusivas de Mateus) e a conclusão do “sermão das parábolas” de Mt 13: parábola do tesouro escondido, parábola da pérola preciosa e a parábola da rede. Jesus continua explicando o que é o Reino dos Céus (Deus). A parábola do tesouro escondido mostra a gratuidade do achado: o homem estava passando por um campo e o “encontra por acaso” e investe tudo que tem para comprar aquele campo, por causa do tesouro escondido. O encontro não era premeditado. É a experiência do deixar-se surpreender por Deus, da qual o Papa Francisco falava aos jovens na JMJ. Deus gosta de nos surpreender… A parábola da pérola preciosa mostra outra faceta: o mercador lidava com pérolas, sabia o que procurava e o que queria; mesmo assim é surpreendido por uma pérola que jamais havia sonhado encontrar. Estas duas parábolas fazem parte da experiência pessoal de Mateus/Levi: Na sua banca de cobrador de impostos lidava com moedas, mas Jesus o surpreende com o convite: “Segue-me!” E Levi/Mateus larga tudo, faz uma festa de despedida para seus amigos e segue a Jesus, porque encontrou o tesouro escondido (Lc 5,27-29). – O seguimento de Jesus, o reino de Deus, exige de nós um “investimento total” e prioritário: “Buscai o reino de Deus e a sua justiça e tudo mais vos será dado de acréscimo” (Mt 6,33). – A parábola da rede aponta para o juízo final e se assemelha àquela do joio no meio do trigo, que ouvimos domingo passado.


O tesouro escondido – Frei Almir Guimarães

O que importa é viver e saber viver intensamente. Se o Evangelho nos tolhesse o elã de viver, deveríamos abandoná-lo. E, na medida em que vamos avançando no tempo e no espaço, na medida em que vamos atravessando as estações de nossa existência, estamos sempre sadiamente preocupados em dar um sentido nítido aos dias que vão desfilando.

Há vidas e vidas, existências plenas e pedaços de história mal vividos. Há pessoas que foram se tornando construtoras conscientes de sua história. Há aqueles e aquelas que foram, se podemos assim nos exprimir, “apanhados” pelo Evangelho. Viviam sem muitos picos. De repente tomaram consciência que o Evangelho queria que elas procurassem um tesouro. Seria um poço no deserto, como dizia o Pequeno Príncipe.

Os que começaram a se deixar seduzir pelo Evangelho sabem onde está tesouro e conhecem as condições para comprá-lo: vender ilusões e pequenos projetos pessoais, deixar de exagerar no apego aos bens e aos afetos sem dom. A pessoa vai descobrindo o projeto de Deus. Um horizonte novo se delineia e supõe-se que esse horizonte é o tesouro: perdão diante da violência, partilhar em vez de acumular, cooperar em vez de competir, ser austeros e não consumistas, amar sem esperar retorno, dar a vida pelos outros.

Esse o tesouro de que fala Jesus e a pérola de valor que é preciso comprar. Temos consciência de que a vida segundo o Evangelho é um tesouro escondido no terreno da vida e de nossa vida? Estamos dispostos a vender nossos projetinhos para comprar a pérola preciosa?

“O Reino de Deus está oculto. Muitos não descobriram ainda o projeto de Deus para um mundo novo. Mas não é um mistério inacessível. Está “oculto” em Jesus, em sua vida e em sua mensagem. Uma comunidade cristã que não descobriu o Reino de Deus, não conhece bem a Jesus, não pode seguir seus passos” (Pagola).


Buscar a Deus – José Antonio Pagola

Os estudos sociológicos dizem que a crise religiosa vai escorregando na Europa para uma “indiferença” cada vez maior. Uma indiferença tranquila, alheia a toda proposta sobre Deus. No entanto, cresce cada vez mais o número dos que, movidos por uma certa “nostalgia de Deus”, sentem a necessidade de buscar algo diferente, uma maneira nova de crer nele. Como buscar a Deus?

Certamente, cada um deve partir de sua própria experiência. Não se deve copiar os outros, nem fazer nada forçado nem postiço. Cada um conhece seus próprios desejos e misérias, seus vazios e seus medos. Cada um sabe de sua “necessidade” de Deus. Sua voz não cala nunca. Não grita com os lábios, mas sussurra ao coração.

Precisamente por isso não basta buscar a Deus por fora: nos livros, nas discussões ou no debate. Uma coisa é “discutir religião” e outra bem diferente é buscar a Deus com coração sincero. A própria pessoa se dá conta quando está fugindo de Deus e quando está buscando a Deus de verdade. Santo Agostinho dizia assim: “Não te disperses. Concentra-te em tua intimidade. A verdade reside no ser humano interior”.

Buscar a Deus exige esforço, mas encontrar-se com Ele não é nunca resultado de um voluntarismo fanático, nem de uma rigorosa ascese. Deus é um dom, e o importante é acolhê-lo com “simplicidade de alma”. Recordemos a reflexão da velha priora no “Diálogo das carmelitas”, de Georges Bernanos: “Uma vez saídos da infância, temos de sofrer muito para voltar a ela, como só depois de uma longa noite torna a aparecer a aurora. Será que voltei a ser criança de novo?”

O mais acertado não é buscar a Deus apoiando-nos só nas nossas próprias intuições. Há muitas formas de enganar-se ou de andar dando voltas sobre nós mesmos, sobre nossos sentimentos e ideias. Por isso é melhor compartilhar e contrastar a própria experiência com alguém que possa guiar-nos a partir de sua vivência de Deus. Esse mútuo compartilhar pode ser o melhor estímulo para continuar buscando a Deus.

Em sua Parábola do “Tesouro Escondido no Campo”, Jesus fala do homem que, “cheio de alegria’, vende tudo o que tem para comprar o tesouro. Buscar a Deus não gera tristeza nem amargura; ao contrário, gera alegria e paz, porque a pessoa começa a descobrir onde está a verdadeira felicidade. Lembremos o que disse Santo Agostinho: “Só o que faz o homem ser bom pode fazê-lo feliz”.

Trecho do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes.


Escolher é renunciar – Pe. Johan Konings

Renunciar não está na moda, é contrário à economia do mercado, ao consumo irrestrito… O evangelho, porém, mostra a atualidade eterna da renúncia. E para entender isso melhor, a liturgia nos lembra primeiro o exemplo de Salomão. Quando Deus o convidou para pedir o que quisesse, ele não escolheu poder e riqueza, mas, sim, sabedoria, para julgar com justiça (1ª leitura). Jesus ensina o povo a escolher o que vale mais: o Reino de Deus. Para participar deste, vale colocar tudo em jogo, como faz um negociante para comprar um campo que esconde um tesouro, ou para adquirir uma pérola cujo valor resiste a qualquer inflação…

O que se contrapõe, nestas leituras, são por um lado as riquezas imediatas (materiais), por outro, o dom que Deus nos dá (para Salomão, a sabedoria no julgar; para nós, o Reino). Na hora de escolher, o dom de Deus é que deve prevalecer, e o resto tem que ser sacrificado, se for preciso.

Qual será o dom de Deus hoje? Aquilo que queremos ter em nosso poder, aquilo que com tanta insistência agarramos e procuramos segurar? Nossas posses, privilégios de classe, status etc? Ou não será antes a participação na comunhão fraterna, superar o crescente abismo entre ricos e pobres e transformar as estruturas de nossa sociedade, para que todos possam participar da construção do mundo e da História que Deus nos confia? “Os pobres, nosso tesouro”. Queremos investir tudo, os nossos bens materiais, culturais etc., para uma sociedade que encarne melhor a justiça de Deus?

Às vezes, a gente preferiria não escolher, para ficar com tudo: a riqueza, o poder, e, além disso, Deus…. Mas quem não se decide, não se realiza. Optar e renunciar é que nos torna gente. O grande escultor Miguel Ângelo disse que realizava suas obras de arte cortando fora o que havia demais. (Podemos meditar neste sentido sobre a 2ª leitura: Deus, artesão perfeito, quer fazer de nós uma obra de arte: conhece o material, projeta, escolhe, endireita… até coroar sua obra que somos nós, feitos imagens de seu Filho).

O cristão deve, de maneira absoluta, renunciar ao pecado; é essa uma das promessas de nosso batismo. Mas, se for preciso para servir melhor o Reino de Deus, ele deve renunciar também a coisas que não são más em si (riqueza, prestígio etc). Pois o Reino vale mais do que tudo.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes.

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